domingo, abril 13, 2008

A obra poética de Dick Hard II

UM BOCADO CÃO

Sei que sou

um bocado cão

de manhãzinha

Quando vou
atesoado

à casa da vizinha

Eu deito-a na mesa
com o cu de fora

o rabo bem espetado

A minha ponta acesa
ora vamos lá embora
p'ra ficar aviado

E numa luta insana
ora a viver lá dentro
ora a murchar cá fora


Eu dou-lhe uma canzana
penetro pelo centro

ao romper d'aurora

Dick Hard (2004), De Boas Erecções está o Inferno Cheio, Lisboa, Edições Polvo

sexta-feira, abril 11, 2008

As quatro avós do meu amor


A minha prima afastada telefonou-me de Roma para dizer que tinha sonhado comigo.
Tinha vindo a minha casa, e encontrara-me ocupada a tomar conta de quatro velhotas.
Perguntou-me, "Não achas que são demasiadas velhotas para tomar conta?", e eu respondi-lhe que não, que sabia perfeitamente que se fizesse aquilo, o Meu Amor Perdido voltaria para mim.
Ri-me ao telefone. Quatro velhotas. Como se já não me bastasse a minha própria, que ainda ontem lá me chamou porque o quadro disparou, estava sem luz em casa, e não sabia carregar num botão, e além disso tinha as unhas das mãos demasiado grandes e precisava que eu lhas cortasse, e talvez pusesse um nadinha de brilho.
Ri-me. As quatro avós do Meu Amor Perdido! Isso devia dar as duas avós dele, e mais as duas da mulher. Grande sentido de abnegação. Acredito que se deva fazer algum sacrifício para atingir o nirvana do amor, mas quatro avós?! E no final, cuidadas as avós, o que me diria o Meu Amor Perdido? Algo parecido com isto: "olha, querida, obrigada por teres tomado conta das minhas avós, e também das da minha legítima esposa, mas agora, desculpa lá, bem sei que é injusto, mas tem que ser, temos de nos conformar, assumir os nossos erros, no caso, os meus; agora que já estou tão habituado à minha mulher, e ela a mim, e a vida dela já ficou estragada por acção do meu medo, cobardia e desejo de normalização, e por arrasto também a minha, fico com ela, está bem?! Para ser justo, fico com ela. Olha, não te chateies, já sabes que te amarei sempre, sempre, e deixo-te com o consolo do nosso amor eterno. E hei-de sempre pensar em ti. Juro. Agora vai lá dormir com as tuas doces cadelinhas, que eu também vou ali deitar-me com a minha esposa, que me aguarda com braços macios, e que acabou de me passar o pijama a ferro, e ainda está quentinho."

quinta-feira, abril 10, 2008

O que é a felicidade?



