terça-feira, maio 27, 2008

Pobreza

Foto: Tom Stoddard, Sudão, 1998


Tenho um pc velho, um fio de ouro que me ofereceram quando nasci, não sei quantos avos da casa da minha mãe, herdados após a morte do meu pai. Muitos livros e cd's, alguma mobília comprada em segunda mão, ou literalmente trazida do lixo e reciclada. Um carro avariado estacionado à porta. Noventa molas de roupa.
Não ganho bem, mas podia ser pior; consigo viver, tirar férias uma vez por ano. Curtas, mas férias. Tenho uma vida bastante confortável.
No meu bairro conheço vizinhos atulhados de bem materiais, com consumos muitíssimo elevados, que se sentem pobres. Dizem eles lá em baixo. Mas eu não preciso do écran plasma nem de uma bimby nem de nada dessas coisas.
Tenho sempre muita dificuldade em compreender como é que a maior parte das pessoas consegue comprar coisas tão caras. Os carros, para mim, são um mistério. Como é que com ordenados de mil euros se pagam carros de 40 mil e apartamentos de 80 mil? Juro que não percebo. Jogam no Euromilhões e ganham? Os pais dão-lho? Têm negócios paralelos? A vida de alguma pessoas parece-me financeiramente fácil demais para as profissões que lhes conheço.

Para as pessoas ricas, eu sou pobre. Contudo, sinto-me rica de uma outra ideia de riqueza, que é, afinal, a única que concebo, que sei viver. Não preciso de uma piscina minha. Há a do INATEL na Costa da Caparica. Gostava muito de ter uma estufa de flores ou um bocadinho de terra para plantar. Plantei batatas greladas num recipiente de plástico que antes acondicionou fruta do supermercado, ou legumes, e ali estão elas com uma ramagem linda. É provável que tenha criado uma batateira-bonsai. Tenho muita sorte com flores e plantas, de forma geral, e isso faz-me feliz. Uma parte qualquer do meu corpo aguenta a vida, promove-a.
Continuo a dar tudo para poder atirar-me para cima da cama com um bom livro. Tenho as minhas cadelas. Morena, sai de baixo da cama! Micas, que é isso que trazes nos dentes? Qualquer dia, um batalhão de filhos. Já os estou a ver ali a virar a esquina. Mariazinha, Joãozinho, não se atirem pela janela, queridos!
A pobreza, não desfazendo de situações reais de pobreza-pobreza, é um estado muito relativo, e, em Portugal, bastas vezes mental.
Pode ser que ainda venha a ter uma estufa, mais dia, menos dia.
Mariazinha, não arranques as orquídeas à mãe! Morena, não comas a terra dos vasos!

segunda-feira, maio 26, 2008

Riqueza

Tenho exactamente 90 molas de roupa. Estive a contá-las ontem. O cesto da molas caiu-me ao chão e contei-as de rabo para o ar, enquanto aproveitava para juntar, com as mãos, uns restinhos de lixo que me escaparam à varridela. Três estavam estragadas, em metades inúteis, partidas. Reparei-as. Eram 87, fiquei com 90. Noventa molas! Tenho muito mais do que aquelas que preciso. Se quisesse podia metê-las no banco e viver dos juros. Podia investir para aí 50 molas em acções das energias renováveis. Podia oferecer meia dúzia à minha vizinha do lado, mas talvez ela achasse pouco. O melhor é guardar as minhas molas muito guardadinhas no cesto das molas e ficar toda contente por saber que tenho muito mais do que preciso.

domingo, maio 25, 2008

A beleza

Foto de Mehemed Fehmy Agha, Manequim e Escultura, EUA, 1940


É preciso ver que a beleza não acaba no que nos foi ensinado sobre a beleza. A maior parte do que nos disseram ser belo transformou-se num lugar comum que não aquece nem arrefece, melhor, que não gera criação, exceptuando um ou dois casos clássicos e irrefutáveis.
A beleza está muitas vezes, e cada vez mais, no que nos disseram ser horrível ou evitável.
A beleza muda. Andamos sempre à procura da gruta em que se esconde, agora. Por onde pára a beleza nestes dias? A beleza agora já pode ser feia?

