terça-feira, julho 01, 2008

A leitura da tradução


Inspirada por todos aqueles bloguistas que andam a ler O Homem sem Qualidades, traduzido por João Barrento, e só por acaso escrito por Robert Musil - por esses que sentem uma necessidade inelutável de citar passos da obra-prima no respectivo blogue - resolvi deixar aqui, igualmente, uma singela transcrição do livro que ando agora a ler, e exactamente nos mesmos moldes:

Os refegos cruzados não se fazem em tecidos grossos e só se usam em tecidos lisos.
Os refegos largos são geralmente estreitos, com largura vulgar de meio centímetro.
Este enfeite é constituído por refegos, feitos no sentido do fio direito do tecido, e por refegos no sentido do fio atravessado cruzando os primeiros.

A Arte de Coser e Bordar, tradução de Elísio Remendado dos Santos, p. 163

Não escrevo mais hoje, e explico, é que ando enfronhada na leitura desta excelente tradução, e desejo avançar depressa para a página 164, onde se encontra o capítulo "Letras para lenços e blusas". Portanto, Isabela... lavar dentinhos, já, pezinhos, a seguir, outras partes do corpo necessitadas, e... cama com Elísio Remendado, esse deus da tradução.

segunda-feira, junho 30, 2008

A vingança da gorda


Foto de Leonard Nimoy


É o funcionário novo lá na fábrica. Terá os seus 16 anos, idade legal para o trabalho, e anda a dar serventia. Tem a mania que é poeta. Se calhar é poeta, não sei, mas que eu sou cabra velha é uma certeza, e costumo dizer-lhe, olha lá, isto dos teus olhos são estrelas, eu percebo, eu e toda a gente, mas não tens maneira diferente de dizer a mesma coisa?
Ah, não interessa, responde-me o puto, as miúdas gostam. Está bem, meu amigo, mas a poesia é uma espécie de território sagrado, não é para engatar miúdas. Pode servir-te como isco, mas então chama-lhe isco. Prefiro que me digas, escrevi aqui este isco, veja lá, Isabela, o que é que acha. Percebes o que estou a dizer? Percebo. Não percebes nada. Não percebes nada de nada. Não fazes a menor ideia do que seja a poesia. E o pior que pode haver é um poeta vaidoso. São aos milhares, e não há nada pior. Um poeta vaidoso é pior que uma praga de pulgas na carpete da sala. Livre-nos Deus. Não percebes nada do que te digo, pois não? Percebo. Não mintas. Estás a zeros. Não estou nada.
Isto passou. O rapaz nunca mais me mostrou os poemas, graças aos céus.
Esta semana encontrei-o no autocarro. Sorrimos. É giro o rapaz. Tem as faces rosadas, ainda um certo ar de menino. Não fosse a vaidade poética, e simpatizaria mais com ele.

Saímos na paragem da fábrica, e quando se encontra a meu lado, mesmo junto à porta do autocarro, e lhe sorrio, descendo, o poeta vaidoso diz-me, veja lá não tombe o autocarro pró seu lado. Fixei-lhe o olhar, atravessando-o, já não sorrindo, e segui o meu caminho. Não tombe o autocarro?!; o sacana, o grande cabrão estaria a chamar-me gorda? Ai, pois estava, pois estava. Não tombe o autocarro, grande cumprimento matinal, sim senhor. E eu a pensar que me tinha livrado, com a adultícia, dos insultos adolescentes sobre a gordura. Lindo. Fiquei a matutar. O comentário jocoso devia ter caído em saco roto, mas não caiu, porque os fundos estão ainda bem cosidos. Devia ter-lhe dito, ó grande marmanjo, gorda é a tua vaidade. Devia ter-lhe dito, eu sei lá, qualquer coisa com espírito, que desvalorizasse a gordura, que desproblematizasse a questão. Mas não me ocorreu. Não fui capaz. Fiquei paralisada naquilo, no gorda, gorda, gorda... como um eco, como quem tem medo de elevadores ou de andar de avião.
A chamar-me gorda... Espera lá, espera, meu cabranito. Hás-de cá vir com os teus poemas da tanga, hás-de cá vir, hás-de, hás-de, meu menino!

