quarta-feira, abril 30, 2008

O resto acabou

Foto: Count Olympe Aguado, 1855, França


Não havia nada a dizer, o cão estava morto. Dormia no palheiro, e era eu que lhe abria a porta de manhã, e a fechava à noite, mas naquele dia não; estava morto. Tinha-lhe feito a cama com trapos numa velha caixa de fruta. Aí dormia, há cerca de um ano, perto do lume, mas não demasiado, por causa do fumo, das labaredas.
As noites eram frias de metal, de um frio que as noites nunca tinham tido, porque eram sós e cortavam, e estávamos perdidos, eu e ele, e desgarrados um do outro por vontade alheia. Ele, um cão, um reles cão preto; eu, uma menina com o coração asa-de-corvo, um negro-azul-esverdeado. Era eu.
No dia anterior o cão andara moribundo: imóvel, mole, espumando da boca, vomitando verde e negro. Quis levá-lo ao veterinário, mas a Júlia disse que não, que talvez no dia seguinte. No dia seguinte o animal estaria curado, não haveria precisão de médicos nem gastação de dinheiro, porque carne de cão curava-se sozinha.
E eu esperei pelo dia seguinte, que havia de ser o dia em que o cão estava morto. Acordei, vesti-me, e corri em direcção ao palheiro. Parei junto à caixa: que corpo tão despovoado, tão longínquo. Olhei-o de cima. Chamei-o baixo. Mas percebi. Estava morto. Tinha voado para mim durante a noite, sobrevoara-me, e seguira para o Norte de África em busca de um lugar morno e sem venenos, de preferência. Enrolado sobre si como uma serpente, mas com os membros esticados. Era uma figura rígida e despenteada. Um anel de vida entregue à morte. Devia ter morrido ao princípio da noite, quando o aninhei na cama e me fui embora, muito lenta, com tanto medo de sair, porque tinha tanto medo de voltar.
Foi então que me dobrei sobre a caixa, peguei nele e veio inteiro. Não lhe descaiu uma pata nem uma orelha nem a cauda. O pêlo frio, o focinho, as patas geladas. Apertei-o entre os braços, contra o meu peito, e não sei se chorei. Não tinha casa dentro da qual chorar, e já não sabia como se fazia. Arranjei uma caixote de cartão, e coloquei-o dentro. O meu tio disse-me que não era preciso vedá-lo com fita-cola nem forrá-lo, e confiei, por isso, quando a primeira pá de chão lhe caiu em cima, ouvi distintamente o peso da terra fértil e húmida sob a nogueira da fazenda dobrar as abas da caixa de cartão, e cair sobre o seu corpo duro. Esse barulho da terra a tocar no seu corpo incomodou-me durante muitos anos, mas mais tarde tornei-me existencialista, e achei bonita a ideia de que o seu corpo envenenado pudesse ganhar raízes com reflexos púrpura, esverdeados dentro da caixa.
Mais tarde, o meu tio abateu a nogueira para ali plantar um batatal. Eu já estava noutro lugar. Devem ter comido o meu cão envenenado acompanhado com bacalhau, regado a bom azeite, e deve ter-lhes feito bom proveito, porque quando a Júlia morreu de cancro, uns anos depois, eu não me admirei.

terça-feira, abril 29, 2008

Autobiografia

Foto: Pejotek

Não me venham com coisas sobre ser discreto e resguardar a esfera privada e manter as aparências e não dar a entender, como se cada livro que escolhemos, cada filme, cada poema não tivesse o infinito poder de nos conotar a um pensamento, um passado, uma memória, uma ideologia. Como é que cada um de vós pretende passar incólume por entre as largas colunas do templo da verdade, se as palavras que diz, a forma como as diz, os prende a um lugar, um tempo, um quotidiano, uma classe? Ninguém escreve nada autobiográfico! Mil cuidados. São apenas citações, ideias alheias. Como se as citações, as ideias alheias que recolhemos no nosso caderno não fossem o resultado das nossas necessidades e identificações. Como se não gritassem por nós o que não queremos gritar porque não temos coragem de arrancar o coração e mostrá-lo na mão, olhem, está aqui, aproveitem, façam o que quiserem, a mim já não serve.

segunda-feira, abril 28, 2008

Não me faças sofrer

Foto de Herodote Christophe, La gironde


Li numa revistazeca de fim-de-semana que para mudarmos de vida temos de abandonar a zona de conforto na qual nos instalámos, e arriscar. Sentirmo-nos incómodos.
Mas, oh meu amigo, vamos lá ver, eu não me instalei; eu não tinha para onde ir, e fui ficando. Não foi uma zona de conforto. Foi uma zona. E tentei que nem uma desgarrada largá-la. Tenho tentado que nem uma enterrada viva. Sair. Quero sair da zona e nunca mais voltar. Respirar fora. Arrancá-la de mim como se arranca a pele a um coelho acabado de socar, como se degola uma codorniz. Só isso. Sair. Mudar. Tirar. Arrancar. Degolar. Matar. Eu quero dar cabo disto, e ser outra, dar cabo disto e ser outra, outra.

Não me importo de... tratar da saúde ao mecânico

Paulo Granjo do Antropocoiso, incluiu-me na corrente do «Não me importo…» Não sou muito fiel a correntes, e peço desculpa aos vários leitores que me desafiaram, e aos quais não correspondi, porque acabei por esquecer o assunto. As correntes servem para os bloguistas interagirem, darem a conhecer-se, e, no meu caso, não se justifica, porque já sou por natureza uma pessoa muito dada e excessivamente cognoscível.

