Há pessoas muito felizes, que não sabem que são felizes. Até pensam que são tristes, mas não, são felizes. São felizes para caraças. Andam para aí a queixar-se, e chateiam este e mais aquele, mas, vá-se lá saber da justiça divina!, são felizes. Também há pessoas amadas que não dão valor ao amor. Até pensam que ninguém gosta delas, mas é mentira, têm sempre um ombrozinho certo onde chorar. São amadas para caraças. Queixam-se que ninguém gosta delas, e mais isto e mais aquilo, mas injustamente, porque são amadas, amadas, tão amadas que até chateia. Pior, enjoa. Quem tem tudo não sabe o que é viver com nada.
terça-feira, fevereiro 19, 2008
Um vozeirão negro, todo vadio
A voz treme? Vou a pé pela berma, um pouco aos esses, e de vez em quando piso o alcatrão. Salto depressa. Ferve, o cabrão. Quase me mata. Caminho, devagar. Nada previsível. Por aí, vagueando com pouca carga, saltos altos e muito baton. Nada de importante. Canto, mas posso calar-me.
Também cantarolo no chuveiro enquanto ensaboo os sovacos. Enquanto lavo a louça, e sacudo o esfregão de arame após ter areado o fundo dos tachos da sopa. Sem ouvintes. Mais alto. Mudando o ritmo. Murmurando. Mastigando as palavras. Mais depressa. Devagar. Olha, como me apetece. Fora de tom. Falando. Assim, porque sim, assim. Mudando, porque me apetece ouvir de outra maneira. Uma pausa que não estava programada. Uma paródia na melodia. Não tem muita importância. E recomeço. No big deal, isto é apenas a voz com que encomendo os burguers and fries no drivetru, e não me custa nada.
Cai do cavalo, Quixote!
Recusei-me ontem a ver a entrevista com o primeiro-ministro na SIC. Tenho de me poupar. A saúde, caramba. Aquilo faz-me mal. Sobe-me a tensão. Só de lhe ouvir a voz, revolta-se-me o estômago.
Hoje recebo um e-mail da Irlanda a informar-me que o homem declarou que os professores estão satisfeitos com as reformas na educação, e arrependi-me, claro. Afinal perdi um belo excerto da encenação do D. Quixote lusitano.
Hoje recebo um e-mail da Irlanda a informar-me que o homem declarou que os professores estão satisfeitos com as reformas na educação, e arrependi-me, claro. Afinal perdi um belo excerto da encenação do D. Quixote lusitano.
domingo, fevereiro 17, 2008
O animal que de verdade sou
Canal Odisseia. A mamã ursa-castanha roubava mel da colmeia que derrubara. As abelhas atacaram-na, pelo que fugiu para junto das crias, com a barriga cheia e uma ou duas picadas no focinho. Os ursinhos brincavam. Quando a mamã chegou, deitou-se de costas, expondo as quatro tetas húmidas, disponíveis. Os três bebés treparam para cima dela e, escarranchados no enorme corpo fofo, chupavam-lhe o leite, enquanto seguravam a saliência da mama e a pressionavam delicadamente, para que corresse mais, para que corresse melhor. Larguei o Público aberto sobre o sofá, e deixei-me estar boquiaberta, os olhos fixos no écran, sequiosa da teta sobrante e do corpo enorme e macio no qual também eu queria escarranchar-me, sem idioma, despida e igual, gozando o doce manto oloroso, para poder ser, de verdade, o animal que de verdade sou.
Infértil
No lugar do quarto onde pensei colocar o berço do meu filho, muito junto a mim, perto da cabeceira, pus as camas das cadelas. Uns açafates de verga forrados a mantas que eu própria crochetei, aproveitando restos de lã de há 20 anos. Umas alcofas, como a minha mãe lhe chama. As camas das minhas cadelas parecem-se com a alcofa na qual passei os meus primeiros meses de vida, mas sem rendinhas. Ouço-as respirar a noite inteira. Não choram e não tem crises de dentes, apenas mijam frequentemente fora do bacio. Ralho-lhes só um bocadinho. E limpo. Fazem-me aqueles olhinhos piedosos. Cedo.
Podemos ir adiando para o mais longínquo milénio a adultícia, e as coisas sérias da existência que nos levam a sair cedo da cama, mas não conseguimos adiar o nosso corpo por uma singela década.
Podemos ir adiando para o mais longínquo milénio a adultícia, e as coisas sérias da existência que nos levam a sair cedo da cama, mas não conseguimos adiar o nosso corpo por uma singela década.
sexta-feira, fevereiro 15, 2008
Toma-me e leva-me
Sou a única mulher de 45 anos que, à sexta-feira, às vezes ao sábado, se abraça aos ursos castanhos das lojas Natura Selection, segredando-lhes telepaticamente, "toma-me para ti e leva-me contigo". Estarem ali tão presos ao chão, imóveis, e terem sido fabricados em material sintético, não muda a autenticidade das minhas intenções.
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
Os eufemismos da fornicação

Começou andaria eu pelos 15 anos, e tenho atravessado todas as modas associadas à comemoração. Agora são as cuecas-tanga enroladas numa rosa de tecido sintético. Tenho saudades dos corações de peluche, das canecas com ursinhos e das caixas de chocolates com laçarotes vermelhos. Tenho sempre saudades de muita coisa, o que deve querer dizer que começo a acumular demasiado tempo.
Um dia no qual se tornou vulgar oferecer lingerie destinada ao sexo, não poderá chamar-se dos namorados, nem consagrar-se ao amor. A bem da lógica e do bom senso, chamem-lhe dia dos amantes ou dia internacional da queca, e cumpram as obrigações da fornicação com o mínimo de ruído possível, que eu cá tenho trabalho até para lá das duas da matina.
Um dia no qual se tornou vulgar oferecer lingerie destinada ao sexo, não poderá chamar-se dos namorados, nem consagrar-se ao amor. A bem da lógica e do bom senso, chamem-lhe dia dos amantes ou dia internacional da queca, e cumpram as obrigações da fornicação com o mínimo de ruído possível, que eu cá tenho trabalho até para lá das duas da matina.
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...
