sexta-feira, junho 22, 2007

Pela estrada dentro



Não há pessoas simples. Nem histórias. Nem vidas. Simples. As histórias a que chamamos simples são uma fina teia de complexidades invisíveis e caladas que se aceitaram. Aí está a simplicidade. Nessa aceitação.
A metáfora total está nas histórias simples on the road.
Há uma estrada que é necessário percorrer, seja qual for o meio. Esse caminho é tudo o que queremos, precisamos fazer. Atravessamos campos de trabalho ao sol, à chuva, pela turvação do pó do trigo levantado, pela claridade do amanhecer, do entardecer, para chegar a um lugar que não sabemos muito bem onde fica, mas é lá longe. Aí faremos as pazes com o nosso irmão desavindo. Connosco. Podemos estrebuchar, mas, no final, no que toca aos outros, e a nós, resta-nos aceitar, sorrir e calar. Parece tão simples, não parece?!






Fotogramas de Uma História Simples, de David Lynch

quinta-feira, junho 21, 2007

Os cornos do diabo

Por que é que o cidadão Sócrates processa o autor de Do Portugal Profundo e não o jornal Público?

1 - Porque o Do Portugal Profundo acertou com os dedos todos na ferida.
2 - Porque o
Público não é uma "fonte muito perto da fonte" que lhe interesse calar.
3 - Porque a comunicação social "organizada" é controlável.
4 - Porque a blogosfera ganhou mais poder como veículo de opinião.
5 - Porque a única oposição relevante se situa na blogosfera, não na comunicação social (a oposição eleita democraticamente, e com assento na Assembleia da República, limita-se a ver os bois passar - desculpem a informação redundante.)
6 - Porque o cidadão Sócrates tem mais medo à blogosfera que aos cornos do diabo, e nos quer avisarzinho, e amedrontarzinho, para a gente ter cuidadinho com o tecladozinho, z, z, z.

terça-feira, junho 19, 2007

De Bruxelas para a Benard, só para tomar chá com com uns amigos

Serviço de chá e café em prata autêntica, constituído por cinco peças requintadamente decoradas, e respectivo tabuleiro.


Isto são pérolas a porcos, sendo que os porcos somos nós, é claro.

Terça-feira, Junho 19, 2007
MUNDO MODERNO

Uma amiga minha, belga, com perto de 80 anos, tradutora de poetas portugueses, volta não volta mete-se no avião em Bruxelas para vir a Lisboa almoçar ou tomar chá com dois ou três amigos. Vem no voo das 7 da manhã, regressa no das 7 da tarde. Ontem foi um desses dias. Vá-se lá saber porquê, às 16:10h teve um colapso na esplanada da Benard. Estava um indivíduo (encostado às montras do Paris em Lisboa) a tocar um batuque infernal, e eu até relacionei uma coisa com a outra. Rapidamente, um poeta que estava connosco ligou para o 112 e uma equipa do INEM chegou ao Chiado em três minutos. A minha amiga tinha entretanto recuperado os sentidos, mas estava visivelmente abalada, com níveis de pressão baixíssimos. A equipa do INEM foi eficiente e gentil durante os cerca de vinte minutos em que esteve com ela. Depois a minha amiga foi para o aeroporto, onde o pessoal da companhia belga foi alertado para o ocorrido. A ideia era olharem por ela. Que sim, não se preocupem. Mas no momento do check-in exigiram atestado médico. A minha amiga não tinha atestado, não embarcou. Foi dali para Santa Maria, onde lhe fizeram exames até às 3 da madrugada. Às 4 teve alta. Às quatro da madrugada. Podia, se quisesse, ficar sentada na sala de espera. Ficou. Àquela hora não lhe passou pela cabeça incomodar ninguém. Às 6 foi para a Portela. O primeiro avião onde teve lugar (e foi preciso comprar outro bilhete, claro) foi o que saiu às 09:45h. O século XXI é isto, na sua forma mais exacta.

