domingo, agosto 19, 2007

Só enquanto a lei não contemplar o casamento de homossexuais, e além disso, agora, já não é pecado viver junto

D. José Saraiva Martins, ao Correio da Manhã de hoje:

"E a verdade é que os padres não querem casar."


Retórica de sacristia: as mulheres são demasiado bentas para o sacerdócio


D. José Saraiva Martins, ao Correio da Manhã, hoje.

(...)
– Há quem defenda que a crise de vocações se resolvia com a ordenação sacerdotal das mulheres.


– Estou certo de que a ordenação das mulheres nunca acontecerá.

– Porquê?

– Não sei porque é que esse problema se há-de colocar. As mulheres são preciosas para a Igreja e têm um vastíssimo campo de trabalho, no qual têm dado mostras de grande capacidade. Contudo, essa questão teológica da ordenação não deve ser colocada. É que não há no Evangelho nada que nos permita trilhar esse caminho. Além de toda a tradição histórica da Igreja. Repare: os apóstolos foram ordenados por Cristo e Nossa Senhora não. No entanto, no plano do culto, Nossa Senhora está acima dos apóstolos. Isto para dizer que as mulheres não precisam de ser ordenadas para atingir o mais alto do Céu.

– Mas há alguma questão teológica de fundo que impeça a ordenação das mulheres?

– Há, devido à linha de conduta traçada pelo Evangelho e que tem sido respeitada ao longo de dois mil anos de História. E não me parece que essa questão venha algum dia a ser resolvida. Eu sou a favor da mulher. Fui, enquanto reitor da Pontifícia Universidade Urbaniana, o primeiro a admitir uma mulher como professora de uma universidade do Papa. Mas o caso da ordenação sacerdotal é diferente e penso que, por impedimento dogmático, as mulheres nunca receberão o sacramento da Ordem.
(...)

Desobediência civil

Desejaria que a acção dos activistas ecológicos do Movimento Eufémia Verde, em Silves, ceifando um hectare de milho transgénico, não constituísse um mero acto isolado, mas desse início à formação de um saudável hábito generalizado de manifestação subversiva, o qual deveria ocorrer em todas as áreas da ditadura chamada democrática.
A desobediência civil colectiva é uma voz inesperada, incontrolável e eficaz, a usar com frequência sob o consulado dos corruptos desenrasca-diplomas.


O pensamento religioso


Gosto que os ateus me confrontem com os sete palmos abaixo de terra, e depois o nada, com o não-sentido da existência. Que puxem pelos meus incompreensíveis, improváveis argumentos de fé. O não-sentido da existência: eles têm razão. O grande paradoxo do ateísmo: um tão forte princípio religioso.

sábado, agosto 18, 2007

Uma diferença igual



Os biólogos do mundo antigo, frequentemente com idade para serem meus filhos, candidatando-se aos respectivos tabefes, pelam-se por aplicar ao ser humano as leis científicas da especialização de tarefas que parecem render no mundo animal, fazendo por esquecer que as mulheres e os homens são animais sociais.
Defendem os jovens investigadores, entre a muda das imberbes fraldas experimentais, que o macho recolhe o alimento e a fêmea cuida das crias, e por aí fora, e igualmente na família moderna, esquecendo que a família moderna é de uma plasticidade impossível de fixar, como sempre desejou ser, isto porque as mulheres e os homens são, de todos os animais, os mais criativos, desejosos e insatisfeitos - e contra isto nada pode a ciência, a não ser que nos encharque em benzodiazepinas.
João Miranda, investigador em biotecnologia, em crónica publicada no DN de hoje, serve-se da especialização de tarefas para defender a ideia de que a paridade é uma utopia, visto que homens e mulheres têm capacidades diferentes. Gostei muito! Sonho com o dia em que jovens cientistas tenham a gentileza de não insultar a minha inteligência com argumentos gastos. Que leiam qualquer coisa antes de escreverem as pérolas de macho com que me mimoseiam, e aos restantes leitores da Imprensa diária. Vão à Wikipédia. Não se promoverão por aí, entre universidades, encontros entre investigadores das diversas áreas? Seria do maior interesse realizar uns intercâmbios. Ou experimentar a vida real. Os diplomas da vida real costumam valer, e eu estou por tudo.

Escreve João Miranda que:

"A paridade, isto é, a ideia de que as profissões mais apetecíveis devem ter igual percentagem de homens e mulheres, é uma das utopias das democracias modernas. (...) A paridade tem levado, um pouco por todo o mundo, à criação de quotas na política, nos cargos dirigentes das empresas e nas universidades, mas não nos serviços de recolha de lixo ou na construção civil.
A paridade pressupõe que homens e mulheres têm, em média, as mesmas capacidades e as mesmas preferências. Mas a verdade é que as diferenças entre homens e mulheres são demasiado relevantes para serem ignoradas. (...)
E, muito importante, as mulheres são mais ligadas aos filhos que os homens. Estas diferenças têm uma origem biológica e cultural.(...)
A biologia, a cultura e a economia sugerem que homens e mulheres têm competências e preferências diferentes que levam à especialização de papéis e impedem a paridade em várias profissões. (...)"



