quarta-feira, março 26, 2008

Treze quilómetros II

Procuro-te por todos os lugares do mapa-mundo, mas a terra onde te coseste a boca não tem sequer um nome.

terça-feira, março 25, 2008

O amor é paciente

Ainda que eu falasse
a língua dos anjos
Se não tivesse amor
Seria como um sino ruidoso.
Ainda que tivesse o dom da profecia
O conhecimento de todos os mistérios
E de toda a ciência
Ainda que tivesse toda a fé
A ponto de transportar montanhas
Se não tivesse o amor
Nada seria.
O amor é paciente.
O amor é prestativo.
Tudo espera.
Tudo suporta.
O amor jamais perecerá.
As profecias desaparecerão
As línguas desaparecerão
Agora, portanto, permanecem
a fé, a esperança e o amor.
A maior delas, porém,
é o amor.

Texto baseado na I Carta aos Coríntios, do Novo Testamento, e letra da composição de Zbigniew Preisner, para o filme Trois Couleurs - Bleu (1993), de Krzysztof Kieslowski


Os poemas do amor

Nunca mais era velha. Estava a ficar velha. Começava a ver rugas nas mãos. Era o tipo de mulher para quem tinham sido escritos todos os poemas de amor, mas que nunca recebera um poema do amor.

Não acredito no amor

repete a andorinha residente, que não acredita senão no amor.

Animais


A Morena dorme comigo; a Micas, no bercinho de verga aos pés da cama, porque sofre dos ossos, e tem ciúmes, ou dormiríamos enroladas as três, lobas enjeitadas da mesma matilha. Quando me deito, abraço o corpinho da Morena, bêbeda de sono, puxo-a para mim, beijo-a, digo-lhe, minha bebezinha, suspira, penteio-a com os dedos, no escuro, e deixo-os pousados entre os fios de manteiga do seu pêlo. Durante a noite, viramo-nos uma para a outra, sobressaltamo-nos, escutamo-nos respirar - às vezes ladram baixinho - e os nossos corações batem a mesma pancada de amantes eternas.

segunda-feira, março 24, 2008

Tudo é relativo

A verdade é que a semana me correu mal. Chateei-me na fábrica com uma colega que tem a mania que é dona da linha de montagem, e que sabe mais de parafusos do que eu, e com que modos, a malcriada!; zanguei-me com a minha mãe por causa das compras do Jumbo, a mal agradecida - estive dois dias sem lhe falar; avariou-se-me a torneira do lava-louça, mas, bem, essa parte resolveu-se com ajuda da minha mãe; fiquei empanada na auto-estrada com o Opel a deitar fumo pelo capot, e o mecânico até me telefonou agora, que é a junta da cabeça - 600 e tal euros, e se não houver mais nada!, eu nem pio; mas o que me tirou do sério, o que me lixou o sistema todo foi, ao pequeno-almoço, o leite ter fervido, e deixar-se entornar, para mais de 1/4 de litro, por cima do fogãozinho lavado de fresco com tira-gorduras.

domingo, março 23, 2008

Estás à espera de quê para te ires embora?



- Como foram esses tempos?
- Nessa época, aos domingos, refugiava-me na eira para estar sozinha com os gatos e as galinhas. No Inverno, estendia-me no chão, à chapa do sol. Era bom. Não ouvia ninguém.
- Então, mas o que tira de bom desses tempos?
- De bom, desses tempos... - Nada, era o que me vinha à cabeça. Nada. Não seria o que esperavam ouvir, mas como sempre acreditei na bondade das respostas imediatas, decidi continuar, que se lixasse, e o que havia nisto de afronta, raiva e verdade! - Não precisar de ninguém. Ter-me tornado ab-so-lu-ta-mente autónoma. Fazer sozinha, com as minhas valências, o que a outros custa multidões.
- Tornou-se demasiado independente?!
- Enfim, dependo de saber que os outros existem, mas não dependo deles. Detesto a distância que me separa dos outros, contudo, tudo me parece no seu lugar à distância. Aprendi a estar longe, e isso tornou-se a minha casa. Há coisas que não sei fazer acompanhada... não sei, pronto, o que quer que lhe diga? Ir ao cinema, por exemplo... é estranho ir acompanhada... ao supermercado... a um museu, uma exposição... andar sozinha na rua... Não sei. Sei mal. E estou sempre à espera de perder. À espera que alguém se vá embora. Que desistam de mim. Que me digam que não têm tempo. Que não podem. Essa é a resposta natural. E quando acontece, mais tarde ou mais cedo, até respiro fundo. Finalmente foi-me dito o que esperava e nunca mais vinha. Finalmente, a ordem, e tudo pode retomar o seu curso normal.
Ela não me respondeu. Esperava que continuasse. Sorriu-me, séria, contudo, e senti que me ouvia, que talvez pudesse compreender-me.
- Mas não pode esquecer essas pessoas, pois não?!
- Não, não consigo... tenho-as sempre entaladas aqui - e fiz o gesto, a mão na garganta, como se a cortasse à navalha, mas não era isso, e sorri com o meu sorriso mais bonito - às vezes, sabe?!, penso que não esquecer os outros é a minha vingança contra a pouca importância que me deram. Contra terem-me largado com a minha total complacência. Melhor, respondendo ao meu persistente estímulo. Contra nunca terem insistido, nunca terem dito, oh minha grande filha-da-puta, eu não vou nada fazer aquilo que esperas, vais ter que lidar comigo, vais ter que gerir a tua vida comigo, vais engolir esse orgulho...
- Mas é contra si...
- É sempre contra mim.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...