Marguerite DurasO meu pai tinha uma cara grande e suada cheia de ódio ou amor conforme os dias. Tendo eu preferido os do amor, calharam-me muitos dos de ódio. Quando amamos e não podemos fugir, porque não há saída, enfrentamos de igualmente perto a face do amor e a do ódio, e não desviamos o rosto; sentimos o cuspe bater-nos nos lábios, nos olhos, e ouvimos até ao fim sem pestanejar, sem um movimento muscular que possa ser mal interpretado.
O meu pai era voraz, devorava, vociferava todos os sentimentos que conseguia exprimir, e conseguia muito bem, com uma expressividade tão brutal que causava vertigens.
Quando somos novos, acreditamos nesse amor ou nesse ódio porque aquele é o rosto de quem amamos, o da certeza. Não temos mais ninguém, estamos entregues às mãos daqueles que nos criaram e que dizem sermos seus. E somos. Mas custa ser de alguém a quem se deve uma fidelidade contra toda a lógica, sem limites.
Eu ouvi todos os discursos de ódio do meu pai, ouvi-os a dois centímetros do rosto, senti-lhe o cuspe do ódio, que custa mais que o cuspe do amor, e enfrentei, olhos nos olhos, a sua raiva, a sua frustração, a sua tão torpe ideologia e ouvi, ouvi, e não disse nada, nem um assentimento, nem um músculo se mexeu, e eu, inteira, era um não.
Tive medo do meu pai. Que me batesse com as manápulas, que me gritasse, que me dissesse tu não és minha filha, porque filha minha nunca fará isto e nunca dirá aquilo. Havia uma violência tão grande dentro de si, em amigável convívio com o amor que podia oferecer-me 10 minutos depois. De um momento para o outro.
Mas o meu pai não me arrancou um assentimento. Nunca ouviu da minha boca um tens razão, um realmente, um pois. No máximo, um percebi, como resposta a um percebeste? Porque ele podia obrigar-me a sentar, ouvir e calar, sujeitar-me a sessões públicas e privadas de ideologia rácica, mas não convencer-me das vantagens da raça nem do ódio.
O meu pai não me arrancou ao que eu era e pensava; o meu pai não foi capaz de formar o meu pensamento. Escapei-lhe. Ele repetira-me demasiadas vezes a sua lenda preferida, a de São Martinho, o que reparte a capa. Portanto, tendo eu absorvido uma mensagem tão amorosa, podia ele gastar à vontade o seu latim com a conversa dos pretos. Eu poderia ter ouvido a lengalenga 24 horas por dia nos altifalantes, como um prisioneiro em Guantánamo, e não teria mudado um centímetro. Porque eu pensava isto e aquilo com muita certeza.
Não foi fácil ser a filha do electricista. Sonhei muitas vezes que o electricista havia de morrer de muitas maneiras e deixar-me livre para pensar, para existir sem medo dele. Para lhe responder.
E um dia morreu mesmo, sem que possamos ter feito completamente as pazes, sem que eu estivesse totalmente crescida, e ele totalmente vencido, e agora está aqui sentado, a dois centímetros do meu rosto, a ler-me, e eu, sinceramente, só queria dizer-lhe que vivemos um tempo demasiado curto para o nosso amor, confuso, desajustado, injusto. Que foi só isso que nos aconteceu: um tempo, um espaço, um tabuleiro de xadrez errado para o amor.