Mas, claro, para aí chegar convém trazer sempre, desde cedo, pelo menos dois pares de óculos, e adaptá-los às condições de navegação.

sábado, maio 24, 2008

Até ao fim de uma terra qualquer

Aeroporto de Lourenço Marques (anos 60/70)


Na noite já longa, lá fora, homens cavalgando camelos aproximam-se do avião para prestar assistência técnica. Vejo-os passando sob a asa. Alguns, param.
É uma imagem invulgar, portanto estranha. É noite, e uma noite especialmente só. A primeira noite em que ninguém me mandou apagar a luz, e em que me encaminho para a mulher que escreve estas palavras. A mesma mulher, ainda menina, o mesmo cabelo e os olhos claros vazados pela miopia, as mãos com muitas linhas, as pernas gordas nas coxas, que continuam a rasgar as calças exactamente no mesmo sítio. A mesma pessoa, como poderei explicar isto melhor: a mesma pessoa.

Esta memória permanece tão fresca, que podia ter sido ontem à noite.
Na noite, as formas lentas, claras dos camelos encimados por homens de turbante. A toda a volta, uma escuridão apocalíptica. Nem uma luz. Foi há 33 anos.

É o aeroporto de Dakar. Acabámos de fazer escala no Senegal por imperativos técnicos. Não saímos do avião, não podemos levantar-nos nem desapertar os cintos de segurança.
Lembro-me que é o Senegal porque na altura pensei, é o sítio de onde vem a margarina. Havia uma margarina muito boa do Senegal e barravamo-la no pão. Em Lourenço Marques. Margarina do Senegal. Não me lembro se fizemos escala em Joanesburgo ou em Luanda. Se calhar fizemos. Só me lembro da margarina do Senegal, e dos homens de turbante sobre camelos, rodeados pela mais funda escuridão.

Digo à hospedeira que preciso de procurar o anel de esmeraldas da minha madrinha, um que trazia, que me caiu dos dedos, que não dei por nada, que deve ter rolado para trás, ou para a frente. Diz-me que não posso levantar-me. Estou desesperada, é um anel de esmeraldas, não me pertence, tenho de o entregar a alguém, depois, não sei quando, está-me largo, caiu, preciso de me levantar e de o procurar. Ela diz-me que não. Só quando chegarmos a Lisboa. Que tenha paciência.

A forma como olhámos para as nossas mãos aos 10 anos, e a forma como olhamos para elas, agora, estou a olhar para as minhas mãos agora, não muda. As mesmas mãos. Como puderam envelhecer e ser ainda as mesmas? As unhas iguais. Os nós. Os mesmos olhos. O mesmo pensamento, quando olhamos, com os mesmos olhos, as mesma mãos.
Reacções iguais perante os acontecimentos, a expressão dos sentimentos, como a alegria, mas sobretudo o medo, não mudam relevantemente ao longo do tempo. A partir de certa idade, muito cedo na infância, já somos nós, o que há-de perseguir-nos sempre.

Não me lembro de sobrevoar Lourenço Marques, a baía. Não guardei essa imagem. Às vezes vou ao Google Earth para ter uma ideia, mas é algo completamente novo. Aquela cidade vista do céu já não é Lourenço Marques, e eu não posso ter qualquer memória da cidade vista de cima. Tento encontrar lugares que não estão lá. Que não reconheço.

Já era muito crescida. Eu pensava que era muito crescida, e na viagem para Lisboa confirmaram-mo. Anunciaram-me poucos dias antes que tomaria conta de irmãs gémeas uns anos mais novas, as quais não conhecia e que nunca mais encontrei na vida. Não sei como se chamavam, se eram louras, altas, como se vestiam, de quem eram filhas, onde viviam e para onde foram viver, nada. Eram umas miúdas, pessoas que ali se atravessavam na minha vida sem qualquer consequência: cabia-me mantê-las no lugar, e dar-lhes segurança. Iam do lado da janela, e ao meio, comigo na coxia, por isso não vi a baía de Lourenço Marques, ou talvez estivéssemos do lado errado do avião.

