Recusei-me ontem a ver a entrevista com o primeiro-ministro na SIC. Tenho de me poupar. A saúde, caramba. Aquilo faz-me mal. Sobe-me a tensão. Só de lhe ouvir a voz, revolta-se-me o estômago.
Hoje recebo um e-mail da Irlanda a informar-me que o homem declarou que os professores estão satisfeitos com as reformas na educação, e arrependi-me, claro. Afinal perdi um belo excerto da encenação do D. Quixote lusitano.
terça-feira, fevereiro 19, 2008
domingo, fevereiro 17, 2008
O animal que de verdade sou
Canal Odisseia. A mamã ursa-castanha roubava mel da colmeia que derrubara. As abelhas atacaram-na, pelo que fugiu para junto das crias, com a barriga cheia e uma ou duas picadas no focinho. Os ursinhos brincavam. Quando a mamã chegou, deitou-se de costas, expondo as quatro tetas húmidas, disponíveis. Os três bebés treparam para cima dela e, escarranchados no enorme corpo fofo, chupavam-lhe o leite, enquanto seguravam a saliência da mama e a pressionavam delicadamente, para que corresse mais, para que corresse melhor. Larguei o Público aberto sobre o sofá, e deixei-me estar boquiaberta, os olhos fixos no écran, sequiosa da teta sobrante e do corpo enorme e macio no qual também eu queria escarranchar-me, sem idioma, despida e igual, gozando o doce manto oloroso, para poder ser, de verdade, o animal que de verdade sou.
Infértil
No lugar do quarto onde pensei colocar o berço do meu filho, muito junto a mim, perto da cabeceira, pus as camas das cadelas. Uns açafates de verga forrados a mantas que eu própria crochetei, aproveitando restos de lã de há 20 anos. Umas alcofas, como a minha mãe lhe chama. As camas das minhas cadelas parecem-se com a alcofa na qual passei os meus primeiros meses de vida, mas sem rendinhas. Ouço-as respirar a noite inteira. Não choram e não tem crises de dentes, apenas mijam frequentemente fora do bacio. Ralho-lhes só um bocadinho. E limpo. Fazem-me aqueles olhinhos piedosos. Cedo.
Podemos ir adiando para o mais longínquo milénio a adultícia, e as coisas sérias da existência que nos levam a sair cedo da cama, mas não conseguimos adiar o nosso corpo por uma singela década.
Podemos ir adiando para o mais longínquo milénio a adultícia, e as coisas sérias da existência que nos levam a sair cedo da cama, mas não conseguimos adiar o nosso corpo por uma singela década.
sexta-feira, fevereiro 15, 2008
Toma-me e leva-me
Sou a única mulher de 45 anos que, à sexta-feira, às vezes ao sábado, se abraça aos ursos castanhos das lojas Natura Selection, segredando-lhes telepaticamente, "toma-me para ti e leva-me contigo". Estarem ali tão presos ao chão, imóveis, e terem sido fabricados em material sintético, não muda a autenticidade das minhas intenções.
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
Os eufemismos da fornicação

Começou andaria eu pelos 15 anos, e tenho atravessado todas as modas associadas à comemoração. Agora são as cuecas-tanga enroladas numa rosa de tecido sintético. Tenho saudades dos corações de peluche, das canecas com ursinhos e das caixas de chocolates com laçarotes vermelhos. Tenho sempre saudades de muita coisa, o que deve querer dizer que começo a acumular demasiado tempo.
Um dia no qual se tornou vulgar oferecer lingerie destinada ao sexo, não poderá chamar-se dos namorados, nem consagrar-se ao amor. A bem da lógica e do bom senso, chamem-lhe dia dos amantes ou dia internacional da queca, e cumpram as obrigações da fornicação com o mínimo de ruído possível, que eu cá tenho trabalho até para lá das duas da matina.
