domingo, junho 08, 2008

Vestido branco

Foto de William Eggleston, Southern Suite


Pedro Correia, do Corta-Fitas perguntou-me, há tempos, se não estaria interessada em pisar a passadeira vermelha do seu blogue. Respondi logo que sim, não só porque o Pedro é daqueles habituais d' O Mundo Perfeito que lê tudo o que eu escrevo, mesmo que seja uma receita sobre como raspar calos da planta do pé, e leitores destes têm de se estimar, mas sobretudo porque esta deve ser a única hipótese que a vida me concederá de pisar uma passadeira vermelha, e estas coisas, a gente muito desdenha, mas, enfim, lá aproveita.
Portanto, por estes dias, se quiserem ler uma dúzia de frases saídas do meu teclado* sobre um certo vestido branco mental, cliquem com o vosso ratinho sobre o línque, este aqui.

*Agora já não se diz "saídas da minha pena", para se evitar mentir.


sexta-feira, junho 06, 2008

Olhem que não sou muito dada ao línque!

Um texto excelente, de Sofia Loureiro dos Santos, que subscrevo integralmente, desmascarando os mecanismos sociais que hoje se vão afinando para confinar as mulheres, subtilmente, ao milenar papel doméstico e reprodutor, porque parece que sai mais barato tê-las em casa, e a criançada leva mais nalgada castigadora.

A ortografia é estúpida


O meu pai escrevia o meu nome com "e". Enviava fotos legendadas à minha avó dizendo, "nesta, vê-se a Esabela a brincar com os gatos de um cantineiro nosso amigo".
Após conferência comigo sobre o assunto, o meu pai, que não era linguista, nem nada que se pareça, concluiu que escrevia Isabela com "e", e via dessa forma o nome, porque aprendera a grafá-lo assim quando andara na escola. Anos 30. Que nos anos 60 lhe tenham registado administrativamente o nome da filha com i, isso já era assunto que o transcendia, coisas lá do registo, porque quando pronunciou Isabela, o que enunciou foi Esabela. Não me sabia explicar por que motivo o "e" se tinha transformado em "i", tinha apenas uma pista: aquela a que chamávamos rainha Isabel II de Inglaterra, em inglês chamava-se Elisabeth, portanto o meu nome devia ser uma tradução. Devia ser Elisabeta, Elisabela, e depois, sabe-se lá como, Isabela. Achávamos nós, mas nunca ninguém nos explicou, porque não tínhamos nenhum doutor na família, e livros só na biblioteca itinerante da Gulbenkian.

Mais tarde, no colégio, o meu director, que tinha 90 anos nos anos 70, chamava-me igualmente a sua Esabela, nome próprio que escrevia em todos os documentos oficiais do colégio, o que muito me exasperava: a sua Esabela, a sua Zabelita. Na secretaria alguém lhe corrigia a grafia, para bem do meu processo curricular oficial.

O que o meu pai e o sr. Ilídio faziam era manter uma antiga regra ortográfica que aprenderam como correcta. Era como se alguém agora me viesse dizer que privilégio passou a escrever-se previlégio. Ou, afinal, que já não se escreve "emoção" e "elegante" mas, por força do uso fonético indevido, "imoção" e "ilegante". Meu Deus, meu Deus, tranformar o "e" num "i" que poderia ser confundido com um prefixo de negação em vocábulos que nada negam. Ultraje. E que violência!

As questões ortográficas levantam muitas questões emocionais, porque me parece que cada um de nós sente a ortografia como parte da sua identidade; como a caligrafia, o timbre da voz, a cor dos olhos, as linhas das mãos. É, portanto, impensável alterar essa parte da nossa identidade. É uma resistência, mas não um capricho. As pessoas têm as suas razões. Quem aprendeu a escrever Esabela com "e", e assim formou a sua identidade linguística, tem o direito de continuar a fazê-lo. Exactamente como quem escreve farmácia com ph. Sou cliente da Pharmácia Mendes da Silva. Qual é o problema? É apenas uma palavra escrita com uma ortografia que para mim é arcaica, mas eu tenho que conviver linguistica, social e civicamente com tantas outras atitudes arcaicas, e algumas bem graves.... e que remédio! É apenas uma palavra!

