Blogue maudit para descendentes de trabalhadores rurais, operários indiferenciados, putas baratas e outros assalariados de classe baixa. Nota: este blogue é dog friendly.

Quinta-feira, Maio 22, 2008

O Corpo de Deus

Foto Tomatello (Malea)

Oh, mãe, que feriado é este hoje?
Hoje é um feriado muito importante! Antigamente, neste dia, fazíamos farnéis e íamos todos para Chiqueda, para os Olhos de Água.
Porquê?
Juntávamo-nos todos e comíamos, bebíamos, conversávamos, molhávamos os pés na água que nascia nas pedras. Era uma alegria.
Era uma nascente perto de Alcobaça? Eram as termas?
Não, as termas são para o lado da Nazaré, aquilo era para os lados de Chiqueda; já lá fomos contigo uma vez, quando o teu pai ainda era vivo. Agora já não é o mesmo. Antigamente era campo, só campo. Íamos a pé, todos em grupo. Da Rua do Castelo lá ainda era um estirão. A água vinha das pedras, víamo-la brotar, fresquinha. Antigamente, nesta altura, já era Verão, não era este tempo de chuva.
Sim, é verdade, fui lá convosco e com o primo, e era um rego de água suja. Mas lembraste de ser a nascente de um rio, de um afluente?
Não sei. Era uma mina. A água nascia no meio das pedras.
Se era um feriado religioso, por que iam para o campo?
Era muito respeitado. Nesse dia não se fazia nada, como na sexta-feira santa. Nesse dia nem os passarinhos iam aos ninhos.
Nem os passarinhos iam aos ninhos?!
Não iam aos ninhos. Os passarinhos não davam comida aos filhos acabados de nascer.
Oh, mãe, coitadinhos dos passarinhos, isso não pode ser. Nem os passarinhos iam aos ninhos! As coisas que os padres vos metiam na cabeça! Isso é que é um sacrilégio!
Não eram os padres, eram as pessoas, dizia-se. A tua avó tinha experiência. Olha que num dia de corpo de Deus andou a apanhar favas para ao dia seguinte vender na praça; apanhou uma sacada cheia, fava linda, fresca, daquela que ainda não enegreceu no olho. No dia seguinte, quando foi para vendê-la na praça, estava toda negra, como nódoas.
Se calhar porque enegreceram naturalmente...
Não, a tua avó sabia; tinha muita fé. Isto nunca lhe tinha acontecido, e ela fazia-o muitas vezes.
Mas eu não percebo o que é isso do feriado do corpo de Deus.
É o corpo de Deus.
Oh, mãe, mas que corpo de Deus? O que quer isso dizer?
...
É o corpo de Jesus? De Cristo?
Sim.
É o corpo do Cristo morto?
Sim. Há terras onde fazem procissões muito bonitas. Olha, nos Açores...
Mas procissões com o corpo de Cristo deitado morto?
Sim, o corpo de Cristo. Cristo não morreu na cruz?!
Ok.
...
Mas significa o quê? Que Cristo foi ter com o Pai e se tornou Deus juntamente com ele?
Não sei, era uma data muito sagrada, muito respeitada. É o Corpo de Deus.
Mãe, vocês antigamente não procuravam compreender os motivos das coisas em que acreditavam? Não perguntavam?
Não. Toda a gente acreditava. Não se perguntava nada. Era tradição. Acreditava-se e pronto. Não interessa saber os motivos. O que conta é acreditar.

Ninguém lê o que escrevo

e esse é o maior consolo.

Sofrimento

Havia a Matrix, um programa que alguém tinha inventado. Dentro da Matrix todos pensavam o que a Matrix queria. Uns eram felizes, outros infelizes para que os felizes se sentissem felizes. Dentro da Matrix, havia os trabalhadores e os preguiçosos, e as associações que apoiavam os preguiçosos e tentavam adaptá-los, reinseri-los a bem na Matriz, para que os felizes se sentissem felizes.
A Matrix tinha um erro, um sequência de zeros e de uns que ninguém conseguia resolver: era o raio da alma. Parecia resolvido, mas a alma era de uma fragilidade tão sentida, tão indiscutível, que rebentava as sequências de algarismos, como uma carga de peixe vivo e prateado enrolada numa rede de algodão fino, e de imediato procurava o espírito, sua casa, de onde era difícil fazê-la sair. Assim, alguns indivíduos escapavam temporariamente ao extraordinário poder do programa, e a Matrix podia contemplar as suas falhas, embora estivesse programada para as ver como falhas alheias. A Matrix era a ordem. A certeza.
Aos que não conseguiam levantar-se cedo da cama, chamavam preguiçosos que recusavam trabalhar para explorar o esforço alheio.
Do homem que atravessou nu a maior artéria da cidade, segurando um gatinho, à procura do rio, disseram que se ia matar, e impediram-no. Fora da Matrix, era nítido que o homem corria para se salvar.

Gentileza

Não gostava dela porque não era gentil. Podia ser um génio. Que tivesse escrito os mais belos poemas do distrito de Leiria e descoberto uma nova variedade de orquídeas, mas não era gentil, e para me olhar ao espelho, podia muito bem fazê-lo em casa.

