quinta-feira, maio 22, 2008

O Corpo de Deus

Foto Tomatello (Malea)

Oh, mãe, que feriado é este hoje?
Hoje é um feriado muito importante! Antigamente, neste dia, fazíamos farnéis e íamos todos para Chiqueda, para os Olhos de Água.
Porquê?
Juntávamo-nos todos e comíamos, bebíamos, conversávamos, molhávamos os pés na água que nascia nas pedras. Era uma alegria.
Era uma nascente perto de Alcobaça? Eram as termas?
Não, as termas são para o lado da Nazaré, aquilo era para os lados de Chiqueda; já lá fomos contigo uma vez, quando o teu pai ainda era vivo. Agora já não é o mesmo. Antigamente era campo, só campo. Íamos a pé, todos em grupo. Da Rua do Castelo lá ainda era um estirão. A água vinha das pedras, víamo-la brotar, fresquinha. Antigamente, nesta altura, já era Verão, não era este tempo de chuva.
Sim, é verdade, fui lá convosco e com o primo, e era um rego de água suja. Mas lembras-te de ser a nascente de um rio, de um afluente?
Não sei. Era uma mina. A água nascia no meio das pedras.
Se era um feriado religioso, por que iam para o campo?
Era muito respeitado. Nesse dia não se fazia nada, como na sexta-feira santa. Nesse dia nem os passarinhos iam aos ninhos.
Nem os passarinhos iam aos ninhos?!
Não iam aos ninhos. Os passarinhos não davam comida aos filhos acabados de nascer.
Oh, mãe, coitadinhos dos passarinhos, isso não pode ser. Nem os passarinhos iam aos ninhos! As coisas que os padres vos metiam na cabeça! Isso é que é um sacrilégio!
Não eram os padres, eram as pessoas, dizia-se. A tua avó tinha experiência. Olha que num dia de corpo de Deus andou a apanhar favas para ao dia seguinte vender na praça; apanhou uma sacada cheia, fava linda, fresca, daquela que ainda não enegreceu no olho. No dia seguinte, quando foi para vendê-la na praça, estava toda negra, como nódoas.
Se calhar porque enegreceram naturalmente...
Não, a tua avó sabia; tinha muita fé. Isto nunca lhe tinha acontecido, e ela fazia-o muitas vezes.
Mas eu não percebo o que é isso do feriado do corpo de Deus.
É o corpo de Deus.
Oh, mãe, mas que corpo de Deus? O que quer isso dizer?
...
É o corpo de Jesus? De Cristo?
Sim.
É o corpo do Cristo morto?
Sim. Há terras onde fazem procissões muito bonitas. Olha, nos Açores...
Mas procissões com o corpo de Cristo deitado morto?
Sim, o corpo de Cristo. Cristo não morreu na cruz?!
Ok.
...
Mas significa o quê? Que Cristo foi ter com o Pai e se tornou Deus juntamente com ele?
Não sei, era uma data muito sagrada, muito respeitada. É o Corpo de Deus.
Mãe, vocês antigamente não procuravam compreender os motivos das coisas em que acreditavam? Não perguntavam?
Não. Toda a gente acreditava. Não se perguntava nada. Era tradição. Acreditava-se e pronto. Não interessa saber os motivos. O que conta é acreditar.

Ninguém lê o que escrevo

e esse é o maior consolo.

