
Paulo Macedo, ex-director da Direcção-Geral das Contribuições e Impostos, deu uma entrevista ao Expresso desta semana, na qual "aceitou falar um pouco de si, mas sempre de forma contida e discreta."
É o que se pode ler na página 48 do referido semanário.
Parei e reli as últimas palavras da introdução: "sempre de forma contida e discreta". É isto que os portugueses mais desejam ser: contidos e discretos. Quem é contido e discreto sabe estar. Sabe imenso estar. É o tipo de sabedoria que emburrece, limita, e me irrita até às profundezas da minha ténue paciência, perdoe-se-me o paradoxo.
Contidos e discretos: mas que desperdício de tempo à vida, e que tédio!
A minha prima afastada, boa portuguesa, e excelente rapariga, passa a vida a repreender-me sobre um enorme defeito que não tenho sido capaz corrigir; tentando reproduzir mais ou menos as suas palavras, afirma ela que sou como um animal: quando tenho fome, como; se tenho sede, bebo; se me apetece falar, falo; se é para gritar, grito; se quero ir à casa-de-banho, arranjo maneira; se tenho sono, deito-me; quando acordo, levanto-me; se me dói, queixo-me; se tenho gozo, manifesto-me; quando me apetece cantar e dançar, canto e danço; se tenho dúvidas, pergunto; se tenho vontade de suspirar, suspiro; se me apetece bocejar, bocejo; se estou farta, nota-se, e se não estou, também; quando quero dizer sim, assinto; se é para negar, nego; se estou interessada em ver e ouvir, vejo e ouço ilimitadamente, e sem cerimónias; se sinto frio, tapo-me; quando me sobem os calores, destapo-me... e a lista, senhoras e senhores, é interminável.
A moça tem razão: sou um habilitadíssimo animal. Tenho reacções. Mexo-me. O meu rosto regista expressões visíveis a olho nu. Ocupo espaço, realmente. Não se pode sair comigo à rua. Não se me pode levar a casa de ninguém. Sítios chiques é melhor esquecer. Sou um bicho. O sonho de qualquer Dadinho Pitta seria transformar-me numa fair lady, enquanto eu lhe gritaria, "deslarga-me: quero bazar da loja gurmé" e "fizestes pouco de mim, à séria, quando descobristes tipo quanto é que eu ganhava na fábrica".
Claro que tal constatação sobre os meus comportamentos associais me deixa desolada. Após as críticas da minha prima afastada, e enquanto enquanto penso nas inegáveis contra-indicações deste assinalável defeito, costumo perguntar-lhe se parece mal respirar caso sinta que me falta o ar nos pulmões. Os animais respiram, periodicamente, e receio que o bafo da respiração possa não ser suficientemente contido e discreto. Claro que posso sempre respirar às escondidas, tal e qual como quando me atiro aos pastéis de nata, mas o que não quero é que se perceba que estou viva, de forma alguma.