As noites eram frias de metal, de um frio que as noites nunca tinham tido, porque eram sós e cortavam, e estávamos perdidos, eu e ele, e desgarrados um do outro por vontade alheia. Ele, um cão, um reles cão preto; eu, uma menina com o coração asa-de-corvo, um negro-azul-esverdeado. Era eu.
No dia anterior o cão andara moribundo: imóvel, mole, espumando da boca, vomitando verde e negro. Quis levá-lo ao veterinário, mas a Júlia disse que não, que talvez no dia seguinte. No dia seguinte o animal estaria curado, não haveria precisão de médicos nem gastação de dinheiro, porque carne de cão curava-se sozinha.
E eu esperei pelo dia seguinte, que havia de ser o dia em que o cão estava morto. Acordei, vesti-me, e corri em direcção ao palheiro. Parei junto à caixa: que corpo tão despovoado, tão longínquo. Olhei-o de cima. Chamei-o baixo. Mas percebi. Estava morto. Tinha voado para mim durante a noite, sobrevoara-me, e seguira para o Norte de África em busca de um lugar morno e sem venenos, de preferência. Enrolado sobre si como uma serpente, mas com os membros esticados. Era uma figura rígida e despenteada. Um anel de vida entregue à morte. Devia ter morrido ao princípio da noite, quando o aninhei na cama e me fui embora, muito lenta, com tanto medo de sair, porque tinha tanto medo de voltar.
Foi então que me dobrei sobre a caixa, peguei nele e veio inteiro. Não lhe descaiu uma pata nem uma orelha nem a cauda. O pêlo frio, o focinho, as patas geladas. Apertei-o entre os braços, contra o meu peito, e não sei se chorei. Não tinha casa dentro da qual chorar, e já não sabia como se fazia. Arranjei uma caixote de cartão, e coloquei-o dentro. O meu tio disse-me que não era preciso vedá-lo com fita-cola nem forrá-lo, e confiei, por isso, quando a primeira pá de chão lhe caiu em cima, ouvi distintamente o peso da terra fértil e húmida sob a nogueira da fazenda dobrar as abas da caixa de cartão, e cair sobre o seu corpo duro. Esse barulho da terra a tocar no seu corpo incomodou-me durante muitos anos, mas mais tarde tornei-me existencialista, e achei bonita a ideia de que o seu corpo envenenado pudesse ganhar raízes com reflexos púrpura, esverdeados dentro da caixa.
Mais tarde, o meu tio abateu a nogueira para ali plantar um batatal. Eu já estava noutro lugar. Devem ter comido o meu cão envenenado acompanhado com bacalhau, regado a bom azeite, e deve ter-lhes feito bom proveito, porque quando a Júlia morreu de cancro, uns anos depois, eu não me admirei.



