segunda-feira, junho 16, 2008

Abriu só um olho

Comentário de Luís Graça ao poste "Toca-me":


"Uns vizinhos meus tinham um cão em casa. Quando o cão ia ao quintal dava-lhe para correr atrás dos gatos vadios. Os gatos vadios fugiam.

Dois meses depois fui à janela e vi o cão deitado no quintal, em plena escada de acesso ao terraço. Deitados ao lado dele, dois gatos. Todos a apanhar sol. Chegou mais um gato vadio, pé ante pé. Cheirou o focinho ao cão. O cão abriu um olho, levantou o focinho e tornou a deitar-se.

O gato deitou-se ao lado dele. Ficou a olhar em frente e a abanar o rabo."

domingo, junho 15, 2008

O espírito dos tempos


Foto: Tomatello (Malea)

A minha interlocutora não compreendia o que era um Auto de Fé. Tinha lido qualquer coisa sobre o assunto num romance histórico, mas não lhe parecia um acto nada católico, e estava confusa. Então, mas a multidão não mantinha um silêncio respeitoso quebrado apenas pelo choro, pelo desmaio?! Bailes organizados enquanto o sacrifício decorria frente aos palanques onde ardiam os condenados? Como é que se sabia, no meio da multidão, ali naquele imenso Terreiro do Paço, quem ia ser queimado e quem não ia? Uma procissão?! E injuriavam os condenados passantes? A minha interlocutora mergulhara num abismo de indignação. E os injuriadores, agressores, eram portugueses, católicos, perguntava, confirmando?!
Estava a ser difícil inseri-la no espírito do tempo, até que de repente a provável alma de um inquisidor me iluminou e resolvi o problema de uma penada só:
- Olhe, era e tal e qual como o Rock in Rio: o pessoal todo contente aos magotes, vestido a preceito; namorava-se, curtia-se, fumavam-se charros, cantava-se, dançava-se, fazia calor, estava calor, a água era cara, e os que estavam em cima do palanque também eram as estrelas do espectáculo pelo facto de irem morrer atrozmente, ou de já estarem a ser queimados vivos, agonizantes, chiando de dor e morte e injustiça. E tudo o que acontecia sobre ou sob o palanque era o espectáculo
E ela compreendeu.

sexta-feira, junho 13, 2008

Toca-me



Penso que o Estado ou a Igreja ou uma instituição de solidariedade social devia obrigar os donos de cães como a minha Morena a prestar serviço voluntário obrigatório em hospitais, lares de terceira idade, centros de acolhimento para crianças... qualquer lugar onde uma alma precisasse de alívio.
Devia mesmo receber uma carta registada em casa a dizer, olhe, faz favor, a senhora apresente-se com o seu animal de estimação no serviço de oncologia do Hospital Garcia da Horta, no dia tal, às tantas horas. E eu ia com gosto, punha-lhes a Moreninha onde quisessem, e deixava que a tocassem. Tão simples quanto isto. O pêlo da Morena devia vir no Simposium médico. O pêlo da Morena cura. Deslizar as mãos pelo pêlo longo e macio da Morena, senti-lo correr entre os dedos, como fios de lã, dá vida. Ofereço-me como voluntária para ajudar a melhorar a vida de qualquer doente grave com a simples presença da Morena, e respectivas festas. Alguém me lê no hospital? Num hospital qualquer? Num lugar onde existam crianças ou pessoas que precisem de doçura nas suas vidas? Não tem mistério nenhum: um ser todo de carne, redondinho e morno, muito macio, eu diria doce, muito mais puro que um santo. A minha Morena é mais santa que Nossa Senhora, peço muita desculpa pela heresia ao senhor padre da freguesia, mas é merecida.
Eu sei que quando Nossa Senhora apareceu a Lúcia, e aos outros desgraçados que a segunda matou, à força de os convencer a passar fome e suplícios, lhe mostrou o Inferno. Ora, a minha Morena não sabe o que é o Inferno nem o Céu. Tudo irrelevante. Só conhece a... rua. E o... agora não vais (sentimento desagradável). E a... comidinha. Por isso, a minha Morena é melhor que a Nossa Senhora, mas claro que a Nossa Senhora pode entrar à vontade no Garcia da Horta, e pouco cura, enquanto o pêlo terapêutico da minha menina fica de fora. É o mundo em que vivemos. O maravilhoso mundo das pessoas higiénicas.
Mas chegado o calor, o pêlo longo, demasiado cerrado, causa sofrimento à Morena. Não sei se a inteligência blogosférica sabe, se calhar não sabe, mas os animais têm esta impertinência que é sofrer, e depois dão-nos preocupações, ou fazem-nos gastar dinheiro, o que é piroso. Com a tosquia, por exemplo. É que hoje a Moreninha vai à tosquia, perderá o pêlo, ficará a parecer um rapazinho, mas em cão, e era só isto que eu queria escrever; esta piroseira sobre as minhas cadelas: a ida da Morena à tosquia. O que os leitores têm de suportar para lograr ler um texto de jeito de vez em quando! Que violência!

