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quinta-feira, novembro 08, 2007

Bué d'amigas



"Ninguém me deixa tão húmida". Eis o que uma morena de cabelos compridos diz a outra de cabelos curtos, mais velha. A cena está quente. "Vamos para casa?", pergunta uma delas.
Enquadramento seguinte: uma casa com grandes janelas sem cortinas, toda virada para o mar; deve ser em Santa Mónica, Califórnia, ou coisa assim. Ambas vestem confortável lingerie preta, pelo que não percebo por que sentem tanta dificuldade em desapertá-la. Para um primeiro encontro não está nada mal.
Não sei se as lésbicas vêem muito a L Word. Os homens heterossexuais não perdem um episódio: entusiasma-os imenso o enredo cheio de mulheres de todos os estilos, despindo-se umas às outras e engalfinhando-se sem pudores. E os diálogos. A atenção que eles fixam nos diálogos! Até se pelam!
A mim, L Word [péssimo título] recorda-me umas sitcoms que passavam na tv no início dos anos 90, com jovens amigos que habitavam os mesmos bairros californianos ou nova-iorquinos, partilhando casas, cafés, camas, vivendo triângulos amorosos, às vezes hexágonos, criando e solucionando conflitos e problemas existenciais mais ou menos complexos; uns drogavam-se, outros eram betos; uns queriam mudar de vida, outros não; eram parvos, ou muito cool; adoeciam, curavam-se; engravidavam, abortavam, raramente tinham filhos... eram bué de modernos, e nós queríamos ser como eles. Alguém se lembra disto?
A L Word não é muito mais que uma série de amigos que são amigas e arfam muito. Constato, neste nomento, na RTP2:
"É verdade que nunca fizeste isto?"
(gemidos)
"Quero que te venhas", diz-lhe a de cabelo curto, como se estivesse ao quilómetro 35 da maratona.
"Meu Deus, meu Deus", responde a de cabelo comprido já a pisar a meta.


segunda-feira, outubro 22, 2007

Diz-me o que entendes por liberdade sexual

Foto: W. Cieniu


A libertação sexual foi, ao contrário do que pensam os saudosos da família tradicional, um progresso civilizacional assinalável, com consequências irreversíveis e vantajosas em todas as áreas da sociedade, economia e política, sendo que a mais relevante de todos consistiu no acesso à partilha de papéis. Nunca a justiça e a produtividade se associaram para tão belos frutos.
Os saudosos da família tradicional não alimentam reais saudades da família, mas da mulher-criada doméstica com especialização em puericultura. Implicava uma escravidão, mas dava jeito. Os judaico-cristãos, ou só judaicos, ou só cristãos, esforçam-se por ignorar que a dita família tradicional nunca passou de uma prisão, e para todos. O homem sustentava a casa e a insatisfação, e fornicava dentro e fora. A mulher geria a casa e a infelicidade, e fornicava mal dentro, fazendo o que podia por fora, à custa de "lanches com amigas". Não eram casamentos, mas associações procriativas e comerciais compostas de membros que se detestavam.
Depois, devagar, chegou a liberdade sexual, conceito ainda muito impreciso na mente colectiva. A libertação sexual não foi apenas uma conquista das mulheres, e não coincide exactamente com fornicação generalizada e compulsiva. Pelo contrário, implica, como nunca, uma enorme responsabilização individual relativamente às escolhas que realizamos enquanto seres sexuados. Tornámo-nos livres sexualmente, todos, mulheres e homens, porque perdemos a culpa inerente ao desejo, porque o sexo se tornou independente do casamento e da procriação, e porque legitimamente ganhámos o direito a não ser julgados, em nenhum aspecto das nossas vidas, pela nossa identidade sexual ou de género.
A libertação sexual não foi apenas uma libertação para o sexo, mas do sexo, uma vez que nos libertou de todas as normas que nos prendiam a tarefas e comportamentos fixos que pesavam sobre homens e mulheres.
Há, contudo, um conjunto de implícitos (e explícitos) relacionais entre os homens e mulheres que não se alteraram apesar da libertação sexual. Um deles relaciona-se com o binómio amor-sexo. Independentemente das necessidades e escolhas sexuais absolutamente sem critério do sexo masculino, as mulheres continuam a ir para a cama porque amam alguém; porque acreditam no amor. Deitamo-nos com a pessoa x porque a queremos para nós. Temos a ilusão de que poderá vir a ser o nosso amor, se ainda não for. O sexo que as mulheres fazem é apenas uma parte do que pretendem manter com o objecto do seu amor. Passar um bocado bom vem em longínquo segundo lugar.
Isto poderá sofrer alterações em casos pontuais, em situações específicas, e mais ou menos passageiras, mas não vejo grandes tendências para mudança. Portanto, os homens podem esperar sentados até que nos apeteça dormir com eles porque são muito giros. Dormimos com eles porque queremos ter filhos com deles, porque queremos acordar ao seu lado e sentir a sua respiração, porque nos dá jeito que nos levem o carro à revisão e nos sintonizem o vídeo com o televisor. E tudo o resto, como dizem os brasileiros, é mera sacanagem.


