segunda-feira, março 31, 2008

O animal bonito é o animal morto

Daniel Proença de Carvalho é o convidado especial do programa Sentido do Gosto, que passará amanhã à noite da RTP1, e no qual se discutirá o fascínio da caça.
Ah, eu também gosto muito de programas sobre caçadores. A ternura com que eles fitam os olhinhos mortos da lebre, da perdiz, do passarinho indiscriminado e, até mais ver, mole, comove-me. Ah, a caça, essa arte! Premir o gatilho, essa arte!
A natureza é perfeita e os caçadores adoram-na, e mais à bicharada. Olha, ali vai uma perdiz. Que lindo animal. Deixa cá ver se lhe acerto à primeira. Pum, pum. Busca, Bobi, busca.

O meu dinheiro

Não suporto pagar contas. Analisar um registo dos movimentos bancários enerva-me. Dá-me insónias, antes e depois. Por isso, vou ligar para o Millenium BCP Prestige para que me aceitem como cliente, e o meu gestor tratará das minudências financeiras em meu lugar.

domingo, março 30, 2008

Uma história sem moral

O professor, ele é professor de música na escola, foi sair com uma professora e viu o pai. O pai agora é um pedinte, um sem-abrigo, mas antes era professor universitário, só que morreu-lhe a mulher, começou a beber, e desgraçou-se. Os miúdos da escola falam com ele sentados no muro; dá-lhes conselhos muito bons; é um homem que fala muito bem, porque, está-se a ver, foi professor universitário e sabe discursar; os miúdos às vezes até lhe trazem coisas de casa, ou levam-no com eles para comer com as mães e pais. Gostam muito dele.
O professor que viu o pai, quer dizer, pensou que o viu, e até disse à professora, parece que está ali o meu pai, foi a correr atrás dele, mas o velho escondeu-se atrás de uma árvore, e ele ficou sem saber se era mesmo o pai. Agora é que isso se vai desenvolver melhor.
Este foi o reconto do episódio de Morangos com Açucar de ontem, segundo a minha mãe, à hora de almoço. Escuto estes relatos sorrindo. Ela sente-se feliz, e, por arrasto, também eu. Bendita telenovela.


sábado, março 29, 2008

A casa dele

Alfred Wallis, The Hold House, circa 1932



Não o incomodo. Não lhe dou trabalho. Fica tudo como estava antes de eu entrar. A sua vida igualzinha, sem tirar nem pôr. É assim todos os dias desde que arranjei a chave da sua casa. Custou-me muito, mas consegui, por mor de antigas cunhas e muito seguras. Quando estou cansada e vazia, e se ele não está, entro em silêncio, sento-me num sofá, e perco-me a contemplar os pormenores da mobília, a folhear os livros de família e os diários em gavetas. Como se ele estivesse na capa deste livro; as suas mãos terão folheado este livro; aperto-o contra o peito, com ternura; beijo-lhe a capa; cheiro-a de olhos muito fechados. Ele há-de estar ali. Remexo-me no sofá. Não o incomodo. Não perturbo uma leve aragem do seu dia. Tudo igual ao que era antes de eu ter nascido. Mas o seu corpo senta-se neste sofá. A sua roupa. Deve ter o seu cheiro. Se fosse uma cadela poderia cheirá-lo nesta coberta; que pena não ser uma cadela. Nascer, morrer, ter um dono. Percorro toda a casa, até a arrecadação, sobretudo as coisas velhas. O quarto onde dorme acompanhado, onde faz amor com a mulher que ama. Os seus ténis velhos. Um casaco castanho. A camisa de dormir com que a mulher cobre os seios que ele adora. E tanta dignidade. O quarto das crianças, que cheira tão bem, tão a novo. Que casa tão bonita, tão leve, despretensiosa. Que bem que se está na sua casa, que rescende a amor, sol e flores vivas. Saio recomposta. Suspiro como se tivesse calcorreado quilómetros e precisasse descansar. Ele está bem; que bom, saber que está bem, que é feliz, que poderia ser feliz, que é o único a sentir-se morto lá dentro.

Acção política


Está bem, não me importo, rapem-me o cabelo, vistam-me a farda, participo em tudo, de preferência em acções terroristas clandestinas, mas, por favor, não me tratem por camarada, não me enviem mails começados por camarada, nem sms's ou outras formas de tocar a reunir com a palavra camarada, para que não me sinta personagem do Dr. Jivago, e o meu paizinho não se revolva na tumba.

quinta-feira, março 27, 2008

As massas da minha massa

Fico a olhar, fascinada, as pessoas na televisão. Os portugueses. Políticos. Intelectuais. Ou não. Os convidados das notícias. Que bem parecem. A forma gentil como movimentam as mãos. São pessoas sérias. Todas humildes e modestas. Higiénicas. Ninguém mija fora do écran, quanto mais dentro. O meio sorriso, nem muito aberto nem muito fechado. A cabecinha de lado, o sorriso retórico, politicamente correcto, socialmente correcto, culturalmente correcto. Os trejeitos com a boca, exclamativos, semânticos; a preocupação em dizer as coisas certas, com as palavras que se esperam. Os tiques que procuram aceitação, o abanar de cabeça, o baixar de cabeça, as palavras que rabiscam numa folha, e que infelizmente não vemos. Que repetitivos, que vazios, que chatos. Dêem-me a rua, por favor: as pessoas que passam, as mulheres que vendem no passeio, o homem que diz, "haviam de pagar mais de um milhão por cada divórcio", e a senhora que está convencida que "agora facilitam tudo, depois é esta falta de respeito, então uma pessoa quando se casa não é para sempre?" Gosto mais destes; as massas que não fazem jeitinhos, que não prestam vassalagens aos que prontamente pagam as vassalagens.

quarta-feira, março 26, 2008

Três anos em contramão

É verdade que sempre senti o apelo dos atalhos, dos caminhos enviesados, cheios de buracos, lama, mas a minha mãe nunca me deixou iniciá-los por serem perigosos. A minha mãe ou a materialização dos medos que me transmitiu. A pedagogia do medo é uma tradição lusitana.
Se não fosse estupidamente fiel, podia ter-lhe mentido, mas, em alternativa, acatei a responsabilidade. De todas as vezes que pensei, ah, apetecia-me tanto ir por ali, à cautela, fui por acolá. E errei. Quer dizer, acertei, e assegurei, mas errei.

Estou segura de que alguém, um dia, me há-de pedir contas do que não fiz, e eu hei-de dizer, não fui eu, foi o meu signo, e a minha mãe. Por mim, tinha-me atirado à asneira de braços escancarados. É natural e humano que me defenda, sabendo, contudo, que não tenho razão, que as escolhas foram minhas.
Este blogue começou torto e assim se tem mantido. Que enorme caminho enviesado, a maior parte das vezes, percorrido em contramão. Faz hoje três anos. E como sempre, em datas de aniversário assim tão pessoais, nunca me ocorre nada para dizer.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...