Foto: Tom Stoddard, Sudão, 1998Tenho um pc velho, um fio de ouro que me ofereceram quando nasci, não sei quantos avos da casa da minha mãe, herdados após a morte do meu pai. Muitos livros e cd's, alguma mobília comprada em segunda mão, ou literalmente trazida do lixo e reciclada. Um carro avariado estacionado à porta. Noventa molas de roupa.
Não ganho bem, mas podia ser pior; consigo viver, tirar férias uma vez por ano. Curtas, mas férias. Tenho uma vida bastante confortável.
No meu bairro conheço vizinhos atulhados de bem materiais, com consumos muitíssimo elevados, que se sentem pobres. Dizem eles lá em baixo. Mas eu não preciso do écran plasma nem de uma bimby nem de nada dessas coisas.
Tenho sempre muita dificuldade em compreender como é que a maior parte das pessoas consegue comprar coisas tão caras. Os carros, para mim, são um mistério. Como é que com ordenados de mil euros se pagam carros de 40 mil e apartamentos de 80 mil? Juro que não percebo. Jogam no Euromilhões e ganham? Os pais dão-lho? Têm negócios paralelos? A vida de alguma pessoas parece-me financeiramente fácil demais para as profissões que lhes conheço.
Para as pessoas ricas, eu sou pobre. Contudo, sinto-me rica de uma outra ideia de riqueza, que é, afinal, a única que concebo, que sei viver. Não preciso de uma piscina minha. Há a do INATEL na Costa da Caparica. Gostava muito de ter uma estufa de flores ou um bocadinho de terra para plantar. Plantei batatas greladas num recipiente de plástico que antes acondicionou fruta do supermercado, ou legumes, e ali estão elas com uma ramagem linda. É provável que tenha criado uma batateira-bonsai. Tenho muita sorte com flores e plantas, de forma geral, e isso faz-me feliz. Uma parte qualquer do meu corpo aguenta a vida, promove-a.
Continuo a dar tudo para poder atirar-me para cima da cama com um bom livro. Tenho as minhas cadelas. Morena, sai de baixo da cama! Micas, que é isso que trazes nos dentes? Qualquer dia, um batalhão de filhos. Já os estou a ver ali a virar a esquina. Mariazinha, Joãozinho, não se atirem pela janela, queridos!
A pobreza, não desfazendo de situações reais de pobreza-pobreza, é um estado muito relativo, e, em Portugal, bastas vezes mental.
Pode ser que ainda venha a ter uma estufa, mais dia, menos dia.
Mariazinha, não arranques as orquídeas à mãe! Morena, não comas a terra dos vasos!