E a coisa continua pelas raias da aberração.
Ora, a associação entre o comportamento humano e o de outros animais é, como se sabe, brutalmente perigosa e especulativa: se os comportamentos femininos e maternais do mundo animal pudessem transpor-se para a vida humana social tornar-se-ia legítimo que as fêmeas humanas matassem e comessem, inconsequentemente, os próprios filhos, após o parto? Ou abandonassem uns em detrimento de outros? No mundo animal, as fêmeas cuidam dos filhos enquanto estes não sobrevivem sozinhos. A partir desse momento, as crias tornam-se um peso, e as fêmeas estão-se bem nas tintas. A minha cadela Lili mordia na filha, perante a minha indignação, quando achou ter chegado a altura do desmame. Poderia eu dar uma dentada no meu filho quando já não me parecesse adequado continuar a amamentá-lo? Pô-lo a andar, olha, agora desenrasca-te?!

E que tremenda cegueira afirmar que os filhos desinteressam aos homens como aos cães, por razões biológicas e culturais. Se vejo alguma coisa interessar aos homens, são os filhos - território absolutamente sagrado nos casamentos, acima da união conjugal. Qualquer mulher, de qualquer tempo, sabe que se algum interesse segurou um homem a um casamento, por muito mau que fosse, foi um filho. Os filhos interessam-lhes, e como, e cada vez mais, conforme o mundo se vai tornando menos genderizado. Reparo que, em grande parte das famílias onde se dividem tarefas, se há especialização nos cuidados aos filhos, ela está cada vez mais reservada aos homens no que respeita a dar-lhes banho, alimentá-los, entretê-los, ajudá-los nas tarefas escolares e adormecê-los. Assisto a este fenómeno com bastante agrado. Por outro lado, consta que as mulheres, afinal, não sentem particular prazer em cuidar dos filhos, pelo menos a partir de certo momento. Segundo uma investigação realizada recentemente (li no mesmo DN, há semanas), a satisfação experimentada pelas mulheres quando se ocupam dos filhos é igual à que sentem enquanto realizam tarefas domésticas. Nem mais nem menos. E, sinceramente, ao pensar no trabalho que uma criança dá, concluo que deve ser bem mais relaxante lavar a louça, até mesmo limpar o pó ou passar a ferro.



É óbvio que mulheres e homens são seres biologicamente diferentes. É nisso que está a sua maravilha. Onde está a novidade disto?
Não tenho massa muscular para carregar baldes de massa, mas muito homens também não a terão. Por outro lado, não me parece que hoje se possa dizer que os homens são mais dotados para o cálculo matemático e as mulheres para as línguas. Não é o que vejo no mundo académico. O que vejo, sim, é as mulheres abdicarem de investigar e progredir nas carreiras para se dedicarem à família, o que de forma alguma as exclui de habilidades em cálculo. Tenho um amigo biólogo que adora picar-me com os lugares comuns debitados pela ciência recente sobre a alegada capacidade das mulheres para realizar inúmeras tarefas simultâneas, enquanto as considera más no que toca à orientação espacial. Como detesto estas conclusões que categorizam e restrigem. E como as temo. E como erram. Eu que até sou uma bússola ambulante que, por acaso, é incapaz de ouvir música enquanto escreve ou lê.
Espanta-me que o argumento da força física seja tão importante para alegar superioridade masculina, mas não para defender a prevalência de negros sobre brancos.




Pouco sei sobre leões e leoas, cavalos e éguas, mas imagino que sejam biologicamente diferentes, de igual forma! A reprodução da matéria viva precisa dessa diferença para se realizar. Por enquanto não há volta a dar. Parece-me muito lógico e natural que diferentes animais da mesma espécie possuam as mesmas aptidões em quantidade e qualidade diferentes. O macho não podia estar mais próximo da reprodução, mas tem nela um papel de quantidade e qualidade diferente a partir do momento da fecundação, o qual não lhe veda o acesso ao gozo da paternidade. A guarda conjunta dos filhos, em caso de separação dos casais, parece-me uma medida bastante justa, uma vez que atribui aos homens paridade enquanto pais e seres humanos. A paridade não é um conceito cuja justiça e eficácia dependa das diferentes aptidões dos sexos. A paridade reivindica uma intervenção o mais igual possível, que seja justa para os géneros, e deva estar por igual ao alcance de iguais. A igualdade não é uma noção que dependa de capacidades físicas e intelectuais. Somos humanos, somos companheiros, complementamo-nos e acumulamo-nos intersexos como intrasexos. Aqui reside a substância e poder dessa igualdade. Mais nada.