Terça-feira, Maio 20, 2008

Segurando nos braços

No outro dia disse à minha mãe que gostava era de casar com o Zé Maria do Big Brother, porque é bom rapaz, simpático e humilde, para além de que acho aquele episódio da tentativa de suicídio, ele todo nu, atravessando a 24 de Julho agarrado a um gato-bebé, pronto para se atirar ao rio, sem saber porquê, porque sim, segurando nos braços o que há de mais puro e inocente, de uma beleza trágica, clássica, que me comove indescritivelmente.
A minha mãe respondeu, "olha, que dois malucos, havia de ser lindo!"

A semana passada, uma colega da linha de montagem, a meio da conversa que não vem ao caso, levantou-se, e disse-me seriamente, embora com uma cara sorridente, desculpa, Isabela, mas isto hoje só me parece uma casa de malucos".

A minha prima afastada é todos os dias. Não bates bem da bola. Não tens os parafusos todos. Falta-te óleo na engrenagem.

Quando páro a olhar para o meu blogue, de fora, às vezes penso, Isabela... o que estava certo era casares com o Zé Maria do Big Brother.

O que a Morena vê quando está debaixo da cama

Foto de William Eggleston, do álbum Fourteen Pictures


Menos os sapatos de homem e aquele objecto de madeira, que parece um velho relógio, e também não tem carpete, graças a Deus, que é chãozinho de madeirinha nua.

Monólogo da maternidade



Podias ter vindo de dentro de mim.
Quase que cabes dentro da minha barriga.
(Muito encostadinha a mim, ligeiro movimento muscular pedindo-me que continue a massajar-lhe a barriga.)
Se tivesses nascido de mim... podia ter sido inseminação artificial... nascias pequenina como uma cachorrinha, como quando te vi, e vinhas toda embrulhada no meu líquido amniótico, e punham-te sobre o meu peito enquanto diziam, tem aqui uma bela menina, e eu beijava-te, e achava-te linda, embora fosses feiazita, atordoada e de olhos fechados, e havia de te chamar, logo, assim que olhasse para ti, Morena, a minha Moreninha. Moninha.
...
(Tremura, tipo coice, na perna esquerda, pedindo que continue a fazer-lhe festinhas.)
Não gosto menos de ti por não teres saído de mim, mas podias ter saído. Havia de ser bonito sermos do mesmo sangue, e isso.
...
É pena seres mijona, e carraçuda, e disfuncional! Por que não te portas bem como a Miquinhas? O que vais tu fazer para a obra para chegares de lá com as patas cheias de cimento? E chamei-te duas vezes, olhaste para mim e fizeste de conta que eu era uma parede. Antigamente não eras assim.
A Miquinhas é uma cadela normal, vem quando a chamo, e não se enfia debaixo da cama como tu. O que há de tão fascinante debaixo da cama, não me dizes?! Mesmo que a Miquinhas tenha a mania de trazer porcarias da rua, olha que ser mijona é bem pior.
(Ligeiro movimento de pernas a lembrar-me que continue a sessão de festas na barriga.)

Segunda-feira, Maio 19, 2008

Assuntos da actualidade III

Fumar um cigarro num local proibido, quando fomos nós a proibi-lo, pode configurar uma situação de imoral abuso de poder, a fazer lembrar atitudes próprias dos responsáveis pelos sistemas autoritários do passado, e do presente, mas grave, grave, e isso, sim, poderia tornar-se complicado, seria comprar um diploma e fazê-lo passar por uma situação normal e legítima. Isso aí é que...

Assuntos da actulidade II

Nereidinha

Chegou ao meu conhecimento, pela leitura de certos entretítulos no fait-divers semanal, que Cristiano Ronaldo prometeu ao seleccionador casar com com Nereida se conseguir atingir os seus objectivos no europeu de futebol. Não sei se tem a ver com número de golos ou mesmo com o sucesso total, ou seja, a taça de campeões europeus. Nereida está contente. Toda a família. Até eu, quando vi as mamas de Nereida na Imprensa, a semana passada, fiquei contente. A questão é, eu sei que as mamas, quero dizer, o amor vence todas as barreiras, e que Cristiano Ronaldo está febril de paixão, mas e se não cumpre os objectivos? Se não marca os golos que deseja, se não traz a taça, como fica o casamento? Será que Nereida já lho perguntou, ou não interessa nada, porque com casamento ou sem casamento o nome Ronaldo ajuda a vender nem que seja frigoríficos a esquimós?!

Assuntos da actulidade I

Fui apanhando umas aqui, outras ali, e cheguei esta semana à conclusão de que parece que vamos ter outro europeu de futebol. Acho que é no estrangeiro, porque é sempre no estrangeiro, mas não sei onde. A minha mãe disse-me, ao almoço, que vão fazer uma festa muita linda, no dia 1, quando eles partirem. Eles, deve estar a referir-se aos jogadores e técnicos da magnifica selecção nacional, e, pergunto eu, na minha santa ingenuidade, não houve um grande campeonato de futebol há dois anos, na Alemanha, se não estou em erro, que até lá foi a apaixonada Merche visitar o seu grande amor Ronaldo e tudo? Sim, mas agora é outro. A minha mãe sabe sempre tudo, porque tem o botão do comando encravado na TVI.
Devemos, portanto, preparar-nos todos para outro verão de grande consumo de cerveja e caracóis, associados à exibição da bandeira nacional em varandas e viaturas, gritos nos apartamentos da vizinhança e concentrações nocturnas de gente seminua na rotunda do Marquês. Lindo!

