quinta-feira, outubro 25, 2007

Alívio anal [sessões contínuas]

Googlava eu, surrealisticamente, por aí, buscando imagens de analgésicos para o poste anterior, e deparo-me com a seguinte informação que me apresso a divulgar para máximo prazer dos leitores de O Mundo Perfeito:




Anal Ease (marca registada)

Lubrificante para ser usado na zona anal, com propriedades anestésicas [porque o sexo anal não dói nada, é muito relaxante, e vale tudo menos tirar os olhos da cara, mas só os da cara, nada de confusões], que proporciona uma maior facilidade na penetração e elevado prazer, sem dor [claro, tudo sem dor, a gente já sabe que é muito bom, e que as terminações nervosas na zona do... e mais a massagem da próstata...]!

É dermatologicamente testado e facilmente removível com água. Aplicar na zona anal e aguarde cerca de um minuto [agora espera aí um bocadinho, e sem desanimar, que se te portares bem até te faço festinhas donde mais gostes]. Limpe (p.ex. com uma toalhinha) antes da penetração [então, mas se é um lubrificante...] ou pode também retirar a sensibilidade do pénis ao seu parceiro [eh, pá, agora é que é mau; uma pessoa ver-se compelida a levar com o macete, e a precisar de analgésico tópico, ainda vá, mas agora aleijar também o parceiro, isso é que não. Que não se faça a festa com dois quando pode fazer-se só com um]. Logo sentirá as propriedades anestésicas a começar a ter efeito. Compatível com o preservativo. Com aroma a cereja [motiva bastante os amantes da fruta]. Embalagem de 44ml.

Automedique-se



Tenho noites em que sonho que sou dona de uma farmácia, e danço a banda sonora de Música no Coração abraçada a um pacote gigante de Xanax, por entre filas de prateleiras repletas de medicamentos de alta dosagem e toxicidade, cujo avio obriga à apresentação de receita médica.
Sem exagerar, as parafarmácias fascinam-me como uma árvore de Natal a uma criança.

Não compreendo o que motiva os técnicos de saúde contra a automedicação. Há lá alguma coisa mais sensata que uma pessoa decidir por si que medicamentos vai tomar, e em que quantidade? Qualquer pessoa que saiba ler, compreende as instruções de uma bula de medicamentos. Posologia, tal e tal. Eu funciono assim:
"Estou com uma neura de camião TIR, portanto vou tomar três Stilnoxes, e acrescento-lhe um Sedoxil de hora a hora." Resulta.
"Ando aqui com uma constipação que mal me seguro em pé; ora deixa-me cá enfiar dois Actifedes de 12 em 12 horas". De ontem para hoje, por exemplo, corre-me mais Actifed nas veias do que sangue propriamente dito, e que maravilha! Rouca, mas sem pingo no nariz.
A mesma coisa para o Ultralevure, o Nimed, o Clavamox. À custa de Nimed curei o raio de uma tosse nocturna e seca a um cão muito rafeiro ao qual dava abrigo. Era o Putchi. Acabou por morrer atropelado, mas sem tosse.
A uma amiga que sofria lancinantes dores de período fiz-lhe o favor de recomendar um Nolotil de oito em oito horas. Não só lhe tirou as dores, como perdeu a sensibilidade da cintura para baixo, com o bónus de ter igualmente ficado com a língua a tremer. Se tivesse aproveitado para fazer uma cirurgia aos joanetes, ou até mesmo uma cesariana, não sentiria a ponta do bisturi. Ainda hoje me está agradecida, evidentemente, e quem não estaria?!

O gangue do swing

Dois miúdos de 12, 13 anos, na paragem de autocarros do meu bairro, com as mochilas às costas, comentam o caso Maddie:

Primeiro miúdo - Está comprovado que os pais da Maddie praticavam swing e para se livrarem da miúda, mataram-na, por causa que ela sabia alguma coisa sobre eles.
Segundo miúdo - Iá. E também é muita estranho que um padre dê a chave da igreja à mãe para ela esconder o corpo da miúda. De certeza que o padre é cúmplice.
Primeiro Miúdo (rindo) - O padre também andava no swing.
Segundo Miúdo - Os gajos esconderam-na para ganhar dinheiro e para não serem descobertos de praticar swing, porque a filha já tinha descoberto as cenas. Vais ver se não é.