Etiquetas: Saúde, Sociedade

posted by Eduardo Pitta at 7:00 PM

Insegurança Social Total



Nem todos os textos são fáceis. Este tenho-o adiado.
O caso da professora de Cacia - Aveiro que sofria de leucemia, e à qual não só não foi concedida a justa reforma por invalidez, como negada a baixa médica, obrigando-a a trabalhar em sofrimento até à morte, é de uma tal gravidade que me pergunto o que estamos a fazer frente aos computadores? Por que não estamos lá fora no Terreiro do Paço, frente à Assembleia da República, nas ruas, manifestando luto e repúdio e raiva pelo desrespeito, desamparo mortais a que foi condenada? Estamos calados porquê? Com medo de quê, exactamente? De nos "aleijarmos" porque pensamos, porque nos manifestamos?
E os colegas? E os alunos? Os pais do alunos? E o Sindicato de Professores? Como é que um caso desta gravidade só é revelado após a morte da professora?

Isto não foi um engano que se cometeu com a professora de Aveiro. Isto é aquilo a que cada um de nós está condenado no dia em que não puder trabalhar.
Parece que não é com ninguém, que não toca a ninguém? Isto é o que nos vai acontecer quando precisarmos do apoio da Segurança Social para a qual contribuímos a cada salário.
O que este caso nos atira pelos olhos dentro é tão simples quanto isto: as juntas médicas a que são sujeitos os funcionários incapacitados, têm ordens para devolver aos serviços as pessoas que se encontram impossibilitadas de o realizar. Estão às ordens do poder político, não da saúde.
Ficamos a saber que as decisões dos clínicos que compõem as equipas que realizam as juntas do Ministério da Educação, e de outros, dependem, agora, não de diagnósticos comprovados medicamente, mas de decisões políticas, das que lhe pagam a avença. Executores, portanto. Que não se sentem na legítima obrigação de sobrepor a sua decisão clínica a uma qualquer decisão administrativa da Insegurança Social.
Como cidadã portuguesa, contribuinte, e ser humano, quero que me expliquem muito bem, e depressa, porque vêm aí as férias de Verão, as razões por que não o fizeram. Por que código deontológico se regeram, neste caso?

Por outro lado, as escolas foram já informadas sobre como proceder no caso de professores que sofram de doenças incapacitantes, inclusive as contraídas no exercício da actividade - facilmente comprováveis, e na grande maioria relacionadas com o foro psiquiátrico ou a especialidade de otorrinolaringologia: estes não poderão ver a sua componente lectiva convertida noutro tipo de trabalho dentro das instituições.

Um docente que tenha contraído cancro nas cordas vocais ao longo dos anos de exercício, e mesmo recuperado após operação, caso não esteja habilitado a leccionar (após remoção das cordas vocais, dificilmente!), não poderá realizar tarefas de carácter pedagógico, didáctico, administrativo, de apoio às actividades curriculares e extracurriculares, essenciais ao funcionamento das escolas. Não poderá trabalhar na planificação, realização, coordenação de actividades, provas, exames; não poderá ocupar-se do apoio a espaços como uma sala de estudo, uma mediateca ou uma biblioteca. Não podendo leccionar, restar-lhe-á apresentar atestado médico após atestado médico, recebendo, desta forma, avaliação anual negativa por falta de assiduidade, e sendo rapidamente colocado nos excedentários.

Quem adoece, entra, portanto, em situação de despedimento por justa causa, sem direito a reforma por invalidez. Os doentes são excedentes. Quem deu os seus melhores anos a uma profissão, e nela se incapacitou, perdeu o lugar. Perdeu o direito à protecção que qualquer honesto patrão garante, e para a qual contribuiu justamente. Tornou-se lixo. É esta a salvação do mundo que louva a rapaziada dos blogues aqui mesmo ao lado: o doce capitalismo louco e impiedoso que nos matará depressa. A mim, claro. À professora de Aveiro. E a vós, que me ledes pensando que sim, é verdade, mas é só com os outros.

"Porque temos de pensar só em nós, ser individualistas. Dar espaço ao privado. Ninguém por ninguém. Cada um por si. Cada um que se desenrasque. Como na América, esse paraíso."

O que aconteceu à professora de Aveiro foi simples: tinha leucemia. Era lixo. Merecia nada. Desenrascasse-se lá como quisesse ou pudesse. É o que nos vai acontecer se não mexemos uma palha, se continuarmos aqui muito sentadinhos a deixar que nos tomem pelos parvos que nem somos.

Quem não trata os alheios como gostaria que o tratassem a si, e aos seus, atropelando princípios básicos universais de solidariedade e justiça, deve ser julgado por crimes contra a humanidade. Aqueles que não matam com as suas mãos, mas assinam a mandar matar. Que delegam. Estes.
Proponho, assim, que o governo português, um colectivo de hipócritas, seja julgado, em tribunal internacional, por crimes contra a humanidade, por instauração da destruição sistemática dos sistemas legais de suporte de vida dos cidadãos que cumprem as obrigações que lhes são impostas.

