segunda-feira, julho 02, 2007
sexta-feira, junho 29, 2007
Psicanálise
O passado não nos procura, porque o passado acabou, mas nós perseguimo-lo, tão inocentes quanto incautos; seguimos a sua pista, alegando outros pretextos. Não, não, já não nos interessa o passado. Finish. Agora é sempre adiante. O que lá está, lá está. Agora, o presente, o futuro. Agora, a felicidade, justificamos.
É tudo isso, mas, no final de um percurso, ao parar para ver onde chegámos, à nossa frente, como novo, está o arame farpado de certas longínquas manhãs com excesso de luz. Foi sem querer que ali viemos ter. Mas queremos, então, resgatar os recortes da nossa pele que lá ficou presa, rasgada. Estamos a vê-los tão bem. O sangue ainda está tão fresco. Não murchou. Quem diria? Passados tantos anos. Precisamos de os coser depressa na carne que ainda está tão viva. Não sabíamos. Não sabíamos. Foi o destino.
É tudo isso, mas, no final de um percurso, ao parar para ver onde chegámos, à nossa frente, como novo, está o arame farpado de certas longínquas manhãs com excesso de luz. Foi sem querer que ali viemos ter. Mas queremos, então, resgatar os recortes da nossa pele que lá ficou presa, rasgada. Estamos a vê-los tão bem. O sangue ainda está tão fresco. Não murchou. Quem diria? Passados tantos anos. Precisamos de os coser depressa na carne que ainda está tão viva. Não sabíamos. Não sabíamos. Foi o destino.
Do desenrascanço em ditadura

Tenho uma ideia para contornar este lamentável imbróglio do deficit de liberdade de expressão, proibindo funcionários de manter a alegria no trabalho, ao afixar comentários jocosos sobre o patrão ou patroa, nos placards do emprego.
Façamos assim: os funcionários do BCP pedem aos seus amigos e familiares funcionários públicos que afixem as expressivas mensagens de indignação nos placards dos ministérios onde trabalham. Por sua vez, os funcionários do banco encarregam-se de colar por todos os BCP's do universo fotocópias do certificado de habilitações do cidadão Sócrates.
Dentro da função pública, o problema pode resolver-se da seguinte forma: o pessoal médico entrega caricaturas do ministro, e respectivas legendas jocosas, aos funcionários do ministério da educação, para abundante afixação pelas escolas. Os funcionários da educação, por sua vez, carregam o pessoal médico de panfletos a espalhar por hospitais, e centros de saúde, com a carantonha da ministra lamentando-se: "diz-me, espelho meu, porque tenho medo, tanto, tanto medo de ir às escolas com aviso prévio?"
E assim já ninguém pode ver-se acusado de estar a gozar o patrão dentro do próprio local de trabalho.
quinta-feira, junho 28, 2007
O princípio, o meio e o fim
Do meu conhecimento da história das ideias, parece-me poder concluir que as culturas atravessam períodos de tirania cíclica - têm um final, mas, enquanto vigoram, matam mais do que moem.
Tive a sorte de nascer nos anos 60, pelo que pude crescer rodeada de mensagens de amor e revolta. Foi um tempo inseguro e violento, por momentos fervente, histérico, mas via-se luz ao fundo. Era uma luz intensa; haveríamos de lá chegar; aconteceria paz e desafogo. Liberdade. Sei que acreditámos colectivamente nessa luz.
Não consigo, por isso, reconhecer esta época de trevas e betão, povoada de gente engravatada, que se vê na rua à hora do almoço, e ao final a tarde, uniformizada em fatos da mesma cor e corte, parecendo sorrir, mas assaltada de fobias relacionadas com o outro: comunicar, sentir afecto, solidariedade. Para não ofender sensibilidades, não mencionarei o tocar. Não se mexe com as mãos. Com nada. Em nada. As pessoas cumprimentam-se indiferentemente. Ou desprezam-se e odeiam-se, sem se conhecerem, como nunca antes havia presenciado.
São pessoas para quem uma empresa e um país não se gerem com o coração.
Os nazis também diziam aos filhos, ao almoço, "sim, Gunter, claro que podemos fazer o funeral ao teu canário, mas há outras coisas em que não se pode pensar com o coração". Depois, saíam para lá dos seus portões, e ordenavam que se ligasse a câmara de gás principal, ou se realizasse a execução das 14 horas; o que era bem pior do que ligá-la eles, ou executarem quem haveria de ser executado, pelos seus próprios meios. É exactamente o mesmo tipo de gente subserviente, pequena, pronta a seguir o clube que ganha, desde que ganhe também, e pronta a mandar.