terça-feira, outubro 23, 2007

O circo do sexo


A palavra sexo é não só a mais procurada no Google, como a que mais equívocos gera nas interacções verbais.O adjectivo correspondente [sexual], não remete obrigatoriamente para uma actividade genital. Sexual refere também o conjunto de características fisiológicas distintoras dos seres. O macho possui as características sexuais A; a fêmea, as B. Do indivíduo com características A espera-se o comportamento X; do que possui as características B espera-se o comportamento Y.
Ora, a libertação sexual não foi apenas, como defendi no texto anterior, uma libertação para o sexo. Foi uma libertação do sexo. Do que os sexos se libertaram foi de uma moldura de comportamentos associados, a qual designava, invariavelmente, o género a que pertenciam, atribuindo mais ou menos culpas aos transgressores. Uma rapariga que subia às árvores era uma Maria-rapaz, e tal incursão em 'território alheio' valia-lhe censura.
O aprisionamento sexual não se tratava, portanto, de uma mera questão relacionada com a fornicação. A fornicação era o menos. O aprisionamento sexual correspondia a uma esfera de aço dentro da qual se encontravam os limites de comportamento para cada homem e cada mulher. O que podiam fazer, aceder. Os lugares da esfera pública e privada aos quais podiam aceder. Etc. Etc.
A libertação sexual libertou-nos dessa marca a ferro do sexo. Isto foi o que de mais interessante nos trouxe. A pornografia, o marqueting do sexo, legitimando o swing e o recurso a quinquilharia e práticas diversas, que certa Imprensa se encarrega de divulgar e promover, são anedóticos. Fazem-me sorrir, pelo menos. A maior parte das vezes prefiro acreditar que se trata de uma encenação teatral humorística. Tenho uma peninha das mulheres vítimas de penetração dupla! Se a Inquisição usasse tais práticas - se calhar usou - haveriam de lhes chamar tortura. Mas como é na cama, e alegadamente voluntário, ah, que delícia.
A libertação sexual não trouxe a ninguém mais e melhor sexo, apenas o liberalizou, remetendo-o para a praça pública como produto de consumo. Foi pena. A exposição da sexualidade tem-na transformado em acto estético e acrobático. Qualquer dia teremos de ser todos artistas de circo.


segunda-feira, outubro 22, 2007

Diz-me o que entendes por liberdade sexual

Foto: W. Cieniu


A libertação sexual foi, ao contrário do que pensam os saudosos da família tradicional, um progresso civilizacional assinalável, com consequências irreversíveis e vantajosas em todas as áreas da sociedade, economia e política, sendo que a mais relevante de todos consistiu no acesso à partilha de papéis. Nunca a justiça e a produtividade se associaram para tão belos frutos.
Os saudosos da família tradicional não alimentam reais saudades da família, mas da mulher-criada doméstica com especialização em puericultura. Implicava uma escravidão, mas dava jeito. Os judaico-cristãos, ou só judaicos, ou só cristãos, esforçam-se por ignorar que a dita família tradicional nunca passou de uma prisão, e para todos. O homem sustentava a casa e a insatisfação, e fornicava dentro e fora. A mulher geria a casa e a infelicidade, e fornicava mal dentro, fazendo o que podia por fora, à custa de "lanches com amigas". Não eram casamentos, mas associações procriativas e comerciais compostas de membros que se detestavam.
Depois, devagar, chegou a liberdade sexual, conceito ainda muito impreciso na mente colectiva. A libertação sexual não foi apenas uma conquista das mulheres, e não coincide exactamente com fornicação generalizada e compulsiva. Pelo contrário, implica, como nunca, uma enorme responsabilização individual relativamente às escolhas que realizamos enquanto seres sexuados. Tornámo-nos livres sexualmente, todos, mulheres e homens, porque perdemos a culpa inerente ao desejo, porque o sexo se tornou independente do casamento e da procriação, e porque legitimamente ganhámos o direito a não ser julgados, em nenhum aspecto das nossas vidas, pela nossa identidade sexual ou de género.
A libertação sexual não foi apenas uma libertação para o sexo, mas do sexo, uma vez que nos libertou de todas as normas que nos prendiam a tarefas e comportamentos fixos que pesavam sobre homens e mulheres.
Há, contudo, um conjunto de implícitos (e explícitos) relacionais entre os homens e mulheres que não se alteraram apesar da libertação sexual. Um deles relaciona-se com o binómio amor-sexo. Independentemente das necessidades e escolhas sexuais absolutamente sem critério do sexo masculino, as mulheres continuam a ir para a cama porque amam alguém; porque acreditam no amor. Deitamo-nos com a pessoa x porque a queremos para nós. Temos a ilusão de que poderá vir a ser o nosso amor, se ainda não for. O sexo que as mulheres fazem é apenas uma parte do que pretendem manter com o objecto do seu amor. Passar um bocado bom vem em longínquo segundo lugar.
Isto poderá sofrer alterações em casos pontuais, em situações específicas, e mais ou menos passageiras, mas não vejo grandes tendências para mudança. Portanto, os homens podem esperar sentados até que nos apeteça dormir com eles porque são muito giros. Dormimos com eles porque queremos ter filhos com deles, porque queremos acordar ao seu lado e sentir a sua respiração, porque nos dá jeito que nos levem o carro à revisão e nos sintonizem o vídeo com o televisor. E tudo o resto, como dizem os brasileiros, é mera sacanagem.


