quinta-feira, abril 24, 2008

Digam-me o que sabem e o que têm ouvido

Caras leitoras e leitores,

eis uma pergunta séria e importante, para eu decidir se poupo uns tostões:

1) O que me dizem da qualidade do serviço Meo, no que respeita a televisão por cabo e, sobretudo, internet - está sempre a ir abaixo, a ligação de 8 não-sei-quê é lenta?

Respostas na caixa de comentários, como é costume, por favor, e muito obrigada.

quarta-feira, abril 23, 2008

O mundo perdido

Abril, por Dhao Ge, 2002

O mundo está a ser atravessado por triliões de quilómetros de estradas transitáveis e intransitáveis, e triliões de quilómetros de chão livre, sem estradas ou caminhos, porque o mundo é grande como um planeta selvagem, mas ninguém está plantado no mundo. Estão todos a trabalhar em fábricas de embalagens de plástico e escritórios de import-export, enquanto o mundo floresce e murcha, floresce e murcha.

terça-feira, abril 22, 2008

As minhas amigas

Tiveram maridos e filhos, e eu invejo-lhes a riqueza e a normalidade que me foram negadas (que me neguei). Têm tudo e ainda se queixam.
Permaneço solteira e sem prisões, e elas invejam-me a autonomia e liberdade que mantive (a que tive de me adaptar). Acham-me cool e dizem que não tenho de que me queixar.

segunda-feira, abril 21, 2008

Máximas e sentenças da minha prima afastada I

Sobre a extrema importância da poesia para a salvação do mundo:

Coitadinha da Morena, anda aqui no mundo de um lado para o outro, e nem sabe que tu lhe escreves poemas tão bonitos.

Máximas e sentenças da minha prima afastada II

Sobre a auto-suficiência do meu celibato e certas queixas de solidão:

Tu não precisas de homem nenhum, já tens a tua mãe e as cadelas, e chegam-te bem.


