terça-feira, janeiro 15, 2008

Querida, vou trocar-te por outra

No People & Arts passa um programa de troca de esposas.
Durante duas semanas, os elementos femininos dos casais largam os seus lares e integram agregados familiares estranhos, dos quais saem, igualmente, as mulheres que se ocuparão dos seus.
As esposas largam a casa, obrigatoriamente, e nunca os maridos, pelo que deduzo que as regras assentem na filosofia de que o proprietário do imóvel, bem como da união, é o homem, sendo que o elemento portátil, o qual se acha legítimo mudar, como um sofá ou uma arca frigorífica, a mulher.
Este tipo de programas, embaraçosos, lamentáveis, ajuda-me a demonstrar que a emancipação da maior parte das mulheres, sobretudo as casadas, ainda não aconteceu, ou aconteceu pouco e mal, sendo que as mais elementares reivindicações do feminismo se encontram por realizar.
Gostava que os leitores meditassem 15 segundos sobre estes indícios de cultura patriarcal, aparentemente tão inofensivos.


segunda-feira, janeiro 14, 2008

A crítica não gostou de Call Girl

A maior parte dos filmes portugueses que ninguém quer ver teve boas críticas, embora vos garanta não saber a quem servem tão ilustradas obras. O cinema português das últimas décadas esforçou-se arduamente por se fechar ao público, e conseguiu. Eu, nem que me paguem. Não há pachorra para histórias de incesto entre irmãos toxicodependentes que se automutilam até à morte, ou de prostitutos homossexuais que vendem os corpos decadentes em prédios macabros, onde por acaso também se traficam órgãos humanos. Que a fotografia seja muito boa, que o texto se encontro pejado de indescritíveis arroubos literários, nada me comove. O que eu quero é um história bem contada, um texto são e escorreito, sem tiques intelectualóides, inteligente e veloz. Mas eu sou o público, não a crítica, a qual arrasou Call Girl, o último filme de António-Pedro de Vasconcelos. Para a crítica, Call Girl não passa de um telefilme cheio de lugares-comuns. Os críticos, todos homens, alguns com blogue, saídos dos melhores colégios, possuem um livro de regras muito restrito, quase todo baseado no Casablanca ou outro histórico do cinema a preto-e-branco, que eu muito respeito. Não é que façam mal. Que eu me recuse a ler uma crítica antes de ver um filme é outra história.
Entretanto, António-Pedro Vasconcelos vai sorrindo. O filme vende. É comercial?! Claro que sim, mas o óleo Fula e a pasta Colgate, também.
Se a ideia é fazer cinema, convém começar por algum lado.
O problema de Call Girl, para a crítica, é que o filme se vê bem. O argumento está decentemente esgalhado, com graça, e a interpretação não é nada má, tirando a de Ana Padrão, que treme demais para tão pouco. Na sessão a que assisti, com casa cheia, o público manteve-se preso à história, e divertido, envolvido pela caricatura dos polícias à Hollywood. Soraia Chaves é linda, mas, sinceramente, o filme sobreviveria com qualquer actriz dotada de glândulas mamárias mais modestas. Não é uma obra-prima, mas não envergonha quem nela participou. Que mais se pode pedir numa fase ainda tão primária do campeonato?



Fotograma de Call Girl, com Soraia Chaves e Ivo Canelas

domingo, janeiro 13, 2008

Come-me

No desejo dos homens não há moral nem culpa nem censura, mas bruteza e urgência e um desespero estrangeiro. O desejo dos homens é cego e surdo-mudo. Cheira como um cão, e abocanha, e morde no escuro, guiado pelo faro e lambuzado de saliva; é a besta perdida e esfomeada da matilha. O desejo dos homens é uma faca aquecida na forja; terra inculta, ignorante. Os homens não fazem amor connosco de madrugada: puxam a nossa carne, sonolentos e loucos, agarrando-se ao naco mais quente, suado, o qual montam, irracionais, desalmados, comendo-nos com fogo e fúria e raiva sem objecto. E é por esse desejo tão rasteiro, tão cão, tão puro.

