domingo, fevereiro 24, 2008

A culpa dos Pachecos Pereiras e outros da mesma laia

Ultimamente, farto-me de encontrar pessoas trabalhando doentes. Funcionários que exercem as suas funções em serviços de contacto com o público em estado de total abalroamento por gripes de caixão à cova; professores sem voz; estafetas de pernas partidas; cozinheiros com braços ao peito... Desde que o governo Sócrates, seguindo as tendências revivalistas destes tempos, se propôs repor os níveis de segurança social que tínhamos antes do 25 de Abril, há quem tenha de trabalhar mesmo que não possa justamente fazê-lo: as pessoas temem faltar por motivos de doença legítima. Eis onde chegámos!

Trabalhar doente não se pode chamar trabalho, mas expiação, e sacrifício sem produto. Mostra, igualmente, que as condições de trabalho são tão precárias, que os funcionários preferem abdicar da pouca protecção social de que ainda podem beneficiar na doença, porque temem que isso lhes custe o posto de trabalho. Isto é grave. Num país da Europa civilizada, dito civilizado, é um retrocesso que não pensei viver para testemunhar.

As pessoas que morreram a semana passada, arrastadas pelas enxurradas provocadas pela chuva, levantaram-se cedo, viram que o tempo estava impróprio para sair de casa, mas deixaram os filhos ao cuidado de quem podia cuidá-los, e saíram, indo trabalhar, faça chuva ou faça sol, comportamento comum aos que não têm gestores de conta e precisam de, honradamente, pagar a renda de casa para comprar arroz, batatas, e Ben-U-Ron.

Quem tem horários flexíveis, e salários adaptados à residência em zonas altas, como
o cidadão Pacheco Pereira, não precisa de se aventurar nas enxurradas, morrendo nelas. Basta-lhe telefonar para a secretária, "oh, Jessica, como é que você conseguiu aí chegar?! Está um tempo dos diabos, vou assim que isto melhorar, ok?! E olhe, telefone ao engenheiro José Manuel por causa daquilo..." Pode dar-se ao luxo de esperar pela bonança, antes de descer à garagem do condomínio, que também não fica situado sobre uma linha de água, porque pôde escolher não viver em Belas, nem na Amadora nem em Odivelas. Pôde pagar uma casa numa zona privilegiada, com vista para as zonas das enxurradas onde os outros morrem.
Nem nos desastres naturais a justiça é igual para todos. Quem tem pouco paga primeiro, paga mais e fatalmente, e da sua dor e tremenda injustiça, enquanto se discute quem é que deveria ter desentupido os esgotos, nunca se fará história.
Mas a futuras avenidas Pacheco Pereira já estão todas garantidas nas zonas altas.


Nada

Não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada, à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Álvaro de Campos

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Natureza do poste

Um beijo, porque os meus postes andavam tristes. Tristes?, perguntei-lhe melhor, achas que andam tristes? Sim, tristes. Mas os meus postes só são tristes antes de saírem, depois escrevo-os e já são alegres.



quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Clandestina no sistema

No armário por debaixo do lava-loiças escondi a História Íntima do Orgasmo, e toda a minha colecção de Foucault, Simone de Beauvoir e do Marquês de Sade. Dentro do saco do pão meti as caixas de Sedoxil, Cloxam, Lendormin, Kainever, Citalopram e Stilnox que estavam em cima da banca da cozinha, a maior parte delas clandestinas, e algumas roubadas à minha mãe, mais umas cinco embalagens de diferentes tipos de valeriana, em pastilhas, bebível, injectável é que ainda não.
Desinfectei a casa com lexívia e mandei as cadelas para casa da avó, por causa do pêlo e da barulheira.
Espalhei base na cara,
light sable, e mais blush, e pintei os lábios de cor-de-rosinha porcelana. Coloquei um sorriso sábio, responsável e medíocre. Respondi a tudo com os lugares-comuns mais apreciados pelo sistema.
Hoje vinha cá a casa a inspecção da ASAE e queria muito que não me fechassem o estabelecimento.
Agora já posso desarrumar tudo, e voltar a ser a pessoa normal que sou só para mim.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Aviso às solteironas

Não levem, nunca, para vossa casa, candidatos a namorados que não tenham a certeza de poderem vir a ser the one, pais dos vossos filhos, para toda a vida, ámen. Não os metam na vossa cama, não os deixem conhecer o padrão dos vossos lençóis nem a decoração do vosso quarto. Se virarem as costas, minhas amigas, estarão a vasculhar as vossas gavetas, no disco do vosso computador, nas caixas de fotos, e a mandar bujardas inclassificáveis sobre o que a vossa vida é e o que deveria ser. Ninguém lhes encomende o sermão e não lho tolerem. Uma solteirona profissional dispensa tanta preocupação. Em poucas palavras, eles que vão mandar bujardas para a puta que os pariu, que com certeza deve ser uma excelente senhora.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Até enjoam

Há pessoas muito felizes, que não sabem que são felizes. Até pensam que são tristes, mas não, são felizes. São felizes para caraças. Andam para aí a queixar-se, e chateiam este e mais aquele, mas, vá-se lá saber da justiça divina!, são felizes. Também há pessoas amadas que não dão valor ao amor. Até pensam que ninguém gosta delas, mas é mentira, têm sempre um ombrozinho certo onde chorar. São amadas para caraças. Queixam-se que ninguém gosta delas, e mais isto e mais aquilo, mas injustamente, porque são amadas, amadas, tão amadas que até chateia. Pior, enjoa. Quem tem tudo não sabe o que é viver com nada.

Um vozeirão negro, todo vadio

A voz treme? Vou a pé pela berma, um pouco aos esses, e de vez em quando piso o alcatrão. Salto depressa. Ferve, o cabrão. Quase me mata. Caminho, devagar. Nada previsível. Por aí, vagueando com pouca carga, saltos altos e muito baton. Nada de importante. Canto, mas posso calar-me.
Também cantarolo no chuveiro enquanto ensaboo os sovacos. Enquanto lavo a louça, e sacudo o esfregão de arame após ter areado o fundo dos tachos da sopa. Sem ouvintes. Mais alto. Mudando o ritmo. Murmurando. Mastigando as palavras. Mais depressa. Devagar. Olha, como me apetece. Fora de tom. Falando. Assim, porque sim, assim. Mudando, porque me apetece ouvir de outra maneira. Uma pausa que não estava programada. Uma paródia na melodia. Não tem muita importância. E recomeço. No big deal, isto é apenas a voz com que encomendo os burguers and fries no drivetru, e não me custa nada.



O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...