domingo, novembro 11, 2007

No peito dos desatarraxados também bate um coração


Uma colega da linha de montagem aproximou-se da mesa onde eu lia um manual sobre técnicas de atarraxamento, e desabafou:
- Estou como tu. Eu também não encaixo.

Sorri como resposta. Nunca falo com as colegas da linha de montagem sobre o meu sentimento de desencaixe. Na linha de montagem falo muito pouco, seja com quem for, e apenas sobre assuntos estritamente relacionados com o trabalho. Não faço pândega à hora do almoço no bar ao lado da fábrica. Não acompanho ninguém na sala de convívio visionando You Tubes divertidos. Não é por mal. Não tenho nada para dizer e custa-me sorrir forçadamente. Não pertenço, e este é um sentimento que conheço bem, que me acompanha desde que me lembro. Sei que aos outros devo parecer superior e chata. Paciência.
Há algo de paradoxal nisto: ser incapaz de me encaixar e, no entanto, fabricar parafusos que servem para atarraxar em estruturas e, caso sejam bons, ou mesmo maus, sustentá-las, para o bem ou para o mal.

sábado, novembro 10, 2007

Salvação

Abrir as janelas. Sol, outra vez. Céu limpo. Luz. Dois navios no Tejo. Barcos à vela, uma dúzia. O pombo continua atrás da pomba, no telhado do prédio em frente. Lá em baixo, pessoas carregam pacotes e crianças. Silêncio.
Aquecer o leite e meter-lhe café. Doce de ameixa no pãozinho. Não lavar a louça de ontem. Não fazer a cama. De vez em quando um traquinar reconfortante na cozinha do apartamento ao lado; alguém está vivo, como eu; de resto, silêncio.
As manhãs de Sábado.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Este blogue não é gratuito

Compreendo o que é o espírito, mas não a alma. O que é a alma? Preciso que alguém mo explique, sem palavras complicadas, para que perceba se tenho uma.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Dá-lhes


Impossível ignorar o Correio da Manhã. Deve ser o único jornal do mundo onde se podem ler frases de retinto jornalismo, recolhidas na fonte, e transcritas ipsis verbis, das quais esta é um bom exemplo: "A filha do senhor José Mourinho disse que o jovem teria proferido algumas palavras insultuosas para com o pai. Já o Pedro assegurou que não disse aquilo que a Matilde diz que ele disse." Isto é poesia informativa.

Mas vamos ao facto: Mourinho anda à porta das escolas privadas aqui do distrito dando coças em miúdos malcriados. Imagine-se que parava frente aos portões das escolas públicas, locais onde a violência atinge proporções épicas, aí pelas 18h30. Seria um massacre.
Boa, Zeca. Finalmente, um justiceiro como deve ser. Um Robin Wood da educação. Um gajo com eles no sítio, e inteiros. É caso para se admitir: bendita testosterona.
Obviamente, estou com Mourinho. Alguém tem de explicar aos miúdos deste país, e de preferência com cinco dedos, o que significa um "atina-te", ou, como se dizia há muitos anos atrás, "o respeitinho é lindo". Os pais não sabem o que fazer deles, muito menos os professores, portanto venha o Mourinho pôr ordem nas escolas como se fossem clubes de futebol.
Quero o Mourinho a reescrever o estatuto do aluno recentemente aprovado na Assembleia da República. Tenho a certeza que um clone de Mourinho à porta de cada escola valeria por duas brigadas da Escola Segura. Um clone do Mourinho em cada agregado familiar com prole garantiria melhor pedagogia que dois progenitores graduados em ciências da educação. O ministério da educação para Mourinho, e já, e nem sequer estou a brincar.




Bué d'amigas



"Ninguém me deixa tão húmida". Eis o que uma morena de cabelos compridos diz a outra de cabelos curtos, mais velha. A cena está quente. "Vamos para casa?", pergunta uma delas.
Enquadramento seguinte: uma casa com grandes janelas sem cortinas, toda virada para o mar; deve ser em Santa Mónica, Califórnia, ou coisa assim. Ambas vestem confortável lingerie preta, pelo que não percebo por que sentem tanta dificuldade em desapertá-la. Para um primeiro encontro não está nada mal.
Não sei se as lésbicas vêem muito a L Word. Os homens heterossexuais não perdem um episódio: entusiasma-os imenso o enredo cheio de mulheres de todos os estilos, despindo-se umas às outras e engalfinhando-se sem pudores. E os diálogos. A atenção que eles fixam nos diálogos! Até se pelam!
A mim, L Word [péssimo título] recorda-me umas sitcoms que passavam na tv no início dos anos 90, com jovens amigos que habitavam os mesmos bairros californianos ou nova-iorquinos, partilhando casas, cafés, camas, vivendo triângulos amorosos, às vezes hexágonos, criando e solucionando conflitos e problemas existenciais mais ou menos complexos; uns drogavam-se, outros eram betos; uns queriam mudar de vida, outros não; eram parvos, ou muito cool; adoeciam, curavam-se; engravidavam, abortavam, raramente tinham filhos... eram bué de modernos, e nós queríamos ser como eles. Alguém se lembra disto?
A L Word não é muito mais que uma série de amigos que são amigas e arfam muito. Constato, neste nomento, na RTP2:
"É verdade que nunca fizeste isto?"
(gemidos)
"Quero que te venhas", diz-lhe a de cabelo curto, como se estivesse ao quilómetro 35 da maratona.
"Meu Deus, meu Deus", responde a de cabelo comprido já a pisar a meta.


quarta-feira, novembro 07, 2007

terça-feira, novembro 06, 2007

Toma-nos por parvos

Antes do Verão, assisti, pela AR TV, a um debate na Assembleia da República no qual a deputada Heloísa Apolónio, dos Verdes, questionava o primeiro-ministro sobre a inclusão da vacinação contra o cancro no colo do útero no Plano Nacional de Vacinas, como já acontece noutros países europeus. Sócrates, com a arrogância que lhe é conhecida, praticamente ignorou a interpelação da deputada, respondendo, com enorme desvalor, que tal não era o caso em nenhum outro país da comunidade. Recordo mentalmente a expressão de Heloísa Apolónio perante esta resposta. Riu-se, incrédula. Eu também me ri. Humor negro. Sócrates possui uma incapacidade política grave: é surdo, para além de uma lamentável ausência de sentido de humor. As duas vão levá-lo à mais saborosa derrota política desde Cavaco Silva, e eu cá estarei para ajudar.
Hoje, no debate do Orçamento de Estado, Sócrates, esquecido do que respondeu a Heloísa Apolónio antes das férias, veio anunciar a inclusão da vacina contra o cancro no colo do útero no Plano Nacional de Vacinação. Pelos vistos, vamos ser pioneiros na Europa.



O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...