segunda-feira, junho 23, 2008

Como se não fosse preta

Foto: Mary Ellen Mark


Para o Carlos Narciso


Já disse à minha filha, tem cuidado, que o teu marido é homem, e, como se não bastasse, preto, por isso, se vais lá para Cabo Verde ter com ele, tem cuidado; qualquer dia estás metida na cozinha a fazer petiscos para ele e para os amigos, enquanto vêem bola e bebem que nem esponjas. Já lhe deixei o sermão. Oh, há lá homem que seja diferente.... não é por ele ser meu genro que há-de ser melhor que os outros.
Quem fala é a D. Ilda, uma vizinha que estimo muito, cabo-verdiana retinta. Foi ela que recolheu o Tejo quando teve esgana. Andava para aí aos tombos e foi ela que o levou para o veterinário, e o curou, e todos ajudámos a pagar, nós os vizinhos amigos. O Tejo ficou melhor que antes de ter esgana. Já não treme nem nada, e coisa alguma pega com ele. Cura santa!
Gosto muito da D. Ilda, que com outras vizinhas, a D. Mara, a D. Lucinda, e a Flávia, que já morreu, mas que anda por aí, enforma uma comissão informal de protecção dos cães e gatos abandonados que aparecem cá no bairro, ou que cá vêm abandonar.
No nosso bairro somos pobres e feios. Porcos, não, nem maus. Achamos que entre nós e a bicharada há pouca diferença. Identificamo-nos com esses mamíferos quase tão rafeiros como nós, quase tão abandonados, perdidos, esfomeados, sedentos, carentes como nós. Também sou da "comissão", mas na reserva. Não pertenço às operacionais de rua, como ela, porque o meu coração não aguenta, sabendo elas que podem contar comigo e com a minha mãe. Numa casa ou na outra, podem chamar-nos para a guerra a qualquer altura.

Dentro de uma semana a D. Ilda viaja. Vai de férias. Vai pela primeira vez a Cabo Verde após 40 anos de ausência. Primeiro vai ela, depois, a filha. À vez, por causa dos cães. E conta-me, Isabelinha, vim de lá com 12 anos. Fiz aqui uma escala de meses, antes de ir para Itália. A minha mãe estava a servir em Itália, e eu fiquei em Lisboa, em casa de uma prima, à espera da carta de chamada da minha mãe, à espera de transporte, de autorizações, que antes do 25 de Abril era assim... mas eu não ia para Itália para servir, ia para ser a filha da minha mãe, e a minha prima, Isabelinha, veja isto, a minha prima, filha da irmã da minha mãe, pegou em mim e pôs-me a servir na Almirante Reis. O que eu chorei. Passava na casa da patroa toda a semana, e chorava. Uma negra sozinha em Lisboa, Isabelinha, imagina o que isto seja? O que se sofria? Punham-me a lavar roupa no tanque da varanda, com a água gelada; os meus dedos gretaram-se, sangraram-se de frieiras, uma coisa que eu nunca tinha visto, frieiras, alguma vez teve?! Era eu a lavar a roupa e ela a manchar-se de sangue, meu Deus, se me lembro disto... A minha prima vendeu-me como escrava para uma casa... Depois a minha mãe não conseguia falar comigo quando telefonava ao Domingo, e a minha prima desculpava-se que eu não estava em casa, arranjava mentiras para não dizer que me tinha posto a servir. Quando tinha 16 anos arranjei um namorado, o meu falecido marido, o pai dos meus filhos, que não tive outro, engravidei, e olhe, fugi com ele.
Mas agora vai lá à sua terra, D. Ilda, está contente, não está?! E tem muitas memórias na sua cabeça, não tem? Coisas de que se lembra muito?
Sim, tenho, mas são tudo coisas de há 40 anos, coisas velhas que já não existem; agora vou ver como se fosse pela primeira vez, como se não tivesse nascido lá, como se, olhe, como se não fosse preta.

domingo, junho 22, 2008

Franjas de comportamento marginal


Alberto Gonçalves, sociólogo, com coluna em página direita do Diário de Notícias de hoje, dá destaque, com foto, ao casamento de duas lésbicas americanas, senhoras que já passaram os 70 anos, beijando-se no final da cerimónia de casamento. As duas mulheres viviam maritalmente há 55 anos e só agora puderam casar-se legalmente.
O sociólogo não questiona o casamento, mas que aqueles que pertencem às "franjas de comportamento marginal", e a expressão é minha, os quais sempre desprezaram o casamento enquanto instituição, optem por tal via assim que se torna possível. E pergunta o sociólogo: "De que forma é que o repugnante papel se tornou de repente imprescindível à união consumada de legítima de duas criaturas?"
Não sei onde é que o Diário de Notícias recruta os seus cronistas, esperando sinceramente que não venham todos da Universidade Moderna; como explicar que um designado sociólogo possa dar-se ao luxo de ignorar que pessoas do mesmo sexo, que vivem maritalmente, não possuem, na actual ordem administrativa, direitos civis que lhes permitam declarar-se acompanhantes em situações de apoio na doença, nomeadamente em hospitais?! Todos nós sabemos que os(as) homossexuais continuam a não poder beneficiar de seguros de saúde, ou outros, realizados por um dos parceiros; não podem reclamar-se herdeiros um do outros; em suma, não têm acesso aos mesmos direitos civis dos casais legais formados por pessoas de sexos diferentes, o que configura uma situação de estúpida desigualdade.
Portanto, a resposta é simples: o papel não consolida uma união, mas atribui direitos, e na ordem em que somos obrigados a viver, porque não conseguimos arranjar outra, por enquanto, faz sentido. É o chamado, do mal o menos.
Muito para além disso, "as franjas de comportamento marginal" têm todo o direito a mudar de opinião quando e como querem, como qualquer pessoa. Mudar de opinião é dos poucos direitos que ainda nos assistem.