terça-feira, outubro 16, 2007

Desmanchos



Da série Conversas com a Minha Mãe


Mãe
- A minha avó era muito má. Rogava pragas à minha mãe.
Isabela - A tua avó rogava pragas à tua mãe?!
M. - Rogava. Zangava-se com o filho, e quem pagava era a minha mãe.
I. - Era fresca.
M. - E caíam. Rogou uma praga à minha mãe em como ela haveria de ter tantos filhos que nem os distinguisse uns dos outros. E a minha mãe, coitada, era uns fora, outros dentro.
I. - Fez muitos abortos?
M. - Ora... era quase todos os meses na Adénia. A Adénia vivia daquilo. Era especialista. Toda a gente lá ia. Era uma mulher gorda, baixa. Lembro-me dela. Tinha sete filhas. Andavam todas aperaltadas.
I. - Era parteira.
M.- Não, mas sabia. Tinha um moinho, mas pouca gente lá ia moer. A freguesia era para os desmanchos. Sabes lá os que foram por aquele rio Baça abaixo!
I. - Mas sabia dar anestesias.
M. (com indignação) - Não. Antigamente não se davam anestesias.
I. - Sem anestesia?! As mulheres eram raspadas sem anestesia?
M. - Sim. A sangue-frio.
I. (fazendo uma grande careta) - Não me contes mais nada.
M. - As mulheres antigamente sofriam muito. Sabes lá!
I. - E as mulheres não ficavam doentes, não ganhavam infecções?
M. - Nas mãos da Adénia, não. Ela sabia daquilo. Era muito conhecida. Chegou a ir presa. Mas ia presa e depois punham-na cá fora outra vez.
I. - Se calhar também fazia abortos às mulheres dos juízes.
M. (rindo) - Pois. Era a todas.


segunda-feira, outubro 15, 2007

Entretém

Da série Conversas com a Minha Mãe

Isabela - Nove?!
Mãe - Sim, nove. A minha avó teve nove filhos. Cinco rapazes e quatro raparigas.
I. - Bem, antigamente era normal...
M . - Era. Havia mulheres que tinham aos 12 e aos 15.
I. - Credo. Não sei como é que elas aguentavam.
M. - Aguentavam. Antigamente não havia televisão nem cinema, nem os entretimentos que há agora.


terça-feira, setembro 25, 2007

O trabalho do tempo


Aos 20 anos queria ser magra para encontrar um príncipe encantado inteligente, sensível e fiel que gostasse muito de mim, e eu dele, e viver um romance cor-de-rosa até ao fim dos tempos.
Agora, gostava de não me cansar tanto a subir escadas.


Aos 20 anos queria encontrar um homem bom na cama, e ter com ele noites escaldantes, e tardes, e manhãs, e cumulativamente entendermo-nos às mil maravilhas fora dela.
Agora, o meu objectivo é dormir a noite inteira e profunda.

Aos 20 anos queria ser bonita.
Agora, os outros dizem-me que estou bonita.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Uma paixão racional


Não sou muito dada a medos, com uma excepção: mulheres apaixonadas.
As mulheres apaixonadas são carros sem travões, air bags, gps, abs, direcção assistida e sistema electrónico para fecho de portas e janelas. Não há nada que se possa dizer a uma mulher apaixonada para que mude de ideias sobre uma relação catastrófica. Nada.
- Olha que ele bebe.
- Ah, mas o meu amor vai curá-lo!
- Tem cuidado que ele droga-se.
- Ah, mas o meu amor vai passar a ser a sua única droga!
- Contaram-me que o homem é um ladrãozeco, um vigas.
- Ah, não é bem assim, foram só 3000 euros para um écran lcd, e agora ele nunca mais!
- Ele bate-te, como é que toleras tal coisa?
- Ah, é porque gosta muito de mim e morre de ciúmes dos outros, coitadinho!
- Ele é um calaceiro que te explora sem escrúpulos.
- Ah, mas anda à procura de emprego, e se ainda não encontrou foi por excesso de habilitações, e além disso eu dou-lhe porque quero, o pobrezinho!
- Ele é casado.
- Ah, mas já nem dorme com a mulher, só estão juntos por causa dos filhos, e a relação está desgastada... por um fio!

Enfim, uma mulher apaixonada entra em estado catatónico para o mundo, para além de que cega e ensurdece. Larga as amigas, os amigos, os colegas, os hobbies, a família, e, caso tenha perdido totalmente as estribeiras, o emprego, ou seja, a autonomia, os meios de sobrevivência fora da relação, o que acabará por se revelar fatal.
Nisto, as mulheres têm de mudar muito. Não endeusarem o amado. Não darem o que não é retribuído. Não tolerarem o que não é tolerável, porque tolerá-lo é promovê-lo. Não se atirarem de cabeça até onde as leva o coração. Isso são apenas frases feitas para títulos de romances. O coração sozinho nunca nos leva a sítio de jeito.

terça-feira, setembro 11, 2007

Prece diária

Meryl Streep,1994


Clyde Connel, 1982

Fotos de Mary Ellen Mark


Nunca, duas vezes, pela mesma água, seja qual for o rio.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Abrir as asas

Foto: W. Cieniu

Há mulheres que são umas senhoras. Adoro-as. Deliciosas de discretas. Caladinhas, falando num fio de voz, caminhando quase cosidas aos muros e montras das lojas, quase enfiadas no chão, quase em estado gasoso. Há mulheres que pouco se manifestam. Não ocupam espaço. São delicadas. Não falam alto. Não dão uma gargalhada em público. Não escolhem. Mal se repara que existem. Há mulheres maravilhosas. Em alternativa, existo eu.


sexta-feira, agosto 24, 2007

Eu nunca matei uma galinha, mas...