Quero o Governo Português no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos como qualquer criminoso de baixa índole. Que é.

Temos de ir para a rua. Para a rua. Para a rua. Para a rua. E temos de ser muitos.


segunda-feira, junho 18, 2007

Flávia



Para Flávia, a velha dos gatos, que morreu há dias.


Era o fim desta tarde, e havia já sombra no baldio de ervas secas onde costumo levar as cadelas. E era tão triste essa sombra das sete. Fria, silenciosa, solitária como a mulher dos gatos que morreu há dias. Os caules secos das ervas altas tombavam-se uns nos outros, criando um barulho só, muito só, de palha que se emaranhava sem vida, como a mulher dos gatos que morreu há dias.
Que lugar tão solitário, e tão puro na réstia de luz que ainda escapava. Que lugar tão silencioso desse barulho que era uma dança seca. Tão puro, tão só, tão frio.
A velha dos gatos devia estar ao meu lado. Devia estar a contar-me, "o meu marido morreu muito novo. Depois morreu o meu filho. Tinha diabetes. Primeiro amputaram-lhe as pernas, coitadinho. Sofreu muito." A velha dos gatos devia estar a repetir-me a mesma história pela centésima vez, mesmo perto do meu ouvido. Mas agora eu não ouvia, e não pensava, "é como se estivesses morta - morreste com eles". Não podia. Agora eu não pensava, "fala, fala - alguém tem que te ouvir!"
A velha dos gatos morreu há uma semana, e eu sei que não abandonaria os seus queridos. Portanto, ali estava ela, velando pela comida deles, para que a Micas não fosse lambiscá-la, ou a chamá-la de longe, "minha querida, minha linda, estás tão gordinha", e eu, furiosa, porque me atrasava o passeio; eu que estou sempre com pressa.
A velha estava ali. No meio da erva seca, em pé, ao meu lado, contemplando a cadela, "que linda, que gordinha; só não quero que me vá comer a comida dos gatos; e a sua mãezinha, como vai?" Olhei para os dois lados. Para trás. Para a frente. Olhei mesmo, e hei-de ter acertado. Com os olhos postos adiante disse-lhe, "vai-te embora, Flávia, agora vai em paz. Aqui já não há nada para ti." E sei que chorou. Quem não choraria? Não é fácil ser-se mandado embora. Nem mandar. A Flávia sempre chorou como uma criança, e falava gemendo, e fazia-me chorar, como se eu não tivesse outra profissão. Chorar o choro dela.
Chamei a Micas. "Vamos embora. Está frio. São horas". A Flávia ficou a ver-nos partir, abraçada ao peito, como fazia, com os braços deformados. Abraçada ao velho peito só, e alheado. Abraçada com os gatos pretos e os gatos brancos e os gatos malhados, todos num grande molho que aquecia no encolhido peito oco.

domingo, junho 17, 2007

A minha cultura é melhor do que a tua?

Ingrid Bergman


À noitinha, estando na cozinha a preparar o jantar, ouço a banda sonora de um filme sueco na sala. A própria Ingrid Bergman está sentada na minha mesa, explicando ao Rosselini, pelo Skipe, com gravidade, os solavancos, as pausas próprios da língua eslava, por que motivo ele não pode ser tão latino, por que motivo tem de saber ouvir uma crítica e trabalhar em equipa.
E eu, entre o pastel de bacalhau e o arroz de tomate, sinto-me muito pequenina e dividida entre a sapiência da mamã e a intuição do papá.

sábado, junho 16, 2007

Altruísmo

Monika Wiechowska, Nude on a Sofa


Era uma mulher altruísta, e havia decidido doar o corpo à ciência. Mas a ciência, pensou, "era fria, e não fazia uso cabal de cada centímetro útil de pele arável" - era mais as entranhas: o coração, os fígados, e custava-lhe pensar nas suas partes tão queridas que seriam desperdiçadas, atiradas para a incineradora do hospital como uma vulgar perna amputada.
Por esse motivo, decidiu doar o corpo inteiro, ainda em vida, à associação de lésbicas do seu município, e foi muito mais feliz.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...