domingo, outubro 14, 2007

Aldrabão, traidor, vigarista e ladrão

Emídio Rangel, em artigo de opinião publicado, ontem, na página dois do Correio da Manhã, pergunta:


É democrático um primeiro-ministro deslocar-se oficialmente a uma escola, uma fábrica, uma empresa, eu sei lá, e ser recebido por uma "manifestação espontânea", com trinta ou quarenta cidadãos vindos de fora e que, a par dos assobios, despejam epítetos soezes, como , filho da puta e muitos outros "mimos" que fazem "corar as pedras da calçada"? Um cidadão, legitimado pela escolha dos portugueses em eleições livres, chamado a ser primeiro-ministro, tem de suportar, sempre que se desloca em serviço pelo País, estas ofensas e indignidades?

Resposta:

1. Filho-da-puta, sinceramente, tenho dúvidas. É capaz de ser injusto.

2. Hitler também foi legitimado pela escolha dos alemães, e contudo, a sua obra faz corar as pedras da calçada.

3. A democracia não isenta os cidadãos eleitos de terem de suportar as tempestades que semeiam com os seus ventos.


Baixar o som

Estive ainda agora no quarto, arrumando roupa com a televisão ligada na outra ponta da casa.
Acabei a interrogar-me sobre como conseguiu Júlia Pinheiro fazer carreira na rádio e televisão. Não tem uma voz, mas uma faca. É um espicho para abater animais, tenho a certeza. A voz da Júlia atravessa-me o coração e sai-me pelas costas.

Outono com manga curta

Os expositores das lojas enchem-se de camisolas para uma estação que se extinguiu.

sábado, outubro 13, 2007

Ensaio sobre a Lucidez II

Sonhei matá-lo de tantas formas. Havia de o deixar esvair-se em sangue, e esfregar-me no seu corpo lacerado, para que, vivendo, trouxesse o peito sujo e cheio do que a vida me roubara. Sonhei matá-lo.
Mas em nome da sua paz, e do que para mim estava perdido, abdiquei do projecto. Todos nós pensamos um dia matar um amor impossível. Viveríamos em sossego - a culpa da sua morte não haveria de ser pior do que isto. Mas não matamos. Chama-se uma pinga de lucidez. Chama-se ser vencido e aceitar.
Parece um filme rasca, mas a vida é o raio de um filme de péssima qualidade.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Ensaio sobre a lucidez I

Foto Francesca Woodman


Não sou infeliz. Trabalho na linha de montagem de uma fábrica de parafusos, e os dias deslizam, sucedendo-se entre pensamentos sobre o trabalho. Quando estou na fábrica não penso em mais nada. E à noite sonho que torneio parafusos atrás de parafusos, que desentorto os tortos, que não fui capaz de reparar peças com defeito, que me esforço por dar ainda mais brilho aos de primeira qualidade.
Fabricar parafusos é não só uma psicoterapia como uma técnica que poucos compreendem. É preciso amor ao parafuso, teimosia e paciência. Não basta ser especialista. Ter frequentado muitas acções de formação sobre parafusos e aparafusamento não chega. É preciso, de facto, amar o material para além do processo de fabricação.
A semana de trabalho na fábrica é muito longa. À sexta-feira, sinto-me cansada, e só penso em evadir-me. Podia ter-me lançado nas drogas - consta serem eficazes para o efeito, mas a minha mãe sempre me proibiu de aceitar rebuçados a estranhos, por esse motivo acabo por ir ao cinema, ao teatro, a exposições, e a livrarias. Sinto-me, então, bastante feliz, e por duas horas não penso em parafusos, não tenho corpo nem alma nem existo.
Evadir-me implica morrer duas horas por semana.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Detesto Polícia



Não suporto a PSP nem a GNR e o seu batalhão de trânsito. Uma boa parte destas forças de segurança é constituída por indivíduos prepotentes, arrogantes e ignorantes sem remissão. Frequentemente, tenho vontade de lhes devolver as guias de multa com os erros ortográficos corrigidos, acrescentando que apresentam caligrafia demasiado infantil e incipiente, própria de quem fez o 9º ano porque já tinha 17 anos e não valia a pena andar a empatar.
Quando me informam que infringi o artigo 43 do código da estrada, dava imenso jeito que pudessem iluminar-me, e de preferência em Português, sobre o conteúdo do referido legislativo. Multem-me, mas multem-me com dignidade.

Detesto polícias, contudo tenho consciência de que o espaço público, e frequentemente o privado, quando se cruza com o público, depende deles, pelo que a sua missão se torna crucial para a segurança de qualquer estado. Por tal motivo não posso compreender que o Poder invista tão fracamente nas Polícias. Em formação, sobretudo. É intolerável e perigoso que uma profissão sobre a qual recai tanta responsabilidade, e da qual é obrigatório exigir idoneidade e sentido de justiça irrepreensíveis, receba salários miseráveis, não usufruindo de vantagens oferecidas, por exemplo, ao poder judicial. Não devemos esperar discernimento, nobreza e boa reputação apenas dos juízes. Exigir dos agentes policiais habilitações tão reduzidas, bem como rasteira formação humana, cívica e deontológica é um preço que as sociedades pagam alto. Custa-me dizê-lo. Fere os ideais nos quais preciso de acreditar, mas a verdade é que a nobreza de carácter e o zelo profissional pagam-se, compram-se. Com euros. Quem exige tão pouco e paga tão mal, só poderá esperar fracos e negligentes serviços.
Surpreende-nos que os agentes de autoridade sejam alvos fáceis de todo o tipo de corrupção, tentando desenrascar a vida ao aceitar subornos, ou motivando-os? Agridem cidadãos nas esquadras, fecham os olhos aos negócios da noite, melhor, até colaboram, integram os esquadrões racistas da praça para andar a filmar negros algemados contra muros, em acções policiais nocturnas? Pode pedir-se mais? A culpa não é deles, mas de um Estado para o qual a segurança é coisa tão pouco importante.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...