domingo, maio 18, 2008

O macho heterossexual

Foto Denis Marchaud

Homem jovem, sério, estudado, bem empregado numa multinacional. Casou cedo e tem a vida equilibrada; mulher executiva, magra, bonita, vestida com discrição e bom gosto, dois filhos, bons carros, cão, dog sitter sempre que passam férias no estrangeiro, reuniões periódicas com a família, vida stressante, compensada pelos prazeres de uma qualidade de vida média-alta. Tiveram os filhos tarde, por opção, pelo que puderem gozar longamente os prazeres da vida conjugal sem responsabilidades. Bom aluno, bom marido, bom pai. Às sextas, reunião com os colegas fora da empresa; umas cervejas descontraídas, sem paneleirices, antes de voltar a casa; discussões inflamadas sobre futebol, as estratégias dos treinadores, sempre sem solução à vista, risota, as gajas da empresa, as que têm marido e são boas, as que não têm e são boas, mas um gajo agora... prisão... elas até as mensagens do telemóvel nos lêem; bloqueia-as, pá, bloqueia, queres que eu te diga como é que isso se faz?; só se for o Raul, desde o divórcio faz o que quiser, arranjou um apartamento, mete lá quem quer; as taxas de juro de aplicações financeiras, e a ausência de perspectivas para um desenvolvimento da economia, a médio prazo, ou não, a longo; fait-divers: o car jacking, pá, o pior é um gajo resistir, deixá-los levar tudo, e meter bloqueadores do sistema, sai caro, mas... não, resistir, não, viram o que aconteceu à outra que estava casada com o fulano da televisão?! Não! É preciso saber fazer as coisas. Cabeça. E a gaja que é homem e está grávida, até foi ao programa da Oprah, diz que agora é gajo, tirou as mamas, mas deixou ficar o grelo, e está grávido, grávida, tu já viste o caraças?! Estamos lixados. E a cena do Ronaldo. Pá, que galo. E eram boas, os gajos, viste? Até eu caía. Quem é que não caía? O meu tio dizia que a mulher mais boa, mais boa que já viu na vida era um gajo. Isto certinho. Já ninguém distingue ninguém.
Risota. Sabia bem. Chegando a casa, despe o casaco, manda os miúdos para a cama. Apaga-lhes a luz. Beija a mulher, cansada da semana, deitada no sofá a ver qualquer coisa no Hollywood, linda, sempre. Pergunta-lhe, andaste a beber, já jantaste? Comi qualquer coisa com a malta. Petiscámos Não queres comer? Há salada fria com salmão. Não, deixa. Ainda vou trabalhar um bocado, e encaminha-se para o escritório. Trazes sempre que fazer, diz-lhe ela. Chega de trabalho, hoje é sexta.
Um momento de sossego, respira fundo, arregaça as mangas da camisa, recosta-se no assento da cadeira e verifica o e-mail. Nada de especial. Coisas que podem ficar para segunda. Olha para a porta, escuta lá fora os ruídos da televisão, conecta-se ao Man Hunt, entra no chat e escreve, Olá, 40 anos, 1,78m, 84Kg, magro, definido, não assumido procura não assumido, interessa a alguém?

sábado, maio 17, 2008

A essência do fogo

John Maeda, Traffic, 2002


Às vezes parava de ler e chorava. Era preciso chorar antes de recomeçar. Reler a mesma página, mas avançar apesar das lágrimas. A leitura era um experiência excessivamente forte. Só a música podia vergar-me com a mesma intensidade ao nada que eu era. A humanidade que criara a literatura e a música, não valia nada, era excremento. Como é que a beleza, a unicidade, a verdade, a essência do fogo poderia provir de uma criatura tão reles como o ser humano?

quinta-feira, maio 15, 2008

Dependências

Passo todos os dias frente a um antigo móvel de pau-preto que veio de casa da minha mãe. Um pequeno móvel com gavetas para uso diverso. Há uma cujo conteúdo conheço muito bem, mas que recuso abrir. Sinto a enorme tentação de o fazer, diria, uma pulsão, mas não o faço. Penso, e se abrisse, mas não abro. Posso abri-la. Ninguém me impede, ninguém vê, ninguém saberia. Contudo, jurei nunca mais abrir uma gaveta cheia de nada. Sou uma gaveto-dependente em recuperação.

