segunda-feira, setembro 17, 2007

Uma paixão racional


Não sou muito dada a medos, com uma excepção: mulheres apaixonadas.
As mulheres apaixonadas são carros sem travões, air bags, gps, abs, direcção assistida e sistema electrónico para fecho de portas e janelas. Não há nada que se possa dizer a uma mulher apaixonada para que mude de ideias sobre uma relação catastrófica. Nada.
- Olha que ele bebe.
- Ah, mas o meu amor vai curá-lo!
- Tem cuidado que ele droga-se.
- Ah, mas o meu amor vai passar a ser a sua única droga!
- Contaram-me que o homem é um ladrãozeco, um vigas.
- Ah, não é bem assim, foram só 3000 euros para um écran lcd, e agora ele nunca mais!
- Ele bate-te, como é que toleras tal coisa?
- Ah, é porque gosta muito de mim e morre de ciúmes dos outros, coitadinho!
- Ele é um calaceiro que te explora sem escrúpulos.
- Ah, mas anda à procura de emprego, e se ainda não encontrou foi por excesso de habilitações, e além disso eu dou-lhe porque quero, o pobrezinho!
- Ele é casado.
- Ah, mas já nem dorme com a mulher, só estão juntos por causa dos filhos, e a relação está desgastada... por um fio!

Enfim, uma mulher apaixonada entra em estado catatónico para o mundo, para além de que cega e ensurdece. Larga as amigas, os amigos, os colegas, os hobbies, a família, e, caso tenha perdido totalmente as estribeiras, o emprego, ou seja, a autonomia, os meios de sobrevivência fora da relação, o que acabará por se revelar fatal.
Nisto, as mulheres têm de mudar muito. Não endeusarem o amado. Não darem o que não é retribuído. Não tolerarem o que não é tolerável, porque tolerá-lo é promovê-lo. Não se atirarem de cabeça até onde as leva o coração. Isso são apenas frases feitas para títulos de romances. O coração sozinho nunca nos leva a sítio de jeito.

domingo, setembro 16, 2007

Como é que uma mulher pode desencalhar?!


Ao acordar muito fresca da sesta dominical, estive a organizar mentalmente a minha próxima festa de aniversário, e eis que ao listar os amigos a convidar, fui levada a concluir que será necessariamente uma gay party.

O puzzle

Uma colega garantiu-me que o corpo da criança está escondido no velho cemitério desactivado. Uma amiga acha que poderá mesmo estar dentro da igreja, numa pequena urna devidamente calafetada. Um amigo próximo, concordante com a minha prima afastada, acha que aquilo pode ter sido um ritual satânico, no qual eles se comprometeram a oferecer a criança. No café, ouvi, hoje, na mesa ao lado, que de certeza a atiraram ao mar. Já ouvi a hipótese de um enterramento na praia, ou mesmo perto do aparthotel. Eventualmente, na propriedade de Murat. Sinceramente, acho que o Find Maddie vai tornar-se o mais famoso jogo para Playstation 2.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Almas sensíveis


Não pretendo parecer ninguém especial nem ter um estilo determinado. A minha única preocupação consiste em fazer os possíveis por não me parecer com uma senhora. Detesto a ideia de ser uma lady. Como qualquer mulher solteira, pretendo continuar a gozar do estatuto de menina. Sou uma rapariga, penso para mim. Sou apenas uma rapariga.
Apesar de tudo, andava convencida de que as pessoas conseguiriam aperceber-se da minha fina sensibilidade mau grado o aspecto descontraído, excessivamente normal e juvenil com que piso as pedras da rua. Não sei onde fui buscar a ideia de que as almas sensíveis se reconhecem por um brilho no olhar, um perceptível halo dourado, mesmo que vestidas de serapilheira, despenteadas e cheias de ramelas nos olhos, mas afinal era só uma impressão minha. Mais uma vez, erro, erro.

Estive sem arranjar as unhas durante todo o tempo de férias, o que não é costume. Portanto, a semana passada aventurei-me num novo salão, com as unhas bastante descuidadas, e encetei conversa aparentemente inocente com a manicura, versando o tema "cutículas", para lhe dar a entender que as quero impiedosamente arrancadas.
Disse-lhe eu, tentando dar-me certos ares entendidos:
- Sabe, as minha unhas fazem muita pele!
- Se calhar a senhora mexe muito em água.
- Pois é, mexo, mexo. - respondi, pensando que não tenho máquina de lavar louça, que lavo muita roupa à mão, sobretudo no Verão, e que, de forma geral, gosto de chafurdar em água para lavar a banheira, o lavatório, o bidé, enfim, gosto, é verdade; sim, dou tudo para me encharcar até ao pescoço.
Rematou a senhora:
- Quem mexe muito em água tem este problema. Trabalha na cozinha de algum restaurante, não é?
Consegui responder que não e ficar a rir-me para dentro o resto da tarde.
Não tenho nada contra as almas sensíveis que trabalham nas cozinhas dos restaurantes, mas julgo que há em mim qualquer coisa de inocente. De muito inocente.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Os felizes



O Dalai Lama ri às gargalhadas enquanto fala e caminha. As pessoas sérias, como o Papa, não dão gargalhadas: abençoam e rezam, e depois, abençoam e rezam. As gargalhadas autênticas e sonoras estão compreensivelmente reservadas aos anjos, aos loucos e às crianças; quero dizer, aos verdadeiros inquilinos do reino dos céus.


O sagrado ao alcance de todos


Só à chuva podemos chamar água benta.

O silêncio


Desligam-se as máquinas, uma a uma, e o silêncio avança através da noite, húmido, uma tintura de seiva lenta, entorpecendo a vida para que seja possível uma nova vida.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...