sábado, março 22, 2008

Abençoados homens


Abençoados homens de 61 anos, carecas, reformados e com caixa de ferramentas.
Avariou-se-me ontem a torneira do lava-louça e não conseguia parar o fluxo de água, mesmo fechando a válvula de segurança, no exterior. Uma avaria estranha!
Telefonei à minha mãe, para me valer, como de costume, que telefonou à Dona Francisquinha, a vizinha dos cães, cujo filho trabalha na construção, mas não podia; veio cá o marido logo de manhã, de mangas arregaçadas, desenrascar a dona Isabelinha, que a sua mãe disse-me que está aqui com um problema, isto em casa há sempre pequenas coisas que ninguém quer fazer.
Abençoados homens. Deus lhes dê saúde, longa vida e braços que possam carregar caixas de ferramentas para atarraxar o que precisa de atarraxamento.
O marido da Dona Francisquinha tocou-me à campainha como um anjinho da Páscoa, pousou a caixa no chão, abriu-a, e nela foi desencantando anilhas de borracha, bocados de arame, parafusos, porcas, sisal, isto para além das ferramentas, enquanto me pedia lubrificante, que até podia ser óleo de fritar; parecia o MacGyver.
- O senhor parece o MacGyver.
- Ah, pois, eu não perdia um episódio.
- Eu também não. Até me regalava de os ver com o meu pai; o senhor lembra-se do meu pai?
- Então não lembro, Dona Isabelinha, então não lembro? Era um homem muito bem disposto. Mas, isto, nós não somos nada, é o que lhe digo... a minha mãe também já lá está, com a mesma doença do seu pai... há dois meses... mas a propósito do MacGyver, arranje-me aí um fósforo, que estou a precisar de qualquer coisa para fazer aqui enchimento.
- Um fósforo serve-lhe?
Riu-se.
- Dona Isabelinha, eu estive no Luxemburgo. Sabe por que gostam de nós lá no estrangeiro? Por causa disto. Os portugueses são capazes de arranjar tudo com poucos meios. Adaptam-se ao material. Dão-lhe o que ele quer. E resolvemos os problemas. Não há nada que um português não resolva.
E foi verdade; com óleo Fula, um fósforo e um bocado de papel de um folheto do Jumbo arranjou-me a torneira, depois o estore da sala, e a porta, que fechava mal, e pôs-me a luz da despensa a acender, e não me levou dinheiro nenhum, e eu sei, tenho a certeza absoluta, que este homem, para cúmulo da perfeição, ainda deve ter meias solas em condições para bater na cama.
Nunca imaginei que haveria de querer casar-me com o abençoado marido da Dona Francisquinha.

sexta-feira, março 21, 2008

De que se morre numa cruz?

"De que morreu Jesus na cruz?", leio em subtítulo, num dos suplementos de hoje do jornal Público. "De asfixia, de embolia pulmonar, de choque hemorrágico?" Existe toda uma investigação à volta deste problema de suma importância para o cristianismo.
Imaginemos que me aprisionam e me torturam, com instrumentos um bocado cortantes e flagelantes, durante dias consecutivos. Imaginemos que, debilitada pelas sevícias, pelo consequente enfraquecimento físico, me obrigam a arrastar a minha própria cruz, de madeira sólida, ao longo de quilómetros, sob o sol, e à mercê do que nasça, até ao cimo de um monte. Imaginemos que me pregam a uma cruz, ou que a ela me amarram, para que fique exposta à dor e à morte. Imaginemos que aí me abandonam, já exangue. Isto, agora, assim com toda a objectividade, imaginam que morrerei de quê?

A complexidade do cérebro humano

Olhei lá para fora pelos janelões da sala. Que lindo dia! Entretanto, ouvi a Morena coçar-se furiosamente nas minhas costas, e pensei com os meus botões, é hoje que a meto na banheira, é hoje! Virei-me e disse-lhe, sorrindo, é hoje! Levantou-se com o rabo entre as pernas e foi-se esconder no quarto, debaixo da cama.
Ainda ontem tinha ouvido, num programa sobre fauna, no canal Odisseia, a seguinte frase: "o ser humano possui o cérebro mais complexo de todos os animais." Deviam estar a referir-se a uma outra raça humana, talvez noutro planeta.

quarta-feira, março 19, 2008

Treze quilómetros

Eu também suportaria esperar 51 anos e nove meses pelo amor, mas considerando o desgaste que levam as minhas retinas, é provável que tenha de ficar para a próxima encarnação.

segunda-feira, março 17, 2008

Já não há ninguém

Sobre o progresso


Ainda há pastores?, filme de Jorge Pelicano
(clicar sobre a imagem, para aumentá-la.)


