sexta-feira, janeiro 11, 2008

Quero-te tanto

Foto: Callaveron


Hoje li um poema de amor. Comecei a ler um poema de amor. Trazia a onda salpicada de marulho e sal, o relâmpago quase a rebentar, uma espécie de beijo roubado contra o muro do parque, uma vertigem, um abaixamento da tensão arterial, repentino, oportuno, e, num segundo, esse ápice, e não mais, atravessou-me a estúpida lembrança de me ter esquecido tão ignobilmente do amor.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Não posso, querido, que agora estou na palhaçada

Brigitte Bardot e Jane Birkin apanhadas com a cabeça descoberta


As judias ortodoxas têm uma sorte que não cabe às cristãs. Podem enrolar-se livremente umas com as outras, sem restrições, porque lesbianismo não é pecado. Trata-se, apenas, de duas moças na palhaçada, portanto, nota zero em preocupação.
Estava ali um marido a queixar-se bastante num documentário do canal Odisseia. A mulher arranjou uma amante, não lhe liga uma uva, já não lhe lava as peúgas, e o homem, coitado, quer divorciar-se, naturalmente, mas o rabi não vê motivo. "Deixa as miúdas divertirem-se", alega o responsável religioso, acrescentando que "nada consta nos livros sagrados". Qual é o problema? Pecado é não trazerem a cabeça devidamente coberta.
Eu, que em tempos perdi, por uma unha negra, a inscrição no Clube das Periquitas Desengaioladas, acho tudo isto uma delícia ímpar.

Delicadeza

Estão-me sempre a passar o garfo e faca, mas eu prefiro comer com as mãos todas nuas.

Esgotam a imaginação toda na cama

O meu meu amorzinho lindo tinha as cuecas rotas em zona de entrepernas, pelo que o convenci a comprar um set de boxers sexy da Calvin Klein, muito justos, muito fashion.
Na fila da caixa, à nossa frente, outros individuos do sexo masculino pagavam as suas peças de roupa. O primeiro adquiriu duas camisas brancas com risca vertical azul, exactamente iguais; o segundo levou sete, sendo que três eram brancas e quatro pretas, todas do mesmo feitio; um terceiro comprou uma em cremezinho, lisa, sem grande fantasia, mas, vá lá, bonitinha.
A moral deste fait-divers quotidiano é coisa simples: alguma leitora alguma vez adquiriu, para uso próprio, uma série de camisas exactamente iguais: duas, três, quatro? Não se tratando de uniforme, bem entendido.

terça-feira, janeiro 08, 2008

A vida antes do saco de plástico


Até aos anos 70, meados de 80

Íamos a pé à mercearia do bairro, ao sábado. Levávamos sacos de pano ou oleado e uma lista de géneros. Às vezes havia bicha. As outras mulheres entretinham-se conversando sobre a vida, os filhos, os maridos, as vizinhas, enquanto a dona Maria ia debitando o avio, "um pacote de açúcar, um pacote de cotovelinho, uma garrafa de azeite, esse não, dê-me do Galo; uma lata de salsichas das grandes, uma lata de atum Bom Petisco, não tem Bom Petisco?!, quando é que vem? então levo p'ra semana; um pacote de café de cevada, uma garrafa de vinho branco, qualquer uma que é para o marido; um pacote pequeno de caldos Knorr, um pacote de rebuçados do Dr. Bayard, esparguete, tem do Nacional?..."
Regressávamos carregadas com o avio da semana. A mercearia era suficientemente perto e familiar para lá darmos um pulinho quando faltava algo, de repente. Batíamos no vidro da porta, ou íamos chamar o proprietário a casa, "oh, senhor António, desculpe lá, mas preciso tanto de um pacotinho de erva doce para as castanhas. Venda-me um, se faz favor."
Se íamos à praça levávamos os mesmos sacos de pano ou oleado. Se aí nos deslocávamos de improviso, ou nos esquecíamos dos sacos, era necessário comprar um de plástico, ou dois; os vendedores penduravam-nos nas bancas e vendiam-nos a cinco escudos a peça. Gastar dinheiro num saco plástico, dos bons, que guardávamos religiosamente, era um drama. Evitava-se bastante.

Ideias importante a reter:

1. Aviávamo-nos todos as semanas, e os avios eram pequenos, consentâneos com o que podíamos transportar nos sacos das compras.

2. Já existiam supermercados, como o Jumbo, no Centro Sul, onde se ia muito de vez em quando, mas não se tinha dada a explosão de hipermercados, a qual veio rebentar com o comércio tradicional. O consumo por atacado implicou a necessidade de sacos por atacado.

3. O lixo era depositado directamente do balde doméstico para o contentor. A campanha dos sacos surgiu posteriormente, dando utilidade aos que se traziam dos hipermercados.

Era outra vida. Impor limites ao uso de sacos de plástico implica, de alguma forma, voltar a um estilo de vida passado. Por mim, no que respeita às mercerias de bairro, venha ele. O pior são os contentores do lixo.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

O meu anjo bebe até cair

(Para o meu anjo.)

Tolero quase tudo aos que amo. Lá me custa, lá remoo, mas engulo. O álcool como vício, não. Não falo de um copo aqui, uma cerveja acolá; quero dizer, tremer de vício, cheirar a ele. O álcool degrada, corrompe, marca, destrói velozmente; faz das pessoas aquilo que nunca foram. Cria monstros que se apaziguam com veneno.
Nada posso fazer por um alcoólico, porque ele está todo dentro da garrafa, só e imundo na sua garrafa, que é todo o seu mundo, tudo o que vê, e não consegue escutar-me, nem sentir comigo. Nem quer.
Isto ocorreu-me agora, enquanto assistia ao excelente documentário sobre o Luíz Pacheco que passou na RTP2: o filho mais novo, o que viveu com ele, revelava ser o alcoolismo o único hábito do pai que o incomodou, e que nunca tolerou. Compreendi muito bem. Também eu tenho os meus alcoólicos, em relação aos quais me sinto impotente como um muro de cimento.

domingo, janeiro 06, 2008

O trangressor passou-se

Luiz Pacheco


O Pacheco não pretendeu ser outra coisa que não um homem. Era a sua insubmissão, a sua graça, e a sua vitória sobre a cultura vã, povoada de senhoritos sem mácula, que não espirram, não mijam, não fornicam nem são vis nem piedosos nem nada, mas que vestem fato e gravata Massimo Dutti, lavam as mãos com Dove e recitam eloquentes poemas que não compreendem nem sentem.
O Pacheco tinha mácula, e isso tornava-o imaculado. O Pacheco era exactamente o que nós somos, mas de que fazemos segredo, para passarmos por educados, gente de classe, coisas assim, que os outros possam aceitar. Nós somos o Pacheco, mas o Pacheco dava-se ao luxo de ser gente por todos nós.
Não me dá jeito nenhum que o mestre tenha morrido a noite passada.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...