Ultimamente, farto-me de encontrar pessoas trabalhando doentes. Funcionários que exercem as suas funções em serviços de contacto com o público em estado de total abalroamento por gripes de caixão à cova; professores sem voz; estafetas de pernas partidas; cozinheiros com braços ao peito... Desde que o governo Sócrates, seguindo as tendências revivalistas destes tempos, se propôs repor os níveis de segurança social que tínhamos antes do 25 de Abril, há quem tenha de trabalhar mesmo que não possa justamente fazê-lo: as pessoas temem faltar por motivos de doença legítima. Eis onde chegámos!
Trabalhar doente não se pode chamar trabalho, mas expiação, e sacrifício sem produto. Mostra, igualmente, que as condições de trabalho são tão precárias, que os funcionários preferem abdicar da pouca protecção social de que ainda podem beneficiar na doença, porque temem que isso lhes custe o posto de trabalho. Isto é grave. Num país da Europa civilizada, dito civilizado, é um retrocesso que não pensei viver para testemunhar.
As pessoas que morreram a semana passada, arrastadas pelas enxurradas provocadas pela chuva, levantaram-se cedo, viram que o tempo estava impróprio para sair de casa, mas deixaram os filhos ao cuidado de quem podia cuidá-los, e saíram, indo trabalhar, faça chuva ou faça sol, comportamento comum aos que não têm gestores de conta e precisam de, honradamente, pagar a renda de casa para comprar arroz, batatas, e Ben-U-Ron.
Quem tem horários flexíveis, e salários adaptados à residência em zonas altas, como o cidadão Pacheco Pereira, não precisa de se aventurar nas enxurradas, morrendo nelas. Basta-lhe telefonar para a secretária, "oh, Jessica, como é que você conseguiu aí chegar?! Está um tempo dos diabos, vou assim que isto melhorar, ok?! E olhe, telefone ao engenheiro José Manuel por causa daquilo..." Pode dar-se ao luxo de esperar pela bonança, antes de descer à garagem do condomínio, que também não fica situado sobre uma linha de água, porque pôde escolher não viver em Belas, nem na Amadora nem em Odivelas. Pôde pagar uma casa numa zona privilegiada, com vista para as zonas das enxurradas onde os outros morrem.
Nem nos desastres naturais a justiça é igual para todos. Quem tem pouco paga primeiro, paga mais e fatalmente, e da sua dor e tremenda injustiça, enquanto se discute quem é que deveria ter desentupido os esgotos, nunca se fará história.
Mas a futuras avenidas Pacheco Pereira já estão todas garantidas nas zonas altas.
Trabalhar doente não se pode chamar trabalho, mas expiação, e sacrifício sem produto. Mostra, igualmente, que as condições de trabalho são tão precárias, que os funcionários preferem abdicar da pouca protecção social de que ainda podem beneficiar na doença, porque temem que isso lhes custe o posto de trabalho. Isto é grave. Num país da Europa civilizada, dito civilizado, é um retrocesso que não pensei viver para testemunhar.
As pessoas que morreram a semana passada, arrastadas pelas enxurradas provocadas pela chuva, levantaram-se cedo, viram que o tempo estava impróprio para sair de casa, mas deixaram os filhos ao cuidado de quem podia cuidá-los, e saíram, indo trabalhar, faça chuva ou faça sol, comportamento comum aos que não têm gestores de conta e precisam de, honradamente, pagar a renda de casa para comprar arroz, batatas, e Ben-U-Ron.
Quem tem horários flexíveis, e salários adaptados à residência em zonas altas, como o cidadão Pacheco Pereira, não precisa de se aventurar nas enxurradas, morrendo nelas. Basta-lhe telefonar para a secretária, "oh, Jessica, como é que você conseguiu aí chegar?! Está um tempo dos diabos, vou assim que isto melhorar, ok?! E olhe, telefone ao engenheiro José Manuel por causa daquilo..." Pode dar-se ao luxo de esperar pela bonança, antes de descer à garagem do condomínio, que também não fica situado sobre uma linha de água, porque pôde escolher não viver em Belas, nem na Amadora nem em Odivelas. Pôde pagar uma casa numa zona privilegiada, com vista para as zonas das enxurradas onde os outros morrem.
Nem nos desastres naturais a justiça é igual para todos. Quem tem pouco paga primeiro, paga mais e fatalmente, e da sua dor e tremenda injustiça, enquanto se discute quem é que deveria ter desentupido os esgotos, nunca se fará história.
Mas a futuras avenidas Pacheco Pereira já estão todas garantidas nas zonas altas.