Quando partimos, muito ao final da tarde, Lourenço Marques ficou para trás do pôr-do sol, muito doce, muito madura, mas já longe quando levantámos; era o lugar onde nunca voltaria; eu sabia; agora tinha de me preparar para ser uma mulher, começar uma vida nova, fazer tudo bem, tudo certo. Sabia que era difícil. Que estava marcada onde não se podia ver, e também não sabia como tinha acontecido nem porquê. Mas sabia-o sem palavras, sem grande vontade. Sei-o, porque reconheço o meu pensamento seguindo pelos mesmos caminhos, enformado nos mesmos moldes. Porque sou a mesma. Lembro-me de como pensava. Era assim. Todos podem testemunhar. Já estou aqui, contudo ainda estou lá, e não sei se interessa sair, o que interessa isso? Na verdade, todo o passado, presente e futuro ali se fundiram, naquela viagem, e eu só posso falar usando as palavras de fronteira, de transição, manchadas, duais que aí se formaram.


Aeroporto do Maputo (imagem Google Earth)

No aeroporto de Lourenço Marques, nos momentos que antecederam a entrada para a alfândega, lembro-me de uma porta de vidro. Quando se atravessava, não tinha regresso.
Via os que tinham entrado, já distribuídos por filas.
Tínhamos chegado tarde, porque o meu pai esquecera-se do anel da minha madrinha, o que perdi no avião, e era agora preciso cumprimentar todos aqueles brancos que se foram despedir da filha do electricista, levando recados, cartas, pequenas encomendas que eu deveria encaixar na bagagem de mão, avisos sobre como deveria contar tudo na Metrópole, tudo o que nos têm feito, diz que perdemos tudo, que o dinheiro não vale nada, que não há que comer, que mataram os Monteiros, que a filha do Sousa, mais o marido, estão presos, conta que estamos quase a ir.

Mas, agora, vai, depois lá nos encontraremos e falaremos. A gente vai a seguir. Agora vai que já é tarde, vai, vai, e agora, neste instante em que tudo está perdido, em que já não há volta, em que entro por essa porta de vidro, após os beijos formais, um sentimento estranho que não consigo controlar, um vazio, nunca mais vou voltar, uma coisa que se perde, um vazio, e esse amor tão escondido, tão evidente pelo meu pai, que me projecta para os seus braços, contra a minha vontade, como uma bala que o atravessa e o torna exangue, eu chorando a fio, não conseguindo largar o seu corpo, e os seus braços enormes, o seu corpo enorme, as suas mãos enormes, a sua carne enorme que beijo, que não quero largar. E volto atrás, chorando a fio, abraçada a qualquer parte desse corpo sagrado, chorando, chorando-o, arranhando-o de amor, como se o mundo acabasse ali, e, oh, acabava, depois a minha mãe, que me sacudia, envergonhada, ela, e eu estava envergonhada, tanta gente, não chores, filha, olha as pessoas, não chores, filha, agora vai que já é tarde, e o corpo doce, doce, ácido, suado do meu pai, o corpo querido do meu pai, a camisa branca e doce, ácida, suada, encharcada das lágrimas que eu não percebia nem controlava. E agora vai, agora vai, e atirou-me para dentro da porta de vidro, ao colo atirou-me para dentro da porta de vidro, e eu voltei-me e vi o seu rosto contrito, do outro lado já, as suas duas mãos inteiras espalmadas contra o vidro. As duas mãos iguais às minhas mãos. Estas, de carne, que agora escrevem esta frase. As mesmas.

quinta-feira, maio 22, 2008

O Corpo de Deus

Foto Tomatello (Malea)

