quinta-feira, fevereiro 28, 2008

A louca e a fascista

Eu e a minha mãe nunca nos entendemos como anjos com anjos devido a uma ligeira diferença morfossintáctica, que configura, no entanto, uma absoluta diferença semântica no que respeita à forma de se encarar e viver as relações sociais. Eu defendo que só se perde o que fica por dizer; ela jura que o que fica por dizer nunca perde. Ora, isto são mundos diferentes. Ela considera-me desequilibrada, com o coração na boca, e crê que não hei-de sobreviver sozinha, quando ela morrer, e repete-o muita vez, quando eu morrer, quando eu morrer. Eu acho que a minha mãe, na plenitude da sua boa educação, é o exemplo perfeito da escrava do fascismo, e mesmo que pudesse viver sem ele, não saberia como. É possível que ambas tenhamos razão.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Um ferro no coração



Se me puser a procurar no arquivos lembro-me de tudo. Olha, por acaso até me lembro do dia em que te disse, espeta-me um ferro em cheio no coração, como se faz aos porcos; espicha-me, que há-de doer rápido e passa, e é o que mais quero; mas pedi-te que esperasses, e foi o meu erro; que tinha de ir cortar as unhas dos pés à minha mãe, e aparar-lhe o cabelo, e fazer-lhe um avio de mercearias para dez anos; que era só um bocadinho, já voltava; mas depois lembrei-me das cadelas: alguém teria de as beijar por mim, lavar-lhes os tapetes mijados com o mesmo amor; e pedi-te, desculpa lá, aguenta mais um bocadinho enquanto resolvo este encargo; e aproveitei para achar quem quisesse herdar os meus botões, que podem vir a ser precisos, hão-de faltar a alguma blusa, um dia, e tenho-os ali guardados; e um cachecol que estava a tricotar, e cotos de lápis que gastei, mas não fui capaz de atirar fora; e tu, compreendo, cansaste-te de esperar com o espicho alçado na mão, pronto a cair sobre o meu peito, e foste-te embora, e não mo cravaste no coração, que eu juro teria sido mais fácil, e até te tinha prometido que não havia de guinchar, que não havia de guinchar nem nada. Deixaste-me solta na eira como se deixa um porco demasiado ruim para o abate, e sozinha tive de arrancar o coração até à voz, e atirá-lo janela fora como se fosse um traste muito velho e sujo e inútil. E nunca mais o encontrei.


Só queria fazer amor com ele

Hoje subi aquela mesma rua paralela às Barrocas, mas mais inclinada, que costumávamos subir os dois quando vínhamos a correr para minha casa, à tarde, para fazermos amor antes dos meus pais chegarem. E lembrei-me de uma discussão que tivemos. Que eu tive. Vinha danada porque queria ter a tarde toda para me deitar nua com ele, e abraçá-lo, beijá-lo, falar baixinho, e irmos fazendo amor aos bocadinhos, sem pressa. Saímos do autocarro e ele caminhava devagar. Rebentei. Se ele não queria fazer amor comigo. Se ele não gostava de fazer amor comigo. Porque é que tinha gasto tanto tempo em Lisboa, entretendo-se com aquela gente que não interessava nada, quando sabia que aquela era a tarde que tínhamos para fazer amor, e que eu estava à sua espera, e que agora já não tínhamos tempo. Nem valia a pena apressarmo-nos, para quê?! Chateou-se. Já não sei o que disse. Amuou. Que eu não compreendia. Que eu não tinha paciência. A verdade, e isto ele não disse nunca, é que eu já era uma mulher, e sabia o que queria, e queria-o a ele e ao seu amor, e ele era um puto que para ali andava atrás do meu cio formidável, insaciável, reflexo de mim. Não foi zanga suficiente para que não tivéssemos feito amor à pressa, antes dos meus pais chegarem. Para ele tanto fazia; ser à pressa. Fazia e pronto. Para mim, fazer amor era tudo. Era o tempo que estava com ele, era espremer-lhe os pontos negros, fazer-lhe cócegas nos pés, morder-lhe as orelhas. Um orgasmo era apenas uma ínfima parte de fazer amor.
Hoje lembrei-me disto. Vinha a subir a lateral às Barrocas, porque fui pôr o carro à revisão. Lembrei-me da voz dele, da suas calças de ganga, do amor. E pensei que para os homens, fazer amor, é só isto: aproveitar meia hora enquanto alguém não chega. Foi sempre assim. E que isto implicaria uma negociação entre os sexos na qual nenhuma diplomacia teria êxito.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Alien, bicho mimoso


Era uma romântica das antigas. Entre ver a ministra da Educação mascarada de Halloween nos Prós e Contras, ou Alien 3, A Desforra, optou pelo bichinho viscoso, porque este, afinal, tudo o que queria era apenas alimentar-se, e garantir a perpetuação da espécie, mas não agia por maldade, com golpes sujos; podendo atacar Ripley, que a tinha à mercê, não atacava, porque tinha instinto e coração. Do raio do bicho até se poderia dizer que era humano.

Gordas que nem texugos

Ultimamente, o sitemeter tem registado uma certa procura por gordas. Gordas assim, gordas assado, gordas a fazer isto ou aquilo, e até bloggers gordas, médicas gordas, professoras gordas, enfim, gordas, gordas, gordas.
Ora, como parece que mulher gorda, afinal, tanto vos convém, aqui a tendes para total regalo do que quer que seja que vos apeteça regalar. Como a oferta é reduzida, porque nos outros blogues parece mal, e estraga a estética do sítio, não posso perder este segmento de mercado.




Fotos de Amélie

Eu, que raramente meto línques

Resolvi oferecer-vos este.

domingo, fevereiro 24, 2008

Aprender a não ter medo


Detesto a sobranceria ignorante, a agressividade gratuita, a vulgaridade, a indiferença, mas acima de tudo desprezo a cobardia e o medo. O medo tolhe, cala e humilha. Se estamos convictos da justiça de uma ideia, o único medo justificável é o de que essa ideia se perca porque nos calámos, porque desistimos, porque tivemos medo. Os poderes contam com o nosso medo da punição: a prisão, a multa - para nos controlarem. Se muitos não tiverem medo, os poderes não terão poder para nos controlar. É preciso que muita gente perca o medo. Se não obedecermos todos, se muitos não obedecerem, que poder tem o poder? O essencial é perceber que o poder não tem, afinal, poder nenhum. Somos nós, ao temê-lo, que o legitimamos.
Os portugueses precisam de aprender a não ter medo; sendo uma elementar e eficaz forma de resistência, logo, de sobrevivência, nunca lhes foi ensinada na família nem nos bancos da escola, nem no grupo social. Em todos os lugares, outros, ao seu redor, viveram, vivem sob o manto do medo, e ensinaram-no como exemplo - viver dissimuladamente, sem dar nas vistas, temendo em silêncio, para nos safarmos sem chatices, sem compromisso, sem exposição.
Mas convém aprender a não ter medo. Tenhamos medo do nosso medo. Isto é apenas um princípio. Um ponto de partida que pode levar-nos longe, e dar bom fruto.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...