Como não achar graça às minhas amigas nascidas depois de 74, as quais, após tirar a pele ao frango cru, exclamam, muito aliviadas, o rosto ainda em esgares, já merecerem todo o céu e arredores?


domingo, agosto 19, 2007

Retórica de sacristia: as mulheres são demasiado bentas para o sacerdócio


D. José Saraiva Martins, ao Correio da Manhã, hoje.

(...)
– Há quem defenda que a crise de vocações se resolvia com a ordenação sacerdotal das mulheres.


– Estou certo de que a ordenação das mulheres nunca acontecerá.

– Porquê?

– Não sei porque é que esse problema se há-de colocar. As mulheres são preciosas para a Igreja e têm um vastíssimo campo de trabalho, no qual têm dado mostras de grande capacidade. Contudo, essa questão teológica da ordenação não deve ser colocada. É que não há no Evangelho nada que nos permita trilhar esse caminho. Além de toda a tradição histórica da Igreja. Repare: os apóstolos foram ordenados por Cristo e Nossa Senhora não. No entanto, no plano do culto, Nossa Senhora está acima dos apóstolos. Isto para dizer que as mulheres não precisam de ser ordenadas para atingir o mais alto do Céu.

– Mas há alguma questão teológica de fundo que impeça a ordenação das mulheres?

– Há, devido à linha de conduta traçada pelo Evangelho e que tem sido respeitada ao longo de dois mil anos de História. E não me parece que essa questão venha algum dia a ser resolvida. Eu sou a favor da mulher. Fui, enquanto reitor da Pontifícia Universidade Urbaniana, o primeiro a admitir uma mulher como professora de uma universidade do Papa. Mas o caso da ordenação sacerdotal é diferente e penso que, por impedimento dogmático, as mulheres nunca receberão o sacramento da Ordem.
(...)

sábado, agosto 18, 2007

Uma diferença igual



Os biólogos do mundo antigo, frequentemente com idade para serem meus filhos, candidatando-se aos respectivos tabefes, pelam-se por aplicar ao ser humano as leis científicas da especialização de tarefas que parecem render no mundo animal, fazendo por esquecer que as mulheres e os homens são animais sociais.
Defendem os jovens investigadores, entre a muda das imberbes fraldas experimentais, que o macho recolhe o alimento e a fêmea cuida das crias, e por aí fora, e igualmente na família moderna, esquecendo que a família moderna é de uma plasticidade impossível de fixar, como sempre desejou ser, isto porque as mulheres e os homens são, de todos os animais, os mais criativos, desejosos e insatisfeitos - e contra isto nada pode a ciência, a não ser que nos encharque em benzodiazepinas.
João Miranda, investigador em biotecnologia, em crónica publicada no DN de hoje, serve-se da especialização de tarefas para defender a ideia de que a paridade é uma utopia, visto que homens e mulheres têm capacidades diferentes. Gostei muito! Sonho com o dia em que jovens cientistas tenham a gentileza de não insultar a minha inteligência com argumentos gastos. Que leiam qualquer coisa antes de escreverem as pérolas de macho com que me mimoseiam, e aos restantes leitores da Imprensa diária. Vão à Wikipédia. Não se promoverão por aí, entre universidades, encontros entre investigadores das diversas áreas? Seria do maior interesse realizar uns intercâmbios. Ou experimentar a vida real. Os diplomas da vida real costumam valer, e eu estou por tudo.

Escreve João Miranda que:

"A paridade, isto é, a ideia de que as profissões mais apetecíveis devem ter igual percentagem de homens e mulheres, é uma das utopias das democracias modernas. (...) A paridade tem levado, um pouco por todo o mundo, à criação de quotas na política, nos cargos dirigentes das empresas e nas universidades, mas não nos serviços de recolha de lixo ou na construção civil.
A paridade pressupõe que homens e mulheres têm, em média, as mesmas capacidades e as mesmas preferências. Mas a verdade é que as diferenças entre homens e mulheres são demasiado relevantes para serem ignoradas. (...)
E, muito importante, as mulheres são mais ligadas aos filhos que os homens. Estas diferenças têm uma origem biológica e cultural.(...)
A biologia, a cultura e a economia sugerem que homens e mulheres têm competências e preferências diferentes que levam à especialização de papéis e impedem a paridade em várias profissões. (...)"



E a coisa continua pelas raias da aberração.
Ora, a associação entre o comportamento humano e o de outros animais é, como se sabe, brutalmente perigosa e especulativa: se os comportamentos femininos e maternais do mundo animal pudessem transpor-se para a vida humana social tornar-se-ia legítimo que as fêmeas humanas matassem e comessem, inconsequentemente, os próprios filhos, após o parto? Ou abandonassem uns em detrimento de outros? No mundo animal, as fêmeas cuidam dos filhos enquanto estes não sobrevivem sozinhos. A partir desse momento, as crias tornam-se um peso, e as fêmeas estão-se bem nas tintas. A minha cadela Lili mordia na filha, perante a minha indignação, quando achou ter chegado a altura do desmame. Poderia eu dar uma dentada no meu filho quando já não me parecesse adequado continuar a amamentá-lo? Pô-lo a andar, olha, agora desenrasca-te?!

