quarta-feira, março 26, 2008

Três anos em contramão

É verdade que sempre senti o apelo dos atalhos, dos caminhos enviesados, cheios de buracos, lama, mas a minha mãe nunca me deixou iniciá-los por serem perigosos. A minha mãe ou a materialização dos medos que me transmitiu. A pedagogia do medo é uma tradição lusitana.
Se não fosse estupidamente fiel, podia ter-lhe mentido, mas, em alternativa, acatei a responsabilidade. De todas as vezes que pensei, ah, apetecia-me tanto ir por ali, à cautela, fui por acolá. E errei. Quer dizer, acertei, e assegurei, mas errei.

Estou segura de que alguém, um dia, me há-de pedir contas do que não fiz, e eu hei-de dizer, não fui eu, foi o meu signo, e a minha mãe. Por mim, tinha-me atirado à asneira de braços escancarados. É natural e humano que me defenda, sabendo, contudo, que não tenho razão, que as escolhas foram minhas.
Este blogue começou torto e assim se tem mantido. Que enorme caminho enviesado, a maior parte das vezes, percorrido em contramão. Faz hoje três anos. E como sempre, em datas de aniversário assim tão pessoais, nunca me ocorre nada para dizer.

Treze quilómetros II

Procuro-te por todos os lugares do mapa-mundo, mas a terra onde te coseste a boca não tem sequer um nome.

terça-feira, março 25, 2008

O amor é paciente

Ainda que eu falasse
a língua dos anjos
Se não tivesse amor
Seria como um sino ruidoso.
Ainda que tivesse o dom da profecia
O conhecimento de todos os mistérios
E de toda a ciência
Ainda que tivesse toda a fé
A ponto de transportar montanhas
Se não tivesse o amor
Nada seria.
O amor é paciente.
O amor é prestativo.
Tudo espera.
Tudo suporta.
O amor jamais perecerá.
As profecias desaparecerão
As línguas desaparecerão
Agora, portanto, permanecem
a fé, a esperança e o amor.
A maior delas, porém,
é o amor.

Texto baseado na I Carta aos Coríntios, do Novo Testamento, e letra da composição de Zbigniew Preisner, para o filme Trois Couleurs - Bleu (1993), de Krzysztof Kieslowski


Os poemas do amor

Nunca mais era velha. Estava a ficar velha. Começava a ver rugas nas mãos. Era o tipo de mulher para quem tinham sido escritos todos os poemas de amor, mas que nunca recebera um poema do amor.

Não acredito no amor

repete a andorinha residente, que não acredita senão no amor.

Animais


A Morena dorme comigo; a Micas, no bercinho de verga aos pés da cama, porque sofre dos ossos, e tem ciúmes, ou dormiríamos enroladas as três, lobas enjeitadas da mesma matilha. Quando me deito, abraço o corpinho da Morena, bêbeda de sono, puxo-a para mim, beijo-a, digo-lhe, minha bebezinha, suspira, penteio-a com os dedos, no escuro, e deixo-os pousados entre os fios de manteiga do seu pêlo. Durante a noite, viramo-nos uma para a outra, sobressaltamo-nos, escutamo-nos respirar - às vezes ladram baixinho - e os nossos corações batem a mesma pancada de amantes eternas.

segunda-feira, março 24, 2008

Tudo é relativo

A verdade é que a semana me correu mal. Chateei-me na fábrica com uma colega que tem a mania que é dona da linha de montagem, e que sabe mais de parafusos do que eu, e com que modos, a malcriada!; zanguei-me com a minha mãe por causa das compras do Jumbo, a mal agradecida - estive dois dias sem lhe falar; avariou-se-me a torneira do lava-louça, mas, bem, essa parte resolveu-se com ajuda da minha mãe; fiquei empanada na auto-estrada com o Opel a deitar fumo pelo capot, e o mecânico até me telefonou agora, que é a junta da cabeça - 600 e tal euros, e se não houver mais nada!, eu nem pio; mas o que me tirou do sério, o que me lixou o sistema todo foi, ao pequeno-almoço, o leite ter fervido, e deixar-se entornar, para mais de 1/4 de litro, por cima do fogãozinho lavado de fresco com tira-gorduras.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...