terça-feira, maio 29, 2007

E Deus criou a gorda

Fotos: Amélia
(clique sobre as imagens para aumentá-las)



No final da rua Domingos Sequeira, em Lisboa, ao subir para Campo de Ourique, existe um outdoor da Clínica Persona que parece ter ficado esquecido da campanha do ano passado. Lê-se, em letras garrafais, "Eles não gostam de celulite"; atenção, trata-se de um portal para outra dimensão.

Se são corajosos, venham comigo. Atravessemos o portal. Do outro lado não há diferenças visíveis. A esquina da Caixa Geral de Depósitos, a do café A Tentadora, os eléctricos tocando, o trânsito difícil. Edifícios, pessoas, objectos; tudo igualzinho. No entanto, reparem, as mesmas coisas não têm o mesmo valor. As quatro fotos que aqui publico fazem ali parte de uma campanha publicitária para um novo perfume Dior. Estão a vê-las nos outros outdoors publicitários deste lado? Reparem, por favor.

As páginas de publicidade da Elle, da Vogue, da Marie Claire encontram-se pejadas de voluptuosas modelos com mais de 70 quilos, símbolos sexuais sem mãos a medir para entrevistas nas quais são obrigadas a explicar que regime seguem para manter curvas avantajadas. As mais sortudas não fazem nada. Tiveram a sorte de nascer assim. "São os genes", explicam. "Tive sorte. O meu pai era gordo. A minha avó era gorda..."





Estas mulheres, que todos desejam, e cujas imagens enchem páginas de blogues dedicados à beleza feminina, sentem-se obrigadas a relativizar o seu sex appeal. Sentem que é demais todo esse fascínio pelos seus corpos. Afirmam sentir-se mulheres normais, como quaisquer outras, que o corpo, afinal, não tem assim tanta importância, e que, "hoje em dia, os padrões de beleza têm tendência a tornar-se mais heterogéneos, neles cabendo, também, certo grau de magreza".

Nesta dimensão, a magreza é um estigma infame e um tabu. O assunto evita-se fora da esfera relacionada com os cuidados de saúde. Pode dizer-se a uma mulher que está mais gorda, "que linda estás, assim gordinha". Nunca, nunca se lembra o emagrecimento. Seria de muito mau gosto afirmar algo como "emagreceste imenso, ultimamente!" Evita-se!

As magras, essa subespécie entre o animal em más condições para abate e o deficiente culpado de o ser, incomoda, desagrada. Há imensas mulheres magras; estão por todo o lado, nas esquinas, nas paragens de autocarro, nos cafés bebendo garrafas de água das Pedras... Há imensas mulheres de 55 quilos descontentes com o seu corpo, sujeitando-se a tratamentos violentos, e caros, para conseguir engordar um pouco, ganhar celulite nas pernas, e gordura na barriga e nas ancas, já que desse objectivo depende a aceitação alheia, e, também, a que as próprias farão do total de si, não havendo outro aspecto a valorizar. Ou se é gorda e atraente ou se é nada; se vale nada. As magras são, obviamente, mulheres bonitas, como as gordas, mas o espelho não lhes devolve aquilo que não foram ensinadas a ver. Não se encontram, não se vêem, não se reconhecem como mulheres. São animais. Vacas escanzeladas.





O mercado do prazer valoriza exclusivamente a mulher gorda. Só os tarados procuram as magras. Diz-se, sobretudo pensa-se, que um homem só arranja uma magra se estiver desesperado. Entre eles, comentam que as magras, enfim, também desenrascam, para além de que são alvos mais fáceis, devido à ausência de auto-estima, e à dificuldade em arranjar parceiro sexual. E pronto, vendo bem as coisas, são mulheres, têm mamas e um buraco ao fundo das pernas, até dois. E quando se está desesperado, caramba...

O corpo feminino, nesta dimensão, continua a vender todo o tipo de produtos: sumos, cuecas, papel higiénico, cremes hidratantes, pneus, jantes, aparelhos de televisão, mas o mercado é cruel na sua selecção. Mulher que pretenda almejar uma carreira como modelo publicitário, ou de moda, como actriz, intérprete musical, apresentadora de televisão ou socialaite, esforça-se por atingir 65 quilos de peso mínimo. Recentemente, uma modelo com 64 quilos e trezentos viu-se impedida de desfilar na Moda Lisboa. Demasiado magra!
O problema da dimensão em que nos encontramos, e de onde espero possamos sair depressa, está em que os cidadãos são, desde crianças, bombardeados com mensagens profundamente negativas relativamente à magreza e à relação das magras com o seu corpo. No cinema, as crianças magras são preguiçosas, lentas, sujas e burras; às mulheres magras e esguias cabem os papéis maus: obsessivas, taradas, histéricas, ridículas, pérfidas; as anti-heroínas. Só as gordas podem almejar papéis de destaque românticos, sensuais, misteriosos, selvagens. A máquina de marketing musical procura candidatas anafadas para constituir as suas girls band. As tunas académicas cantam, até ao enjoo, "A mulher gorda / a mim só me convém /Como posso andar na rua/ sem as banhas de alguém?!" Nenhuma jornalista pensa chegar a pivot de telejornal sem competir com a Alberta Marques Fernandes, esse sensual portento moreno. Num meio no qual só a imagem de uma mulher cheia e redonda satisfaz o receptor, não é de espantar que a magra se veja relegada para uma espécie de gueto que, ao aceitar, acaba por legitimar.