E que tremenda cegueira afirmar que os filhos desinteressam aos homens como aos cães, por razões biológicas e culturais. Se vejo alguma coisa interessar aos homens, são os filhos - território absolutamente sagrado nos casamentos, acima da união conjugal. Qualquer mulher, de qualquer tempo, sabe que se algum interesse segurou um homem a um casamento, por muito mau que fosse, foi um filho. Os filhos interessam-lhes, e como, e cada vez mais, conforme o mundo se vai tornando menos genderizado. Reparo que, em grande parte das famílias onde se dividem tarefas, se há especialização nos cuidados aos filhos, ela está cada vez mais reservada aos homens no que respeita a dar-lhes banho, alimentá-los, entretê-los, ajudá-los nas tarefas escolares e adormecê-los. Assisto a este fenómeno com bastante agrado. Por outro lado, consta que as mulheres, afinal, não sentem particular prazer em cuidar dos filhos, pelo menos a partir de certo momento. Segundo uma investigação realizada recentemente (li no mesmo DN, há semanas), a satisfação experimentada pelas mulheres quando se ocupam dos filhos é igual à que sentem enquanto realizam tarefas domésticas. Nem mais nem menos. E, sinceramente, ao pensar no trabalho que uma criança dá, concluo que deve ser bem mais relaxante lavar a louça, até mesmo limpar o pó ou passar a ferro.



É óbvio que mulheres e homens são seres biologicamente diferentes. É nisso que está a sua maravilha. Onde está a novidade disto?
Não tenho massa muscular para carregar baldes de massa, mas muito homens também não a terão. Por outro lado, não me parece que hoje se possa dizer que os homens são mais dotados para o cálculo matemático e as mulheres para as línguas. Não é o que vejo no mundo académico. O que vejo, sim, é as mulheres abdicarem de investigar e progredir nas carreiras para se dedicarem à família, o que de forma alguma as exclui de habilidades em cálculo. Tenho um amigo biólogo que adora picar-me com os lugares comuns debitados pela ciência recente sobre a alegada capacidade das mulheres para realizar inúmeras tarefas simultâneas, enquanto as considera más no que toca à orientação espacial. Como detesto estas conclusões que categorizam e restrigem. E como as temo. E como erram. Eu que até sou uma bússola ambulante que, por acaso, é incapaz de ouvir música enquanto escreve ou lê.
Espanta-me que o argumento da força física seja tão importante para alegar superioridade masculina, mas não para defender a prevalência de negros sobre brancos.




Pouco sei sobre leões e leoas, cavalos e éguas, mas imagino que sejam biologicamente diferentes, de igual forma! A reprodução da matéria viva precisa dessa diferença para se realizar. Por enquanto não há volta a dar. Parece-me muito lógico e natural que diferentes animais da mesma espécie possuam as mesmas aptidões em quantidade e qualidade diferentes. O macho não podia estar mais próximo da reprodução, mas tem nela um papel de quantidade e qualidade diferente a partir do momento da fecundação, o qual não lhe veda o acesso ao gozo da paternidade. A guarda conjunta dos filhos, em caso de separação dos casais, parece-me uma medida bastante justa, uma vez que atribui aos homens paridade enquanto pais e seres humanos. A paridade não é um conceito cuja justiça e eficácia dependa das diferentes aptidões dos sexos. A paridade reivindica uma intervenção o mais igual possível, que seja justa para os géneros, e deva estar por igual ao alcance de iguais. A igualdade não é uma noção que dependa de capacidades físicas e intelectuais. Somos humanos, somos companheiros, complementamo-nos e acumulamo-nos intersexos como intrasexos. Aqui reside a substância e poder dessa igualdade. Mais nada.

Poderia enumerar uma série de tarefas que estão ao alcance das mulheres na construção civil, para além da limpeza final dos edifícios, mas o problema é que esse mundo profissional lhes permanece hostil. Ainda me lembro do sururu que consistiu no aparecimento, nos estaleiros diversos, e explorações agrícolas, das primeiras engenheiras. Os trabalhadores espantavam-se porque, "apesar de serem mulheres, sabiam trabalhar e dar ordens como homens". Foi a hierarquia que salvou as engenheiras e as legitimou.
Paralelamente, também vejo sectores reclamarem quotas para a entrada dos rapazes em cursos de Medicina, mas não nas limpezas a dias nem a lavar cabeças nos cabeleireiros.



Pelo que pude ler hoje, as mulheres ainda são encaradas pelos biólogos de pacotilha, e outros, como minorias cuja mais-valia humana reside na utilidade ovárico-uterina e mamária - lembro que a maior parte dos departamentos de estudos de género, nas universidades, incluem estudos queer, o que mete no mesmo saco os estudos sobre mulheres e LGTB, embora não se incomodem mutuamente. Mas se o argumento é cientifico, devo dizer que as mulheres prevalecem duplamente sobre o mundo; primeiro, numericamente, sem contestação; em segundo, porque o poder social do patriarcado, e consequente violência, apenas se sustém na medida em que, pelo mundo fora, as mulheres o toleram e alimentam. São as mulheres quem, para o mal, tem traçado o destino do mundo, construindo e perpetuando os poderes masculinos que as secundarizaram paternal e conjugalmente, criando os filhos que marginalizarão as filhas das outras, e as filhas que aceitarão ser marginalizadas, e perpetuarão a marginalização pelos filhos dos filhos às filhas das filhas. E tem sido assim durante muitos, muitos, demasiados anos. As armas do patriarcado têm sido fabricadas pelas mulheres para seu próprio sacrifício.
O exercício de paridade efectiva mudará o ciclo vicioso de vítimizados-vitimizadores, de ambos os sexos, que mal vêm aguentando um sistema de castas que já se nega, já se cansou, já se não vê reflectido no mundo que pisa as ruas lá fora.
Já compreendemos que somos pares, e contra esta evidência, caros biotecnólogos da farinha Amparo, não há cromossoma que vos valha.