Domingo, Maio 18, 2008

O macho heterossexual

Foto Denis Marchaud

Homem jovem, sério, estudado, bem empregado numa multinacional. Casou cedo e tem a vida equilibrada; mulher executiva, magra, bonita, vestida com discrição e bom gosto, dois filhos, bons carros, cão, dog sitter sempre que passam férias no estrangeiro, reuniões periódicas com a família, vida stressante, compensada pelos prazeres de uma qualidade de vida média-alta. Tiveram os filhos tarde, por opção, pelo que puderem gozar longamente os prazeres da vida conjugal sem responsabilidades. Bom aluno, bom marido, bom pai. Às sextas, reunião com os colegas fora da empresa; umas cervejas descontraídas, sem paneleirices, antes de voltar a casa; discussões inflamadas sobre futebol, as estratégias dos treinadores, sempre sem solução à vista, risota, as gajas da empresa, as que têm marido e são boas, as que não têm e são boas, mas um gajo agora... prisão... elas até as mensagens do telemóvel nos lêem; bloqueia-as, pá, bloqueia, queres que eu te diga como é que isso se faz?; só se for o Raul, desde o divórcio faz o que quiser, arranjou um apartamento, mete lá quem quer; as taxas de juro de aplicações financeiras, e a ausência de perspectivas para um desenvolvimento da economia, a médio prazo, ou não, a longo; fait-divers: o car jacking, pá, o pior é um gajo resistir, deixá-los levar tudo, e meter bloqueadores do sistema, sai caro, mas... não, resistir, não, viram o que aconteceu à outra que estava casada com o fulano da televisão?! Não! É preciso saber fazer as coisas. Cabeça. E a gaja que é homem e está grávida, até foi ao programa da Oprah, diz que agora é gajo, tirou as mamas, mas deixou ficar o grelo, e está grávido, grávida, tu já viste o caraças?! Estamos lixados. E a cena do Ronaldo. Pá, que galo. E eram boas, os gajos, viste? Até eu caía. Quem é que não caía? O meu tio dizia que a mulher mais boa, mais boa que já viu na vida era um gajo. Isto certinho. Já ninguém distingue ninguém.
Risota. Sabia bem. Chegando a casa, despe o casaco, manda os miúdos para a cama. Apaga-lhes a luz. Beija a mulher, cansada da semana, deitada no sofá a ver qualquer coisa no Hollywood, linda, sempre. Pergunta-lhe, andaste a beber, já jantaste? Comi qualquer coisa com a malta. Petiscámos Não queres comer? Há salada fria com salmão. Não, deixa. Ainda vou trabalhar um bocado, e encaminha-se para o escritório. Trazes sempre que fazer, diz-lhe ela. Chega de trabalho, hoje é sexta.
Um momento de sossego, respira fundo, arregaça as mangas da camisa, recosta-se no assento da cadeira e verifica o e-mail. Nada de especial. Coisas que podem ficar para segunda. Olha para a porta, escuta lá fora os ruídos da televisão, conecta-se ao Man Hunt, entra no chat e escreve, Olá, 40 anos, 1,78m, 84Kg, magro, definido, não assumido procura não assumido, interessa a alguém?

Sábado, Maio 17, 2008

A essência do fogo

John Maeda, Traffic, 2002


Às vezes parava de ler e chorava. Era preciso chorar antes de recomeçar. Reler a mesma página, mas avançar apesar das lágrimas. A leitura era um experiência excessivamente forte. Só a música podia vergar-me com a mesma intensidade ao nada que eu era. A humanidade que criara a literatura e a música, não valia nada, era excremento. Como é que a beleza, a unicidade, a verdade, a essência do fogo poderia provir de uma criatura tão reles como o ser humano?

Quinta-feira, Maio 15, 2008

Dependências

Passo todos os dias frente a um antigo móvel de pau-preto que veio de casa da minha mãe. Um pequeno móvel com gavetas para uso diverso. Há uma cujo conteúdo conheço muito bem, mas que recuso abrir. Sinto a enorme tentação de o fazer, diria, uma pulsão, mas não o faço. Penso, e se abrisse, mas não abro. Posso abri-la. Ninguém me impede, ninguém vê, ninguém saberia. Contudo, jurei nunca mais abrir uma gaveta cheia de nada. Sou uma gaveto-dependente em recuperação.