Um dia no qual se tornou vulgar oferecer lingerie destinada ao sexo, não poderá chamar-se dos namorados, nem consagrar-se ao amor. A bem da lógica e do bom senso, chamem-lhe dia dos amantes ou dia internacional da queca, e cumpram as obrigações da fornicação com o mínimo de ruído possível, que eu cá tenho trabalho até para lá das duas da matina.
quarta-feira, fevereiro 13, 2008
O mal é humano
O doce precisa de salgado e o salgado de doce. A minha mãe ensinou-me a temperar o arroz-doce com sal, e as favas guisadas com açúcar. Funciona, e aplica-se a tudo. À ficção, então, nem se fala. Penso nisto a propósito das personagens mais interessantes da história da ficção. Que interesse pode ter uma personagem boazinha? A madre Teresa de Calcutá, por exemplo? Como tornar interessante uma madre Teresa de Calcutá ficcional? Pelo silêncio. Calá-la. O silêncio permite subentender todas as vilezas e perversidades que temperam uma vida humana. Miná-la de dúvidas e angústias, seria outro caminho. Com um bocado de sorte suicidava-se na ponte 25 de Abril. Haveria história. Drama. A sua existência transcenderia a biologia.
Há uns anos, um santo padre que desejou salvar-me para si, dizia-me que o meu maior atractivo era o silêncio altivo, cheio de segredos. E eu explicava-lhe, "não é altivo, é vergonha". "Não parece, minha filha, não parece; quem te observe dirá que te encontras acima dos mortais", respondia-me, enquanto me procurava a deliciosa menina dos olhos. Sobre uma personagem calada tudo se pode imaginar. Não fala, porquê? Que traumas guarda? Viu o que não devia? Não desce ao mundo comezinho? A ninguém ocorrerá a hipótese mais plausível: é muda, tem uma voz feia, os dentes tortos; é tão tímida como um rabanete.
A irmã Lúcia, por exemplo, só tem salvação pela comédia. Transformá-la-ia num ex-libris do que sempre foi: fanática, burra como as casas. Não se faz mais nada com aquilo. Também a colocaria com gozo no centro de uma cena de terror, da qual seria o agente. O terror precisa de personagens normaizinhas, esperáveis, para a seguir se transformarem em monstros com ou sem escamas. O prazer que deve dar transformar uma irmã Lúcia num monstro que deita fogo da boca e tresanda a pecado! Eu até esfregaria as mãos! Nada é inverosímil numa personagem má, porque a maldade humana é certa e infinita.
O mal resulta. Revemo-nos nele; o nosso mundo está lá. Um fulano piedoso, contudo, cheio de taras; a da limpeza é sempre hilariante. Estou sempre a lembrar-me da personagem interpretada pelo Jack Nicholson em Melhor É Impossível, uma das minhas comédias favoritas. O homem é mau, mas não, o homem até é um doce. Melhor, o homem é um querido, mas tem aqueles problemas de sociabilidade, logo, o homem é mau. Caramba, afinal o homem é bom ou mau? Ou um senhor muito simpático, dadivoso, honesto trabalhador e pai de família, que viola no banco da frente do carro, às terças e quintas, rapazes aos quais dá boleia à saída do emprego. Depois lava as mãos, a boca, beija amorosamente o crucifixo que traz no porta-luvas, e reza 20 pais-nossos. Como resistir a personagens destas?
Há uns anos, um santo padre que desejou salvar-me para si, dizia-me que o meu maior atractivo era o silêncio altivo, cheio de segredos. E eu explicava-lhe, "não é altivo, é vergonha". "Não parece, minha filha, não parece; quem te observe dirá que te encontras acima dos mortais", respondia-me, enquanto me procurava a deliciosa menina dos olhos. Sobre uma personagem calada tudo se pode imaginar. Não fala, porquê? Que traumas guarda? Viu o que não devia? Não desce ao mundo comezinho? A ninguém ocorrerá a hipótese mais plausível: é muda, tem uma voz feia, os dentes tortos; é tão tímida como um rabanete.
A irmã Lúcia, por exemplo, só tem salvação pela comédia. Transformá-la-ia num ex-libris do que sempre foi: fanática, burra como as casas. Não se faz mais nada com aquilo. Também a colocaria com gozo no centro de uma cena de terror, da qual seria o agente. O terror precisa de personagens normaizinhas, esperáveis, para a seguir se transformarem em monstros com ou sem escamas. O prazer que deve dar transformar uma irmã Lúcia num monstro que deita fogo da boca e tresanda a pecado! Eu até esfregaria as mãos! Nada é inverosímil numa personagem má, porque a maldade humana é certa e infinita.