domingo, julho 08, 2007

O amor em Portugal

Foto: Monika Wiechowska, Bending


Em 2006, em Portugal, a violência doméstica provocou morte ou ferimentos graves a mais de uma mulher por semana (39 mortes e 43 agressões graves). Este dado, revelado na Imprensa, no final da passada semana, deveria levar-nos a questionar a ideia de que a igualdade de géneros, assunto tão em remissão nas agendas, se tornou uma realidade na nossa cultura, que efectivamente as mulheres ganharam estatuto de iguais na relação com o sexo oposto, e que, portanto, tais questões são um anacronismo.
Estes são os números oficiais. Falta-lhes juntar os inúmeros casos de violência doméstica, física ou psicológica, que por medo e vergonha das mulheres nunca chegarão ao conhecimento das autoridades e nunca serão contabilizados. Casos que me estão próximos, ou que testemunho em mulheres com as quais me tenho cruzado, no bairro, ou no exercício da minha actividade profissional.
Aquelas que levam bofetadas, porque foram lavar escadas às escondidas, e não estão em casa quando o marido chega, e a quem chamam puta; "por onde é que andaste, minha puta? Com quem te andaste a deitar enquanto saí, minha puta?"
Mulheres que são obrigadas a estar em casa, disponíveis para qualquer prepotência, a quem não é dado dinheiro, nem possibilidade de comunicar.
As que são sistematicamente violadas após cargas de porrada, como se a brutalidade do murro fosse um preliminar sexual.
Mulheres que têm medo, que mentem por medo, como se a verdade, a vida normal fosse um pecado que cometem. Que só podem, só sabem defender-se na mentira, criando o único mundo que lhes está autorizado.
Mulheres da minha idade ou dez anos mais novas ou mais velhas. De todas as classes. Conheço-as. Nunca fizeram queixa. Creio que nunca farão. Vivem no medo porque não sabem viver de outra forma. Não acreditam que se possa viver doutra forma.

segunda-feira, junho 18, 2007

Flávia



Para Flávia, a velha dos gatos, que morreu há dias.


Era o fim desta tarde, e havia já sombra no baldio de ervas secas onde costumo levar as cadelas. E era tão triste essa sombra das sete. Fria, silenciosa, solitária como a mulher dos gatos que morreu há dias. Os caules secos das ervas altas tombavam-se uns nos outros, criando um barulho só, muito só, de palha que se emaranhava sem vida, como a mulher dos gatos que morreu há dias.
Que lugar tão solitário, e tão puro na réstia de luz que ainda escapava. Que lugar tão silencioso desse barulho que era uma dança seca. Tão puro, tão só, tão frio.
A velha dos gatos devia estar ao meu lado. Devia estar a contar-me, "o meu marido morreu muito novo. Depois morreu o meu filho. Tinha diabetes. Primeiro amputaram-lhe as pernas, coitadinho. Sofreu muito." A velha dos gatos devia estar a repetir-me a mesma história pela centésima vez, mesmo perto do meu ouvido. Mas agora eu não ouvia, e não pensava, "é como se estivesses morta - morreste com eles". Não podia. Agora eu não pensava, "fala, fala - alguém tem que te ouvir!"
A velha dos gatos morreu há uma semana, e eu sei que não abandonaria os seus queridos. Portanto, ali estava ela, velando pela comida deles, para que a Micas não fosse lambiscá-la, ou a chamá-la de longe, "minha querida, minha linda, estás tão gordinha", e eu, furiosa, porque me atrasava o passeio; eu que estou sempre com pressa.
A velha estava ali. No meio da erva seca, em pé, ao meu lado, contemplando a cadela, "que linda, que gordinha; só não quero que me vá comer a comida dos gatos; e a sua mãezinha, como vai?" Olhei para os dois lados. Para trás. Para a frente. Olhei mesmo, e hei-de ter acertado. Com os olhos postos adiante disse-lhe, "vai-te embora, Flávia, agora vai em paz. Aqui já não há nada para ti." E sei que chorou. Quem não choraria? Não é fácil ser-se mandado embora. Nem mandar. A Flávia sempre chorou como uma criança, e falava gemendo, e fazia-me chorar, como se eu não tivesse outra profissão. Chorar o choro dela.
Chamei a Micas. "Vamos embora. Está frio. São horas". A Flávia ficou a ver-nos partir, abraçada ao peito, como fazia, com os braços deformados. Abraçada ao velho peito só, e alheado. Abraçada com os gatos pretos e os gatos brancos e os gatos malhados, todos num grande molho que aquecia no encolhido peito oco.

quinta-feira, junho 07, 2007

Até ao fim do mundo

James Christensen

Recebi a seguinte mensagem de telemóvel vinda de uma pessoa chegada:

Passou por mim uma mulher cega, de uns trinta e pouco anos, que carregava junto ao peito um bebé recém-nascido. Um saco de compras numa mão e noutra uma bengala.