Quarta-feira, Maio 14, 2008

Nem à lei da bala


Não havia quartos individuais, só camaratas, e nós dissemos está bem. Deitei-me. Sete camas, mas não havia ninguém. Só nós. Era um velho amigo com quem já tinha dormido sem esperanças. Um amigo que se tinha deitado comigo por favor, quer dizer, por ser homem, e porque um homem nunca se nega, e porque os meus lábios tinham não sei quê que o deixavam perturbado, com boas hipóteses de ser mentira. Eu bem via as amantes que lhe iam passando pela mão. Isto sem favor para nenhuma das partes, eu tinha demasiada categoria para sua namorada, era demasiado bonita, demasiado sensível, demasiado esperançosa. Eu era uma mulher de quem era preciso gostar, e ele sabia disso.
Mas agora estávamos naquela situação, sendo que não nos encontrávamos há centenas de anos.
Não foi embaraçoso. Ele despiu-se e deitou-se. E eu pensei, bolas, isto vai dar molho.
Não me desagradou. Achei melhor ir à casa-de-banho. À cautela seria melhor fazer xi-xi, que isto, pá, uma mulher, é uma chatice.
Quando voltei, a camarata estava cheia de gente, e ele quase a dormir.
Abracei-o e pensei que também estava bem assim.

China Girl para tradução, por favor

Oh oh oh ohoo little china girl
Oh oh oh ohoo little china girl

I could escape this feeling, with my china girl
I feel a wreck without my, little china girl
I hear her heart beating, loud as thunder
Saw the stars crashing

Im a mess without my, little china girl
Wake up mornings wheres my, little china girl
I hear hearts beating, loud as thunder
I saw they stars crashing down

I feel an tragic like an marlon brando
When I look at my china girl
I could pretend that nothing really meant too much
When I look at my china girl

I stumble into town just like a sacred cow
Visions of swastikas in my head
Plans for everyone
Its in the white of my eyes

My little china girl
You shouldnt mess with me
Ill ruin everything you are
Ill give you television
Ill give you eyes of blue
Ill give you men who want to rule the world

And when I get excited
My little china girl says
Oh baby just you shut your mouth
She says ... sh
She says
She says

And when I get excited
My little china girl says
Oh baby just you shut your mouth
And when I get excited
My little china girl says
Oh baby just you shut your mouth
She says ... sh
She says

Oh oh oh ohoo little china girl
Oh oh oh ohoo little china girl
Oh oh oh ohoo little china girl
Oh oh oh ohoo little china girl
Oh oh oh ohoo little china girl

Terça-feira, Maio 13, 2008

Um coisa muito importante

Ontem a minha mãe disse-me, senta-te aqui, quero dizer-te uma coisa muito importante, e eu disse, está bem, e ela explicou, a próxima vez que formos comer fora há-de ser uma sardinhada, e eu disse, está descansada, e vim-me embora.
No próximo fim-de-semana a minha mãe quer ir almoçar fora.

A bola de Deus

Foto: Anónimo, Calling brave firemen to duty, 1925

Chego cansada, deito-me no sofá a ver um programa, sendo ainda dia, e penso, só para relaxar 10 minutos, e acordo à meia-noite. Ensonada, concluo, agora vou deitar-me porque tenho de me levantar cedo.
Sei em que sítio exacto de cada texto onde estão as dezenas de gralhas próprias de quem escreve sem olhar para o teclado, mas não tenho tempo nem vontade de as corrigir.
Tenho sede e como duas laranjas velhas, mas talvez fosse melhor beber um simples copo de água.
O amor antigo, era mesmo um amor vintage, caiu-me aos pés como a bola de vidro com que Deus jogava futebol, e estilhaçou-se-me toda na cara. Sorri. No meio das lacerações, fui obrigada a ser honesta, sempre era a bola de Deus.
A minha canção de amor preferida chama-se China Girl, mas não percebo o que dizem, porque o David Bowie fala muito mal inglês.

Domingo, Maio 11, 2008

Dos ficheiros anexos enviados por engano

Havia de ser poético eu chegar amanhã de manhã à fábrica e dizer à chefe da linha de montagem, desculpe, Maria Ermelinda, mas embora inicialmente eu tivesse negado a existência daquelas metas a atingir, aquelas que a gente sabe, e piscava-lhe o olho, admito agora a sua existência, sim, é verdade, disseminada por todas as filiais, sendo que foram divulgadas porque alguém as enviou por engano num inofensivo ficheiro informático anexo, não faço ideia quem. Erro humano. Um erro natural, que toda a gente comete.

Não sei que consequências teria na minha avaliação, mas se calhar não seria promovida com direito a operar numa máquina de parafusos mais moderna que a gente agora lá tem, que dando a ilusão que os faz mais direitos, na verdade apenas despacha mais unidades por minuto.