Um pastor perdido na serra. Num dia certo ao ano, ia às brasileiras, à cidade mais próxima. Se eu por acaso acharia que a prostituição, neste caso por misericórdia, se justificava. Foi nestes termos que me falaram no referido documentário, há cerca de um ano. Tinha passado na SIC. Fiquei curiosa, mas comprei o dvd há cerca de duas semanas, apenas.
O filme é de uma beleza que rompe os limites entre documentário e cinema, se é que alguma vez isso existiu: limites. É um documentário porque documenta o fim desse mister, e dos que dele se ocupam: a pastorícia, tudo o resto é grande cinema.
Esperava encontrar em Hermínio, o pastor de 27 anos que o documentário transforma em personagem principal, uma personagem pura, com desejos animais, mas inocentes. Encontrei um homem que pastoreia, mas que anseia por uma vida igual à dos outros da vila, da cidade, dos outros que têm direito aos domingos e feriados para descansar. Até aí tudo bem. Haveria de ser possível a um pastor ter quem o substituisse um dia por semana, para que vida e profissão não se confundissem totalmente, porque os tempos mudaram, e em alguns casos, sejamos honestos, para bem melhor. Que não sejamos escravos da sobrevivência. Também acho que não tanto.
Hermínio delira com a música e concertos de Quim Barreiros, "hei-de mamar nos peitos da cabritinha", canta ele, acompanhando a voz do intérprete, proveniente do reprodutor de cassetes, "meto o carro, tiro o carro, da garagem da vizinha...", canta, canta, de rádio ao ombro, sorrindo, deliciado com o tom brejeiro que considera cool. Mais tarde, após a frequência continuada das brasileiras, escuta música igual à que ouço num apartamento do prédio aqui ao lado: uma espécie de vira do Minho com influências tupi, acho. Uma coisa mexida para lá do samba, entre o samba e a música cigana do centro da Europa. Um som horrendo. Para o Hermínio, cool. Tudo o que não seja gado e serra é cool. A decadência de todo o código de socialização rural é cool. O pastor que já não quer ser pastor deseja a civilização, o progresso. Já não suporta a vida de solidão e natureza rija. E tenho pena.
Há poucos dias, na Baixa de Lisboa, tragava uma sopinha de repolho e uma febra no pão, acompanhada do meu amigo francês, e diz-me ele, exclamativo, isto é que é progresso.
Isto o quê?
A sopa, a sandes. Percebes, Isabela, percebes o que quero dizer?! Isto é que é o progresso.
Referia-se ao que comíamos. Comida autêntica sem franchising. Que saciava e nutria. E eu percebi, de facto, e verbalizei a sua ideia, sem sotaque, afirmando que progresso é o que nos faz bem, porque é bom, não porque vemos os outros fazer. Se era isto que ele queria dizer?
Era: o progresso é o que é bom e o que nos faz bem. O resto é a moda.
O pastor de Casais de Folgosinho não almeja, portanto, uma vida melhor, e não a terá quando deixar de ser pastor. Porque uma vida melhor não é ir mais vezes às putas nem levantarmo-nos às onze, nem trocar a solidão da serra pela do cimento - o seu sonho. Isto ele não sabe, provavelmente ninguém lho dirá, e mais tarde ou mais cedo, largará a pastorícia, para seu mal. E custa-me isso de já não haver almas de pastor, de já não haver ninguém.


domingo, março 16, 2008

Hino à carnuç... digo, à beleza

(Clique sobre a foto para aumentá-la.)

Uma foto de autor anónimo, tirada em França, cerca de 1875, que faz parte do meu tesouro de imagens. Agrada-me a alegria dos fotografados, tal como a encenação que as mãos de ambos realizam: as dela, postas religiosamente entre as mamas, como as de uma Nossa Senhora, e a dele, cravada no seu púbis, segurando-lhe a barriga ligeiramente descaída, reclamando posse e luxúria espirituosa.
Pode tratar-se de uma foto para consumo erótico ou de um retrato com a meretriz preferida, a da moda. Ela é adorável: acho-a bonita, de sorriso malandro, mas não estragado, exactamente como ele; redondinha, tão deliciosamente redondinha que tenho ganas de lhe trincar um pedaço da barriga, da anca, do braço, da perna. É uma das minhas gordas preferidas. Um pedaço de céu.

Foi Domingo de Ramos



Gosto muito da igreja da minha freguesia, embora não a frequente. É um edifício recente, de interiores claros, sóbrios, minimalistas. Apetece-me muito rezar na minha igreja. Enchê-la dos pai-nossos e avé-marias que me esqueço de rezar em casa. De muitas preces belas que ouço a minha mãe murmurar pelas seis da tarde, e promessas, e dores e aspirações, mas para ser uma boa católica precisaria de esquecer que a minha igreja é católica, e que nela, alguns filhos de Deus, imaculados filhos de Deus, estão proscritos.
Hoje, a missa de Domingo de Ramos era campal. O padre trouxe os fiéis para o jardim, e, enquanto passeávamos os cães, líamos o jornal, íamos ao minimercado, escutávamos os améns e os cânticos entoados por mulheres e homens empunhando ramos de oliveira.
O padre da minha freguesia é um homem duro, de poucas palavras, diria arrogante. No dia em que enterrou o meu pai pronunciou umas palavras desapiedadas e breves sobre a vida eterna, e o sofrimento dos que ficam, não dos que partem. Aquilo tocou-me. Tentei agradecer-lhe, com lágrimas, mas o homem evitou-me, mostrou-se apressado, indisponível para receber a minha gratidão. Não me esqueci. Hoje, ele lá estava ao ar livre, com os seus fiéis, imitando uma igreja aberta. Como se aquele fosse um grupo aberto, um verdadeiro grupo aberto, e não um círculo fechado como um punho. Não me juntei a eles. Estava com as cadelas, e para as pessoas que adoram o Senhor, os animais não comem à mesa do sagrado. Andei.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...