domingo, outubro 21, 2007

Os blogues sem comentários

Foto: Zak Pawel


Ter um blogue sem comentários é como ficar fechado em casa e não abrir a porta a vivalma. A não ser que vivalma tenha classe, quero dizer, poder, ou, desculpem, influências, conhecimentos, possibilidade de tachos. Mas, nesse caso, entra pela porta de serviço. Entra à socapa. Fechar as caixas de comentários é uma intolerável recusa a chafurdar na vida, e eu detesto cobardes.
Viver é chato e dá trabalho, mas viver é exactamente isso: chafurdanço. Levar com os outros. Aturá-los. Irritarmo-nos, mandá-los a todas as partes que nos ocorram. Levar porrada. Dar porrada. Arrependermo-nos, ou não. Escolhermos dar confiança a esta e não aquele, ou vice-versa. Detestar os outros. Não conseguir viver sem os outros. Ter dúvidas. Errar com todos os sentidos e, muito de vez em quando, acertar com um ou outro.
O que pode distinguir um blogue de uma ordinária publicação on line é a caixa de comentários. As pessoas gostam de mandar bitaites, e toda a gente tem direito ao seu bitaitezinho diário, até os malucos; sobretudo esses. Contraria-me muito visitar um blogue com textos giros, querer deixar o meu lamiré e não poder. Fico sem vontade de voltar. Que interesse tem um blogue que não se pode comentar? Para isso compro um livro e leio-o, e faço anotações nas margens, ora essa.
Um blogue serve para levar na corneta, para desenvolver largura nas costas. Se os comentários nos chateiam, e chateiam, apagamo-los. Depois havemos de levar porrada porque os apagámos. A porrada está sempre certa.
É impossível não ter inimigos. Passando na rua, em silêncio, arranjamos inimigos: aqueles que não vão com a nossa cara, que nos acham idiotas ou ridículos.
Blogues sem comentários dizem-me "sou uma pessoa muito importante e não desço ao vosso nível". Mentira. Os bloggers sem caixa de comentários sabem lindamente descer a qualquer cave, bastando-lhes esquecerem-se das usuais três camadas de verniz.
Blogues sem comentários dizem-me, "tenho muitas ocupações e zero tempo para manter atenção à caixa de comentários". Mentira. A maior parte dos bloggers sem comentários trabalha em casa escutando música clássica, e não pega às nove na fábrica de parafusos, e não chega a casa incapaz de ouvir uma nota musical, de tímpanos cansados pelo barulho das máquinas na linha de montagem.
Blogues sem comentários dizem-me, "não quero ouvir o que tens para dizer". E isso irrita-me. Os blogues sem comentários irritam-me tanto que juro, juro mesmo não comentar em nenhum.

sábado, outubro 20, 2007

Ser convencida, e gostar

A diferença entre mim e aquelas pessoas que parecem muito interessantes, mas que são uma fraude, é que eu não sou uma fraude.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...