Profetas

Aos domingos, na minha rua, Testemunhas de Jeová impecavelmente vestidos, lavados, escanhoados, maquilhados, perfumados, passeiam-se para baixo e para cima com Bíblias camufladas em pastas de bom aspecto, e folhetos anunciando a salvação ou a perdição. Param para conversar uns com os outros, entabulando diálogos atravessados por o senhor Jeová é o caminho, só no senhor Jeová está a salvação do pecado. E vão prestando culto uns aos outros, pelos passeios. Quando os vejo caminhar na minha direcção, de olhos brilhantes na antecipação da presa fácil e luzidia: uma senhora simples, sorridente, parecendo desocupada, passeando os cãezinhos, só não lhes cruzo as voltas se não posso. Quando não há escapatória possível, aceito os folhetos coloridos com mensagens edificantes sobre os males do mundo, que não cabem lá todos, na sua indescritível vileza, e, sorrindo, pedindo mil desculpas, esquivo-me, afirmando que deixei os filhos sozinhos em casa, e consigo, às vezes até me dão raspanetes, que não devia deixar as crianças sozinhas, que devia deixá-las numa vizinha, por exemplo. A minha vida tem sido uma expiação de pecados que não cometi, mas que prefiro confessar, por parecer mal não os ter cometido.
Apesar destes tempos de grande perturbação moral, de grande confusão entre o mal e o bem, de profunda agressividade relativamente ao outro, encarado como intruso e nunca como portador de boas novas - pergunto-se se não terão sido assim todos os tempos?! - parecem-me particularmente corajosas estas pessoas, sobretudo os jovens rapazes e raparigas, e os velhotes, que abandonam o conforto do seu sofá, e dos seus afazeres, para caminharem pelas ruas interpelando transeuntes de má cara sobre a salvação e Deus, essa ideia em que ninguém acredita, que ninguém está disposta a pensar ou a ouvir. Essas pessoas que lutam contra a maré por uma ideia que para os outros não passa de uma palavra risível.



Quinta-feira, Maio 08, 2008

É tudo uma questão de organização

Os meus amigos vêm cá muito ao blogue, mas não é para comentarem, é só para lerem e depois me dizerem "não me convences com essa de que te adaptaste, e não sei quê; tu sempre foste assim...", e também aproveitam bastante para saber de mim, se estou bem, se constipada, se com muito trabalho ou uma grande neura; por conseguinte, aproveito para lhes deixar a seguinte mensagem: tudo bem, quando cá vêm aos fim-de-semana, mexam nos livros à vontade, nos cd's, nos dvd's, podem fazer pilhas no chão daqueles que querem ouvir, e espalhar os livros e dvd's pelos sofás, por categorias, aqueles que vos hei-de emprestar "já", e os que hão-de levar "depois", e mesmo as revistas, estejam à vontade, mas depois de fazerem a escolha voltem a meter tudo no lugarzinho, sobretudo os cd's e dvd's nas respectivas caixas, que hoje já é quinta-feira e eu ainda ando nesta sala a tropeçar em objectos de arte, e magoo-me nos pés.

Quarta-feira, Maio 07, 2008

Parto, e não voltarei

Foto de Tom Stoddart


Foto de Shehzad Noorani, Bangladesh


Foto Morris Berman, Helping Hands, USA

Terça-feira, Maio 06, 2008

Mensagem para o Banco Alimentar contra a Fome

Sou operária numa fábrica de parafusos, o ordenado é curto e lamento não ter podido ajudar. Faço compras no Minipreço e no Lidl de onde trago, por 40 euros, o dobro do que consigo comprar no Jumbo ou no Continente ou no Modelo.
Se montassem a vossa banquinha à porta dos supermercados baratos, onde se adquirem artigos não noticiados na televisão, entre outros, talvez alguns pobrezinhos que comem produtos de marca que não me chegam ao nariz - para guardarem o pouco que têm para tabaco e bejecas - pudessem comer produtos brancos, como eu, que sabem tão bem e são tão alimentícios e custam menos a quem dá.

Domingo, Maio 04, 2008

Os portugueses da Metrópole

Joseph Koudelka, Aveiro, 1976

Os cabrões. A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. Os portugueses da metrópole eram pequeninos de ideias, tão pequeninos e estúpidos e atrasados e alcoviteiros. Feios, cheios de cieiro, e pele de galinha, as extremidades do corpo rebentadas de frio e excesso de toucinho com couves. Que triste gente! Divertiam-se a mofar connosco, atirando-nos à cara que estava difícil, pois estava, que aqui não havia pretinhos para nos lavarem os pés e o rabinho, que tínhamos de trabalhar, os preguiçosos de merda, que nunca fizeram a ponta de um corno pela vida, que nunca souberam o que era construir uma vida e perdê-la, os tristes, os pequeninos, os conformados. Sabiam lá eles o que eram os pretos, e o que éramos nós e o que tínhamos acabado de viver, cobardes filhos de uma puta brava. Insignificantes cabrõezinhos, se eu havia de dizer a verdade, se eu havia alguma vez de dizer a verdade. Os lerdos das ideias, lentos, com conta no Montepio, agora doentes dos olhos por olhar de viés para esses gajos que vêm cá roubar o pouco que é da gente, que a gente cá tem, esses retornados, tão altivos como princípes que perderam o trono, e que hão-de recuperá-lo, julgam eles, oh, se não!, porque nada atiça as ganas como perder, e perder bem, à americana. Tão feios, tão pobres de espírito esses portugueses que ficaram, esses portugueses de Portugal, curtidos de vinho do garrafão. Feios, sombrios, pobres, sem luz no rosto nem nas mãos. Pequenos.

Sábado, Maio 03, 2008

Os sinais do amor

Eu e a Morena estivemos ontem com insónias, e perguntei-lhe se me queria ajudar a comer um pacotinho de pinhões que sobrou do Natal. Tendo ela concordado, fui procurá-lo, metemo-nos entre os lencóis, muito encostadinhas, e fomos partilhando o saquinho. A Micas ouviu-nos tasquinhar e veio à cabeceira da cama exigir o seu quinhão. Ou bem que é para todas, ou não é para ninguém. E foi dois à Micas, dois à Morena, dois a mim.
Hoje de manhã, ao fazermos cama de lavadinho, descobrimos mais de 30 pinhões espalhados pelos lençóis, e debaixo das almofadas. Comemo-los directamente, enquanto lhes dizia, "eis a nossa cama manchada pelos sinais do amor".

