domingo, dezembro 09, 2007

Os que têm vergonha de ser feministas

Foto: Craig Buchan, Boot


Os crimes relacionados com o tráfico de pessoas têm vindo a substituir os que consistiam no tráfico de droga. A maioria das vítimas são mulheres oriundas dos países da ex-URSS, África e Brasil, usadas como matéria-prima no mercado da prostituição ocidental.
É normal que os cidadãos de um país em crise pensem fazer biscates ou emigrar para encontrar trabalho, mas vender o corpo e a dignidade não surge como uma primeira opção, como acontece com as cidadãs. Que tragédia, a dos que são levados a encarar a prostituição, e a sua esclavização, como forma de sobrevivência! E como isto nos grita a realidade sobre o pensamento do mundo em que vivemos! Do mundo civilizado, imagine-se. Por que motivo a prostituição, e respectiva escravatura, haveria de custar menos às mulheres do que aos homens? Não custa. O que houve, foi, desde sempre, e não terminou ainda, uma legitimação generalizada da prostituição feminina como destino natural daquelas que a fortuna desafortunara. Hoje, chegámos mais longe: a prostituição profissionalizou-se para servir eficazmente o mercado do sexo como anestesia da vida, substituindo-se às drogas. Hoje, as prostitutas têm orgulho no seu trabalho, e publicam livros, o que é centenas de milhar de vezes pior para a dignidade das mulheres como um todo, e, portanto, pior para a humanidade, do que a vulgar prostituição das miseráveis, ou das que foram culturalmente destituídas dos meios de sobrevivência que não adviessem da sua sexualidade. É que essas queriam ser outras, tinham alguma consciência da sua exploração, mas as prostitutas de hoje, não. Oferecem-se voluntariamente à prostituição! Por amor à arte! Que cordeiros de Deus! Uma mulher feliz porque é prostituta não pode ser feliz, nem livre, porque, dêem-lhe as voltas que derem, o sexo nunca poderá, sem desvirtuamento, transformar-se num produto de consumo. A existência de um comércio sexual sólido e lucrativo, desde sempre, mas actualmente sem paralelo, não tornará essa realidade em algo desejável, elegível segundo os princípios básicos de uma moral transversal à maior parte das culturas mundiais. Tenho muita pena, mas é exactamente assim. O sexo que temos lá fora, rápido, industrializado, em muitos casos vil, é bem o reflexo desta filosofia tão sombria para a dignidade das mulheres como o foi a subalternização dos papéis, aceite através do casamento tradicional e respectivos deveres, aos quais algumas sobreviveram mediante continuadas estratégias de guerrilha.
De que outra grande prova necessitamos para compreender que o estatuto social das mulheres não mudou como se pensa, e que estas permanecem culturalmente subalternizadas, como regra? Este é o motivo pelo qual as reivindicações feministas continuam, hoje, tão actuais como o foram ao longo do século XX.
Há quem tenha vergonha de ser feminista. Não há qualquer vergonha sobre ser-se ecologista, anti-racista, defensor dos animais, mas feminista é que não, porque hoje já não se justifica lutar pela igualdade dos géneros. Somos todos tão iguais, pois não somos?

sábado, dezembro 08, 2007

As minhas cuecas



Estou desertinha que chegue o Natal. Tenho o armário cheio de cuecas, mas nenhumas me servem. Do que estou mesmo a precisar é de umas valentes cuecas de gola alta de algodão, confortáveis, que muito aprecio, mas que me envergonha comprar na loja, para que as vendedoras, todas de madeixas louras e cobre, e rimel, e fio dental tamanho 36, com rendinhas, não me julguem velha e gorda. Sim, porque o julgamento das meninas conta-me muito. Portanto, espero ansiosa pela salvação que, querendo o Menino Jesus, me há-de trazer o Pai Natal da D. Trindade, e da D. Maria, e da D. Natalinha...

Não se explicam

Estávamos sentadas perto de uma miúda loura, mais colegas de grupo. Procuravam qualquer coisa sobre a cidade de Almada, no Google, e desaguaram num site sobre Almada Negreiros. Comenta uma delas, em voz alta:
- Almada Negreiros?! Quem é este gajo?
A minha companheira de leitura adverte-a:
- Oh, menina, o Almada Negreiros não foi um gajo. Está a falar de um dos nossos melhores escritores e pintores, portanto vamos lá ter mais cuidadinho com a língua.
A miúda engoliu em seco.
A minha companheira concentra-se na leitura. Um par de minutos depois, interpela-me:
- Ouve lá, Isabela: O mito é o nada que é tudo/o mesmo sol que abre os céus/é um mito brilhante e mudo... o que é que este cabrão queria dizer com isto?

O meu programa preferido

É o 3, para algodões, a 60º, na minha máquina Indesit.

