Comer os lábios húmidos de um rapaz que passa por nós, que conhecemos, não sei se alguém ainda se lembra. Quando tinha 15 anos masturbava-me artesanalmente, sempre que podia, por amor aos lábios do Pedro, e pensava Pedro, Pedro, no momento em que me dividia entre o meu corpo e as endorfinas que o transcendem. O Pedro tinha 18 anos, lábios grossos, escuros, húmidos, os quais eu desejava lambuzar e morder e comer, mas estava-me completamente proibido. A namorada chamava-se Mena, tinha um carro que o pai lhe dera pelos anos, era rica, e tinha saído da escola porque não tinha cabeça para os estudos. Ninguém sabia muito bem para que é que ela tinha cabeça, mas era visível que abusava de umas mamas deliciosamente leiteiras, e dum cabelo claro a condizer com uns olhos do Minho; estas seriam, não quero ser má, nem nada, as características mais salientes do seu talento intelectual. O Pedro e a Mena namoravam e passeavam muito de carro, ele adorava-a e eu odiava-a proporcionalmente.
As carnes lentas e leitosas da Mena não obstaram a que, poucos anos mais tarde, o Pedro fosse apanhado pelo pai, num sofá da empresa, com um tal Rui, a fazer não sei quê de que não se falou muito, e a coisa avançou. Acho que casou e teve uma filha, que já deve ter idade para ser minha mãe.
Ontem, na bicha da ponte, apanhei um Pedro no banco de trás do carro que avançava paralelamente, noutra faixa, metro a metro. O rapaz fumava com o braço todo estendido para fora da janela, de cigarro entre os dedos. Tinha as mãos tenras como patinhas de animal que ainda não se formou. Umas mãos lisas, perfeitíssimas, e secas; apetecia trincá-las. E os lábios húmidos e luxuriosos. Um perfeito Pedro. Todo ele era um sólido exemplo carnal de luxúria não ostensiva. Muito jovem, mas homem, o seu corpo não podia conter a força do desejo nem da frescura que o atravessavam. Desejei comê-lo, porque invejei toda essa juventude que rescendia. Era sexual, apenas na medida em que o sexo atravessa, inteiro, o incauto impulso de desejo. Era sexual, mas não havia sexo. Desejei incorporar em mim a humidade lisa da sua ignorante juventude. Desejar trincá-lo, enformou a busca de um prazer indefinido que era, na sua essência, canibal. O prazer consistia em apoderar-me das características da sua juventude em estado tão puro. As minhas mãos seriam as suas mãos. O meu coração, o seu. E claro, possuindo-o, poderia recomeçar outra escrita, sobre tabula rasa.
As carnes lentas e leitosas da Mena não obstaram a que, poucos anos mais tarde, o Pedro fosse apanhado pelo pai, num sofá da empresa, com um tal Rui, a fazer não sei quê de que não se falou muito, e a coisa avançou. Acho que casou e teve uma filha, que já deve ter idade para ser minha mãe.
Ontem, na bicha da ponte, apanhei um Pedro no banco de trás do carro que avançava paralelamente, noutra faixa, metro a metro. O rapaz fumava com o braço todo estendido para fora da janela, de cigarro entre os dedos. Tinha as mãos tenras como patinhas de animal que ainda não se formou. Umas mãos lisas, perfeitíssimas, e secas; apetecia trincá-las. E os lábios húmidos e luxuriosos. Um perfeito Pedro. Todo ele era um sólido exemplo carnal de luxúria não ostensiva. Muito jovem, mas homem, o seu corpo não podia conter a força do desejo nem da frescura que o atravessavam. Desejei comê-lo, porque invejei toda essa juventude que rescendia. Era sexual, apenas na medida em que o sexo atravessa, inteiro, o incauto impulso de desejo. Era sexual, mas não havia sexo. Desejei incorporar em mim a humidade lisa da sua ignorante juventude. Desejar trincá-lo, enformou a busca de um prazer indefinido que era, na sua essência, canibal. O prazer consistia em apoderar-me das características da sua juventude em estado tão puro. As minhas mãos seriam as suas mãos. O meu coração, o seu. E claro, possuindo-o, poderia recomeçar outra escrita, sobre tabula rasa.