Quinta-feira, Maio 01, 2008

Da poesia

"Vou escrever um poema sobre ti," disse eu a uma ave.
A ave respondeu, "As tuas palavras serão tão coloridas como as minhas asas?"
"Não," retorqui.
"As tuas palavras serão tão doces quanto a música da minha voz?"
"Não," voltei a responder.
"As tuas palavras poderão voar o voo das minhas asas?"
"Não."
"A minha vida estará nas tuas palavras?"
"Não."
"Como poderás então escrever um poema sobre mim?" perguntou-me a ave.
"Porque te amo," disse.
A ave exclamou, "O que tem o amor a ver com palavras?"

Versão minha de um poema em língua inglesa, de Harivansh Rai Bachchan, por sua vez traduzido do hindu, não faço a menor ideia de onde.


Quarta-feira, Abril 30, 2008

O resto acabou

Foto: Count Olympe Aguado, 1855, França


Não havia nada a dizer, o cão estava morto. Dormia no palheiro, e era eu que lhe abria a porta de manhã, e a fechava à noite, mas naquele dia não; estava morto. Tinha-lhe feito a cama com trapos numa velha caixa de fruta. Aí dormia, há cerca de um ano, perto do lume, mas não demasiado, por causa do fumo, das labaredas.
As noites eram frias de metal, de um frio que as noites nunca tinham tido, porque eram sós e cortavam, e estávamos perdidos, eu e ele, e desgarrados um do outro por vontade alheia. Ele, um cão, um reles cão preto; eu, uma menina com o coração asa-de-corvo, um negro-azul-esverdeado. Era eu.
No dia anterior o cão andara moribundo: imóvel, mole, espumando da boca, vomitando verde e negro. Quis levá-lo ao veterinário, mas a Júlia disse que não, que talvez no dia seguinte. No dia seguinte o animal estaria curado, não haveria precisão de médicos nem gastação de dinheiro, porque carne de cão curava-se sozinha.
E eu esperei pelo dia seguinte, que havia de ser o dia em que o cão estava morto. Acordei, vesti-me, e corri em direcção ao palheiro. Parei junto à caixa: que corpo tão despovoado, tão longínquo. Olhei-o de cima. Chamei-o baixo. Mas percebi. Estava morto. Tinha voado para mim durante a noite, sobrevoara-me, e seguira para o Norte de África em busca de um lugar morno e sem venenos, de preferência. Enrolado sobre si como uma serpente, mas com os membros esticados. Era uma figura rígida e despenteada. Um anel de vida entregue à morte. Devia ter morrido ao princípio da noite, quando o aninhei na cama e me fui embora, muito lenta, com tanto medo de sair, porque tinha tanto medo de voltar.
Foi então que me dobrei sobre a caixa, peguei nele e veio inteiro. Não lhe descaiu uma pata nem uma orelha nem a cauda. O pêlo frio, o focinho, as patas geladas. Apertei-o entre os braços, contra o meu peito, e não sei se chorei. Não tinha casa dentro da qual chorar, e já não sabia como se fazia. Arranjei uma caixote de cartão, e coloquei-o dentro. O meu tio disse-me que não era preciso vedá-lo com fita-cola nem forrá-lo, e confiei, por isso, quando a primeira pá de chão lhe caiu em cima, ouvi distintamente o peso da terra fértil e húmida sob a nogueira da fazenda dobrar as abas da caixa de cartão, e cair sobre o seu corpo duro. Esse barulho da terra a tocar no seu corpo incomodou-me durante muitos anos, mas mais tarde tornei-me existencialista, e achei bonita a ideia de que o seu corpo envenenado pudesse ganhar raízes com reflexos púrpura, esverdeados dentro da caixa.
Mais tarde, o meu tio abateu a nogueira para ali plantar um batatal. Eu já estava noutro lugar. Devem ter comido o meu cão envenenado acompanhado com bacalhau, regado a bom azeite, e deve ter-lhes feito bom proveito, porque quando a Júlia morreu de cancro, uns anos depois, eu não me admirei.

Terça-feira, Abril 29, 2008

Autobiografia

Foto: Pejotek

Não me venham com coisas sobre ser discreto e resguardar a esfera privada e manter as aparências e não dar a entender, como se cada livro que escolhemos, cada filme, cada poema não tivesse o infinito poder de nos conotar a um pensamento, um passado, uma memória, uma ideologia. Como é que cada um de vós pretende passar incólume por entre as largas colunas do templo da verdade, se as palavras que diz, a forma como as diz, os prende a um lugar, um tempo, um quotidiano, uma classe? Ninguém escreve nada autobiográfico! Mil cuidados. São apenas citações, ideias alheias. Como se as citações, as ideias alheias que recolhemos no nosso caderno não fossem o resultado das nossas necessidades e identificações. Como se não gritassem por nós o que não queremos gritar porque não temos coragem de arrancar o coração e mostrá-lo na mão, olhem, está aqui, aproveitem, façam o que quiserem, a mim já não serve.