Este problema, na dimensão onde ainda nos encontramos, advém de se ter fixado, durante décadas a fio, um modelo universal de beleza que estigmatiza a verdade: o corpo humano na sua verdade. Tal como um corpo humano é. Vário. Como se, na dimensão à qual pertencemos, e para onde seguiremos rapidamente, se Deus quiser, tivéssemos excluído as ruivas de sardas ou as morenas de cabelo frisado.

Imaginem, agora, caros leitores e leitoras, que na nossa dimensão... e saiamos agora, vamos lá, preparem o salto - Gancho, não se importa de levantar um pouco mais a perna, por favor?!-, cuidado!, três de uma só vez não passam; olhem os eléctricos, não atravessem à maluca... Desculpem... imaginem, agora, que na nossa dimensão reservávamos para as nossas formidáveis gordas, e gordos, claro, o tratamento que as bestas do outro lado guardam para tão belas magricelas?! Impensável, não é? Que coisa mais estúpida, mais sem sentido! Felizmente, estamos deste lado a salvo.

segunda-feira, maio 28, 2007

A Ordem do Alfa e do Beta

Senhora Teodolinda (Venezuela)

As hierarquias sociais poderiam imitar as entradas dos dicionários enciclopédicos: à definição de Teodiceia segue-se, sem apelo, a de Teodolinda, e, só depois, a de teodolito. A ordenação alfabética contém esta justiça implícita, que não é total, apenas razoavelmente equitativa.
Não há muito a dizer sobre o teodolito comum; contudo, o conhecimento básico sobre qualquer vulgaríssima Teodolinda transcende largamente tudo o que possa dizer-se sobre a Teodiceia. A verdade é que não existem Teodolindas vulgares nem iguais. Qualquer Teodolinda encerra diversas e complexas teodiceias, pelo que a sua importância deveria reflectir-se no número de linhas que lhe estão reservadas, seja qual for o papel.

domingo, maio 27, 2007

Palhaços da vida real


Quando era pequena, os palhaços faziam-me rir, porque eram mais inocentes que eu. Caíam, e enganavam-se como as criancinhas. Portavam-se mal. O palhaço pobre desobedecia ao palhaço rico, tentava enganá-lo.
Os palhaços divertiam-me; eram um reduto de pureza mais pura que eu. Mas era teatro, a seguir tiravam os narizes, os chapéus e sapatões rasgados, e voltavam a ser homens iguais ao meu pai, ou a outros. Era mentira. Eu sabia. Era uma mentira que me fazia bem.

Os palhaços que me fazem rir, hoje, são palhaços todos os dias, em público ou em privado. São todos ricos, querem ser mais ricos, sobretudo mais famosos, e detestam o palhaço pobre, o piroso andrajoso, que desprezam. Não imitam a inocência, porque não a conhecem. São apenas ridículos. Gente mutante de gente. Não lhes chamamos palhaços, dizemos "aquele cromo". Rimos, mas é um riso com travo amargo. No fundo, gozamos: e o gozo amarga no fim. Aquilo é a vida, não a mentira que se despe quando acaba o espectáculo, e essa verdade é de um realismo quase insuportável.

sexta-feira, maio 25, 2007

Os lugares mais solitários do mundo

Estão cheios de gente que se empurra, que atravessa gente, que pragueja, que procura um lugar onde possa sentir-se só, e livre.

Série Paradoxos

quinta-feira, maio 24, 2007

Como os artistas plásticos realizam grandes obras

Enquanto Maria Teresa me hace una sopinha de grão-de-bico bem caliente, a ver se acabo aqui los cinzentos-névoa-horror, en el canto inferior izquierdo desta obra-maestra, que versa um grande bombardeamento durante la Guerra Civil.

Como as artistas plásticas realizam grandes obras

Se conseguir ver-me livre do Diogo, despachando, en lo mismo pacote, todo lo narcisismo y obsesiones, fico sem cuecas e peúgas para lavar e coser, acabam-se os cozinhados para apurar, e ainda evito los hijos de las otras, que me hão-de doer. No tenendo que lo aturar, talvez consiga fechar-me no atelier, e concentrar-me en la textura cromática del corazón de sangre que a figura sentada tem golpeado en el pecho.

Doutrina do Ser

Ontem, o meu carro tinha uma peça a chocalhar em baixo.
Hoje, já não tem.

Série Poiesis

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...