quinta-feira, janeiro 31, 2008

Um caso com Nuno Gomes

Apareceu-me o Nuno Gomes na garden party, todo mesuras. Para onde quer que fosse, onde me sentasse, o Nuno não me largava. Isabela, isto, Isabela, aquilo. Lá estava o rapaz a fazer-me a corte sem ser correspondido. Acabei por pensar o que penso muitas vezes, isto é, ok, não te livras dele, portanto, conversa um bocado; pode ser que lhe descubras interesse; nunca se sabe que surpresas a vida nos reserva. Lá me deixei estar sentada com o Nuno, escutando uma conversa que não me interessava um chavo, cordial, sobretudo concentrada no que bebia, disfarçando o tédio, e eis que o filho-da-mãe se aproveita de um momento de proximidade física e me pespega um irracional beijo molhado. Receber um beijo de alguém de quem não se gosta é nojento. Ninguém, com dois dedos de testa, avança para um beijo molhado sem roçar um braço, uma perna sem querer. Sem ritual. Um beijo é gradual. Vai-se progredindo.
Fiquei chateadíssima, como é óbvio, pelo que peguei nele ao colo e o sentei na outra ponta do sofá, de castigo. Quis ralhar-lhe sem dó, mas, ao senti-lo tão leve, só me ocorreu dizer-lhe, "filho, estás magrito. Assim não dá... já pensaste fazer um tratamento?" Ao que ele me respondeu, muito preocupado, "Sim, vou começar um tratamento para repor massa". Esclareci rapidamente, "mas comigo não alimentes esperanças, mesmo com massa, percebes?!"
A minha ex-psicanalista havia de ter gostado deste sonho.


segunda-feira, janeiro 28, 2008

Yes, we can

No próximo mês terei de abrandar a postagem de textos. Apenas abrandar. Provavelmente, não poderei escrever todos os dias. Sabem lá os leitores o que me custa! Deve ser como andar a fumar ao ritmo de um maço por dia e, de repente, não poder ultrapassar os três cigarros, um de manhã, outro à tarde e outro à noite. É a vida, meus amigos, ou melhor, a necessidade de ganhar a vida, mas prometo que assim que tiver tempo livre volto em força e vamos partir tudo o que ainda estiver inteiro. Como diz Obama, yes, we can change, yes we can heal this nation... [Bem, a nossa já não.]

Utopia em progresso

Barak Obama e mulher em campanha

Com um bocado de sorte, e cansaço, e raiva dos americanos, é provável que dentro de nove meses Barak Obama seja eleito presidente dos Estados Unidos da América.
Até há pouco tempo não acreditaríamos que um homem negro tivesse hipótese de chegar à presidência dos EUA. Seria necessário esperarmos 50 anos. Talvez 80. Dizíamos. Parecia-nos muito mais provável que os americanos, influenciados pela Europa, escolhessem eleger, primeiro, uma presidenta. Hillary Clinton, naturalmente. Mas Hillary não parece prometer mudança com a autenticidade de Obama nem com a mesma voz, as mesmas mãos. Hillary esteve no sistema. Está. Não há grande garantia de que não seja mais do mesmo. Não convence. Ou melhor, não suplanta Obama, que discursa como um pregador, como um Luther King, um negro. Escutei o seu recente discurso da vitória, na Carolina do Sul, e apanhei-lhe a prosódia sincopada, arrastada nas palavras-chave, de quem ouviu com muito atenção o registo de I have a dream. Ele evoca de novo, aos americanos, esse sonho amputado de justiça para todos.
Mas Obama é, acima de tudo, uma ideia tornada possível por um produto televisivo. Quando, a 4 de Novembro, próximo futuro, tiver vencido as eleições, e eu espero que sim, agradecerá primeiro à mulher e às filhas, que pouco o viram no último ano, dirá assim, e, em segundo, aos guionistas, realizadores, produtores e actores envolvidos na série 24; só depois aos cérebros da sua campanha. Seria justo. Antes da série 24 nos ter posto perante a figura de um digno presidente americano, negro, nunca tal nos teria parecido possível. Era ficção. Real apenas enquanto ficção. Eis como um produto de televisão é responsável pela rápida materialização de uma utopia.