Tenho que indicar seis coisas de que não me importe. São as seguintes:

1. Não me importo de ir com as cadelas à rua quando está a chover, porque elas precisam, e quem tem filhos tem cadilhos

2. Não me importo de cuidar da minha mãe, apesar de estar chata, porque percebo que envelheceu muito e se tornou dependente, e custa-me pensar que há velhos que foram tudo para todos, e que hoje não têm ninguém que lhes dê uma palavra, um abraço.

3. Não me importo de pagar uma renda de casa cara, porque preciso de um sítio bonito e arejado onde possa viver.

4. Não me importo de ser uma desenraizada, contracorrente, excêntrica e persona non grata a vários sistemas e entidades, embora isso me traga dissabores ao nível da socialização, porque não poderia ter-me transformado noutra coisa.

5. Não me importo de trabalhar, embora a maior parte dos dias seja mesmo muito difícil, porque o trabalho dá-me sentido, obrigando-me a sair de casa e de mim.

6. Não me importo de me ter posto em bicos de pés com o mecânico, e de lhe ter dito que a obrigação dele é arranjar-me o carro, e descobrir por onde é que perde água, porque pago-lhe para isso, e não dar-me lições de moral sobre quantas vezes devo olhar para o manómetro da temperatura numa viagem de quinze quilómetros. Não me importo nada, nada, nada de lhe ter mostrado uma cara muito feia e de lhe ter dito que não tenho tempo a perder com conversas, ponto final, quero isto a funcionar, e de ter pensado, se julgas que não tenho tomates para ti estás bem arranjado, grande incompetente que ainda há um mês cá tiveste o carro. Filho-da-mãe, que estou-te com uma sede...

Tenho de passar a corrente a cinco bloguistas: Francisco Carvalho, JPN, José Bandeira, Cristina GS, Mónica em Campanhã e Inominável.

Regras:

- Dizer 6 coisas que não se importe de fazer ou de ter.
- Colocar o link da pessoa que o "mimou".
- Colocar as regras no blog.
- Desafiar 6 pessoas, deixando um comentário nos seus blogs.

domingo, abril 27, 2008

Da bofetada ao direito a sujar-se

Acho graça ao anúncio do Skip sobre o direito das crianças a sujarem-se, porque me lembro das tareias que eu e os outros miúdos levávamos quando chegávamos a casa cheios de terra nas batas e calções. Hoje, as crianças têm o direito a sujarem-se, e, sejamos objectivos, a tudo. Porque são inocentes, e não percebem, e, sobretudo, porque existem boas máquinas de lavar e detergentes branqueadores, e detergentes para cores... Ora, a minha mãe só teve máquina de lavar em 1973, por isso, quando eu era pequena, ela malhava-me exactamente porque eu era inocente, e não percebia nada, e convinha que começasse a perceber rapidamente, e a bofetada tinha o efeito de estimular muito a lembrança.

Os músculos da face

Fotograma de 88 Minutos

Ultimamente desisti de ir ao cinema com o objectivo de ver obras-primas. Para isso vou à Cinemateca, compro um dvd, tento apanhar qualquer coisa no TCM. Mas acontece-me estar em casa às nove da noite com a cabeça em água, uma grande neura, e decidir que preciso de sair por duas horas, sendo que uma boa opção é ir ao cinema mais próximo; pode ser que me ria um bocado, pode ser que o filme dê para soltar uma lágrima... e os 5,40 euros lá se pagam. Contudo, é raro.

Na sexta-feira calhou-me o 88 Minutos, filme que estava a começar naquele momento, e que apresentava Al Pacino como protagonista. Bem, Al Pacino é o Al Pacino do Scarface, e uma pessoa pensa, mesmo que o filme não valha um carapau seco, sempre é o Al Pacino.

88 Minutos é, juntamente com os restantes 13 filmes que se encontram em exibição nas salas Lusomundo do Almada Fórum, inclassificável, inqualificável. Os críticos de cinema devem ver-se em apuros para dizer duas palavras sobre este lixo. A maior parte do cinema americano, mas não só, é feito para alimentar burros, mantendo-os burros. Não há nada sobre que pensar, nenhuma novidade estética, ideológica. Nada de criativo. Temos os bons e os maus. Por vezes os maus são bons, e os bons maus, e percebe-se logo. Os maus morrem no fim, e os bons ficam vivos para continuar a caçá-los, justiceiros. Em alguns casos, os maus assassinam os bons sem piedade, e ficam cá para nos aterrorizar muito, como se a gente já não tivesse o Governo do Sócrates e a ministra da Educação. Lixo, lixo, lixo, milhões de euros de lixo que a cabeça dos jovens sentados ao meu lado consome como arte legítima.

E quanto a Al Pacino, a sua badalada técnica de representação influenciada pelo Actor's Studio, está hoje completamente ultrapassada pelo método Botox. Al Pacino não passou a representar em underacting, não é serenidade, os músculos da face é que não mexem mais do que aquilo.


quinta-feira, abril 24, 2008

Digam-me o que sabem e o que têm ouvido

Caras leitoras e leitores,

eis uma pergunta séria e importante, para eu decidir se poupo uns tostões:

1) O que me dizem da qualidade do serviço Meo, no que respeita a televisão por cabo e, sobretudo, internet - está sempre a ir abaixo, a ligação de 8 não-sei-quê é lenta?

Respostas na caixa de comentários, como é costume, por favor, e muito obrigada.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...