terça-feira, outubro 16, 2007

Desmanchos



Da série Conversas com a Minha Mãe


Mãe
- A minha avó era muito má. Rogava pragas à minha mãe.
Isabela - A tua avó rogava pragas à tua mãe?!
M. - Rogava. Zangava-se com o filho, e quem pagava era a minha mãe.
I. - Era fresca.
M. - E caíam. Rogou uma praga à minha mãe em como ela haveria de ter tantos filhos que nem os distinguisse uns dos outros. E a minha mãe, coitada, era uns fora, outros dentro.
I. - Fez muitos abortos?
M. - Ora... era quase todos os meses na Adénia. A Adénia vivia daquilo. Era especialista. Toda a gente lá ia. Era uma mulher gorda, baixa. Lembro-me dela. Tinha sete filhas. Andavam todas aperaltadas.
I. - Era parteira.
M.- Não, mas sabia. Tinha um moinho, mas pouca gente lá ia moer. A freguesia era para os desmanchos. Sabes lá os que foram por aquele rio Baça abaixo!
I. - Mas sabia dar anestesias.
M. (com indignação) - Não. Antigamente não se davam anestesias.
I. - Sem anestesia?! As mulheres eram raspadas sem anestesia?
M. - Sim. A sangue-frio.
I. (fazendo uma grande careta) - Não me contes mais nada.
M. - As mulheres antigamente sofriam muito. Sabes lá!
I. - E as mulheres não ficavam doentes, não ganhavam infecções?
M. - Nas mãos da Adénia, não. Ela sabia daquilo. Era muito conhecida. Chegou a ir presa. Mas ia presa e depois punham-na cá fora outra vez.
I. - Se calhar também fazia abortos às mulheres dos juízes.
M. (rindo) - Pois. Era a todas.


segunda-feira, outubro 15, 2007

Entretém

Da série Conversas com a Minha Mãe

Isabela - Nove?!
Mãe - Sim, nove. A minha avó teve nove filhos. Cinco rapazes e quatro raparigas.
I. - Bem, antigamente era normal...
M . - Era. Havia mulheres que tinham aos 12 e aos 15.
I. - Credo. Não sei como é que elas aguentavam.
M. - Aguentavam. Antigamente não havia televisão nem cinema, nem os entretimentos que há agora.


Peixinhos

Da série Conversas com a Minha Mãe.

Mãe - O Manuel Luís Goucha diz que a coisa de que mais gosta é de chocolate. Mas agora já não o pode comer. Quer ser elegante.
Isabela - Hum.
M. - Havias de o ver ontem naquele programa da... com uma camisa cheia de ramagens, e fios. O que ele gosta daquelas coisas. Parece...
I. - Amaricado?!
M. - Há quem diga que é "peixinho". Agora os homens são todos. Por isso é que não querem casar com as mulheres.
I. - Oh mãe, o Goucha não é "peixinho", já é peixão.
M. - Diz que até nas boas famílias há deles "peixinhos". Até doutores.

Ter classe

Quando era pequena queria ser crescida. Quando crescesse haveria de ser uma pessoa importante como as outras. Uma senhora como a minha madrinha. Reconheceriam a minha existência. Atribuir-me-iam valor. Teria uma voz.
Hoje acho que ser crescida é ter um blogue sem comentários. Isso é que é ter classe.

As gordas

Vou à rua com as cadelas. Passamos por um homem barrigudo, de camisa às riscas, sentado na mesma mesa, da mesma esplanada, todos os dias da semana, seja qual for a hora do passeio. Já não é novo. Gasta tempo. O homem fita-nos e interpela-as. Diz-lhes, "oh gordas!".
Sorrio-lhe, mas sinto-me sempre atingida.

Uma voz humana

Foto: W. Cieniu

Então vocês nunca levaram porrada?! Andam por aí sendo campeões em tudo?! Nunca foram reles, porcos, vis, parasitas, sujos sem desculpa?! Como me impressiona que tomem banho todos os dias e tenham paciência!
Não vos calha darem-se por ridículos e absurdos, ou mesquinhos, submissos e arrogantes?! Nunca foram enxovalhados e se calaram?! Não confessaram os vossos pecados, as vossas infâmias? As violências? As cobardias?
Caramba, e eu que me sinto, todos os dias, tão Álvaro de Campos.



domingo, outubro 14, 2007

Aldrabão, traidor, vigarista e ladrão

Emídio Rangel, em artigo de opinião publicado, ontem, na página dois do Correio da Manhã, pergunta:


É democrático um primeiro-ministro deslocar-se oficialmente a uma escola, uma fábrica, uma empresa, eu sei lá, e ser recebido por uma "manifestação espontânea", com trinta ou quarenta cidadãos vindos de fora e que, a par dos assobios, despejam epítetos soezes, como , filho da puta e muitos outros "mimos" que fazem "corar as pedras da calçada"? Um cidadão, legitimado pela escolha dos portugueses em eleições livres, chamado a ser primeiro-ministro, tem de suportar, sempre que se desloca em serviço pelo País, estas ofensas e indignidades?

Resposta:

1. Filho-da-puta, sinceramente, tenho dúvidas. É capaz de ser injusto.

2. Hitler também foi legitimado pela escolha dos alemães, e contudo, a sua obra faz corar as pedras da calçada.

3. A democracia não isenta os cidadãos eleitos de terem de suportar as tempestades que semeiam com os seus ventos.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...