Homem jovem, sério, estudado, bem empregado numa multinacional. Casou cedo e tem a vida equilibrada; mulher executiva, magra, bonita, vestida com discrição e bom gosto, dois filhos, bons carros, cão, dog sitter sempre que passam férias no estrangeiro, reuniões periódicas com a família, vida stressante, compensada pelos prazeres de uma qualidade de vida média-alta. Tiveram os filhos tarde, por opção, pelo que puderem gozar longamente os prazeres da vida conjugal sem responsabilidades. Bom aluno, bom marido, bom pai. Às sextas, reunião com os colegas fora da empresa; umas cervejas descontraídas, sem paneleirices, antes de voltar a casa; discussões inflamadas sobre futebol, as estratégias dos treinadores, sempre sem solução à vista, risota, as gajas da empresa, as que têm marido e são boas, as que não têm e são boas, mas um gajo agora... prisão... elas até as mensagens do telemóvel nos lêem; bloqueia-as, pá, bloqueia, queres que eu te diga como é que isso se faz?; só se for o Raul, desde o divórcio faz o que quiser, arranjou um apartamento, mete lá quem quer; as taxas de juro de aplicações financeiras, e a ausência de perspectivas para um desenvolvimento da economia, a médio prazo, ou não, a longo; fait-divers: o car jacking, pá, o pior é um gajo resistir, deixá-los levar tudo, e meter bloqueadores do sistema, sai caro, mas... não, resistir, não, viram o que aconteceu à outra que estava casada com o fulano da televisão?! Não! É preciso saber fazer as coisas. Cabeça. E a gaja que é homem e está grávida, até foi ao programa da Oprah, diz que agora é gajo, tirou as mamas, mas deixou ficar o grelo, e está grávido, grávida, tu já viste o caraças?! Estamos lixados. E a cena do Ronaldo. Pá, que galo. E eram boas, os gajos, viste? Até eu caía. Quem é que não caía? O meu tio dizia que a mulher mais boa, mais boa que já viu na vida era um gajo. Isto certinho. Já ninguém distingue ninguém.
Risota. Sabia bem. Chegando a casa, despe o casaco, manda os miúdos para a cama. Apaga-lhes a luz. Beija a mulher, cansada da semana, deitada no sofá a ver qualquer coisa no Hollywood, linda, sempre. Pergunta-lhe, andaste a beber, já jantaste? Comi qualquer coisa com a malta. Petiscámos Não queres comer? Há salada fria com salmão. Não, deixa. Ainda vou trabalhar um bocado, e encaminha-se para o escritório. Trazes sempre que fazer, diz-lhe ela. Chega de trabalho, hoje é sexta.
Um momento de sossego, respira fundo, arregaça as mangas da camisa, recosta-se no assento da cadeira e verifica o e-mail. Nada de especial. Coisas que podem ficar para segunda. Olha para a porta, escuta lá fora os ruídos da televisão, conecta-se ao Man Hunt, entra no chat e escreve, Olá, 40 anos, 1,78m, 84Kg, magro, definido, não assumido procura não assumido, interessa a alguém?
Risota. Sabia bem. Chegando a casa, despe o casaco, manda os miúdos para a cama. Apaga-lhes a luz. Beija a mulher, cansada da semana, deitada no sofá a ver qualquer coisa no Hollywood, linda, sempre. Pergunta-lhe, andaste a beber, já jantaste? Comi qualquer coisa com a malta. Petiscámos Não queres comer? Há salada fria com salmão. Não, deixa. Ainda vou trabalhar um bocado, e encaminha-se para o escritório. Trazes sempre que fazer, diz-lhe ela. Chega de trabalho, hoje é sexta.
Um momento de sossego, respira fundo, arregaça as mangas da camisa, recosta-se no assento da cadeira e verifica o e-mail. Nada de especial. Coisas que podem ficar para segunda. Olha para a porta, escuta lá fora os ruídos da televisão, conecta-se ao Man Hunt, entra no chat e escreve, Olá, 40 anos, 1,78m, 84Kg, magro, definido, não assumido procura não assumido, interessa a alguém?