O mal resulta. Revemo-nos nele; o nosso mundo está lá. Um fulano piedoso, contudo, cheio de taras; a da limpeza é sempre hilariante. Estou sempre a lembrar-me da personagem interpretada pelo Jack Nicholson em Melhor É Impossível, uma das minhas comédias favoritas. O homem é mau, mas não, o homem até é um doce. Melhor, o homem é um querido, mas tem aqueles problemas de sociabilidade, logo, o homem é mau. Caramba, afinal o homem é bom ou mau? Ou um senhor muito simpático, dadivoso, honesto trabalhador e pai de família, que viola no banco da frente do carro, às terças e quintas, rapazes aos quais dá boleia à saída do emprego. Depois lava as mãos, a boca, beija amorosamente o crucifixo que traz no porta-luvas, e reza 20 pais-nossos. Como resistir a personagens destas?
Mr. Bean e Charlot funcionam porque estão cheios de boas intenções, contudo falham. Querem ser certinhos, fazer o bem, mas asneiram e estragam tudo. Sempre. Entre o que eu sou e o que eles são a distância é curta. Quantas vezes me rio das coisas ridículas que digo ou faço, e me apanho a pensar que afinal já vi aquilo num Mr. Bean? Quantas vezes me sinto um Charlot no feminino?
Transformar uma personagem má numa boazinha, sem cair no ridículo, é difícil. Só uma mão virtuosa. Vinda do mal, ou chegada do nada, entrando virgem na acção, uma personagem adjuvante tem de ser endurecida, ou torna-se lamechas, e o lamechismo é insuportável. Aos bons, temos de retirar características humanas. Sim, é bom mas abdicou disto e daquilo. Para se ser verdadeiramente humano é preciso abdicar de quase toda a humanidade. Dizemos, "ele é bom para a humanidade, mas implacável com o cumprimento de regras", e, nesse caso, torna-se associal e ninguém o suporta. Logo, mau.
Os mauzinhos são fáceis. Para fazer um vilão basta deixá-lo deslizar. Chega lá sozinho se lhe dermos espaço, porque as personagens, como as pessoas, têm faro para a o erro, a corrupção e a desgraça. Não é que a maldade seja mais natural que a bondade: ela existe enquanto substância legítima, independente de juízos valorativos. E é mais interessante, mais rica, portanto mais ficcionável. Quanto aos nossos confrontos com a maldade na vida real, isso já é outro assunto. Ficção é ficção, conhaque é conhaque, e as misturas caem sempre mal.
Transformar uma personagem má numa boazinha, sem cair no ridículo, é difícil. Só uma mão virtuosa. Vinda do mal, ou chegada do nada, entrando virgem na acção, uma personagem adjuvante tem de ser endurecida, ou torna-se lamechas, e o lamechismo é insuportável. Aos bons, temos de retirar características humanas. Sim, é bom mas abdicou disto e daquilo. Para se ser verdadeiramente humano é preciso abdicar de quase toda a humanidade. Dizemos, "ele é bom para a humanidade, mas implacável com o cumprimento de regras", e, nesse caso, torna-se associal e ninguém o suporta. Logo, mau.
Os mauzinhos são fáceis. Para fazer um vilão basta deixá-lo deslizar. Chega lá sozinho se lhe dermos espaço, porque as personagens, como as pessoas, têm faro para a o erro, a corrupção e a desgraça. Não é que a maldade seja mais natural que a bondade: ela existe enquanto substância legítima, independente de juízos valorativos. E é mais interessante, mais rica, portanto mais ficcionável. Quanto aos nossos confrontos com a maldade na vida real, isso já é outro assunto. Ficção é ficção, conhaque é conhaque, e as misturas caem sempre mal.
terça-feira, fevereiro 12, 2008
Reposição 1
Ando sem tempo para alimentar o blogue. Podia ir enchendo com You Tubes, mas, sendo mulher piedosa, resolvi fazer a reposição de alguns textos já publicados, cuja recepção não me satisfez nem um bocadinho. Começa agora.
Dilema da carne
É paradoxal termos sido oferecidos de uma vida de carne para que possamos escolher viver sem ela.
Dilema da carne
É paradoxal termos sido oferecidos de uma vida de carne para que possamos escolher viver sem ela.
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...