Tanto compreendo que os intelectuais, cultos, aculturados sejam contra o acordo ortográfico como que, ao povão, o assunto, rigorosamente, não interesse. Peço muita desculpa, sobretudo aos professores de Português que se descabelam corrigindo composições pejadas de erros ortográficos, e se matam em nome de uma norma, mas a ortografia é como as plantas selvagens: nasce onde calha, como calha, e o que interessa é que consiga sobreviver, realizar a fotossíntese e morrer quando chega o Inverno. A ortografia, desculpem-me, é estúpida como um calhau. Já conheci pessoas de uma enorme inteligência emocional e científica que, ao escrever uma frase, era cada tiro ortográfico, cada melro. Portanto, isto com toda a sinceridade, eu quero que a ortografia... vá dar uma volta, por exemplo. Já a sintaxe pia mais fininho, porque reflecte a organização do pensamento. A sintaxe está coladinha ao raciocínio lógico-dedutivo.

A ortografia consiste num conjunto de regras que permitem registar as emissões sonoras da língua. Ponto final. O objectivo primeiro é comunicar. Ponto parágrafo. O objectivo segundo, parecer bem e ascender social e profissionalmente. Ou seja, escrever de acordo com a norma e conhecer as regras da ortografia categoriza os indivíduos como melhores ou piores, o que é de um elitismo que só a nossa sociedade, irracional, pode encaixar e suportar. Mas ninguém é obrigado a grafar correctamente, se não teve os meios para isso, ou se não quis. É esse o motivo por que qualquer entidade pública ou privada é obrigada a aceitar e responder a uma reclamação, petição, impugnação, seja qual for o nível de correcção ortográfica que se apresente, desde que a mensagem se faça comunicar. Porque a língua serve para comunicar, e o resto é estilo.



A minha mãe fez a terceira classe com regente, porque o meu avô era um homem progressista, e retirou os filhos à fazenda para os levar à escola - olhem que no Ribatejo, nos anos 30, poucos pais do campo manifestavam preocupações desta ordem. Regalo-me ao ler as listas de compras que a minha mãe me escreve. Sorrio com ternura porque aquilo é que é mesmo o Português verdadeiro, o portuguezinho retinto: um quilo de arrôs; um pacote de maça pevide; maçãs de Alcobaça, das pequenas; um quilo de qivis; trez crujetes para sopa; grão; fajão; grêlos; cove branca... Quando leio as listas da minha mãe, que são perfeitas, que se comunicam melhor que Deus, lembro-me sempre de quem quase vive ou morre porque uma consoante muda pode cair.

Do que eu gosto nas línguas é do seu carácter insurrecto. É o que queremos dizer quando largamos aquela frase, que soa muito bem, sobre as línguas serem organismos vivos. Um organismo vivo evolui, adapta-se, muda. E é assim sem tirar nem pôr. As línguas estão-se nas tintas para o que pensamos que elas devem ser. São o que lhes dá mais jeito. Tanto na sua forma verbal oral como escrita. E vencem. Isso de associarmos diversas questões de classe e poder ao exercício da língua transcende-as. Querem elas lá saber se as legislam! Quando as legislam já elas estão além.

Sobre o acordo ortográfico, sinceramente, gasta-se muita tinta. As pessoas devem escrever como são capazes, e deixar os outros escrever como sabem e podem, excepção seja feita aos professores de Português que devem ensinar a norma em vigor e corrigir os desvios. Não creio que um acordo ortográfico, mesmo que concordando com ele na sua essência, que é o meu caso, sirva os indivíduos já formados como eu. O acordo ortográfico servirá parcialmente aqueles que ainda estão no sistema de ensino e que já escreviam acto sem t, e a nível profundo os que forem agora para a escola, fenómeno que se tornará visível dentro de década e meia. Nessa altura talvez cada um de nós comece a mudar, devagarinho. Para os que têm medo que ato se torne confuso, não se sabendo quando é um verbo ou um nome, resta-me sossegá-los lembrando-lhes que todos os enunciados linguísticos dependem de um contexto, e não vivem fora dele; como vale, que pode ser postal, ou verbo valer, ou designação geográfica. E se há confusão perguntamos, vale, que vale?
E rio. Eu, às vezes, rio ao pé do rio. Às vezes digo à senhora dos correios que não vale a pena mandar o vale, porque o carteiro não faz distribuição naquele vale, lá tão longe, para lá do rio onde tantas vezes me rio, rio, rio.