Cada época tem o António Ferro que merece

Dadinho Pitão é a favor do Imposto sobre o Saco de Plástico (ISdP), porque não suporta vê-los pendurados, com o objectivo de afugentar pombos, nas varandas das avenidas elegantes e Lisboa, isto é, Estados Unidos da América, Roma e transversais. Ah, Dadinho, que amofinação hein?! Só as ruas permanecem elegantes, de resto, que chusma de pindéricos plastique-nouveaux-riches!

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Acaso

Não gosto de explicar porque gosto das coisas. De um poema. Das pessoas. Se calhar devia, mas não gosto. Quero gostar das coisas e dos poemas e das pessoas sem ter de explicar por que me picam os olhos, as mãos, a boca só por que um dia parei e as encontrei nuas, sem querer.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Aguenta e não chora (uma crónica sobre altas finanças)


O Governo pretendia acabar com a poluição mediante a tributação do Imposto sobre o Saco de Plástico (ISdP). Portanto, eu que já uso os do supermercado para colocar o lixo doméstico, sendo que os preços dos produtos comprados no Jumbo incluem os gastos da empresa com os ditos, e portanto nem sequer são à borla, passaria a pagar acrescidos cinco cêntimos por cada unidade. Parece-me bem. A algum sítio tem o governo do cidadão Sócrates e conjurados de ir buscar receita, continuando a deixar por resolver os fracassos estruturais, todos culturais, de que padecem as finanças da nação.
Fiquei muito satisfeita, logo de manhã. Ia no carro para a fábrica, ouvi a notícia na TSF, e passei o resto do dia sorrindo. Imposto sobre o saco de plástico: ah, leões! Podia ser finlandesa e ter a melhor educação do mundo. Podia emigrar para o Canadá e beneficiar de excelente Segurança Social. Tinha possibilidade de ir para a Suécia ganhar um bom ordenado. Se quisesse casava com o meu amigo espanhol, reproduzíamo-nos que nem ratos nas clínicas de fertilização humana, e receberia subsídios de maternidade uns atrás dos outros. Mas não, o que eu quero é mesmo ser portuguesa, porque me divirto mais.
Para que possamos não só resolver os nossos problemas ecológicos, como encher os cofres da nação e reduzir o déficit, à custa da pura exploração dos cidadãos, todos já de fio dental, ou seja, matar três coelhos de uma só cajadada, proponho os seguintes impostos: ainda no âmbito do plástico, temos outras realidades altamente poluentes e passíveis de taxa. Isto é só um supor, mas vejamos: Imposto sobre a Garrafa de Plástico (IGdP); Imposto sobre os Pacotes de Batatas Fritas, Bolycaos e outros Snacks (IPBFBeOS); Imposto sobre Embalagens de Legumes, Frutos Secos e Fruta Fresca, ou de Qualquer Natureza, Tipo Detergente, Shampô, Dentífrico e Etc. (IELFSeFFQNTDSDeE). E já agora, para que não se elimine apenas a poluição plástica, vamos à das latas: Imposto sobre Todo o Tipo de Lataria (ITTL). Quanto à quantidade de garrafas de cerveja largadas no chão das zonas da noite, muitas delas escaqueiradas: o impostozinho da ordem (IGCLCZN).
Como os postos de trabalho nas empresas de reciclagem diminuirão drasticamente, proponho um plano de acções de formação em processamento de impostos, custeadas pelos trabalhadores, os quais seriam integrados nas repartições de finanças, onde o trabalho se multiplicaria, mas tudo a recibos verdes.
Outros impostos que convinha ponderar devido ao elevado número de cidadãos a que se aplicariam: Imposto sobre a Respiração (IR) - com condições especiais para asmáticos; Imposto sobre o Cagalhão Canino (ICagaCan) - só para donos de cães ou simpatizantes. Neste caso, seria necessário criar uma Polícia do Cagalhão (PolCaga) ou, em alternativa, promover a denúncia entre vizinhos; como os vizinhos bufos são bastante poluentes da atmosfera social, só por existirem, criar-se-ia o Imposto sobre o Bufo (IBufa). Da mesma forma, proponho o Imposto sobre a Estúpidez (IEst), mas, neste caso, o Governo seria o principal contribuinte. Contudo, era apenas dinheiro a entrar e dinheiro a sair, para além de criar postos de trabalho, todos a recibo verde, cujo objectivo seria cobrar o imposto ao Governo e, numa fase posterior, receber o imposto do Governo.
Nunca imaginei a quantidade de interacções contribuitivas que o Imposto sobre o Saco de Plástico podia gerar, pelo que o considero mais uma das geniais ideias deste Executivo.

Sobre o assunto, mas num registo sério, valerá a pena ler este poste no Quarta República.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...