Segunda-feira, Abril 28, 2008

Não me faças sofrer

Foto de Herodote Christophe, La gironde


Li numa revistazeca de fim-de-semana que para mudarmos de vida temos de abandonar a zona de conforto na qual nos instalámos, e arriscar. Sentirmo-nos incómodos.
Mas, oh meu amigo, vamos lá ver, eu não me instalei; eu não tinha para onde ir, e fui ficando. Não foi uma zona de conforto. Foi uma zona. E tentei que nem uma desgarrada largá-la. Tenho tentado que nem uma enterrada viva. Sair. Quero sair da zona e nunca mais voltar. Respirar fora. Arrancá-la de mim como se arranca a pele a um coelho acabado de socar, como se degola uma codorniz. Só isso. Sair. Mudar. Tirar. Arrancar. Degolar. Matar. Eu quero dar cabo disto, e ser outra, dar cabo disto e ser outra, outra.

Não me importo de... tratar da saúde ao mecânico

Paulo Granjo do Antropocoiso, incluiu-me na corrente do «Não me importo…» Não sou muito fiel a correntes, e peço desculpa aos vários leitores que me desafiaram, e aos quais não correspondi, porque acabei por esquecer o assunto. As correntes servem para os bloguistas interagirem, darem a conhecer-se, e, no meu caso, não se justifica, porque já sou por natureza uma pessoa muito dada e excessivamente cognoscível.

Tenho que indicar seis coisas de que não me importe. São as seguintes:

1. Não me importo de ir com as cadelas à rua quando está a chover, porque elas precisam, e quem tem filhos tem cadilhos

2. Não me importo de cuidar da minha mãe, apesar de estar chata, porque percebo que envelheceu muito e se tornou dependente, e custa-me pensar que há velhos que foram tudo para todos, e que hoje não têm ninguém que lhes dê uma palavra, um abraço.

3. Não me importo de pagar uma renda de casa cara, porque preciso de um sítio bonito e arejado onde possa viver.

4. Não me importo de ser uma desenraizada, contracorrente, excêntrica e persona non grata a vários sistemas e entidades, embora isso me traga dissabores ao nível da socialização, porque não poderia ter-me transformado noutra coisa.

5. Não me importo de trabalhar, embora a maior parte dos dias seja mesmo muito difícil, porque o trabalho dá-me sentido, obrigando-me a sair de casa e de mim.

6. Não me importo de me ter posto em bicos de pés com o mecânico, e de lhe ter dito que a obrigação dele é arranjar-me o carro, e descobrir por onde é que perde água, porque pago-lhe para isso, e não dar-me lições de moral sobre quantas vezes devo olhar para o manómetro da temperatura numa viagem de quinze quilómetros. Não me importo nada, nada, nada de lhe ter mostrado uma cara muito feia e de lhe ter dito que não tenho tempo a perder com conversas, ponto final, quero isto a funcionar, e de ter pensado, se julgas que não tenho tomates para ti estás bem arranjado, grande incompetente que ainda há um mês cá tiveste o carro. Filho-da-mãe, que estou-te com uma sede...

Tenho de passar a corrente a cinco bloguistas: Francisco Carvalho, JPN, José Bandeira, Cristina GS, Mónica em Campanhã e Inominável.

Regras:

- Dizer 6 coisas que não se importe de fazer ou de ter.
- Colocar o link da pessoa que o "mimou".
- Colocar as regras no blog.
- Desafiar 6 pessoas, deixando um comentário nos seus blogs.

Domingo, Abril 27, 2008

Da bofetada ao direito a sujar-se

Acho graça ao anúncio do Skip sobre o direito das crianças a sujarem-se, porque me lembro das tareias que eu e os outros miúdos levávamos quando chegávamos a casa cheios de terra nas batas e calções. Hoje, as crianças têm o direito a sujarem-se, e, sejamos objectivos, a tudo. Porque são inocentes, e não percebem, e, sobretudo, porque existem boas máquinas de lavar e detergentes branqueadores, e detergentes para cores... Ora, a minha mãe só teve máquina de lavar em 1973, por isso, quando eu era pequena, ela malhava-me exactamente porque eu era inocente, e não percebia nada, e convinha que começasse a perceber rapidamente, e a bofetada tinha o efeito de estimular muito a lembrança.

Os músculos da face

Fotograma de 88 Minutos

Ultimamente desisti de ir ao cinema com o objectivo de ver obras-primas. Para isso vou à Cinemateca, compro um dvd, tento apanhar qualquer coisa no TCM. Mas acontece-me estar em casa às nove da noite com a cabeça em água, uma grande neura, e decidir que preciso de sair por duas horas, sendo que uma boa opção é ir ao cinema mais próximo; pode ser que me ria um bocado, pode ser que o filme dê para soltar uma lágrima... e os 5,40 euros lá se pagam. Contudo, é raro.

Na sexta-feira calhou-me o 88 Minutos, filme que estava a começar naquele momento, e que apresentava Al Pacino como protagonista. Bem, Al Pacino é o Al Pacino do Scarface, e uma pessoa pensa, mesmo que o filme não valha um carapau seco, sempre é o Al Pacino.