Nunca me tinham enviado uma mensagem tão longa.



domingo, junho 03, 2007

Do recente interesse das mulheres pelo futebol


O que importa são as tendências. Para compreender o que se passa fora das nossas paredes, convém escrutinar amálgamas de comportamentos face à moda, à gastronomia, ao sexo, linguagem, desporto, e por aí fora. Nenhum fenómeno social aparece do nada. No nosso tempo, a falácia da liberdade sexual, gerou uma espiral de mudanças que nos soam estranhas.
Cá na minha ideia, o interesse das mulheres pelo desporto é uma tendência em tudo paralela ao uso de apetrechos sexuais, e à prática de sexo anal. Trata-se, no essencial, do mesmo fenómeno de descoberta, associado ao trabalho eficaz da máquina que hoje produz comportamentos e consumos: media e publicidade.
Quando tinha 18 anos, aos vibradores chamava-se-lhes massajadores faciais, e as raparigas riam-se de embaraço, quando os viam nos catálogos de vendas por correio. Hoje, estão nas prateleiras das farmácias de serviço, bem acondicionados, é certo, mas ao lado de qualquer outro produto Durex. Há umas semanas, cheia de honesta e ingénua curiosidade, perguntei à ajudante da farmácia onde me abasteço, o que continham as caixas lilás e rosa ao lado do Durex play; a senhora explicou-me, com a mesma seriedade com que descreve a toma do antibiótico, as diversas funcionalidades dos objectos que se encontravam nas duas ou três caixas de diferentes tamanhos.
Aos 18 anos, imaginava que o sexo anal fosse um comportamento assaz desviante, próprio do universo homossexual, mas hoje constato que querer dar ou levar na padeira, própria ou alheia, pouco ou muito, só para experimentar ou já nos domínios da parafilia, é fenómeno que atingiu a todos.
Mas, o futebol, senhores! Que nunca foi pecaminoso nem propriamente proibido às mulheres! Que apenas as enfadava! Como compreender o súbito interesse por fruto tão pouco apetecido?!

O recente entusiasmo das portuguesas pelo futebol - jogos, jogadores, clubes, campeonatos - surgiu primeiro noutros países europeus onde as mulheres atingiram, cedo, territórios masculinos, e aparentemente justifica a sua permanência nesse mundo que foi só deles: a repartição, o gabinete, o café, o grupo de colegas de escola, universidade ou emprego. Integra-as. Se as mulheres partilham os espaços profissionais e culturais onde eles eram maioritários, e reinantes, faz um certo sentido, numa óptica patriarcal, a única visão do mundo que as mulheres conhecem e aceitam, ainda, que passem a interessar-se pelos discursos que os moviam e ligavam nesses contextos. A saber, independentemente da classe social a que pertençam os elementos do sexo masculino: futebol, cervejolas e gajas.
As mulheres entraram no futebol, inicialmente, pela porta dos jogadores: conheciam-nos; o Simão tinha pernas lindas; o cabelo do Nuno era de morrer, e o rabo de não sei quem era delicioso. Lembro-me desta época. Lembro-me que achei estranho. Até aí, poucas mulheres se interessavam por bola. Eram sobretudo as mães de rapazes, que suportavam dominicais injecções de convívio futebolístico.
No princípio, os homens gozaram um bocado. Elas comentavam os atractivos sexuais dos jogadores?! Okay, justificava-se, eram mulheres. Era o mais longe que conseguiam chegar.




Demonstrar interesse por gajas não foi, para as mulheres, missão propriamente difícil. No meio de homens, e muito ajudadas pela suprema fantasia masculina do paraíso - miúdas no rebolanço umas com as outras - as mulheres perderam a vergonha de dizer abertamente o que me valeu fama de lésbica desde o 7º ano de escolaridade: que as mulheres são lindas e desejáveis, inclusive para outra mulher. Hoje, é lícito declarar-se, em grupos de mulheres, sem se ser olhada de lado, que as mamas de fulana são faraónicas. Que sicrana é belíssima. Mas há dez anos atrás, as mulheres ainda afirmavam não saber apreciar mulheres, mentira piedosa da qual me fui rindo em silêncio.

Embora custe a crer, a cervejola tem sido o principal obstáculo à progressão da portuguesa no mundo do futebol. A cervejola lusa amarga que se farta, mesmo gelada, mesmo a morrer de sede, e não fosse a ajuda do panaché, mais leve de sabor, enfim, bebível, e, recentemente, a bela ideia das cervejeiras, com as green, as pêssego, as framboesa... tudo teria sido mais difícil.

Mas repetir comportamentos masculinos, reforçando-os, para provar serem suas iguais, só seria útil aos grupos sociais se os homens fossem realmente o sexo forte. Nunca foram. E a nós também não nos interessará enfatizar tal concepção muscular e emocional de fraco e forte.
Esse tem sido o grande erro das mulheres: quererem ser aquilo que eles não provaram ser! Quem quer ser homem como os homens? Nem eles!
Evidentemente, a entrada das mulheres neste "pequeno" mundo do futebol não foi conquista alguma. Os homens também se adaptaram?! Passaram a gostar de patinagem no gelo, de néctares de pêssego?! Começaram a admitir que sabiam apreciar gajos?! Que fulano de tal, afinal, era giro?! Não me parece. Portanto, se apenas uma parte da população adaptou novos comportamentos, tudo ficou igual.
Temos, pois, que as mulheres permanecem doces e suaves, mas podem filiar-se no território dos homens, até porque são decorativas, dão graça, alegram. E que os homens continuam durões, aceitando mulheres doces e suaves filiadas no seu território - até lhes dá jeito tê-las à mão - mas, atenção, mantêm-se durões.
Isto foi só o princípio.

