segunda-feira, agosto 13, 2007

A anglofonia global

Estas citações que agora se põem, em inglês, nas colunas laterais dos blogues, no meu tempo - gosto tanto de dizer isto: nos blogues do meu tempo! - eram todas em francês. E a gente gostava. E era muito mais bonito. O inglês é uma língua muito gráfica. Ça y est.


Contidos e discretos como uma pedra gasta na calçada


Paulo Macedo, ex-director da Direcção-Geral das Contribuições e Impostos, deu uma entrevista ao Expresso desta semana, na qual "aceitou falar um pouco de si, mas sempre de forma contida e discreta."
É o que se pode ler na página 48 do referido semanário.
Parei e reli as últimas palavras da introdução: "sempre de forma contida e discreta".
É isto que os portugueses mais desejam ser: contidos e discretos. Quem é contido e discreto sabe estar. Sabe imenso estar. É o tipo de sabedoria que emburrece, limita, e me irrita até às profundezas da minha ténue paciência, perdoe-se-me o paradoxo.
Contidos e discretos: mas que desperdício de tempo à vida, e que tédio!
A minha prima afastada, boa portuguesa, e excelente rapariga, passa a vida a repreender-me sobre um enorme defeito que não tenho sido capaz corrigir; tentando reproduzir mais ou menos as suas palavras, afirma ela que sou como um animal: quando tenho fome, como; se tenho sede, bebo; se me apetece falar, falo; se é para gritar, grito; se quero ir à casa-de-banho, arranjo maneira; se tenho sono, deito-me; quando acordo, levanto-me; se me dói, queixo-me; se tenho gozo, manifesto-me; quando me apetece cantar e dançar, canto e danço; se tenho dúvidas, pergunto; se tenho vontade de suspirar, suspiro; se me apetece bocejar, bocejo; se estou farta, nota-se, e se não estou, também; quando quero dizer sim, assinto; se é para negar, nego; se estou interessada em ver e ouvir, vejo e ouço ilimitadamente, e sem cerimónias; se sinto frio, tapo-me; quando me sobem os calores, destapo-me... e a lista, senhoras e senhores, é interminável.
A moça tem razão: sou um habilitadíssimo animal. Tenho reacções. Mexo-me. O meu rosto regista expressões visíveis a olho nu. Ocupo espaço, realmente. Não se pode sair comigo à rua. Não se me pode levar a casa de ninguém. Sítios chiques é melhor esquecer. Sou um bicho. O sonho de qualquer Dadinho Pitta seria transformar-me numa
fair lady, enquanto eu lhe gritaria, "deslarga-me: quero bazar da loja gurmé" e "fizestes pouco de mim, à séria, quando descobristes tipo quanto é que eu ganhava na fábrica".
Claro que tal constatação sobre os meus comportamentos associais me deixa desolada. Após as críticas da minha prima afastada, e enquanto enquanto penso nas inegáveis contra-indicações deste assinalável defeito, costumo perguntar-lhe se parece mal respirar caso sinta que me falta o ar nos pulmões. Os animais respiram, periodicamente, e receio que o bafo da respiração possa não ser suficientemente contido e discreto. Claro que posso sempre respirar às escondidas, tal e qual como quando me atiro aos pastéis de nata, mas o que não quero é que se perceba que estou viva, de forma alguma.




domingo, agosto 12, 2007

É só para a posteridade

Pintura italiana do século XVII.
Retrato de um senhor que também gostava muito de croissantes com fiambre, e de massa com queijo, manjericão e azeite.



Certas funcionalidades das máquinas fotográficas digitais vieram infernizar qualquer inocente fotografia de férias. O zoom, por exemplo, serve apenas para confirmar que já não somos o que ainda imaginaríamos ser, com boa vontade: as manchas na cara, os dentes mais escuros, a falta de pêlo na cabeça e o seu excesso no bigode, a celulite no rabo, uma borbulha que pensávamos ter conseguido disfarçar, as olheiras, a papada, a filha-da-puta da papada... nada engana.
Os instantâneos de férias são o espelho desenfeitiçado da madrasta da Branca de Neve. Não há tempo para perguntar, "diz-me, espelho meu..." Eles dizem-nos cruamente o que não quisemos perguntar nem conseguimos compreender: «Eis a figura que nunca escolherias no catálogo de aspectos. És aquela olheirenta. Vai ali uma gorda de costas, e és tu. Olha os teus dentes. Sim, fazes esta expressão com frequência. As sobrancelhas mal arranjadas?! Não gostas?! És uma mera figura do catálogo da biologia. Quando te moves, gesticulas, falas, ris, amuas, sentes-te uma personagem parecida contigo, mas que não és tu. Detestas-te. És ridícula, não és?! És tu. Isto és tu. Isto é o que os outros vêem, quando te vêem.»

E depois, num segundo momento, pensando bem, qual é o problema de se ser inevitavelmente aquilo que se é? Uma mulher de 30 ou 40, igual a todas as outras, sobre quem não se pensa nada de especial. Que bom! Aquela que vai deitar o lixo às 20, depois do jantar, com chinelos amarelos de enfiar no dedo. A que passeia os cães. A que tem o Opel Corsa azul. A mãe da miúda que namora nas escadas. É simpática? Sorri? Então é bonita. Que maravilha ser apenas um ser humano cuja riqueza depende de um sorriso, de uma palavra agradável.