Algumas pessoas estão tão certas de que o coração não serve para tudo, que bem poderiam deitá-lo fora em qualquer contentor para resíduos organicos. Tenho boas razões para suspeitar que uma boa parte já o tenha feito. São os mortos-vivos da actual economia de consumo. De vez em quando passam por mim. Reconheço-os pelo cheiro putrefacto a impiedade.
Tive a sorte de nascer nos anos 60, pelo que pude crescer rodeada de mensagens de amor e revolta. Foi um tempo inseguro e violento, por momentos fervente, histérico, mas via-se luz ao fundo. Era uma luz intensa; haveríamos de lá chegar; aconteceria paz e desafogo. Liberdade. Sei que acreditámos colectivamente nessa luz.
Não consigo, por isso, reconhecer esta época de trevas e betão, povoada de gente engravatada, que se vê na rua à hora do almoço, e ao final a tarde, uniformizada em fatos da mesma cor e corte, parecendo sorrir, mas assaltada de fobias relacionadas com o outro: comunicar, sentir afecto, solidariedade. Para não ofender sensibilidades, não mencionarei o tocar. Não se mexe com as mãos. Com nada. Em nada. As pessoas cumprimentam-se indiferentemente. Ou desprezam-se e odeiam-se, sem se conhecerem, como nunca antes havia presenciado.
São pessoas para quem uma empresa e um país não se gerem com o coração.
Os nazis também diziam aos filhos, ao almoço, "sim, Gunter, claro que podemos fazer o funeral ao teu canário, mas há outras coisas em que não se pode pensar com o coração". Depois, saíam para lá dos seus portões, e ordenavam que se ligasse a câmara de gás principal, ou se realizasse a execução das 14 horas; o que era bem pior do que ligá-la eles, ou executarem quem haveria de ser executado, pelos seus próprios meios. É exactamente o mesmo tipo de gente subserviente, pequena, pronta a seguir o clube que ganha, desde que ganhe também, e pronta a mandar.
Algumas pessoas estão tão certas de que o coração não serve para tudo, que bem poderiam deitá-lo fora em qualquer contentor para resíduos organicos. Tenho boas razões para suspeitar que uma boa parte já o tenha feito. São os mortos-vivos da actual economia de consumo. De vez em quando passam por mim. Reconheço-os pelo cheiro putrefacto a impiedade.
terça-feira, junho 26, 2007
Um número ao serviço do sistema
Para conseguir resolver o que de mais ordinário existe na minha vida, dependo de sequências de algarismos constituídas por 4 a 9 unidades. Códigos.
Há uns anos anotava-os todos com letra muito pequenina num papelinho que escondia na mala de mão. Não é que fosse ingénua, mas sempre confiei demais, acrescentando a mania de que existem ocorrências, as quais, pela lei das probabilidades, dificilmente me baterão à porta. Penso eu. Depois, sou muito dada à descontracção. E é isso que me vai vencendo.
Há uns anos, quando o meu pai morreu, deixei a mala de mão na bagageira do carro, enquanto desci ao cemitério para enterrá-lo. Ao regressar, não havia mala nem documentos nem crédito bancário. Haver carro foi sorte. Chamo-lhe o dia em que perdi tudo, mas depois houve outros. Há sempre alguma coisa para perder a seguir.
Também para ganhar, mas, no meu caso, não facilitemos.
Nesse ano mudei de táctica. Passei a decorar todos os códigos de que preciso.

Descobri que o meu cérebro funciona de forma peculiar. Associa sequências a contextos. Não tenho sequer consciência de que decorei todos esses conjuntos numéricos. Nem nunca me lembro deles, com medo de os esquecer. Vamos supor que alguém me pergunta, frente a uma máquina Multibanco, qual é o código-pin do meu telemóvel. Não faço ideia. Tal como na caixa do Jumbo só sei o código do cartão Jumbo.
Hoje, por exemplo, tentei usar, num computador alheio, uma sequência de nove algarismos que tenho por hábito digitar no meu computador. Nunca me esforço por recordar esta difícil sequência, mas quando entro no site, a partir de casa, ela surge-me do céu como uma divina benção de memória. Hoje, noutro computador, era o lembravas! Foi preciso chegar a casa. E em casa, sim, sem problema algum, o código saiu-me inteirinho.
Isto lembra-me as fiadas de orações da minha mãe. A minha mãe sabe de cor umas trezentas orações, mas não me saberá repetir, se lho pedir, um parágrafo daqui ou dali. Sabe cantar-me a oração toda, de rajada, sem pensar.
"Queres o quê? O responso ao Santo António?!" E desfia-o. Mas se lhe pergunto qual a última frase da responso, tem de o repetir todo, de novo.