Uma mulher casa aos 46, e vive com felicidade esse relacionamento tardio. Trata-se de um casamento pacífico, atravessado pelo companheirismo. Gostam um do outro. Têm rotinas nas quais se apoiam. Adoptam um cão, e, certo dia, correndo atrás do animal que lhe fugiu para a estrada, o marido é gravemente atropelado, sofrendo um traumatismo craniano profundo que alterará a sua percepção da realidade. A mulher fica sozinha, na casa sozinha, com o inocente cão que não consegue culpar.
Uma Vida e Três Cães
, de Abigail Thomas, oferece-nos as memórias desta mulher, jornalista, escritora, a sua relação com a doença do marido, internado numa clínica para doentes com lesões cerebrais irreversíveis, com os seus familiares, vizinhos, os cães, que vai adoptando, e que dormem todos na sua cama. Mas a obra é, antes de mais, uma simples reflexão, redigida com grande despojamento literário, sobre a natureza da felicidade, a importância dos hábitos do dia-a-dia, das coisas que nos vão dando alento, como comer gelados, fazer malha, sentir a respiração morna dos cães contra a pele do nosso braço, ver e escutar os outros. É um livro sobre a felicidade, porque é um livro sobre a aceitação da vida. Ofereceram-mo porque a autora e protagonista era uma mulher como eu, uma mulher que dorme com os cães. Voltei a questionar-me sobre a felicidade, assunto que é muito recorrente em mim, que vai e volta, mas permanece pairando sobre tudo o que penso ou escrevo. A felicidade. O que eu julgava que ela seria, aos 18 anos, e o que penso a esse respeito, agora. Ser livre, pensava eu. Ser feliz era ser livre. E o que penso hoje sobre a natureza da liberdade, sobre as múltiplas prisões que a seguram pela corrente. Li-o e fui sorrindo. Dou comigo sentada no sofá a dizer à Morena e à Micas, somos tão felizes as três, não somos?! Não respondendo, dizem-me que sim. Somos mesmo felizes as três, cum caraças! Demorei muito anos a descobrir a enorme felicidade disponível, gratuita, à solta dentro de mim. Achava que não podia existir na solidão. A felicidade está na solidão. Achei que não poderia encontrá-la dentro de casa. A felicidade está dentro de casa. Pensava que para ser feliz precisaria da viver experiências ruidosas e coloridas. Tropeço em felicidade nos passeios que vou dando através da Serra do Louro, ou quando vou à praia, a S. João da Caparica, e deixo as cadelas de bofes à boca. Não têm pedalada para mim, as gordas. Às vezes, se me meto pelo mato, apanho carraças nas pernas, e isso também é a felicidade. Não conseguia imaginar a minha vida quando tivesse 40 anos. Achava que seria uma infeliz mulher rejeitada, de meia idade, quase velha, demasiado velha. Mas agora, que tenho 45, não me sinto velha nem rejeitada nem de meia idade nem infeliz, mas viva, e cada vez mais capaz de me maravilhar, de me deixar tocar pelos elementos. Também cada vez mais capaz de responder aos outros, de destrinçar o certo do errado. Sei muito bem o que me faz bem e o que me faz mal, mas aí não incluo os rissóis nem os bolos de arroz. Não passei a ganhar mais dinheiro, nem fiz mais amigos, nem nada. Limitei-me a aceitar que esta é a minha vida, e que é boa, que tive sorte. A felicidade resulta dessa aceitação.


Abigail Thomas (2008), Uma Vida e Três Cães, Lisboa, Sextante Editora (12,60€ na FNAC)

Vida urbana

Outro comovente exemplo de felicidade seria se o carro que está lá em baixo a buzinar, em contínuo, há cinco minutos, se calasse para todo o sempre, e me deixasse trabalhar.

quarta-feira, abril 09, 2008

Companheiro de cama

Adormeci a ler. O lápis de sublinhados rolou para debaixo do meu corpo e fui sentindo o bico picar-me toda a noite. Nas costas, na barriga, nas coxas, rebolando-se comigo, quando eu me rebolava. Não tentei tirá-lo: estava a gostar de me sentir picada.

Fantasma

Disse alto, com voz forte e jovial, muito perto da minha cabeça:
- Olá!
Era um olá grande, impositivo, ao qual me seria impossível não responder.
Reconheci a sua voz, e, ainda no sono, pensei, não podes ser tu; tu já morreste. E abri os olhos.

terça-feira, abril 08, 2008

O novo aspecto

Muitos leitores me têm escrito a pedir uma foto autografada de uma das minhas cadelas ou de ambas. Sou muito renitente nisto das fotos. Faço questão de manter o maior low profile da blogosfera em língua portuguesa, rechaçando qualquer avanço sobre a minha vida privada e a das minha cadelas. Metam-se nas vossas vidas, meus senhores. Estou cansadinha de vos avisar que nada do que aqui se escreve é auto-biográfico. Enfim, vocês é que sabem. Querem andar iludidos, iludam-se.
Bem, avançando: apenas porque não pretendo dar a impressão de ser criatura pouco sociável, e apenas por isso, resolvi, no momento em que senti um premente desejo de mudança quanto ao aspecto d'O Mundo Perfeito, postar um banner com a foto da Morena. É verdade, é a minha Morena, a minha Morenita, namorados não tem, ninguém acredita, numa das viagens que recentemente fizemos ao Peru, na senda dos extraterrestres de Shirley Maclaine, os quais aí mantêm uma base, algures sob o lago Titicaca. Descobri que o Mundo Perfeito sou eu, a minha Morena, os Andes, o Lago Titicaca, meia dúzia de aliens soterrados e nem o sopro de vivalma num raio de 300 quilómetros.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...