Outra funcionalidade das modernas máquinas digitais socorre-nos, calando a amarga voz da inimputável lente: o botão do lixo. Carrega-se, e o sistema pergunta-nos, "deseja apagar esta imagem?" Sim, sim. Clique. Imagem apagada. Que alívio. Fintámos o espelho. Continuem a ver-nos como quiserem; como somos. Que interessa? Sei bem que sou uma princesa etérea, toda em ouro, chifon cor-de-rosa e azul-celeste, como nas mais belas ilustrações dos livros infantis que ainda recordo.


sábado, agosto 11, 2007

A maldição das solteironas


O técnico veio recolher o frigorífico às nove da matina. Estava eu a dormir com a minha Moreninha quase em cima da cabeça e a minha Micas no tapete, as três muito felizes e maravilhosamente acompanhadas.
Tocou. Anunciou "frigorífico"; respondi "um bocadinho, se faz favor"; lavei a cara, equilibrei os óculos, penteei-me desastrosamente, e vesti um roupão ridículo do qual toda a gente se ri, mas que me recuso a pôr de lado, porque foi a minha mãe que mo fez, que o desenhou, cortou e coseu, e hei-de usá-lo até se esfarrapar.
O homem já assobiava quando lhe abri a porta. Entrou com um ar muito sábio e expedito, desejoso de debitar a sua moral electrodoméstica, e explicou, olhando para o frigorífico, não para mim, que afinal tinha conseguido "vir mais cedo", ao que lhe respondi mentalmente, "estou a rebentar de felicidade". Rapidamente deslocou o frigorífico do seu lugar e o carregou para fora, ajudado pelo filho de 12 anos, que vestia uma t-shirt com um horrível boneco cornudo fazendo um pirete.
Despediu-se, desejando umas "boas férias para os senhores". Ora, vejamos: ontem, quando o homem cá veio diagnosticar o problema, estava sozinha; hoje, ao abrir-lhe a porta, estava sozinha... terá o homem visto na minha casa companhia que para mim é invisível?!
Isto das solteironas, agora, é uma chatice, sobretudo porque já não parecem solteironas. Vivem em casas normais, vestem-se normalmente, não escondem os bicos das mamas inteiriçados, não são púdicas, não se levantam cedo, não vão à missa, não sorriem timidamente, são umas chatas insubmissas, reclamam, resolvem os problemas sozinhas tornando obsoleta a ancestral protecção masculina, são excelentes, são bonitas, são desejáveis mas nem por isso fáceis. Como identificar hoje uma solteirona? Como pode o velho mundo reconhecer numa enorme solteirona, enormemente feliz, a solteirona estereotipada dos tempos em que uma mulher precisava de um casamento para existir? Não pode. Não consegue. Ainda não consegue.

sexta-feira, agosto 10, 2007

O frigorífico e a amêijoa - duas histórias que quase se encontravam


1. O frigorífico avariou. Um furo na tubagem do gás refrigerante, esperando não estar a dizer nenhuma asneira.
Custo do arranjo: 140 euros; porque agora vai levar um kit em alumínio, "da cor das calças que a senhora traz", adaptado ao interior, e o material é caro, e mais conversa, que não pedi, sobre as mais-valias dos electrodomésticos "de qualidade", contra a fancaria dos que se compram nas grandes superfícies. Blá, blá, blá. O técnico. Que deve ter uma loja. E uma vivenda. E um Mercedes para o fim-de-semana. E um combinado deluxe em cada assoalhada. Certo. 140 euros.

2. Almocei uma deliciosa amêijoa vietnamita, cozinhada pela minha mãe, com cebola e coentros. Comprei-a congelada, no Jumbo, a 2 euros e meio o quilo. Feita a digestão, ainda não tive dores de estômago. Parece, portanto, que sobrevivi à maldição do produto congelado, esse mito urbano pouco explorado. Mas questiono como será possível transportar uns bichinhos congelados, do Vietnam e arredores, até à Europa, e colocá-los à venda a 2 euros o quilo, se o carapau na praça está a 4, no mínimo, e com o olho morto, e o técnico de frio me vai levar 140 mocas por uma peça que, de certeza, há-de vir da China.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Proibir Deus

Buda


O governo chinês decretou que o actual dalai lama, bem como linhagens antecedentes ou futuras são ilegais. Mais, que a sua reencarnação é proibida, bem como a de qualquer outro ser vivo racional ou irracional. Assim elimina o governo chinês a possibilidade de uma mosca da fruta regressar à vida como borboleta de colecção, se se portar bem nos caixotes da royal gala.
Não é que seja novidade, mas torna-se impossível não desenhar sorrisos irónicos perante as tentativas de intromissão dos poderes laicos nos religiosos, e vice-versa.
A Igreja Católica, pelo contrário, tem-se especializado em manobrar sombrias influências executivas e legislativas. Por outro lado, já todos vivemos para testemunhar poderes socialistas proibindo qualquer manifestação religiosa, incluindo católicas, e mesmo a existência de Deus. Em Portugal, durante bons anos após o 25 de Abril, esteve muito fora de moda a crença e prática religiosas. Deus mereceu umas boas risotas. Ultimamente, com a crise, andam todos no reiki. O nome do deus não interessa, mas apenas o que se faz em seu nome, e como.
Que Deus não existe! Por decreto. Que Deus é uma excelente narrativa criada pelos humanos, por medo ao caos existencial. Que se Deus existisse não permitiria a miséria e a dor. Para mim, os argumentos têm a sua graça.
Tal como teria muito mais graça se os governos, uma espécie de ficção-Páginas Amarelas criada pelos humanos, por medo ao caos existencial, existissem menos para proibir, e mais para remediar a miséria e a dor que eles próprios geram, e à qual são cegos e surdos. Mas Deus, claro, tem as costas largas.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...