quarta-feira, abril 16, 2008

Eu cá espetava-os todos contra as paredes do Ministério da Economia


Quando eu era nova havia uns mânfios que roubavam carros. Uma chatice. Roubavam-nos, levavam-nos para a loucura da noite, ouvindo Xutos, esses marados, e era sexo, e drogas, sobretudo drogas, drogas, e roubos por esticão; no dia seguinte, o Fiat Uno lá aparecia espetado contra um muro da Avenida das Descobertas, muito mazelado. Mas não compensava a assaltante nem a assaltado.
Hoje, os mânfios especializaram-se, e trabalham em bancos e têm salários de gestor. Ou administram fundações culturais e outras. Felizmente, acabaram-se esse ladrõezecos de meia-tijela, sem gosto, sem conhecimento da arte da ladroagem, do produto que vale a pena roubar. Agora temos o carjacker, individuo encapuçado e armado que vê muitos filmes de acção americanos, em vídeo ou dvd, e usa muito o comando para congelar a imagem, fazer pause, zoom, repeat, marker, etc. O carjacker pratica o carjacking, modalidade desportiva a que muito gostaria de dedicar-me, estando do lado de fora do veículo, naturalmente, isto se não tivesse que fazer à noite.
É que ainda há bocadinho estive a ver uma entrevista a um carjacker, no Canal 1, e, com toda a sinceridade, acho que fazia aquilo com mais estilo, sem medo que as mulheres se me atirassem ao capuz, e não diria, de certeza que não diria, "a seguir chamei ela".

terça-feira, abril 15, 2008

Os cobardes

A cobardia alugou uma casa sem janelas num beco escuro e sem nome. Entra por uma porta vulgar, que se perde entre outras portas, e, lá dentro, senta-se no chão, chorando largamente, a fio, sem ser vista; maldiz a vida, chora a vida, chora-se, enquanto as sobrancelhas embolorecem, e pouco a pouco, toda a pele do rosto apodrece de tristeza.
A preguiça pode salvar-se, a má-vontade, até o vício negro. A cobardia não tem salvação.

Os jardineiros

Greenhouse, Anónimo, 1910

Tinha chegado tarde ao curso. Os outros inscritos tinham já plantado muitas árvores. Um deles, pela minha idade, possuía uma palmeira em franco desenvolvimento, três abetos, mas dois deles ainda bastante atrasados. Resolvi dedicar-me às rosas do Japão, em vaso, alguns gerânios muito vermelhos e farfalhudos, os quais transplantei com as mãos bem enterradas no substrato negro: e outras plantas que poderia facilmente podia dar ou transportar. Tinha chegado tarde ao jardim, ao curso, por isso era natural que ficasse com as sobras dos outros. Por amor à hortofloricultura não poderia plantar árvores. Por isso, entre a humidade dos vasos, eu que não plantara árvores, dei abrigo às lagartixas, sapos e rãs que escolhessem esse meu pedaço de jardim. O primeiro sapo caiu do céu num aguaceiro forte de Abril. Caiu muito pequenino e ficou para sempre, mesmo quando o meu jardim secou.


Waterlily, Anónimo, 1910

segunda-feira, abril 14, 2008

Do parasita (literal)

Um ninho de carraças pretas, em desenvolvimento, numa prega da orelha direita. Uma carraça igualzinha a uma uva branca de mesa, e do mesmo tamanho, a meio do pavilhão auricular da esquerda. E dormiu toda a noite com a cabeça encostada à minha. Não há sabão suficiente para me lavar capazmente a ponta dos dois dedos. Adiante. Adiante.

No ginecologista

- Ah, mas a senhora tem um útero muito lindo, muito fechadinho.
- É, doutor, parece o cofre do Banco de Portugal, mas com os fundos rotos.

domingo, abril 13, 2008

A obra poética de Dick Hard I

WARNING

Tu, que te abandonaste ao gozo
sentindo a roçar no sexo

o húmido duma língua desejada


Tu, que fechaste os olhos em delírio
e afagaste os cabelos sedosos
dum ser que te deu prazer

Tu, que gemeste como louca
em noite de trovoada

com travo orgiástico

Tu, que sentiste na goela
o frio da lâmina

a cortar-te as veias

Tu, sim, tu

devias ter-te lembrado

antes de morrer

Os serial killers
também fazem
minete

Dick Hard (2004), De Boas Erecções está o Inferno Cheio, Lisboa, Edições Polvo

Diverte-me o pastiche: a sátira à poesia neo-romântica de quinta categoria, presente no título, em presunçoso inglês; os vulgaríssimos paralelismos anafóricos, em início de estrofe, "tu", "tu"; o vocabulário barato, em "gozo", "orgiástico", semeado ao longo dum discurso pejado de lugares-comuns, como "cabelos sedosos", "gemeste como louca" e "ser que te deu prazer".
Agrada-me o humor negro, a sátira ao acto sexual fortuito e perigoso, e o ligeiro non sense relativo ao objecto poético, que devia ter-se lembrado de qualquer coisa "antes de morrer", enquanto se abandonava ao gozo e fechava os olhos em delírio.
Um poema destes é trabalho difícil, porque é difícil conseguir escrever mal, copiando todos os estereótipos duma pseudopoética risível, e fazê-lo bem, escrevendo bem. Este é um anti-poema feito no fio da navalha.
Dick Hard está eleito poeta-culto, poeta oficial deste blogue. A partir de agora, no more ai lave ius.


A obra poética de Dick Hard II

UM BOCADO CÃO

Sei que sou

um bocado cão

de manhãzinha

Quando vou
atesoado

à casa da vizinha

Eu deito-a na mesa
com o cu de fora

o rabo bem espetado

A minha ponta acesa
ora vamos lá embora
p'ra ficar aviado

E numa luta insana
ora a viver lá dentro
ora a murchar cá fora


Eu dou-lhe uma canzana
penetro pelo centro

ao romper d'aurora

Dick Hard (2004), De Boas Erecções está o Inferno Cheio, Lisboa, Edições Polvo

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...