sexta-feira, junho 20, 2008

O crescimento e a amizade

Bambi é uma história sobre o desafio do crescimento e a importância da amizade (...)
Público, 20.06.08 pág. 17 do suplemento P2

Bambi é dos poucos filme que vi aos 5 anos com a minha madrinha, numa manhã de cinema Scala, em Lourenço Marques, e nunca mais consegui rever.
A minha madrinha não gostava de mim, é uma explicação.
Mas que não consiga ver, aos 45, um filme clássico de desenhos animados, é comportamento singularmente expressivo no que respeita ao que penso sobre o crescimento e a amizade.
Ainda não deixei de ser o Bambi.

quinta-feira, junho 19, 2008

As lesbianas


As habitantes da ilha de Lesbos interpuseram um processo contra uma associação grega de homossexuais: não permitem que as raparigas que apreciam raparigas se designem como lesbianas. Lesbianas são as mulheres originárias da ilha de Lesbos, e umas são sáficas, outras não. É isto que pretendem as lesbianas que não são lesbianas, mas da ilha de Lesbos.
Não sei que atitude vão tomar, a seguir, os Virgens de signo, por me parecer que causa muita confusão uma pessoa andar por aí a dizer, aos 40 anos, sou Virgem. O valor de mercado da pessoa em questão desce muito, porque se desconfia da identidade e capacidade sexual da criatura, o que nos dias de hoje não é nada cool.
Eu cá, quando um Virgem me diz que é Virgem, bem vejo o largo sorriso com que acompanha a afirmação, e fico a pensar, olha que se calhar, estás aí a rir-te todo e... és mesmo.

O jogo da bola

Hoje há um jogo, vou já sair de manhã com a camisola da selecção, ai, hoje, o jogo, a ver se despego cedo, se regresso ainda mais, e preparar o petisco, uns pipis, o ritual, as cervejas no congelador quase a rebentar, mostrar-me confiante no café, falar sobre o jogo, quantos vamos marcar, ai, o que vamos ganhar, conduzir a alta velocidade, pisar o risco contínuo, não dar prioridade nas passadeiras nem à minha mãezinha, stress, senti-lo, essa antecipação do momento decisivo, o sol que se apaga, a lua que desce à terra, mas não, é mais que isso por agora, joga a selecção, por isso vou refastelar-me no sofá, preparar as bandeiras, as buzinas, porque se joga o meu dia, a minha felicidade, a minha vida.

quarta-feira, junho 18, 2008

Na terra

A nova imagem do blogue foi-me enviada pelo Indigente Andrajoso, a quem agradeço a insistência na busca de imagens com as quais me identifico tanto. A foto tem autor, naturalmente, mas agora não me lembro, e os leitores não se vão aborrecer (Indigente, por favor, regista na caixa de comentários o nome do fotógrafo!). E foi sujeita a um ligeiro apagamento facial, para se resguardar o anonimato.
Este é o poste de hoje, e quem dá o quem tem...

terça-feira, junho 17, 2008

Os jovens amantes


Li na Visão, creio, que mulheres mais velhas e enxutas, sobretudo no Brasil, mas por todo o chamado Ocidente, Portugal incluído, arranjam rapazes mais novos como parceiros, e que eles não parecem importar-se especialmente com as rugas ou as carnes mais flácidas.
Compreendo ambos os lados: o relacionamento é passageiro, enquanto durar, e frutuoso.
Para eles, porque é sempre passageiro, mesmo jurando fidelidade eterna, essa falácia, mas também porque aventuras com mulheres mais velhas, estabelecidas na vida, os isentam de fazer por ela - é possível levar uma boa vida enquanto elas pagam as contas, desde que ninguém se importe especialmente com isso - em tempos não muito distantes foi quase sempre ao contrário: os homens pagavam para ter em casa e poder exibir amantes jovens, e pagavam bem; para elas, apesar da despesa, tem os seus encantos, oh como as compreendo!, um jovem amante cheiroso, vigoroso, após o inferno dos casamentos anteriores, das obrigações conjugais e tarefas domésticas que estavam excessivamente atribuídas às mulheres. Criados os filhos, ou mais ou menos criados, e estraçalhado, rasgado, em pedaços pelo chão, pisado, o amor em que se acreditou, a ideia de amor, como uma velha bandeira derrotada, é tempo de rir, de gozar, de perder as estribeiras, de atirar ao mar o gasto coração moldado a terra, e com um novo coração aquático, ou etérico, sem ideais, reconstruir para si toda a ideologia amorosa da nossa cultura. O amor, tal como nos foi dado, é uma mentira aprazada. Desse amor resta companheirismo, hábito, fraternidade. Dura cinco dias. Tem, como tudo, princípio e fim nesta terra. As estruturas que sobre ele assentam são enormes mentiras. Não estão em crise, mas em prelúdio da extinção.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...