domingo, novembro 18, 2007

De como a minha mãe enganou o meu pai durante 38 anos


Toda a vida ouvi a minha mãe queixar-se do custo de vida. O pão estava caro, bem como os grelos e o peixe. "Sabes quanto me custou este molho de agriões? Dois escudos. Isto não são agriões; isto é fogo." O dinheiro nunca chegava. Era a conversa à mesa, ao jantar, já na recuada década de 60. "Mas precisas de mais dinheiro para esta semana?", perguntava-lhe o meu pai. Precisava. Precisava sempre. Mesmo comprando do mais barato, o dinheiro nunca chegava.
Só por volta dos 10, 11 anos percebi para onde ia parte do dinheiro que o meu pai lhe entregava para governo da casa, o qual ela alegava ser insuficiente: economizava-o para nós. Para comprar tecidos para os nossos vestidos, para as calças do meu pai, e para as prendas do Natal. Para os nossos ganchinhos. Literalmente para as nossas coisinhas: uma bandolete para mim, uma bisnaga de creme Tokalon para o seu rosto. Escondia o dinheiro num frasco ou numa lata, em sítios onde o meu pai não tocasse, o que era fácil: o meu pai era um grande macho: não tocava em nada. Quando conseguia que lhe desse dinheiro contado para uns sapatos de que eu precisava, podia então comprar-mos, e mais umas calças. Chegadas a casa, mentia-lhe de novo, afirmando que tinha conseguido um desconto especial, que comprara as duas peças pelo preço de uma. O meu pai alegrava-se por ter arranjado esposa tão poupada, e engolia as mentiras, radiante. Os homens são fáceis de enganar, é uma constatação bastamente documentada.
Mais velha, assisti, calada e divertida, e até ajudei, às mentiras que a minha mãe pregava ao meu pai. Regressávamos das compras, e ela avisava-me: "vamos dizer-lhe que isto custou x". Sempre o dobro. O meu pai nunca deve ter ouvido um preço certo, enquanto viveu connosco. O custo de vida esteve sempre, para ele, muito sobreavaliado. Fui-me rindo em surdina, e nunca me desmanchei. Ao longo dos anos verifiquei que as outras mulheres faziam o mesmo. As que trabalhavam fora de casa também mentiam nos preços aos maridos, conseguindo guardar, incógnito, algum dinheiro para os filhos, e um mínimo de purpurina. Primas, mães de amigas. Sem nunca comunicarem sobre este assunto, todas procediam da mesma forma. Era uma forma de sobrevivência. Um ridículo, mas justo pagamento que se atribuíam pelo trabalho não considerado que desenvolviam em casa. Uma gorjeta.
Lembrei-me disto porque a minha mãe passa a vida a queixar-se-me sobre o dinheiro. Que é pouco. A reforma é baixa. Mas, quando menos espero, pergunta-me, "precisas de dinheiro?", e mete-me 10 euros na mala, para tomar um café. Claro que isto, meus amigos, não tem preço.



quinta-feira, novembro 15, 2007

Que morram longe



Perder alguém que se amou fecha-nos para os outros, mesmo aqueles para quem até somos importantes. Homens e mulheres passam por nós, sorriem-nos, falam-nos, mas ninguém pode substituir a alma de quem se amou muito. Não permitimos, porque não queremos, durante muitos anos, não se fazendo contas ao tempo. Suportamo-lo voluntariamente, rangendo os dentes.
Uma defesa? Sobretudo uma vingança, realizada em nós, por nós, em nome dos outros. Um autosacrifício vivido com amargura dissimulada na raiva. Que os outros expiem connosco a nossa dor. Não se comprazerão com a possibilidade de nos amarem. Não estamos lá para mais ninguém.