sábado, janeiro 12, 2008

Um país tão desgovernado

Não há problema algum no facto de o governo recuar nas suas medidas. Eu própria mudo de ideias pelo menos uma vez por semana. Ainda na quarta-feira, ao almoço, no snack-bar ao lado da minha fábrica, tive de chamar o senhor Lino, que é como se chama o empregado de mesa, e dizer-lhe, "olhe, desculpe lá, afinal não me traga a feijoada, que ando mal da figadeira; pode ser antes o peixinho", e não houve ondas. A questão não reside na mudança de ideias, mas no facto de, comprovadamente, o governo não pensar o que faz, quando pensa fazer. Trabalha em cima do joelho, logo, mal.
Enquanto habitante da Margem Sul, agrada-me que o distrito de Setúbal tenha sido escolhido como base para o novo aeroporto. No entanto, devo um reparozinho à acção do governo: se a escolha da OTA como localização para um novo aeroporto nunca foi consensual, os estudos adicionais encomendavam-se no momento em que se recebeu a pasta, não após o anúncio da primeira localização e respectiva contestação. E isto vale para todas as tomadas de posição, seguidas de recuo, nas quais o governo do cidadão Sócrates se tem visto envolvido. Primeiro pensa-se, pondera-se, depois age-se com certeza. Para além de que não se governa um país, nem uma casa, atirando culpas para o governo antecessor: avaliam-se situações e resolvem-se problemas.
Se me desse na veneta mandar construir uma vivenda de dois andares, com circuito de manutenção e parque de diversão para cadelas, preocupar-me-ia em eleger um local interessante, e possível, o lote de terreno mais adequado, uma boa arquitecta, empresa de construção civil, materiais, prazos, custos, entre outros. Só após ter reflectido tudo isso muito bem, ter pesado vantagens e desvantagens do empreendimento, me daria ao luxo de o tornar público junto de amigos e conhecidos. Trabalhar à cegas, sem avaliar abrangentemente um projecto, aparentando serviço e eficácia, só aparentando, isso é que jamé.
Igualmente, me sinto no direito de questionar se todas as medidas que o governo tomou até hoje, e nas quais não recuou, foram as melhores. Se calhar dava jeito que o governo reavaliasse, também, uma série de políticas injustas e desastrosas que implementou na Segurança Social, Administração Pública e outras áreas que se tornaria fastidioso enumerar. É legítimo pensar que também nessas se tenha enganado.
Cá fico, portanto, à espera da retractação.


sexta-feira, janeiro 11, 2008

10 segundos

O belo-horrível.

Quero-te tanto

Foto: Callaveron


Hoje li um poema de amor. Comecei a ler um poema de amor. Trazia a onda salpicada de marulho e sal, o relâmpago quase a rebentar, uma espécie de beijo roubado contra o muro do parque, uma vertigem, um abaixamento da tensão arterial, repentino, oportuno, e, num segundo, esse ápice, e não mais, atravessou-me a estúpida lembrança de me ter esquecido tão ignobilmente do amor.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Não posso, querido, que agora estou na palhaçada

Brigitte Bardot e Jane Birkin apanhadas com a cabeça descoberta


As judias ortodoxas têm uma sorte que não cabe às cristãs. Podem enrolar-se livremente umas com as outras, sem restrições, porque lesbianismo não é pecado. Trata-se, apenas, de duas moças na palhaçada, portanto, nota zero em preocupação.
Estava ali um marido a queixar-se bastante num documentário do canal Odisseia. A mulher arranjou uma amante, não lhe liga uma uva, já não lhe lava as peúgas, e o homem, coitado, quer divorciar-se, naturalmente, mas o rabi não vê motivo. "Deixa as miúdas divertirem-se", alega o responsável religioso, acrescentando que "nada consta nos livros sagrados". Qual é o problema? Pecado é não trazerem a cabeça devidamente coberta.
Eu, que em tempos perdi, por uma unha negra, a inscrição no Clube das Periquitas Desengaioladas, acho tudo isto uma delícia ímpar.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...