sexta-feira, junho 08, 2007

E depois arranquei as penas

Camille Claudel


As histórias de amor não podem ter finais felizes.
Na sua essência, digamos, helénica, as histórias de amor são de uma exacta rigidez trágica: arrancam-nos o coração pela costas. E não há outra forma. Se existe uma ordem do mundo, esta regra está nela contida.

As histórias de amor que terminam bem transformam-se em comédias do quotidiano, da vida privada: e depois viveram felizes para sempre; ela lavava a louça, e ele limpava os pratos com um pano de cozinha às flores amarelas. Um dia rompeu-se um cano, houve uma inundação em casa, e quase tiveram problemas com os vizinhos de baixo, um casal de swingers, felizmente muito compreensivo.
Gostamos de comédia de costumes, mas a comédia, que nos liberta à sua maneira, não nos arranca o coração pelas costas.
Queremos o amor intemporal, que rasga com faca larga, arranca as entranhas num golpe frio, nos aniquila, nos suicida, real ou simbolicamente. Queremos a garantia de que ultrapassámos as circunstâncias do corpo, sagrado e estúpido, e já não somos o nosso lugar. Nenhum lugar.

quinta-feira, junho 07, 2007

Até ao fim do mundo

James Christensen

Recebi a seguinte mensagem de telemóvel vinda de uma pessoa chegada:

Passou por mim uma mulher cega, de uns trinta e pouco anos, que carregava junto ao peito um bebé recém-nascido. Um saco de compras numa mão e noutra uma bengala.

Nunca me tinham enviado uma mensagem tão longa.



quarta-feira, junho 06, 2007

Truques velhos da nova mulher [com cérebro de homem]

Foto de Paulo Pimenta, no Público de ontem (com manipulação da focagem da minha responsabilidade).


Quanto mais pensará Fátima Felgueiras ter de baixar e alargar os decotes para conseguir a entretida e consolada complacência (indizível, impensável!) de tribunal, governo, causídicos, comunicação social e opinião pública, no que respeita ao seu pouco provável envolvimento no caso "saco azul-corrupção larga"?
Porque, bem vistos os decotes, como é que uma senhora tão linda, tão simpática, e com mamas tão jeitosas, haveria de ser meter em assuntos tão pouco elegantes?
Quem olhe bem para Fátima Felgueiras, e a veja toda, toda e muito bem, e de perto, percebe que a senhora está a léguas de culpada.


terça-feira, junho 05, 2007

Um frasco de veneno

Monika Wiechowska, Self-portrait


Um miúdo de 12 anos escolheu-me para perguntar se eu acreditava que se podia morrer de tristeza.
Respondi-lhe sem hesitação. Que sim, que tinha a certeza absoluta, que podia morrer-se de tristeza.
Mas ele quis perceber melhor, e pediu-me que esclarecesse, "Porque se deixa de comer, e se fica muito fraco, e por isso se morre, não é?"
Fixei-o durante cinco segundos no máximo. Ele tinha 12 anos. "Que se lixe", pensei, e respondi, segura, "Não, não, morre-se porque a tristeza mata como se se bebesse um frasco de veneno!"
O miúdo calou-se.
Depois tive pena dele, voltei-me, e disse-lhe, "Deixa lá, não ligues, eu é que sou muito trágica!"


segunda-feira, junho 04, 2007

nacionalidade

Quando chego a casa após um dia inteiro de trabalho, barulho e calor, e abro a porta, e me atinge uma baforada de sombra e silêncio, sinto que atravessei a fronteira, e que cheguei ao meu pais. E tenho ganas de rasgar o passaporte.

nº 162, do lado direito de quem sobe, e eu sou o mais bonito

Ao final do dia, quando encerra a feira do livro, resta sempre muito lixo, muita papelada que os empregados da câmara maldizem, mas têm de recolher. É para que serve a criadagem, mesmo a dos serviços públicos de limpeza!


Fiz copy/paste deste poste de ontem, no Da Literatura, que é um blogue sobre literatura, louça Limoges e lojas gourmet, variado, portanto, como O Mundo Perfeito, mas não de tão baixo coturno.
Considero que qualquer blogger responsável deverá saber escrever um poste igualmente rico em informação sobre feiras do livro, localização dos pavilhões, edições próprias, et coetera.
Publico por motivos puramente didácticos.
Também acabei agora de ler o Cidade Proibida, e declaro-me mortinha por trocar impressões literárias com alguém!