Poderia enumerar uma série de tarefas que estão ao alcance das mulheres na construção civil, para além da limpeza final dos edifícios, mas o problema é que esse mundo profissional lhes permanece hostil. Ainda me lembro do sururu que consistiu no aparecimento, nos estaleiros diversos, e explorações agrícolas, das primeiras engenheiras. Os trabalhadores espantavam-se porque, "apesar de serem mulheres, sabiam trabalhar e dar ordens como homens". Foi a hierarquia que salvou as engenheiras e as legitimou.
Paralelamente, também vejo sectores reclamarem quotas para a entrada dos rapazes em cursos de Medicina, mas não nas limpezas a dias nem a lavar cabeças nos cabeleireiros.



Pelo que pude ler hoje, as mulheres ainda são encaradas pelos biólogos de pacotilha, e outros, como minorias cuja mais-valia humana reside na utilidade ovárico-uterina e mamária - lembro que a maior parte dos departamentos de estudos de género, nas universidades, incluem estudos queer, o que mete no mesmo saco os estudos sobre mulheres e LGTB, embora não se incomodem mutuamente. Mas se o argumento é cientifico, devo dizer que as mulheres prevalecem duplamente sobre o mundo; primeiro, numericamente, sem contestação; em segundo, porque o poder social do patriarcado, e consequente violência, apenas se sustém na medida em que, pelo mundo fora, as mulheres o toleram e alimentam. São as mulheres quem, para o mal, tem traçado o destino do mundo, construindo e perpetuando os poderes masculinos que as secundarizaram paternal e conjugalmente, criando os filhos que marginalizarão as filhas das outras, e as filhas que aceitarão ser marginalizadas, e perpetuarão a marginalização pelos filhos dos filhos às filhas das filhas. E tem sido assim durante muitos, muitos, demasiados anos. As armas do patriarcado têm sido fabricadas pelas mulheres para seu próprio sacrifício.
O exercício de paridade efectiva mudará o ciclo vicioso de vítimizados-vitimizadores, de ambos os sexos, que mal vêm aguentando um sistema de castas que já se nega, já se cansou, já se não vê reflectido no mundo que pisa as ruas lá fora.
Já compreendemos que somos pares, e contra esta evidência, caros biotecnólogos da farinha Amparo, não há cromossoma que vos valha.


sexta-feira, agosto 17, 2007

Os companheiros

Foto: Jan B.


O amor sentimental existe com sucesso comprovado sobre a face do planeta. O que não existe é o amor sentimental tal como fomos levados a concebê-lo: fantasiado, irreal, difícil de transportar como uma mala muito pesada, ao longo da interminável gare; insistimos no erro do amor passional, o qual tomamos como via certa inquestionável.
Compreendo que não se acredite em Deus ou em extraterrestres, mas o amor relacional é uma verdade científica comprovada diariamente em triliões de microespaços planetários simultâneos.
Não me refiro ao amor rosa-claro ou vermelho-seda que as mães ou amigas nos disseram que havia de ser assim, por ser assim, nem ao dos romances ficcionais tradicionais, ou filmes franceses de autor, ou americanos de grande bilheteira, que vivem do encontro sentimental, traição e perdão, ou melhor, dor e redenção; não se trata do amor droga-anestesiante-excitante, mas do amor, só isso, do amor muito simples, muito limpo, do amor nada-de-especial, rotineiro, descomplicado, que se renova com choques ou sem eles, dando desconto ao intrínseco erro humano.
O amor anda devagar, ri e chora, mas não se consome e dilacera nos actos. É doce, mas não enjoativo. Pica, mas não nos queima a boca. Sente paz, sabe bem, contenta, alimenta, pacifica. Quando observo os seus agentes, parece-me vê-los felizes, e desejo-o para quem desistiu, alegando a humana impossibilidade do amor.
Os grandes amantes parecem-me aqueles que se tornaram bons e saudáveis companheiros. Lamento que isto desfantasie tão completamente toda a construção passional do amor, mas como me acontece observá-lo assim, tantas vezes, achei que devia partilhá-lo.


quinta-feira, agosto 16, 2007

Os Parisienses I

Tendo outros blogues dado início à publicação de reportagens fotográficas de férias, sinto-me com igual direito a torturar os habituais visitantes.
Se isto não é arte pura, e eu não sou uma promessa...


Na carreira 96 - Montparnasse/Porte de Lilas











Paris, Agosto, 2007


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...