quarta-feira, maio 14, 2008

Nem à lei da bala


Não havia quartos individuais, só camaratas, e nós dissemos está bem. Deitei-me. Sete camas, mas não havia ninguém. Só nós. Era um velho amigo com quem já tinha dormido sem esperanças. Um amigo que se tinha deitado comigo por favor, quer dizer, por ser homem, e porque um homem nunca se nega, e porque os meus lábios tinham não sei quê que o deixavam perturbado, com boas hipóteses de ser mentira. Eu bem via as amantes que lhe iam passando pela mão. Isto sem favor para nenhuma das partes, eu tinha demasiada categoria para sua namorada, era demasiado bonita, demasiado sensível, demasiado esperançosa. Eu era uma mulher de quem era preciso gostar, e ele sabia disso.
Mas agora estávamos naquela situação, sendo que não nos encontrávamos há centenas de anos.
Não foi embaraçoso. Ele despiu-se e deitou-se. E eu pensei, bolas, isto vai dar molho.
Não me desagradou. Achei melhor ir à casa-de-banho. À cautela seria melhor fazer xi-xi, que isto, pá, uma mulher, é uma chatice.
Quando voltei, a camarata estava cheia de gente, e ele quase a dormir.
Abracei-o e pensei que também estava bem assim.

China Girl para tradução, por favor

Oh oh oh ohoo little china girl
Oh oh oh ohoo little china girl

I could escape this feeling, with my china girl
I feel a wreck without my, little china girl
I hear her heart beating, loud as thunder
Saw the stars crashing

Im a mess without my, little china girl
Wake up mornings wheres my, little china girl
I hear hearts beating, loud as thunder
I saw they stars crashing down

I feel an tragic like an marlon brando
When I look at my china girl
I could pretend that nothing really meant too much
When I look at my china girl

I stumble into town just like a sacred cow
Visions of swastikas in my head
Plans for everyone
Its in the white of my eyes

My little china girl
You shouldnt mess with me
Ill ruin everything you are
Ill give you television
Ill give you eyes of blue
Ill give you men who want to rule the world

And when I get excited
My little china girl says
Oh baby just you shut your mouth
She says ... sh
She says
She says

And when I get excited
My little china girl says
Oh baby just you shut your mouth
And when I get excited
My little china girl says
Oh baby just you shut your mouth
She says ... sh
She says

Oh oh oh ohoo little china girl
Oh oh oh ohoo little china girl
Oh oh oh ohoo little china girl
Oh oh oh ohoo little china girl
Oh oh oh ohoo little china girl

terça-feira, maio 13, 2008

Um coisa muito importante

Ontem a minha mãe disse-me, senta-te aqui, quero dizer-te uma coisa muito importante, e eu disse, está bem, e ela explicou, a próxima vez que formos comer fora há-de ser uma sardinhada, e eu disse, está descansada, e vim-me embora.
No próximo fim-de-semana a minha mãe quer ir almoçar fora.

A bola de Deus

Foto: Anónimo, Calling brave firemen to duty, 1925

Chego cansada, deito-me no sofá a ver um programa, sendo ainda dia, e penso, só para relaxar 10 minutos, e acordo à meia-noite. Ensonada, concluo, agora vou deitar-me porque tenho de me levantar cedo.
Sei em que sítio exacto de cada texto onde estão as dezenas de gralhas próprias de quem escreve sem olhar para o teclado, mas não tenho tempo nem vontade de as corrigir.
Tenho sede e como duas laranjas velhas, mas talvez fosse melhor beber um simples copo de água.
O amor antigo, era mesmo um amor vintage, caiu-me aos pés como a bola de vidro com que Deus jogava futebol, e estilhaçou-se-me toda na cara. Sorri. No meio das lacerações, fui obrigada a ser honesta, sempre era a bola de Deus.
A minha canção de amor preferida chama-se China Girl, mas não percebo o que dizem, porque o David Bowie fala muito mal inglês.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...