terça-feira, novembro 13, 2007

Não fabricam tangas para o meu número


Embora por volta dos 17 anos tenha negado a existência de uma dimensão divina, sempre mantive um espírito religioso, pelo que o ateísmo durou pouco. Sempre me forcei ao racionalismo e à dúvida, pretendendo manter-me tão lúcida quanto possível, mas, em chegando às questões religiosas, soçobro. Percebo exactamente o que significa a fé. O que não pode explicar-se não se explica. Não é absolutamente necessário. Agrada-me não ter explicação para tudo; viver segundo a ideia de que algo mágico permanece ao meu redor; guardar mistério sobre realidades que não estão ao meu alcance; ter consciência de que sei nada.
Embora se tenham feito largos progressos desde o 25 de Abril, altura em que foi proibido acreditar em Deus, tendo mesmo chegado a existir um despacho normativo que regulamentava o assunto, o espírito religioso continua a não estar conforme ao evidencialismo deste tempo, e não tem grande saída que não seja a compartimentação, ou a oferta do peito aos mais alarves sarcasmos sociais.
Antigamente, tinha o hábito de me benzer antes de começar a conduzir. Tinha pouca prática e, caramba, o trânsito é o que se vê. Não me venham dizer que não se justifica rezar um terço antes de ligar a ignição. A minha prima afastada, no banco ao lado, ria-se em surdina. Isto implicava uma de duas soluções: ou abdicava da prática religiosa da auto-benzedura pública, e a guardava para compartimentos privados, ou a minha prima abdicava do gozo. Nem uma coisa nem outra. Continuo a benzer-me, e a minha prima a rir-se, quando me apanha. É certinho. Ela não se mete nos meus pai-nossos, e eu nunca tive a intenção de lhe dar missa. Vivemos bem assim.
Manter um espírito aberto ao plano imaterial implica consciência e livre-arbítrio. Compreendo muito bem os jovens seminaristas que, ao ser entrevistados sobre a sua escolha de vida, a crise de vocações e a prisão do celibato, afirmam sentir-se mais livres enquanto seres religiosos. Sinto-me das pessoas menos influenciáveis em matéria de Igreja, seja ela qual for. A institucionalização dos credos, e o seu comércio, não colhem frutos com as minhas mãos. Creio que a verdadeira atitude religiosa não se vende e não se compra, tal como não deve vender-se nem comprar-se o amor.
Como é que alguém pode lembrar-se de pedir 30 euros para limpar auras?! Em nome de que caixa registadora me vêm dizer que tenho de alinhar os chacras pensando na próxima ascensão do planeta que ocorrerá em 2012, e que tal me vai custar 50 euros? Quem verdadeiramente se preocupasse com a qualidade das nossas auras e do nosso destino não nos pediria dinheiro.
Isto vem tudo a propósito de umas mensagens que tenho recebido via e-mail, convidando-me para reuniões da seguinte natureza, e bem pagas:

"Iremos revitalizar-nos, tomando nas nossas mãos o poder e a força para dissolver velhos vínculos e amarras que nos mantêm ligados a contratos antigos, e que mantêm emaranhados energéticos, sejam eles verbais ou não verbais, conscientes ou inconscientes. Fortaleceremos o nosso “coração” e a nossa capacidade de amar, limpando a nossa aura das “cicatrizes” que restaram de relações terminadas, para seguir em frente numa nova vida."


Não há qualquer diferença entre este tipo de discurso e Fátima Shopping a 13 de Maio. É apenas mais uma entre muitas eucaristias de beatificação de pastorinhos.
Os misticismos transformaram-se num fabuloso negócio que financia inúmeras novas catedrais de Fátima pelo mundo fora, e ninguém parece reparar. Não podemos limitar-nos à crítica gratuíta do comércio católico, e a seguir pagar fortunas a não sei quem, que estava desempregado, foi fazer um curso de seis meses, tornou-se mestre de reiki, e agora "dá" uns workshops muito giros sobre técnicas de salvação empacotadas. Uma coisa é religião, outra, muito diferente, é tanga, e a tanga, a mim, nunca me passou nas coxas. Não há para o meu número.



O melhor resumo da lenda de São Martinho

Ao fim da tarde do dia de São Martinho, comendo castanhas, acompanhada pela minha mãe:

- Mãe, conheces a lenda de São Martinho?
- Conheço.
- Conta lá.
- São Martinho era... olha... era um homem!

Desordem

No centro comercial já vi Pai Natal e presépios. As folhas do Outono começaram agora a cair. Às 10 horas tenho demasiado calor para vestir casaco. Tenho saudades de Purple Rain, aquela canção do Prince.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Como uma erva daninha

Quando nasci a minha mãe contou-me que o mundo ia acabar. Estaria para breve. Já a sua avó lhe tinha contado que do chão brotariam chamas altas como casas. Nasceriam monstros. Haviam de ser vistas coisas impossíveis e incríveis. A sua bisavó tinha contado à sua avó, pelo que a minha mãe cumpria a bem intencionada missão de me avisar. Que me portasse bem. Escarafunchando na memória dos inícios, acho que lhe terei perguntado para que fizera questão que eu nascesse, afinal, e não havendo resposta satisfatória, pus de lado a questão. Os pais nunca sabem explicar por que motivo desejaram que nascêssemos. Esforçam-se, mas não sabem. Nascemos porque nascemos, porque sim. Porque se nasce como nascem as ervas daninhas.
Nunca mais pensei nisso do fim dos tempos, a
té sexta-feira passada, data em que encontrei à minha frente, na fila do posto médico, uma negra com seis dedos em cada pé. Baixei-me para brincar com a filha de um ano de idade, perguntei-lhe o nome, Késsia, e confirmei, seis dedos, a mãe tinha mesmo seis dedos em cada pé. E uns chinelos de enfiar no dedo com a bandeira do Brasil. Se isto não é um sinal...

Aos 44

Creio que é capaz de ter o seu interesse saber de onde viemos e para onde vamos. Mas, útil, seria perceber com exactidão o que fazemos aqui. E, tendo-o percebido, por volta dos 40 anos, quando se percebe por volta dos 40 anos, agir consequentemente.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...