David e Sherry Palmer, personagens da série televisiva 24

sábado, janeiro 26, 2008

O vendilhão da França

Sarkozy e Carla Bruni em Gizé, Cairo, nos último dias de 2007


Não me interessa a vida privada de Sarkozy. Se gosta de falar de rabos, como li hoje na Imprensa, e contar anedotas picantes, qual o número que calça, se usa cuecas especiais, quantas vezes traiu Cécilia, ou ela a ele, quando casará com Carla Bruni ou se já casou, se lhe tremem as veias da testa por vinho italiano, quanto vezes esteve no Algarve ou se julga ser Napoleão Bonaparte nos momentos de delírio privado. Não quero saber.
As figuras públicas de Estado têm todo o direito às suas idiossincracias, mas a excessiva exposição torna-as ridículas, cómicas, intoleráveis. Como é que aqueles que me aumentam o tempo para a reforma, me roubam o hospital e o centro de saúde podem ter a lata de gozar férias de luxo no Egipto, nas minhas barbas, acompanhados de namoradas-modelos, sorrindo, usando festinhas nos respectivos dorsos?! Não quero nem ver. Com que cara me vêm pedir sacrifícios?
Pelo menos, José Sócrates tem o bom-senso de não se passear com a namorada junto às pirâmides de Gizé, ou em Petra, sob uma chuva de fotógrafos. Se se atrevesse a passar um fim-de-semana romântico, que fosse, de mãos dadas, na Serra da Estrela, haveríamos de o gozar alarvemente. Havia de ser certinho.
Ora, os conselheiros de imagem de Sarkozy não pensam assim. E isto porque o actual namoro do presidente francês não visa melhorar-lhe aleatoriamente a imagem, mas distrair a atenção dos meios de comunicação franceses e internacionais das medidas políticas que pretende aprovar em França, as quais inveja ao seu homólogo português, cuja coragem política muito admira.
Reclama Sarkozy, perante as críticas, que não chamou os fotógrafos durante a visita que realizou com Bruni, na véspera de Ano Novo, ao Cairo, bem como nas que a antecederam e precederam. Não terá chamado ele, posso crer, mas os jornalistas serviram bem os seus interesses, e por isso não foram enxotados nem mantidos à distância, o que as fotos comprovam. Se Sarkozy não estivesse interessado na sua presença teria poupado nas poses, a visita não teria acontecido ao pôr-do-sol, essa hora mágica para as lentes das câmaras, e a proximidade estabelecida seria outra, bem como, em consequência, a qualidade da imagem.
As fotos publicadas em todo o mundo não jogam apenas a masculinidade do presidente junto do eleitorado, ao pretender ser visto e imaginado privadamente com o troféu desejado, mas a serenidade com que se pretende que os franceses encarem o que se seguirá. A sorridente Bruni está ali para amaciar vozes. Providencialmente, declara-se de esquerda. Que cereja em cima do bolo! Sarkozy é, afinal, um presidente sensível, apaixonado, romântico. Melhor, aberto, dialogante. E um homem com eles no sítio, ideia que convém fixar desde que Cécilia abandonou o barco. A política poderia ser uma actividade nobre, mas, infelizmente, não passa disto: marketing sem lei.


sexta-feira, janeiro 25, 2008

Os fãs

Sim, confirmo, sou uma gorda deliciosa, e gira, para além de discreta, modesta, submissa e sensata, qualidades que o homem português muito aprecia.
No entanto, lamento, nesta fase do ano não ando à procura de namorados, até porque só começo a fazer a depilação em Maio. Voltem a contactar-me por essa altura, que pode ser que se arranje alguma coisa, mas, por favor, não gastem as vossas energias enviando toques. Não respondo a toques de números identificados, quanto mais de anónimos. Não gosto de cobardes. Mal por mal, escolheria os mentirosos, não fosse serem todos comprovadamente cobardes.

A bondade divina

Não me admira nada que tenha caído um velhote de uma maca, no hospital de Aveiro, vindo a morrer disso, eventualmente; o que me admira, e muito, conhecendo o estado das urgências hospitalares no nosso país, é que não caiam meia dúzia deles por hospital, todos os dias. Se este milagre não vos fizer acreditar na providência divina, o que fará?!

Os filhos são umas verrugas

Criamos os filhos para que sejam responsáveis, cumpridores, e uma série de outras coisas altamente positivas, que sabemos serem incompatíveis com a vida real, mas, paciência, é o que está certo, portanto fazêmo-lo. Depois crescem, enchem-se de soberba sobre o certo e o errado, mil razões lógicas, cegas como a Lei, muito certas, certo, mas literais como uma pedra, e acusam-nos de sermos irresponsáveis, irrealistas, incapazes de cumprir seja o que for, o que me parece o equivalente a morder a mão do dono, sendo-se cão. Esta mania dos filhos, que eu, por acaso, acho que também tive, de se considerarem acima dos mortais, logo melhores que os pais, é chata, e, se não fossem nossos filhos, apetecia mandá-los para a puta que os pariu.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...