Para escrever este poste rabisquei numa folha, seguidos, sem pensar, todos os códigos que sei de cor para me identificar, e poder aceder, hoje em dia, seja ao que for. Quis contá-los. São 23. Os que sei. Porque depois há os que uso menos e que estarão algures onde nunca os encontrarei. Uns dias antes de precisar de os usar, hei-de pedir segunda via. É certinho.
Não imaginava ter memorizado 23 códigos essenciais à vida social, civil, financeira, profissional. Ou seja, 23 nomes para além do que tenho no bilhete de identidade, o qual, na verdade, de nada me serve. Chamar-me Isabela ou Florbela, que interessa isso nos dias de hoje?! O que interessa mesmo é ser o 357892 para X e o 9073 para Y.
Vinte e três sequências de números! Vinte e três nomes! Uma pessoa tem de pensar nisto. Quem é que imaginou, quando criança, que a possibilidade de uma vida adulta normal, integrada no sistema, no segundo milénio, implicaria a aprendizagem de códigos de identificação que tornariam os nossos nomes tão pouco importantes?!
Eu, que treinei a minha assinatura, em cadernos, até à exaustão do papel e da tinta! O que vale agora a minha assinatura? Para que serve o meu nome?
Como poderia imaginar que viria a ser apenas um conjunto de códigos ao serviço do sistema e prontos para servi-lo?
Há uns anos anotava-os todos com letra muito pequenina num papelinho que escondia na mala de mão. Não é que fosse ingénua, mas sempre confiei demais, acrescentando a mania de que existem ocorrências, as quais, pela lei das probabilidades, dificilmente me baterão à porta. Penso eu. Depois, sou muito dada à descontracção. E é isso que me vai vencendo.
Há uns anos, quando o meu pai morreu, deixei a mala de mão na bagageira do carro, enquanto desci ao cemitério para enterrá-lo. Ao regressar, não havia mala nem documentos nem crédito bancário. Haver carro foi sorte. Chamo-lhe o dia em que perdi tudo, mas depois houve outros. Há sempre alguma coisa para perder a seguir.
Também para ganhar, mas, no meu caso, não facilitemos.
Nesse ano mudei de táctica. Passei a decorar todos os códigos de que preciso.

Descobri que o meu cérebro funciona de forma peculiar. Associa sequências a contextos. Não tenho sequer consciência de que decorei todos esses conjuntos numéricos. Nem nunca me lembro deles, com medo de os esquecer. Vamos supor que alguém me pergunta, frente a uma máquina Multibanco, qual é o código-pin do meu telemóvel. Não faço ideia. Tal como na caixa do Jumbo só sei o código do cartão Jumbo.
Hoje, por exemplo, tentei usar, num computador alheio, uma sequência de nove algarismos que tenho por hábito digitar no meu computador. Nunca me esforço por recordar esta difícil sequência, mas quando entro no site, a partir de casa, ela surge-me do céu como uma divina benção de memória. Hoje, noutro computador, era o lembravas! Foi preciso chegar a casa. E em casa, sim, sem problema algum, o código saiu-me inteirinho.
Isto lembra-me as fiadas de orações da minha mãe. A minha mãe sabe de cor umas trezentas orações, mas não me saberá repetir, se lho pedir, um parágrafo daqui ou dali. Sabe cantar-me a oração toda, de rajada, sem pensar.
"Queres o quê? O responso ao Santo António?!" E desfia-o. Mas se lhe pergunto qual a última frase da responso, tem de o repetir todo, de novo.
Para escrever este poste rabisquei numa folha, seguidos, sem pensar, todos os códigos que sei de cor para me identificar, e poder aceder, hoje em dia, seja ao que for. Quis contá-los. São 23. Os que sei. Porque depois há os que uso menos e que estarão algures onde nunca os encontrarei. Uns dias antes de precisar de os usar, hei-de pedir segunda via. É certinho.
Não imaginava ter memorizado 23 códigos essenciais à vida social, civil, financeira, profissional. Ou seja, 23 nomes para além do que tenho no bilhete de identidade, o qual, na verdade, de nada me serve. Chamar-me Isabela ou Florbela, que interessa isso nos dias de hoje?! O que interessa mesmo é ser o 357892 para X e o 9073 para Y.
Vinte e três sequências de números! Vinte e três nomes! Uma pessoa tem de pensar nisto. Quem é que imaginou, quando criança, que a possibilidade de uma vida adulta normal, integrada no sistema, no segundo milénio, implicaria a aprendizagem de códigos de identificação que tornariam os nossos nomes tão pouco importantes?!
Eu, que treinei a minha assinatura, em cadernos, até à exaustão do papel e da tinta! O que vale agora a minha assinatura? Para que serve o meu nome?
Como poderia imaginar que viria a ser apenas um conjunto de códigos ao serviço do sistema e prontos para servi-lo?
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...

