domingo, março 02, 2008

Canibal

Foto: Tomatello

Comer os lábios húmidos de um rapaz que passa por nós, que conhecemos, não sei se alguém ainda se lembra. Quando tinha 15 anos masturbava-me artesanalmente, sempre que podia, por amor aos lábios do Pedro, e pensava Pedro, Pedro, no momento em que me dividia entre o meu corpo e as endorfinas que o transcendem. O Pedro tinha 18 anos, lábios grossos, escuros, húmidos, os quais eu desejava lambuzar e morder e comer, mas estava-me completamente proibido. A namorada chamava-se Mena, tinha um carro que o pai lhe dera pelos anos, era rica, e tinha saído da escola porque não tinha cabeça para os estudos. Ninguém sabia muito bem para que é que ela tinha cabeça, mas era visível que abusava de umas mamas deliciosamente leiteiras, e dum cabelo claro a condizer com uns olhos do Minho; estas seriam, não quero ser má, nem nada, as características mais salientes do seu talento intelectual. O Pedro e a Mena namoravam e passeavam muito de carro, ele adorava-a e eu odiava-a proporcionalmente.
As carnes lentas e leitosas da Mena não obstaram a que, poucos anos mais tarde, o Pedro fosse apanhado pelo pai, num sofá da empresa, com um tal Rui, a fazer não sei quê de que não se falou muito, e a coisa avançou. Acho que casou e teve uma filha, que já deve ter idade para ser minha mãe.
Ontem, na bicha da ponte, apanhei um Pedro no banco de trás do carro que avançava paralelamente, noutra faixa, metro a metro. O rapaz fumava com o braço todo estendido para fora da janela, de cigarro entre os dedos. Tinha as mãos tenras como patinhas de animal que ainda não se formou. Umas mãos lisas, perfeitíssimas, e secas; apetecia trincá-las. E os lábios húmidos e luxuriosos. Um perfeito Pedro. Todo ele era um sólido exemplo carnal de luxúria não ostensiva. Muito jovem, mas homem, o seu corpo não podia conter a força do desejo nem da frescura que o atravessavam. Desejei comê-lo, porque invejei toda essa juventude que rescendia. Era sexual, apenas na medida em que o sexo atravessa, inteiro, o incauto impulso de desejo. Era sexual, mas não havia sexo. Desejei incorporar em mim a humidade lisa da sua ignorante juventude. Desejar trincá-lo, enformou a busca de um prazer indefinido que era, na sua essência, canibal. O prazer consistia em apoderar-me das características da sua juventude em estado tão puro. As minhas mãos seriam as suas mãos. O meu coração, o seu. E claro, possuindo-o, poderia recomeçar outra escrita, sobre tabula rasa.

sábado, março 01, 2008

Tudo o que há para saber sobre roubo de automóveis de alta cilindrada


Eu sei lá se devo sentir-me ofendida por não pertencer à elite com direito a ser vítima de car jacking! Rejeitando-me sem apelo, os assaltantes estão a dizer-me, "oh, filha, não vales um carapau seco; se queres que a gente se digne considerar-te na nossa lista, livra-te desse Opel Corsa cheio de riscos e compra um topo de gama cujo abafanço valha a pena".
Antigamente, toda a gente tinha direito a que lhe roubassem a carripana, e qualquer marca servia. Havia uns ferros amarelos que metíamos por dentro a bloquear o volante e a embraiagem do Renault. Hoje, para se ser roubado, é preciso, primeiro, uma pessoa endividar-se em empréstimos bancários de valor igual ao do salário, comprar um Mercedes não sei quê, e, logo a seguir, começar a fazer biscates que rendam o suficiente para pagar o carro novo e, já agora, comer; ora, um dos biscates rentáveis será fazer car jacking. Isto, sinceramente, é o mesmo que vender droga para consumir droga.
Quando ouço falar em roubo de carros de alta cilindrada, ocorro-me logo querer saber quem os compra. Estão encomendados? É trabalho feito em free lance? Se estão encomendados, trata-se de pessoas que querem possui-los por quantias menores, suponho, e que pertencem ao mesmo mundo cultural dos assaltantes. O carro já alterado não poderá iludir o facto de ser em segunda mão, e o tipo de transacção realizada, mesmo que no estrangeiro, deverá levantar algumas suspeitas. Portanto, é bastante provável que quem compra um veículo nesta situação, mesmo que roubado em regime de free lance, faça uma ideia do que está a comprar. Quem alinha nestes esquemas de criminalidade, fá-lo porque é importante ter um automóvel caro, mesmo que tenha de se ficar a dever no crédito Jumbo. A bomba dá status. E o status tem sido moeda de troca ao longo dos tempos; com ele se compra confiança, integração, sexo, bajulação, e todas as consequências que daí se tiram.
Em última análise, os culpados do roubo de carros de alta cilindrada são os seus possuidores. Responderam ao estímulo de possuir uma bomba de que muito provavelmente não precisam, só porque sim, e encontram-se a reproduzir o mesmo estímulo, em burros de igual quilate. Quem não precisa de transportar carga e não pode circular a mais de 120 quilómetros por hora, precisa de topos de gama para quê? A mim não me passa pela cabeça passar do Fiat utilitário. Se hoje me oferecessem o crème de la crème dos automóveis, empenhava-o amanhã, e dirigia-me ao concessionário Opel desta praça para trocar o meu velhinho por um novinho com direcção assistida. O restante gastava-o em bacalhau com natas e tratamentos à celulite, por exemplo.

Nota: acabei de ler que o destino de uma parte dos automóveis roubados em car jacking é servirem para um outro tipo de assaltos, no qual se exige que um carro vá dos zero aos 240 quilómetros/hora em meia fracção de segundo. Ora, isso já é motivo plausível para se precisar de um automóvel de alta cilindrada.