Depois, veio o Europeu, a seguir o Mundial - ou ao contrário, sei lá - ambos com a respectiva praga de bandeiras portuguesas, e de efeito pátria. Gostar de futebol já não era apenas gostar de algo pertencente ao território masculino, ao qual passámos a ter acesso. Gostar de futebol era também ser bom português, ou boa portuguesa. E isso contou muito.
Era verão, estava calor, passarinhas e passarões ferviam de exaltação. Sabia bem brincar ao Carnaval, ao final da tarde, depois dos caracóis na esplanada. Era um espectáculo de massas, martelado até ao esgotamento por todas as televisões, em todos os noticiários maiores e menores, e na publicidade, por fios de horas, de fios de horas. A mensagem visual transmitida pelos media, e publicidade, em concorrência, envolvendo mulheres jovens, bonitas e seminuas, ou velhotas gordas, de bata e lenço na cabeça, sacudindo bandeiras nacionais ou ramalhetes de panos da cozinha verdes e vermelhos agradou ao marketing do espectáculo. Promovia-o. Engrandecia-o. Gerava mais receitas. Portanto, a visibilidade das mulheres envolvidas no espectáculo de massas, chamou mais mulheres.
Creio que grandes finais internacionais de futebol desta década terão restabelecido os caudais mínimos de comunicação em muitos casamentos perto do estado pantanoso. De repente, a conversa animou ao jantar. Como tinha sido o jogo de ontem, e a seguir quem jogava com quem, que prognóstico era possível fazer... Nunca as portuguesas aprenderam tanto vocabulário técnico-desportivo em tão pouco tempo: marcar um canto, penalti, falta disto e daquilo... foi uma verdadeira acção de formação nacional massiva.

Acrescente-se-lhe, agora o salutar hábito conjugal mediterrânico, que em Portugal se respeita: gaja que é gaja, e gosta do seu gajo, esforça-se por dialogar com o dito - vem nos conselhos da revista Maria sobre como manter a magia no casamento. Se o seboso só consegue falar de futebol, fale-se de futebol; se não é possível ir com ele a mais lado nenhum, excepto o estádio, ou o café com écran gigante e Eurosport, venha de lá estádio e café com écran e Eurosport, porque, em Portugal, e isto aprende-se cedo, aprende-se em casa, mulher que é mulher, esforça-se primeiro por agradar ao seu homem, e depois logo se vê se vale a pena respirar, viver para além dele.

Resumindo, que isto do futebol cansa-me, e excluindo desta conversa aquelas mulheres que sempre gostaram genuinamente de futebol, porque sempre gostaram de desporto, tal como muitos homens sempre gostaram genuinamente de patinagem no gelo, a maior parte das portuguesas da minha geração, e da que me precede, aprenderam a gostar futebol por motivo bastante ordinário: a integração num grupo de homens - agradar aos companheiros conjugais, de forma geral; acompanhar marido e os filhos; responder às bocas no horário de trabalho ou fora dele, com colegas.

No entanto, é muito provável que a actual tendência acabe por gerar um interesse verdadeiro nas raparigas das gerações futuras. O impacto do futebol junto das mulheres vai, certamente, implicar alterações culturais, e o futebol deixará de ser um feudo masculino. Espero que sim. Resta-me esperar, igualmente, que o futebol se transforme em efectivo desporto, não num mafioso reduto de violência, dentro e fora do campo, ou não as servirá a elas, tal como não os tem servido a eles.

quarta-feira, maio 30, 2007

Façam-no os homens, desde que paguem as mulheres

No Paquistão, um conselho tribal ordenou que a mulher do abusador de uma menina de 8 anos, deveria ser violada pelo pai da criança molestada. Os irmãos do violador ofereceram ao pai queixoso as suas quatro filhas em casamento, mas este não aceitou a proposta.
As mulheres pagam sempre: quer não tenham cão quer tenham sido mordidas.

no El País


terça-feira, maio 29, 2007

E Deus criou a gorda

Fotos: Amélia
(clique sobre as imagens para aumentá-las)



No final da rua Domingos Sequeira, em Lisboa, ao subir para Campo de Ourique, existe um outdoor da Clínica Persona que parece ter ficado esquecido da campanha do ano passado. Lê-se, em letras garrafais, "Eles não gostam de celulite"; atenção, trata-se de um portal para outra dimensão.

Se são corajosos, venham comigo. Atravessemos o portal. Do outro lado não há diferenças visíveis. A esquina da Caixa Geral de Depósitos, a do café A Tentadora, os eléctricos tocando, o trânsito difícil. Edifícios, pessoas, objectos; tudo igualzinho. No entanto, reparem, as mesmas coisas não têm o mesmo valor. As quatro fotos que aqui publico fazem ali parte de uma campanha publicitária para um novo perfume Dior. Estão a vê-las nos outros outdoors publicitários deste lado? Reparem, por favor.

As páginas de publicidade da Elle, da Vogue, da Marie Claire encontram-se pejadas de voluptuosas modelos com mais de 70 quilos, símbolos sexuais sem mãos a medir para entrevistas nas quais são obrigadas a explicar que regime seguem para manter curvas avantajadas. As mais sortudas não fazem nada. Tiveram a sorte de nascer assim. "São os genes", explicam. "Tive sorte. O meu pai era gordo. A minha avó era gorda..."





Estas mulheres, que todos desejam, e cujas imagens enchem páginas de blogues dedicados à beleza feminina, sentem-se obrigadas a relativizar o seu sex appeal. Sentem que é demais todo esse fascínio pelos seus corpos. Afirmam sentir-se mulheres normais, como quaisquer outras, que o corpo, afinal, não tem assim tanta importância, e que, "hoje em dia, os padrões de beleza têm tendência a tornar-se mais heterogéneos, neles cabendo, também, certo grau de magreza".