Sábado, Junho 02, 2007
FEIRAS DO LIVRO

Hoje à tarde, das 16:30h às 18:00h, vou estar na Feira do Livro de Lisboa, no pavilhão da QuidNovi [n.º 162, lado direito de quem sobe do Marquês], a assinar três livros: o romance Cidade Proibida, os contos reunidos em Persona e o soi disant livro do blogue, Intriga em Família. Os dois primeiros são da QuidNovi e o terceiro da Quasi (mas hoje estão todos à venda no pavilhão n.º 162). No próximo sábado, dia 9, farei o mesmo no Porto.

posted by Eduardo Pitta at 10:40 AM


domingo, junho 03, 2007

Do recente interesse das mulheres pelo futebol


O que importa são as tendências. Para compreender o que se passa fora das nossas paredes, convém escrutinar amálgamas de comportamentos face à moda, à gastronomia, ao sexo, linguagem, desporto, e por aí fora. Nenhum fenómeno social aparece do nada. No nosso tempo, a falácia da liberdade sexual, gerou uma espiral de mudanças que nos soam estranhas.
Cá na minha ideia, o interesse das mulheres pelo desporto é uma tendência em tudo paralela ao uso de apetrechos sexuais, e à prática de sexo anal. Trata-se, no essencial, do mesmo fenómeno de descoberta, associado ao trabalho eficaz da máquina que hoje produz comportamentos e consumos: media e publicidade.
Quando tinha 18 anos, aos vibradores chamava-se-lhes massajadores faciais, e as raparigas riam-se de embaraço, quando os viam nos catálogos de vendas por correio. Hoje, estão nas prateleiras das farmácias de serviço, bem acondicionados, é certo, mas ao lado de qualquer outro produto Durex. Há umas semanas, cheia de honesta e ingénua curiosidade, perguntei à ajudante da farmácia onde me abasteço, o que continham as caixas lilás e rosa ao lado do Durex play; a senhora explicou-me, com a mesma seriedade com que descreve a toma do antibiótico, as diversas funcionalidades dos objectos que se encontravam nas duas ou três caixas de diferentes tamanhos.
Aos 18 anos, imaginava que o sexo anal fosse um comportamento assaz desviante, próprio do universo homossexual, mas hoje constato que querer dar ou levar na padeira, própria ou alheia, pouco ou muito, só para experimentar ou já nos domínios da parafilia, é fenómeno que atingiu a todos.
Mas, o futebol, senhores! Que nunca foi pecaminoso nem propriamente proibido às mulheres! Que apenas as enfadava! Como compreender o súbito interesse por fruto tão pouco apetecido?!

O recente entusiasmo das portuguesas pelo futebol - jogos, jogadores, clubes, campeonatos - surgiu primeiro noutros países europeus onde as mulheres atingiram, cedo, territórios masculinos, e aparentemente justifica a sua permanência nesse mundo que foi só deles: a repartição, o gabinete, o café, o grupo de colegas de escola, universidade ou emprego. Integra-as. Se as mulheres partilham os espaços profissionais e culturais onde eles eram maioritários, e reinantes, faz um certo sentido, numa óptica patriarcal, a única visão do mundo que as mulheres conhecem e aceitam, ainda, que passem a interessar-se pelos discursos que os moviam e ligavam nesses contextos. A saber, independentemente da classe social a que pertençam os elementos do sexo masculino: futebol, cervejolas e gajas.
As mulheres entraram no futebol, inicialmente, pela porta dos jogadores: conheciam-nos; o Simão tinha pernas lindas; o cabelo do Nuno era de morrer, e o rabo de não sei quem era delicioso. Lembro-me desta época. Lembro-me que achei estranho. Até aí, poucas mulheres se interessavam por bola. Eram sobretudo as mães de rapazes, que suportavam dominicais injecções de convívio futebolístico.
No princípio, os homens gozaram um bocado. Elas comentavam os atractivos sexuais dos jogadores?! Okay, justificava-se, eram mulheres. Era o mais longe que conseguiam chegar.




Demonstrar interesse por gajas não foi, para as mulheres, missão propriamente difícil. No meio de homens, e muito ajudadas pela suprema fantasia masculina do paraíso - miúdas no rebolanço umas com as outras - as mulheres perderam a vergonha de dizer abertamente o que me valeu fama de lésbica desde o 7º ano de escolaridade: que as mulheres são lindas e desejáveis, inclusive para outra mulher. Hoje, é lícito declarar-se, em grupos de mulheres, sem se ser olhada de lado, que as mamas de fulana são faraónicas. Que sicrana é belíssima. Mas há dez anos atrás, as mulheres ainda afirmavam não saber apreciar mulheres, mentira piedosa da qual me fui rindo em silêncio.

Embora custe a crer, a cervejola tem sido o principal obstáculo à progressão da portuguesa no mundo do futebol. A cervejola lusa amarga que se farta, mesmo gelada, mesmo a morrer de sede, e não fosse a ajuda do panaché, mais leve de sabor, enfim, bebível, e, recentemente, a bela ideia das cervejeiras, com as green, as pêssego, as framboesa... tudo teria sido mais difícil.