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

A louca e a fascista

Eu e a minha mãe nunca nos entendemos como anjos com anjos devido a uma ligeira diferença morfossintáctica, que configura, no entanto, uma absoluta diferença semântica no que respeita à forma de se encarar e viver as relações sociais. Eu defendo que só se perde o que fica por dizer; ela jura que o que fica por dizer nunca perde. Ora, isto são mundos diferentes. Ela considera-me desequilibrada, com o coração na boca, e crê que não hei-de sobreviver sozinha, quando ela morrer, e repete-o muita vez, quando eu morrer, quando eu morrer. Eu acho que a minha mãe, na plenitude da sua boa educação, é o exemplo perfeito da escrava do fascismo, e mesmo que pudesse viver sem ele, não saberia como. É possível que ambas tenhamos razão.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Um ferro no coração



Se me puser a procurar no arquivos lembro-me de tudo. Olha, por acaso até me lembro do dia em que te disse, espeta-me um ferro em cheio no coração, como se faz aos porcos; espicha-me, que há-de doer rápido e passa, e é o que mais quero; mas pedi-te que esperasses, e foi o meu erro; que tinha de ir cortar as unhas dos pés à minha mãe, e aparar-lhe o cabelo, e fazer-lhe um avio de mercearias para dez anos; que era só um bocadinho, já voltava; mas depois lembrei-me das cadelas: alguém teria de as beijar por mim, lavar-lhes os tapetes mijados com o mesmo amor; e pedi-te, desculpa lá, aguenta mais um bocadinho enquanto resolvo este encargo; e aproveitei para achar quem quisesse herdar os meus botões, que podem vir a ser precisos, hão-de faltar a alguma blusa, um dia, e tenho-os ali guardados; e um cachecol que estava a tricotar, e cotos de lápis que gastei, mas não fui capaz de atirar fora; e tu, compreendo, cansaste-te de esperar com o espicho alçado na mão, pronto a cair sobre o meu peito, e foste-te embora, e não mo cravaste no coração, que eu juro teria sido mais fácil, e até te tinha prometido que não havia de guinchar, que não havia de guinchar nem nada. Deixaste-me solta na eira como se deixa um porco demasiado ruim para o abate, e sozinha tive de arrancar o coração até à voz, e atirá-lo janela fora como se fosse um traste muito velho e sujo e inútil. E nunca mais o encontrei.


Só queria fazer amor com ele

Hoje subi aquela mesma rua paralela às Barrocas, mas mais inclinada, que costumávamos subir os dois quando vínhamos a correr para minha casa, à tarde, para fazermos amor antes dos meus pais chegarem. E lembrei-me de uma discussão que tivemos. Que eu tive. Vinha danada porque queria ter a tarde toda para me deitar nua com ele, e abraçá-lo, beijá-lo, falar baixinho, e irmos fazendo amor aos bocadinhos, sem pressa. Saímos do autocarro e ele caminhava devagar. Rebentei. Se ele não queria fazer amor comigo. Se ele não gostava de fazer amor comigo. Porque é que tinha gasto tanto tempo em Lisboa, entretendo-se com aquela gente que não interessava nada, quando sabia que aquela era a tarde que tínhamos para fazer amor, e que eu estava à sua espera, e que agora já não tínhamos tempo. Nem valia a pena apressarmo-nos, para quê?! Chateou-se. Já não sei o que disse. Amuou. Que eu não compreendia. Que eu não tinha paciência. A verdade, e isto ele não disse nunca, é que eu já era uma mulher, e sabia o que queria, e queria-o a ele e ao seu amor, e ele era um puto que para ali andava atrás do meu cio formidável, insaciável, reflexo de mim. Não foi zanga suficiente para que não tivéssemos feito amor à pressa, antes dos meus pais chegarem. Para ele tanto fazia; ser à pressa. Fazia e pronto. Para mim, fazer amor era tudo. Era o tempo que estava com ele, era espremer-lhe os pontos negros, fazer-lhe cócegas nos pés, morder-lhe as orelhas. Um orgasmo era apenas uma ínfima parte de fazer amor.
Hoje lembrei-me disto. Vinha a subir a lateral às Barrocas, porque fui pôr o carro à revisão. Lembrei-me da voz dele, da suas calças de ganga, do amor. E pensei que para os homens, fazer amor, é só isto: aproveitar meia hora enquanto alguém não chega. Foi sempre assim. E que isto implicaria uma negociação entre os sexos na qual nenhuma diplomacia teria êxito.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Alien, bicho mimoso


Era uma romântica das antigas. Entre ver a ministra da Educação mascarada de Halloween nos Prós e Contras, ou Alien 3, A Desforra, optou pelo bichinho viscoso, porque este, afinal, tudo o que queria era apenas alimentar-se, e garantir a perpetuação da espécie, mas não agia por maldade, com golpes sujos; podendo atacar Ripley, que a tinha à mercê, não atacava, porque tinha instinto e coração. Do raio do bicho até se poderia dizer que era humano.

Gordas que nem texugos

Ultimamente, o sitemeter tem registado uma certa procura por gordas. Gordas assim, gordas assado, gordas a fazer isto ou aquilo, e até bloggers gordas, médicas gordas, professoras gordas, enfim, gordas, gordas, gordas.
Ora, como parece que mulher gorda, afinal, tanto vos convém, aqui a tendes para total regalo do que quer que seja que vos apeteça regalar. Como a oferta é reduzida, porque nos outros blogues parece mal, e estraga a estética do sítio, não posso perder este segmento de mercado.




Fotos de Amélie

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...