Nesta dimensão, a magreza é um estigma infame e um tabu. O assunto evita-se fora da esfera relacionada com os cuidados de saúde. Pode dizer-se a uma mulher que está mais gorda, "que linda estás, assim gordinha". Nunca, nunca se lembra o emagrecimento. Seria de muito mau gosto afirmar algo como "emagreceste imenso, ultimamente!" Evita-se!

As magras, essa subespécie entre o animal em más condições para abate e o deficiente culpado de o ser, incomoda, desagrada. Há imensas mulheres magras; estão por todo o lado, nas esquinas, nas paragens de autocarro, nos cafés bebendo garrafas de água das Pedras... Há imensas mulheres de 55 quilos descontentes com o seu corpo, sujeitando-se a tratamentos violentos, e caros, para conseguir engordar um pouco, ganhar celulite nas pernas, e gordura na barriga e nas ancas, já que desse objectivo depende a aceitação alheia, e, também, a que as próprias farão do total de si, não havendo outro aspecto a valorizar. Ou se é gorda e atraente ou se é nada; se vale nada. As magras são, obviamente, mulheres bonitas, como as gordas, mas o espelho não lhes devolve aquilo que não foram ensinadas a ver. Não se encontram, não se vêem, não se reconhecem como mulheres. São animais. Vacas escanzeladas.





O mercado do prazer valoriza exclusivamente a mulher gorda. Só os tarados procuram as magras. Diz-se, sobretudo pensa-se, que um homem só arranja uma magra se estiver desesperado. Entre eles, comentam que as magras, enfim, também desenrascam, para além de que são alvos mais fáceis, devido à ausência de auto-estima, e à dificuldade em arranjar parceiro sexual. E pronto, vendo bem as coisas, são mulheres, têm mamas e um buraco ao fundo das pernas, até dois. E quando se está desesperado, caramba...

O corpo feminino, nesta dimensão, continua a vender todo o tipo de produtos: sumos, cuecas, papel higiénico, cremes hidratantes, pneus, jantes, aparelhos de televisão, mas o mercado é cruel na sua selecção. Mulher que pretenda almejar uma carreira como modelo publicitário, ou de moda, como actriz, intérprete musical, apresentadora de televisão ou socialaite, esforça-se por atingir 65 quilos de peso mínimo. Recentemente, uma modelo com 64 quilos e trezentos viu-se impedida de desfilar na Moda Lisboa. Demasiado magra!
O problema da dimensão em que nos encontramos, e de onde espero possamos sair depressa, está em que os cidadãos são, desde crianças, bombardeados com mensagens profundamente negativas relativamente à magreza e à relação das magras com o seu corpo. No cinema, as crianças magras são preguiçosas, lentas, sujas e burras; às mulheres magras e esguias cabem os papéis maus: obsessivas, taradas, histéricas, ridículas, pérfidas; as anti-heroínas. Só as gordas podem almejar papéis de destaque românticos, sensuais, misteriosos, selvagens. A máquina de marketing musical procura candidatas anafadas para constituir as suas girls band. As tunas académicas cantam, até ao enjoo, "A mulher gorda / a mim só me convém /Como posso andar na rua/ sem as banhas de alguém?!" Nenhuma jornalista pensa chegar a pivot de telejornal sem competir com a Alberta Marques Fernandes, esse sensual portento moreno. Num meio no qual só a imagem de uma mulher cheia e redonda satisfaz o receptor, não é de espantar que a magra se veja relegada para uma espécie de gueto que, ao aceitar, acaba por legitimar.





Este problema, na dimensão onde ainda nos encontramos, advém de se ter fixado, durante décadas a fio, um modelo universal de beleza que estigmatiza a verdade: o corpo humano na sua verdade. Tal como um corpo humano é. Vário. Como se, na dimensão à qual pertencemos, e para onde seguiremos rapidamente, se Deus quiser, tivéssemos excluído as ruivas de sardas ou as morenas de cabelo frisado.

Imaginem, agora, caros leitores e leitoras, que na nossa dimensão... e saiamos agora, vamos lá, preparem o salto - Gancho, não se importa de levantar um pouco mais a perna, por favor?!-, cuidado!, três de uma só vez não passam; olhem os eléctricos, não atravessem à maluca... Desculpem... imaginem, agora, que na nossa dimensão reservávamos para as nossas formidáveis gordas, e gordos, claro, o tratamento que as bestas do outro lado guardam para tão belas magricelas?! Impensável, não é? Que coisa mais estúpida, mais sem sentido! Felizmente, estamos deste lado a salvo.

segunda-feira, maio 28, 2007

A Ordem do Alfa e do Beta

Senhora Teodolinda (Venezuela)

As hierarquias sociais poderiam imitar as entradas dos dicionários enciclopédicos: à definição de Teodiceia segue-se, sem apelo, a de Teodolinda, e, só depois, a de teodolito. A ordenação alfabética contém esta justiça implícita, que não é total, apenas razoavelmente equitativa.
Não há muito a dizer sobre o teodolito comum; contudo, o conhecimento básico sobre qualquer vulgaríssima Teodolinda transcende largamente tudo o que possa dizer-se sobre a Teodiceia. A verdade é que não existem Teodolindas vulgares nem iguais. Qualquer Teodolinda encerra diversas e complexas teodiceias, pelo que a sua importância deveria reflectir-se no número de linhas que lhe estão reservadas, seja qual for o papel.

quarta-feira, maio 23, 2007

Moldaste o meu corpo em barro

See beauty in every living creature

(clique sobre as fotos para aumentá-las)



















The NU Project
(Pessoas reais. Corpos reais.)

pelo fotógrafo Matt Blum


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...