quinta-feira, junho 12, 2008

Um dia fui muito nova

Foto de Stanko Abadzic, Girl with fish necklace, 2006


Tenho recordações muito vagas das festas de Santo António. Uma mole infame e suada subindo Alfama até ao Castelo - uma loucura de carnes e vozes e mãos. Nada de interessante a comunicar. Estamos aqui todos juntos, estamos aqui no meio, tentando furar, bebendo cerveja já morna, ou vinho ou qualquer coisa, porque é o que se faz.
Uma sardinhada com três conspiradores, e não sabia que seria contra mim, no antigo jardim de São Pedro de Alcântara. Acho que me ri. E bebi. Era inocente e tinha os olhos muito amarelos.
Lembro-me de beijos ao final da noite. Muitos, perdidos, cheios de fome, mordidos, a pouco. Mas afinal não era nada, apenas uma boca que mordia, que lambuzava, como carne que pede sal.

quarta-feira, junho 11, 2008

Marca a fogo

Anónimo, Girl with a spray of flowers, 1910


A vida privada não significa o mesmo para todos. Sou tida como pessoa que expõe com gala detalhes íntimos, e, no entanto, aquilo que exponho não é para mim privado, mas domínio público: a colonização, a descolonização - essas memórias - a minha mãe, as minhas cadelas, a solidão, a observação dos vizinhos; da rua; a relação com as colegas da fábrica ou com a minha prima afastada.

O que considero a minha verdadeira vida privada não cabe aqui.
Assuntos que a muitos nada custam, não considerados propriamente privados, como resumir o que comeram ao almoço, questões do emprego, sobressaltos da gravidez, otites dos sobrinhos seriam bastante embaraçosos para mim.

Embora os limites da minha vida privada pareçam muito alargados, o que eles são é muito direccionados, estreitados, e, nessa faixa, quase ilimitados, o que dá a ideia de uma grande exposição generalizada. De qualquer forma, aquilo que para mim não é vida privada, mas história ou quotidiano, realidade que de alguma forma nos permite vislumbrar o irreal, o inexplicável, implica o olhar judicativo do outro, o que origina a publicação de inúmeros textos sobre o fio da navalha. Há momentos em que hesito.