sexta-feira, abril 18, 2008

O corpo do meu pai era bom

Foto: Monika Wiechowska, Portrait of my parents


O meu corpo foi uma guerra, era uma guerra, comprou todas as guerras. O meu corpo lutava contra si, corpo-a-corpo, mas o do meu pai era grande, pacífico e de carne. O corpo do meu pai era dele e valia a pena. O seu corpo era o do outro, que estava em mim, mas sem guerra. Redondo, macio, arranhado, o corpo do meu pai dava-se ao riso, às cócegas, ao meu corpo.
O meu pai tinha os pés rosados, de uma pele muito branca e quebradiça; escamava; dizia que era a filária, e que não lhe puxasse as peles. A minha mãe não me deixava andar descalça por causa da filária, que dava muita comichão, e seria preciso queimar a pele, com gelo, até ao osso. O meu pai tinha, nos pés, umas escamas como massa folhada, que desejaria puxar e comer. A carne do meu pai era doce. A pele do meu pai era morna e morena.
Os seus pés eram bem acabados, cheios, com os dedos desenhados ao pormenor, como uma escultura do Renascimento, e as unhas redondinhas, transparentes, brilhantes. À hora da sesta de Domingo, quando eles se deitavam, e eu não tinha que fazer, a não ser brincar com o Piloto, que a minha tia envenenou em Alcobaça, anos mais tarde, e com os gatos, que ficaram em Lourenço Marques, desculpem, no Maputo, e que fugiram atrás das gatas, e foram, de certeza, apanhados, mortos e comidos como coelhos pela pretalhada esfomeada, disse a minha mãe, e que a pretalhada havia de amargar o que tinha feito aos brancos; nessas tardes eu ficava a brincar com os pés do meu pai, atravessada na cama.
A minha tia envenenou-me o Piloto em Abril de 1978, e acusou os vizinhos. Foi nas férias da Páscoa. Embalei o meu cão morto. Nunca tinha tido aninhado um cadáver contra o peito. Tinha os olhos abertos, vidrados, as patas traseiras contorciam-se rasando o focinho, duro, gelado. Segurei-o nos braços, e apertei-o, e chorei sobre o seu corpo inocente a minha culpa, dor, perda, impotência e abandono. Enterrei-o por debaixo da nogueira que existia na fazenda. Mais tarde abateram a nogueira. Os meus tios sempre me olharam com a mesma emoção com que se trata um electrodoméstico. O que era um cão? E que importância tinha o cão da retornada? Que a retornada, que roubara aos pretos, se tinha dado ao luxo de trazer para a Metrópole, quer dizer, para Portugal?! Se para retornados não havia lugar, para cães de retornados...
O meu pai apertava os pés um contra o outro, pressionava-os, fazia força, e ria-se. Eu não conseguiria separá-los, brincar como queria. Os pés do meu pai cheiravam a pêlo de cão. Era um cheiro seco e doce. Os cães cheiram a terra e a pão. Cheiravam a pão, sim, a terra e a pão, e eu queria tanto fazer-lhes cócegas, e morder-lhes, e ele ria-se, e dizia, larga-me rapariga, e eu ria-me, e fazia pior, e a minha mãe dizia, larga o teu pai, rapariga, e eu ignorava-a, tem juízo rapariga, vai para a tua cama rapariga.
O corpo da minha mãe era geométrico e seco. Não tinha autorização para lhe tocar. No corpo da minha mãe apenas me interessava o seu peito grande e mole. Que delícia haveria de ser poder mexer-lhe, mamar, chupar por todo o lado. Apalpar com força. Sacudia-me, está quieta. Tocar na minha mãe era uma atitude pouco própria. O corpo do meu pai, pelo contrário, sólido, redondo, disponível, era uma colina cheia de arbustos e vegetação à qual podia trepar, e sentir, cheirar, beliscar, morder. Puxava-lhe os pêlos, as unhas. A barriga das pernas do meu pai tinha uma curva tão harmoniosa, tão ondulada, e era tão cheia. Simulava que as mordia com muita força, e ele simulava gritar, ai, ai, está quieta rapariga. Que belas pernas tinha o meu pai. Brancas. Nem demasiado musculadas nem gordas, embora fosse gordo. Compridas, torneadas. Os calções assentavam-lhe a matar. Eram umas pernas quase femininas. Atiçava-me, provocador, sorrindo cheio da mesma falta de modéstia que tão bem conheço, querias ter umas pernas tão jeitosinhas como as minhas, Isabela?! Querias, não querias?! As minhas vão à amostra a umas senhoras. Dizia isto muito vez, quando estava bem vestido, vou à amostra a umas senhoras. E eu pensava que brincava. As pernas do meu pai, que raiva. Seguia-se uma competição de beleza de pernas, em que cada um mostrava os seus maiores atractivos e em diversas posições.

A barriga do meu pai descaía quando se deitava de lado. Que solenidade. Que importância, a de uma barriga assim dilatada. Tinha-lhe respeito. Ele protegia-a com os braços, e aos genitais, se bem que os últimos não me causassem interesse. Quando se deitava de lado, se vestia calções largos e curtos, era possível vislumbrar nesses lugares certas sombras medonhas. Desviava o olhar por vergonha e medo e nojo. As partes íntimas do meu pai eram uma mancha escura e mole. Que contacto visual tão desagradável.
Lembro-me do roçar da sua cara mal barbeada na minha cara, nos meus lábios. Vai fazer a barba. Já fiz a barba, agora vê lá. Querias ter uma pela tão maciazinha, não querias, Isabela?! Querias! Era macia. Lembro-me do cheiro a suor do seu pescoço. Suor de homem. Denso. Da massa enorme que era o seu corpo, tão segura, tão certa. Sentar-me ao seu lado, ao seu colo, às suas cavalitas. O corpo do meu pai era um trono. O corpo do meu pai era bom.

O que dele restou encontra-se arrumado numa gaveta da 8ª secção do cemitério do Feijó. Quanto ao resto que lhe pertencia, não consegui arrumá-lo em lugar algum. Não cabia. Não há-de caber.


quinta-feira, abril 17, 2008

A minha nova gabardina verde

De manhã, chovia, e chove agora. A chuva foi uma bela oportunidade meteorológica para estrear uma linda gabardina para Primavera, verde vivo, que comprei numa promoção recente.
Saí de casa toda airosa, porque o verde me assenta que nem uma folha, e recebi sorrisos, acenos de cabeça, três pessoas correram na minha direcção de braços abertos, uma delas abraçou-me com emoção, gritando. Foi estranho. Foi assustador. Não conhecia ninguém de lado nenhum, e só por volta do meio-dia tive notícia do sucesso ontem obtido por um clube de futebol nacional no campeonato. Percebi que tinha sido um mau dia para estrear a minha nova gabardina verde.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...