Sofrimento

Havia a Matrix, um programa que alguém tinha inventado. Dentro da Matrix todos pensavam o que a Matrix queria. Uns eram felizes, outros infelizes para que os felizes se sentissem felizes. Dentro da Matrix, havia os trabalhadores e os preguiçosos, e as associações que apoiavam os preguiçosos e tentavam adaptá-los, reinseri-los a bem na Matriz, para que os felizes se sentissem felizes.
A Matrix tinha um erro, um sequência de zeros e de uns que ninguém conseguia resolver: era o raio da alma. Parecia resolvido, mas a alma era de uma fragilidade tão sentida, tão indiscutível, que rebentava as sequências de algarismos, como uma carga de peixe vivo e prateado enrolada numa rede de algodão fino, e de imediato procurava o espírito, sua casa, de onde era difícil fazê-la sair. Assim, alguns indivíduos escapavam temporariamente ao extraordinário poder do programa, e a Matrix podia contemplar as suas falhas, embora estivesse programada para as ver como falhas alheias. A Matrix era a ordem. A certeza.
Aos que não conseguiam levantar-se cedo da cama, chamavam preguiçosos que recusavam trabalhar para explorar o esforço alheio.
Do homem que atravessou nu a maior artéria da cidade, segurando um gatinho, à procura do rio, disseram que se ia matar, e impediram-no. Fora da Matrix, era nítido que o homem corria para se salvar.

Gentileza

Não gostava dela porque não era gentil. Podia ser um génio. Que tivesse escrito os mais belos poemas do distrito de Leiria e descoberto uma nova variedade de orquídeas, mas não era gentil, e para me olhar ao espelho, podia muito bem fazê-lo em casa.

terça-feira, maio 20, 2008

Segurando nos braços

No outro dia disse à minha mãe que gostava era de casar com o Zé Maria do Big Brother, porque é bom rapaz, simpático e humilde, para além de que acho aquele episódio da tentativa de suicídio, ele todo nu, atravessando a 24 de Julho agarrado a um gato-bebé, pronto para se atirar ao rio, sem saber porquê, porque sim, segurando nos braços o que há de mais puro e inocente, de uma beleza trágica, clássica, que me comove indescritivelmente.
A minha mãe respondeu, "olha, que dois malucos, havia de ser lindo!"

A semana passada, uma colega da linha de montagem, a meio da conversa que não vem ao caso, levantou-se, e disse-me seriamente, embora com uma cara sorridente, desculpa, Isabela, mas isto hoje só me parece uma casa de malucos".

A minha prima afastada é todos os dias. Não bates bem da bola. Não tens os parafusos todos. Falta-te óleo na engrenagem.

Quando páro a olhar para o meu blogue, de fora, às vezes penso, Isabela... o que estava certo era casares com o Zé Maria do Big Brother.

O que a Morena vê quando está debaixo da cama

Foto de William Eggleston, do álbum Fourteen Pictures


Menos os sapatos de homem e aquele objecto de madeira, que parece um velho relógio, e também não tem carpete, graças a Deus, que é chãozinho de madeirinha nua.

Monólogo da maternidade



Podias ter vindo de dentro de mim.
Quase que cabes dentro da minha barriga.
(Muito encostadinha a mim, ligeiro movimento muscular pedindo-me que continue a massajar-lhe a barriga.)
Se tivesses nascido de mim... podia ter sido inseminação artificial... nascias pequenina como uma cachorrinha, como quando te vi, e vinhas toda embrulhada no meu líquido amniótico, e punham-te sobre o meu peito enquanto diziam, tem aqui uma bela menina, e eu beijava-te, e achava-te linda, embora fosses feiazita, atordoada e de olhos fechados, e havia de te chamar, logo, assim que olhasse para ti, Morena, a minha Moreninha. Moninha.
...
(Tremura, tipo coice, na perna esquerda, pedindo que continue a fazer-lhe festinhas.)
Não gosto menos de ti por não teres saído de mim, mas podias ter saído. Havia de ser bonito sermos do mesmo sangue, e isso.
...
É pena seres mijona, e carraçuda, e disfuncional! Por que não te portas bem como a Miquinhas? O que vais tu fazer para a obra para chegares de lá com as patas cheias de cimento? E chamei-te duas vezes, olhaste para mim e fizeste de conta que eu era uma parede. Antigamente não eras assim.
A Miquinhas é uma cadela normal, vem quando a chamo, e não se enfia debaixo da cama como tu. O que há de tão fascinante debaixo da cama, não me dizes?! Mesmo que a Miquinhas tenha a mania de trazer porcarias da rua, olha que ser mijona é bem pior.
(Ligeiro movimento de pernas a lembrar-me que continue a sessão de festas na barriga.)

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...