Oh, mãe, que feriado é este hoje?
Hoje é um feriado muito importante! Antigamente, neste dia, fazíamos farnéis e íamos todos para Chiqueda, para os Olhos de Água.
Porquê?
Juntávamo-nos todos e comíamos, bebíamos, conversávamos, molhávamos os pés na água que nascia nas pedras. Era uma alegria.
Era uma nascente perto de Alcobaça? Eram as termas?
Não, as termas são para o lado da Nazaré, aquilo era para os lados de Chiqueda; já lá fomos contigo uma vez, quando o teu pai ainda era vivo. Agora já não é o mesmo. Antigamente era campo, só campo. Íamos a pé, todos em grupo. Da Rua do Castelo lá ainda era um estirão. A água vinha das pedras, víamo-la brotar, fresquinha. Antigamente, nesta altura, já era Verão, não era este tempo de chuva.
Sim, é verdade, fui lá convosco e com o primo, e era um rego de água suja. Mas lembras-te de ser a nascente de um rio, de um afluente?
Não sei. Era uma mina. A água nascia no meio das pedras.
Se era um feriado religioso, por que iam para o campo?
Era muito respeitado. Nesse dia não se fazia nada, como na sexta-feira santa. Nesse dia nem os passarinhos iam aos ninhos.
Nem os passarinhos iam aos ninhos?!
Não iam aos ninhos. Os passarinhos não davam comida aos filhos acabados de nascer.
Oh, mãe, coitadinhos dos passarinhos, isso não pode ser. Nem os passarinhos iam aos ninhos! As coisas que os padres vos metiam na cabeça! Isso é que é um sacrilégio!
Não eram os padres, eram as pessoas, dizia-se. A tua avó tinha experiência. Olha que num dia de corpo de Deus andou a apanhar favas para ao dia seguinte vender na praça; apanhou uma sacada cheia, fava linda, fresca, daquela que ainda não enegreceu no olho. No dia seguinte, quando foi para vendê-la na praça, estava toda negra, como nódoas.
Se calhar porque enegreceram naturalmente...
Não, a tua avó sabia; tinha muita fé. Isto nunca lhe tinha acontecido, e ela fazia-o muitas vezes.
Mas eu não percebo o que é isso do feriado do corpo de Deus.
É o corpo de Deus.
Oh, mãe, mas que corpo de Deus? O que quer isso dizer?
...
É o corpo de Jesus? De Cristo?
Sim.
É o corpo do Cristo morto?
Sim. Há terras onde fazem procissões muito bonitas. Olha, nos Açores...
Mas procissões com o corpo de Cristo deitado morto?
Sim, o corpo de Cristo. Cristo não morreu na cruz?!
Ok.
...
Mas significa o quê? Que Cristo foi ter com o Pai e se tornou Deus juntamente com ele?
Não sei, era uma data muito sagrada, muito respeitada. É o Corpo de Deus.
Mãe, vocês antigamente não procuravam compreender os motivos das coisas em que acreditavam? Não perguntavam?
Não. Toda a gente acreditava. Não se perguntava nada. Era tradição. Acreditava-se e pronto. Não interessa saber os motivos. O que conta é acreditar.

Ninguém lê o que escrevo

e esse é o maior consolo.

Sofrimento

Havia a Matrix, um programa que alguém tinha inventado. Dentro da Matrix todos pensavam o que a Matrix queria. Uns eram felizes, outros infelizes para que os felizes se sentissem felizes. Dentro da Matrix, havia os trabalhadores e os preguiçosos, e as associações que apoiavam os preguiçosos e tentavam adaptá-los, reinseri-los a bem na Matriz, para que os felizes se sentissem felizes.
A Matrix tinha um erro, um sequência de zeros e de uns que ninguém conseguia resolver: era o raio da alma. Parecia resolvido, mas a alma era de uma fragilidade tão sentida, tão indiscutível, que rebentava as sequências de algarismos, como uma carga de peixe vivo e prateado enrolada numa rede de algodão fino, e de imediato procurava o espírito, sua casa, de onde era difícil fazê-la sair. Assim, alguns indivíduos escapavam temporariamente ao extraordinário poder do programa, e a Matrix podia contemplar as suas falhas, embora estivesse programada para as ver como falhas alheias. A Matrix era a ordem. A certeza.
Aos que não conseguiam levantar-se cedo da cama, chamavam preguiçosos que recusavam trabalhar para explorar o esforço alheio.
Do homem que atravessou nu a maior artéria da cidade, segurando um gatinho, à procura do rio, disseram que se ia matar, e impediram-no. Fora da Matrix, era nítido que o homem corria para se salvar.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...