segunda-feira, janeiro 21, 2008

A crise

Estava com a luzinha da reserva a rebentar há uns bons 50 quilómetros. Pensei, pá, não chego a casa, e se me falta a gasolina na auto-estrada estou feita.
Cartão de crédito com a banda magnética estragada. Cartão multibanco com 56 cêntimos. No porta-moedas, uma moeda de um euro, mais uma chincalheira de pretos. 1,99. Foi a conta que apurei após despejar todo o metal em cima do balcão, contá-lo, e dizer à senhora da bomba, que sorria que nem uma rã inchada de gozo, olhe, ali aquele Opel Corsa, registe aí 1,99 da de 95. Ela repetiu, para mal da minha vergonha. 1,99? Respondi baixinho, sim, sim. Não digam nada à minha mãe.

O respeitinho foi muito bonito, quando?


Sob influência do poste anterior, portanto, no que respeita a "lançar lixo para o quintal do vizinho", gostaria ainda de evocar os exercícios com F16, a 50 metros do solo, e à velocidade do som, que ocorreram, a semana passada, sobre os telhados nocturnos de Penamacor. Pela descrição das testemunhas, a mim, que sou nova, e urbana, e outras coisas, tinha-me dado o badagaio. Imagino, portanto, a inquietação sentida por velhotes, crianças e animais incapazes de perceber a origem das explosões, e de as racionalizarem.
Estamos ainda demasiado próximos dos habitantes dos bairros de Lisboa que, há poucos séculos, lançavam os dejectos pela janela, à baldada. Cada um suja como pode. Atira fora. Alguém limpará. Ou não. Que importância tem isso?!
Tudo isto, a meu ver, se relaciona muitíssimo com a questão humanista do respeito pelo outro, que está muito esquecida, ou nunca existiu, sei eu lá.


Vou abrir a janela e livrar-me já disto, enquanto ninguém vê

A semana passada, a funcionária de limpezas de um laboratório da Faculdade de Farmácia, da Universidade de Lisboa, atirou para fora do edifício um frasco contendo um químico da família do enxofre, e com o mesmo cheiro, o qual se espalhou velozmente pela zona da Cidade Universitária. Por acaso, não era químico cujo derrame pudesse constituir risco de maior para a saúde pública. Mas, se fosse?
Acho uma certa graça a esta história da dona Ermelinda que encontra um frasquinho fissurado no frigorífico do laboratório, pensa que o melhor é deitá-lo fora, e, em lugar de usar os depósitos de lixo próprios de um laboratório, assunto para o qual deve ter recebido formação, escolhe lançá-lo janela fora, para um baldio contíguo. Isto faz-me lembrar uns vizinhos meus, de diferentes prédios, que há anos atiravam os sacos do lixo doméstico pela janela do 5º ou do 4º andar, os quais sobrevoavam as nossas cabeças para aterrar uns metros mais à frente. É, sou testemunha desta original forma de alguém se desfazer do lixo doméstico.
A ideia é a mesma. A de mandar o lixo para o quintal do vizinho. A de não nos darmos aos trabalho que nos compete, a de desconhecer a noção de responsabilidade cívica. Tudo tão português e tão atrasado. Ainda.

domingo, janeiro 20, 2008

Uma gorda que não faz jogging e por isso não arranja namorado



Acabei de chegar a este comentário neste blogue, digitando omundoperfeito no Google. É um texto demasiado alucinado para não o partilhar com os leitores.

«Hi! I just found your blog because I know a portuguese lady that writes in a blog called omundoperfeito.blogspot.com, that translates to English as aperfectworld.blogspot.com! I love to annoy her because she is a fat lady, she does not do exercise like you do, and then she simply can't find a boyfriend and is always complaining about her sex life! It's a shame that you probably don't know portuguese and can't visit your Portuguese sister and make a few comments, because the debate is always interesting!
Your blog is fine, I don’t understand why you don’t get any comments!
I am a big fan of some music from Texas, particularly from Austin.
I’ll visit you again soon. Keep jogging!»