É importante para mim, neste pequenino mundo de senhoritos que nasceram cultos, com etiqueta, e depilados, afirmar que eu não: que eu vim das couves, dos enjeitados, da fome, da emigração, do colonialismo, do esforço enorme que fizemos, nós, a arraia-miúda, para ser melhores, para fazer bem. E se não fizemos foi porque não fomos capazes após guerra, ou porque o pensamento do nosso tempo não no-lo tornou possível.
Sou completamente desavergonhada do que sou e dos lugares de onde vim. Há uma honra e uma honestidade sobre essa origem que pretendo enunciar a ferro. É, perdoem-me, a minha marca a fogo.

terça-feira, junho 10, 2008

Voracidade

Marguerite Duras

O meu pai tinha uma cara grande e suada cheia de ódio ou amor conforme os dias. Tendo eu preferido os do amor, calharam-me muitos dos de ódio. Quando amamos e não podemos fugir, porque não há saída, enfrentamos de igualmente perto a face do amor e a do ódio, e não desviamos o rosto; sentimos o cuspe bater-nos nos lábios, nos olhos, e ouvimos até ao fim sem pestanejar, sem um movimento muscular que possa ser mal interpretado.
O meu pai era voraz, devorava, vociferava todos os sentimentos que conseguia exprimir, e conseguia muito bem, com uma expressividade tão brutal que causava vertigens.
Quando somos novos, acreditamos nesse amor ou nesse ódio porque aquele é o rosto de quem amamos, o da certeza. Não temos mais ninguém, estamos entregues às mãos daqueles que nos criaram e que dizem sermos seus. E somos. Mas custa ser de alguém a quem se deve uma fidelidade contra toda a lógica, sem limites.
Eu ouvi todos os discursos de ódio do meu pai, ouvi-os a dois centímetros do rosto, senti-lhe o cuspe do ódio, que custa mais que o cuspe do amor, e enfrentei, olhos nos olhos, a sua raiva, a sua frustração, a sua tão torpe ideologia e ouvi, ouvi, e não disse nada, nem um assentimento, nem um músculo se mexeu, e eu, inteira, era um não.
Tive medo do meu pai. Que me batesse com as manápulas, que me gritasse, que me dissesse tu não és minha filha, porque filha minha nunca fará isto e nunca dirá aquilo. Havia uma violência tão grande dentro de si, em amigável convívio com o amor que podia oferecer-me 10 minutos depois. De um momento para o outro.
Mas o meu pai não me arrancou um assentimento. Nunca ouviu da minha boca um tens razão, um realmente, um pois. No máximo, um percebi, como resposta a um percebeste? Porque ele podia obrigar-me a sentar, ouvir e calar, sujeitar-me a sessões públicas e privadas de ideologia rácica, mas não convencer-me das vantagens da raça nem do ódio.
O meu pai não me arrancou ao que eu era e pensava; o meu pai não foi capaz de formar o meu pensamento. Escapei-lhe. Ele repetira-me demasiadas vezes a sua lenda preferida, a de São Martinho, o que reparte a capa. Portanto, tendo eu absorvido uma mensagem tão amorosa, podia ele gastar à vontade o seu latim com a conversa dos pretos. Eu poderia ter ouvido a lengalenga 24 horas por dia nos altifalantes, como um prisioneiro em Guantánamo, e não teria mudado um centímetro. Porque eu pensava isto e aquilo com muita certeza.
Não foi fácil ser a filha do electricista. Sonhei muitas vezes que o electricista havia de morrer de muitas maneiras e deixar-me livre para pensar, para existir sem medo dele. Para lhe responder.
E um dia morreu mesmo, sem que possamos ter feito completamente as pazes, sem que eu estivesse totalmente crescida, e ele totalmente vencido, e agora está aqui sentado, a dois centímetros do meu rosto, a ler-me, e eu, sinceramente, só queria dizer-lhe que vivemos um tempo demasiado curto para o nosso amor, confuso, desajustado, injusto. Que foi só isso que nos aconteceu: um tempo, um espaço, um tabuleiro de xadrez errado para o amor.

domingo, junho 08, 2008

Meu amor eterno

Entraste. Ouvi os teus passos. Andaste a trabucar fora do quarto, e depois entraste, estava tão concentrada, e no meu inconsciente pensei, entrou, e pensei, entrou uma pessoa, mas depois lembrei-me que estava sozinha, e voltei-me, e eras tu, Morena.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...