88 Minutos é, juntamente com os restantes 13 filmes que se encontram em exibição nas salas Lusomundo do Almada Fórum, inclassificável, inqualificável. Os críticos de cinema devem ver-se em apuros para dizer duas palavras sobre este lixo. A maior parte do cinema americano, mas não só, é feito para alimentar burros, mantendo-os burros. Não há nada sobre que pensar, nenhuma novidade estética, ideológica. Nada de criativo. Temos os bons e os maus. Por vezes os maus são bons, e os bons maus, e percebe-se logo. Os maus morrem no fim, e os bons ficam vivos para continuar a caçá-los, justiceiros. Em alguns casos, os maus assassinam os bons sem piedade, e ficam cá para nos aterrorizar muito, como se a gente já não tivesse o Governo do Sócrates e a ministra da Educação. Lixo, lixo, lixo, milhões de euros de lixo que a cabeça dos jovens sentados ao meu lado consome como arte legítima.

E quanto a Al Pacino, a sua badalada técnica de representação influenciada pelo Actor's Studio, está hoje completamente ultrapassada pelo método Botox. Al Pacino não passou a representar em underacting, não é serenidade, os músculos da face é que não mexem mais do que aquilo.


Sexta-feira, Abril 25, 2008

O 25 de Abril ia entregar África aos brancos

Lourenço Marques, nos últimos anos da década de 50.
(A foto foi tirada pelo meu pai, para enviar à minha avó, na Metrópole, indicando-lhe o prédio em que morava; esteve perdida em casa da minha avó durante muitos anos, onde se deteriorou, e pertence ao meu arquivo pessoal.)


Soube do 25 de Abril a 26. Contaram ao meu pai, ao final da tarde, estando nós na praceta projectada à avenida Latino Coelho, em Lourenço Marques. Tenho boa memória visual, e sei que estávamos na praceta projectada à avenida Latino Coelho, porque estou a ver o cenário dos prédios, os homens em círculo nas suas balalaicas azuis, cinzentas, castanhas, trocando opiniões; e eu, vagueando entre eles e o lancil, no qual me ia equilibrando como entretimento, enquanto os escutava.
Mas é estranho, porque só fomos morar para a praceta projectada à Latino Coelho após o 7 de Setembro. Talvez tivéssemos ido visitar alguém. O meu tio materno, o maluco, tinha aí construído uns prédios, quer dizer, os pretos do meu tio tinham aí construído uns prédios, que o meu tio não percebia nada de construção, embora soubesse, eventualmente, dar ordens, e gritar que queria aquilo pronto no dia seguinte, e que depois vinha aí o canalizador e o electricista, e também devia saber dar ordens ao canalizador e ao electricista, porque o meu tio materno era essencialmente poeta e suicida, e explorador de mulheres, e mentiroso. E espírita. É verdade. Tinha uns zumbidos nos ouvidos e via coisas. O homem era clarividente, construtor não.
Lembro-me de uma outra conversa sobre o 25 de Abril, também ao final da tarde, na Baixa, do lado esquerdo do edifício do bazar, cá fora. Um grupo de homens, como sempre, eu a única rapariga, apenas porque acompanhava o meu pai, e participava como testemunha irrelevante em todos os actos. Era a filha do electricista. Está crescida a tua filha. Andas em que classe? E pouco mais. Ouvia. A conversa da praceta projecta à Latino Coelho decorreu ao pôr-do-sol, mas não tão tarde. A luz era mais branca. Nesta, a luz caía mais ténue, alaranjada. Era a luz laranja do Índico, da mesma cor da terra do Zambi, da Costa do Sol, da Ponta Vermelha, que não é vermelha, é laranja forte como açafrão escuro.
Qual dos cenários é o real? A conversa sobre o 25 de Abril teve lugar lá em cima no Alto-Maé, ou cá em baixo na Baixa? Foi a mesma conversa? Foram conversas diferentes sobre o mesmo assunto? Gosto mais do segundo cenário.
Tinha acontecido uma revolução na Metrópole. o Governo tinha mudado de mãos, e bem, que os que lá estavam roubavam-nos todos os dias. Tinham sido os militares. Era bom para nós. Iam dar a independência às colónias. Finalmente, África ia ser nossa. Finalmente, íamos deixar de pagar imposto aos cabrões da Metrópole. Agora, poderíamos prosperar e fazer da nossa terra uma Califórnia. Era isso que a nossa terra ia ser: a Califórnia. A Califórnia, mas como na África de Sul. Com os pretos debaixo da mão, controlados, ou não faziam nenhum. O 25 de Abril ia entregar África aos brancos, e, meu Deus, íamos ser tão felizes.

Quinta-feira, Abril 24, 2008

Digam-me o que sabem e o que têm ouvido

Caras leitoras e leitores,

eis uma pergunta séria e importante, para eu decidir se poupo uns tostões:

1) O que me dizem da qualidade do serviço Meo, no que respeita a televisão por cabo e, sobretudo, internet - está sempre a ir abaixo, a ligação de 8 não-sei-quê é lenta?

Respostas na caixa de comentários, como é costume, por favor, e muito obrigada.