A mim o que chateia mesmo, mesmo a sério é o dente do siso do lado esquerdo. Dói-me. Tem um buraco até aos joelhos, e nem tempo tenho de o ir arrancar. Se houvesse aí alguém com um tira-dentes à século XIX, eu tomava uns Xanaxes antes, e uns Clavamoxes depois, e resolvia-se a empreitada, hein?! E o blogue continuava interactivo...

quarta-feira, junho 04, 2008

O raio do c antes do t

Lá na minha fábrica temos uma categoria à qual almejo chegar, que é a dos correctores de parafusos: aqueles que analisam a peça e avaliam sobre o seu valor de mercado.
Hoje, lá no refeitório, afixaram com letras muito grandes, mesmo grandes, os direitos e deveres dos CORRETORES. Assim mesmo. Sem o c antes do t, consoante que nunca se leu, e que não está ali a fazer nada, sejamos honestos. Todos os meus colegas leram, eu li, ninguém se riu, ninguém comentou, porque pensámos todos, o acordo ortográfico, ah, pois é, o acordo ortográfico, deixa-me cá calar a matraca, que não sabendo se está ou não em vigor, à cautela, não vou fazer figura de parvo; mas eu estou convencida que o autor daquela informação sempre escreveu corrector sem c. Portanto, justifica-se o acordo. Mas custa-me. Não faz lá falta. Mas custa-me. São vícios que um pessoa ganha. Vícios teimosos.

terça-feira, junho 03, 2008

Selvagem

Colaboradoras, II Guerra Mundial, França, 1944 (ACME photo)


Acabei há umas semanas de ler A Estrada, de Cormac McCarthy. O livro foi-me recomendado pelo amigo a quem há muitos anos dei a ler O País das Últimas Coisas.
Disse-me ele, no Paul Auster ainda encontras alguma coisa, ainda há alguma coisa, embora seja igualmente um cenário do fim do mundo, mas em A Estrada não há nada, Isabela, não há nada.
E isto, não haver nada, somado ao meu prazer sobre narrativas do apocalipse ou de ficção científica, convenceu-me. Comprei o livro, li-o, e arrumei-o na minha cabeça.
A literatura actual tem dificuldade em construir-se sem entrar na filosofia ou na história. A narrativa, o que não acontece com a poesia, vive a maior crise que lhe conheço. Como continuar a escrever algo diferente sobre os mesmos temas? Cormac McCarthy consegue. A Estrada é um livro sobre o fim dos tempos, quando as árvores morreram, e os pássaros, todos os animais que Deus criou, e também Deus, e os homens que nele acreditaram, e os que não. É sobre todo esse horror, esse cenário verosímil e cruel, de uma crueldade que nunca poderemos totalmente imaginar sem viver; mas graças a uma das suas duas únicas personagens, um menino nascido após fim do mundo, que nunca o conheceu tal como nós o vemos, A Estrada está apta a mostrar-nos que a inocência de uma criança incorrupta, a sua verdade, e vontade, não pode ser substituída. A criança saberá que o mundo é cruel, sempre cruel, que é preciso escolher viver ou morrer, sem hesitação, que existe o bem e o mal, o certo e o errado, e que esta escolha muitas vezes se torna relativa - é preciso. A criança sabe que os maus nunca serão bons; que uma maçã oferecida não lhe será devolvida, contudo, não perde o desejo de oferecer esse fruto, porque é o que está certo. E é este o segredo de A Estrada. Essa capacidade para dar, quando já não há que dar, e contudo, ainda está lá esse gene oportunista, ou esse vírus bendito. No meio da vileza, oferecer.

É costume fazerem-me perguntas sobre a natureza do ser humano, e eu respondo sempre da mesma forma muito simples, como se estivesse a explicar isto a criancinhas: as pessoas são más, aprenderam a ser más, serão más. Não há pessoas boazinhas, só boazinhas. Há é pessoas más que conseguem ser boazinhas, e pessoas boazinhas que podem ser más. Mas uma criança que tenha tido a sorte de ser amada, mesmo que esse amor tenho sido recebido no meio da revolução, da maior tempestade, uma criança amada é incorruptível, e saberá sempre distinguir a verdade, a bondade, o bem. Este é o verdadeiro menino selvagem. Uma espécie de Cristo. Desculpem ter dito uma espécie para não ofender. Eu queria dizer, Cristo.

segunda-feira, junho 02, 2008

Céu revoluto

O novo banner foi-me enviado pelo Indigente Andrajoso, ao qual já agradeci por outra via. Havia um outro muito zen e muito estival, mas não só não ando muito zen, como a metereologia não permite, de maneira que por agora fiquemo-nos com este céu revoluto, que é tudo o que me ocorre quando ando cheia de dores nas cruzes.

Bailemos agora, por Deus, ai velidas


Fotos Leonard Nimoy

Bailemos agora, por Deus, ai velidas,
so aquestas avelaneiras frolidas,
e quem for velida como nós, velidas,
se amigo amar,
so aquestas avelaneiras frolidas
verrá bailar.

Bailemos agora, por Deus, ai loadas,
so aquestas avelaneiras granadas,
e quen for loada como nós, loadas,
se amigo amar,
so aquestas avelaneiras granadas
verrá bailar.

João Zorro

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...