quarta-feira, novembro 28, 2007

Novos colonialistas desiludidos

As pessoas não mudam. Quando as reencontramos, muitos anos depois, percebemos por que nos afastámos.

A minha mãe acha que vai morrer e não pode deixar-me sozinha no mundo. Por isso, localizou-a. Eu quero estar sozinha no mundo. Quero a minha mãe e mais os amigos que escolhi, e me escolheram. De resto, por favor, deixem-me completamente sozinha no mundo, mas não me ofendam com as palavras brutais que tive de escutar a vida inteira sem poder protestar, e de que fugi quando fui senhora de mim.

A minha mãe deu-lhe o meu número. Ela queria muito falar comigo. Tinha-me perdido o rasto. Tinha saudades da doce menina perdida: eu. Em 20 minutos, o passado bateu-me no rosto com uma fenomenal chapada. "Os negros, os cabrões, os filhos-da-puta. Vim de lá há um ano. Nunca deixei que me faltassem ao respeito. Chamavam-me mamã, chamavam-me tia, e eu dizia-lhes, não sou tua mãe, que eu não sou puta. Nem tia, ó meu cabrão. E não me assaltas que eu sou branca e estrangeira e ponho a polícia atrás de ti, meu escarumba de merda."
Ouvi isto toda a minha vida. Venham-me falar no colonialismo suavezinho dos portugueses... Venham-me cá com essa história da carochinha.

As pessoas não mudam. Um branco que viveu o colonialismo será um branco que viveu o colonialismo até ao dia da morte. E toda a minha verdade é para eles uma traição. Uma afronta à memória do meu pai, mas com a memória do meu pai podemos bem: eu e ele. Se não fosse pela minha mãe, pelo respeito e amor que lhe tenho, rebentava-lhes os olhos com a minha verdade.
Os carniceiros foram todos tão bonzinhos que quando matavam o cabrito davam as vísceras aos pretos. A tripa. A pele. Pagavam-lhes o trabalho escravo com porrada e a farinha, que comiam com as mãos, aqueles porcos, e se os faziam trabalhar sete dias por semana, sem horário, era apenas o legítimo tratamento de que precisavam os preguiçosos. Um favor que o branco lhes fazia. Civilizar os macacos. E agora, em Maputo, uma falta de respeito. "Faltamos lá nós. Têm saudades. Um branco é constantemente assaltado. Na rua. Em casa. Roubam-nos tudo, os cabrões."
"E, olha, assim que puderes vem cá visitar a madrinha."

Pode bem esperar sentada.

terça-feira, novembro 27, 2007

Felizmente, vem nos livros

Será o século XXI a idade de ouro do orgasmo?, lê-se na contracapa de A História Íntima do Orgasmo, livro que comprei muito baratinho num saldo da passada Festa do Avante, e cuja leitura iniciarei durante a actual gripe, entre o amoxicilina das 15 e o Zyrtec das 18.
Respondo já: não, não é. Se vivêssemos na idade de ouro do orgasmo eu não haveria de a atravessar de uma ponta à outra sem dar por nada. Portanto...

segunda-feira, novembro 26, 2007

A máquina do Natal



Estamos no final de Novembro, mas os centros comerciais estão enfeitados com gambiarras, trenós e renas, desde o início do mês. No dia de São Martinho vi crianças sentadas ao colinho do Pai Natal, no Almada Fórum. Promoções de brinquedos, no Jumbo, muitas. Créditos especiais "compre agora e pague depois", com ou sem juros, inumeráveis. Este fim-de-semana, o trânsito direccionado às grandes superfícies intensificou-se. Os centros comerciais abarrotavam.
Compre, adquira, ofereça, tenha, possua, exiba, use, satisfaça, seja como todos os outros que compram, adquirem, oferecem, têm, possuem, exibem, satisfazem. Gaste já o seu subsídio de Natal, caso o tenha recebido, porque foi para isso que o recebeu. Alimente o monstro com o seu crédito. É esta a letra oculta dos Jingle Bells que se vão ouvindo pelos altifalantes do centro comercial. Oh-oh-oh-oh-oh, compra-compra-compra...
Mas eu gosto do Natal. Antecipo a noite, os bolos-rei, os pudins, a mesa do jantar com o bacalhau, que é melhor ou pior, mas que sabe sempre bem, quentinho e regado a azeite. Gosto de me rir e conversar enquanto estamos todos juntos, recordando situações do passado, contando histórias.
Quando era pequena passava a tarde do dia 24 de roda das saias da minha mãe que fritava quilos de filhoses para distribuir pela vizinhança e pelos amigos. A D. Alice faz sempre filhoses de cenoura a mais para mim e para a minha mãe, e nós levamos-lhe um bolinho rei. Ou de chocolate. Ou um pão-de-ló. Que bom estarmos juntos, falarmos, bebermos licores e comermos docinhos. Que bela altura para estarmos juntos. O Natal devia ser só isto. Era o principal. Chegava.
Entretanto, não há ninguém na rua; estão todos nos centros comerciais a comprar prendas.
Não é verdade que os portugueses pensem gastar menos este Natal, ou seja, que a crise diminua o consumo associado à troca de prendas.
Estamos ainda a um mês da comemoração do nascimento do homem que se insurgia contra os vendilhões do templo... e toda esta movimentação se realiza em nome da dádiva e do amor, ou seja, em seu nome.
O consumo natalício já se percebeu, não vai diminuir. Que não chegue para o bacalhau e para as batatas, mas há-de chegar para a máquina de café Nespresso e para o camarão tigre, é certo.

domingo, novembro 25, 2007

Loura nº 7



Sempre fui uma gabada, lustrosa e naturalíssima loura-acinzentada. Antigamente, nas cabeleireiras, as empregadas chamavam-se umas às outras, "Oh Carla Sofia, anda cá ver o tom desta senhora.... ah, é tal e qual o 7B da Vitacor, já viste?!, mas mais natural... É natural, não é?! Ah! Que sorte! Cátia Vanessa, olha-me este cabelo! Querias, não querias?!" Nos últimos 44 anos tem sido assim; que posso fazer contra a perfeição genética resultante do mais rafeiro cruzamento de genes da Estremadura?!
Esporadicamente, nos últimos anos, senti-me uma loura nº 8, pelo que experimentei, e gostei. Em alturas críticas fui uma nº 9. Abusei tanto! É óbvio que nunca se é demasiado loura nem demasiado morena ou ruiva, desde que nos sintamos equilibradamente etéreas. Mas, ultimamente ando com os pés muito enterrados na terra, pelo que ontem, sentindo já saudades de mim, pedi à cabeleira que me pintasse o cabelo de louro-acinzentado. "A sua cor natural?", perguntou a senhora. "Sim, a minha exacta cor natural".


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...