O comentador gosta de me aborrecer porque sou gorda, e não faço exercício. Podia ser porque sou chata, porque estou errada, porque tenho mau feitio, porque dou respostas tortas, porque não estou para aturar malucos, mas não, é por esse insuportável defeito: ser gorda. Tenho tido muito tempo ao longo da vida para pensar nos inconvenientes sociais disto de se ser gorda, sendo que o maior deles reside no facto de os outros nos olharem como uma espécie de deficientes por culpa própria. É possível um gordo fazer uma certa ideia do que significa ser cigano ou negro, e discriminado por esse facto, porque um gordo é discriminado todos os dias, olhado de lado. O gordo não tem apenas de lutar com o seu corpo, com o problema físico ou psicológico que o leva a engordar, mas trava, igualmente, uma luta contra o estigma que pesa sobre a sua aparência. Sinceramente, já houve dias em que me custou sair à rua. Não me apetecia levar com os outros. Suportar as alcunhas, os ditotes. Acho que ter sido gorducha desde a puberdade fez de mim uma pessoa desconfiada, reflexiva e só. Penso que um gordo é, como um alcoólico, gordo para sempre, mesmo que aparentemente seja igual a todos os outros. No que tenho de mais verdadeiro, de mais fundo, serei gorda para sempre.


sábado, janeiro 19, 2008

Tenho saudades do senhor António

O senhor António sempre foi um exemplo conjugal no prédio. Baixito, franzino, moreno, mas, sobretudo, trabalhador, prestável e honesto, casado com uma senhora trombuda, cujo nome se desconhece, mais larga de ombros que de anca, que mesmo maquilhada, e vestida de cerimónia, nos continua a parecer um moldavo das obras, mas de saias, pai de um adolescente com dimensões suínas, autor de todas as grafitagens nas paredes vizinhas, e de pontapés aleatórios em cães aleatórios, porque é um revoltado e lhe apetece. Ao senhor António, homem da minha idade, nunca lhe faltou nada.
Eu e a minha mãe davamo-nos bem com o senhor António, que sempre nos tratou com simpatia. Há dois anos deixámos de ver, e o escândalo estalou. Veio a saber-se, boca-por-boca, que tinha arranjado uma brasileira, saído de casa, acenando bye-bye à vida de honesto pai de família. A minha mãe desculpou-o, coitado, que tinha uma vida muita presa e queria soltura. Que os homens não querem paradeiro e que chegando aos 40 começam a saltar dos eixos, até o meu pai, que Deus tenha. Tínhamos pena dele; ocorría-nos a imagem mental da mulher e do filho e, bem, eu tinha.
Encontrei hoje o senhor António, no Laranjeiro. Estava no Oásis com uma dengosa mulata. Deixou crescer o cabelo, e molda-o com um gel molhado. Usa brincos de diamantes. Chamou o gerente, para lhe dizer que não pagava o ginger-ale, porque o tinham trazido quente e sem gelo, como o pedira. Aconselhou-me a fazer sempre valer os meus direitos, em todo o lado, que se uma pessoa paga, tem direito a ser bem servida.
Ainda dizem que o sexo anal tem contra-indicações.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

A Márcia olha-me com raiva

Observo com preocupação alguns adolescentes que foram crianças doces e se tornaram maus, hostis, agressivos. Não percebo o que lhes aconteceu. A educação falhou por escassez ou por excesso? Como é que se educa pela medida certa? Como é que uma mãe, ou um pai, sabe que é correcto dizer não num momento, e sim no outro? Cede-se? Não se cede? É a olho? Seguimos os livros? Posso educar a minha filha como a minha mãe me educou. Seria bastante mais fácil. De bofetada em bofetada, a miúda iria crescendo. Tenho a certeza.
O que determina que um adolescente seja uma pessoa respeitadora, confiante, educada, e, outro, um pequeno monstro de malvadez e má educação? Como posso eu saber no que se transformará a minha filha? Isto preocupa-me. Havia de sofrer muito, e sentir-me impotente e amarrada, se se transformasse numa Márcia.

Se pudessem baixar-lhes o volume

As crianças são amorosas, é evidente; vêem o mundo com uma lógica que perdemos, ou melhor, que tivemos de adaptar. São lindas, são boas, são puras, o pior é a gritaria.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...