Mas repetir comportamentos masculinos, reforçando-os, para provar serem suas iguais, só seria útil aos grupos sociais se os homens fossem realmente o sexo forte. Nunca foram. E a nós também não nos interessará enfatizar tal concepção muscular e emocional de fraco e forte.
Esse tem sido o grande erro das mulheres: quererem ser aquilo que eles não provaram ser! Quem quer ser homem como os homens? Nem eles!
Evidentemente, a entrada das mulheres neste "pequeno" mundo do futebol não foi conquista alguma. Os homens também se adaptaram?! Passaram a gostar de patinagem no gelo, de néctares de pêssego?! Começaram a admitir que sabiam apreciar gajos?! Que fulano de tal, afinal, era giro?! Não me parece. Portanto, se apenas uma parte da população adaptou novos comportamentos, tudo ficou igual.
Temos, pois, que as mulheres permanecem doces e suaves, mas podem filiar-se no território dos homens, até porque são decorativas, dão graça, alegram. E que os homens continuam durões, aceitando mulheres doces e suaves filiadas no seu território - até lhes dá jeito tê-las à mão - mas, atenção, mantêm-se durões.
Isto foi só o princípio.

Depois, veio o Europeu, a seguir o Mundial - ou ao contrário, sei lá - ambos com a respectiva praga de bandeiras portuguesas, e de efeito pátria. Gostar de futebol já não era apenas gostar de algo pertencente ao território masculino, ao qual passámos a ter acesso. Gostar de futebol era também ser bom português, ou boa portuguesa. E isso contou muito.
Era verão, estava calor, passarinhas e passarões ferviam de exaltação. Sabia bem brincar ao Carnaval, ao final da tarde, depois dos caracóis na esplanada. Era um espectáculo de massas, martelado até ao esgotamento por todas as televisões, em todos os noticiários maiores e menores, e na publicidade, por fios de horas, de fios de horas. A mensagem visual transmitida pelos media, e publicidade, em concorrência, envolvendo mulheres jovens, bonitas e seminuas, ou velhotas gordas, de bata e lenço na cabeça, sacudindo bandeiras nacionais ou ramalhetes de panos da cozinha verdes e vermelhos agradou ao marketing do espectáculo. Promovia-o. Engrandecia-o. Gerava mais receitas. Portanto, a visibilidade das mulheres envolvidas no espectáculo de massas, chamou mais mulheres.
Creio que grandes finais internacionais de futebol desta década terão restabelecido os caudais mínimos de comunicação em muitos casamentos perto do estado pantanoso. De repente, a conversa animou ao jantar. Como tinha sido o jogo de ontem, e a seguir quem jogava com quem, que prognóstico era possível fazer... Nunca as portuguesas aprenderam tanto vocabulário técnico-desportivo em tão pouco tempo: marcar um canto, penalti, falta disto e daquilo... foi uma verdadeira acção de formação nacional massiva.

Acrescente-se-lhe, agora o salutar hábito conjugal mediterrânico, que em Portugal se respeita: gaja que é gaja, e gosta do seu gajo, esforça-se por dialogar com o dito - vem nos conselhos da revista Maria sobre como manter a magia no casamento. Se o seboso só consegue falar de futebol, fale-se de futebol; se não é possível ir com ele a mais lado nenhum, excepto o estádio, ou o café com écran gigante e Eurosport, venha de lá estádio e café com écran e Eurosport, porque, em Portugal, e isto aprende-se cedo, aprende-se em casa, mulher que é mulher, esforça-se primeiro por agradar ao seu homem, e depois logo se vê se vale a pena respirar, viver para além dele.

Resumindo, que isto do futebol cansa-me, e excluindo desta conversa aquelas mulheres que sempre gostaram genuinamente de futebol, porque sempre gostaram de desporto, tal como muitos homens sempre gostaram genuinamente de patinagem no gelo, a maior parte das portuguesas da minha geração, e da que me precede, aprenderam a gostar futebol por motivo bastante ordinário: a integração num grupo de homens - agradar aos companheiros conjugais, de forma geral; acompanhar marido e os filhos; responder às bocas no horário de trabalho ou fora dele, com colegas.

No entanto, é muito provável que a actual tendência acabe por gerar um interesse verdadeiro nas raparigas das gerações futuras. O impacto do futebol junto das mulheres vai, certamente, implicar alterações culturais, e o futebol deixará de ser um feudo masculino. Espero que sim. Resta-me esperar, igualmente, que o futebol se transforme em efectivo desporto, não num mafioso reduto de violência, dentro e fora do campo, ou não as servirá a elas, tal como não os tem servido a eles.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...