domingo, junho 29, 2008

O inferno de sábado à noite


Queria só comunicar aos organizadores do Arraial Pride que tudo bem, ok, até às quatro da manhã no Terreiro do Paço, e com música electrónica, ou house, ou seja lá o que for que chamam ao que passaram, e que nós, em Almada, tivemos que suportar, porque o raio do vento estava de feição, e nos trazia a barulheira toda de chapada, atravessando as janelas, as paredes, a caixa craniana, e não deixando ninguém dormir, nem no meu prédio nem nos restantes. Moro aqui há um ror de anos e não me lembro, nunca, de uma festa no Terreiro do Paço nos trazer tanto chinfrineira. Pensei que fossem os tarados do prédio ao lado, pensei que fossem os do tunning num carro lá em baixo, pensei que fosse uma rave algures no bairro, até que avistei o jogo de luzes intensas e ritmadas do outro lado do rio.
Se temos que gramar barulho deste calibre, e até às quatro da manhã, para o ano ponham a Gloria Gaynor, por favor, ou a Tina Turner, ou os Queen ou qualquer outra coisa realmente gay, ou seja, gira.
Gosto muito de festa, sou toda a favor, mas o pessoal aqui no bairro precisa muito de dormir, que levanta-se cedo, e o descanso é sagrado. Caramba, até às quatro da manhã?

sexta-feira, junho 27, 2008

Serão as mulheres capazes de chefiar uma estação espacial?



Não sei se Golda Meir, Indira Ghandi, Margaret Thatcher exerceram política como mulheres, porque não sei o que seja a política exercida por mulheres, ou seja, com a sua marca. Creio que cada uma delas fez o que os homens esperariam ver feito, porque disso dependia a sua credibilidade enquanto agentes governativos. Todos estariam à espera de vê-las ser diferentes, de vê-las falhar, para concluírem, agiram como mulheres! Elas sabiam.

As mulheres, todas, eu não fui excepção, têm sido educadas profissionalmente para agir como homens, ou seja, para agir de acordo com um status quo que não reflecte uma voz feminina. Angela Merkel governa como uma mulher ou como um homem? Vejamos, como se detecta a voz feminina de Merkel? E o que é uma voz feminina? A minha voz é feminina?
Há neste momento mulheres desempenhando altos cargos na Europa, sobretudo a Norte e no Leste. Fazem melhor que os homens? Pergunto, realmente. Quero saber.
Se eu fosse deputada agiria de acordo com os meus valores humanos e profissionais aprendidos num mundo de homens, para homens. Que tipo de política seria a minha? Terei eu conseguido subtrair-me a essa ordem? Serei capaz de ser diferente?

Os fenómenos históricos e sociais repetem-se; e só muda o motivo, não o modus operandi: quando as mulheres começaram a conduzir automóveis, haviam de ter acidentes porque eram mulheres e nada percebiam de pedais de embraiagem, e quando começaram a exercer profissões liberais, seriam piores profissionais porque eram mulheres, e teriam dores na data da menstruação. Daqui a uns anos haveremos de discutir se as mulheres serão eficientes como responsáveis máximas por estações espaciais. Vai ser igualzinho. Os argumentos de sempre.

A feminização de uma actividade tem tido como tendência a sua descredibilização, o que aconteceu, por exemplo, com a classe docente, que perdeu poder à medida que as escolas se encheram de mulheres. Vamos ver o que acontecerá com a classe médica, dentro de dez anos, quando os mais velhos se reformarem.
De igual forma, ainda hoje, uma escritora não vale o mesmo que um escritor, porque o escritor debruça-se sobre assuntos universais e sérios, enquanto uma escritora mergulha em intimidades, no amor, na vida quotidiana, etc., etc. Em literatura, os interesses das mulheres inferiorizam as obras que publicam. Porque os homens, como o Pedro Paixão, entre outros, podem à vontade escrever sobre amor e intimidades que permanecem escritores de créditos firmados.

Por esta ordem de ideias, feminizar a política implicaria uma diminuição do seu poder, consciência que as mulheres que a praticam têm tido, mantendo o adequado low profile. Não o manter tem consequências que passam pela não inclusão em listas eleitorais ou não nomeação para cargos.

Não me interessa saber que diferenças e semelhanças juntam ou separam homens e mulheres no que respeita às capacidades das suas naturezas biológicas. Estou para além das influências determinantes da cultura na formação das identidades femininas e masculinas. Sempre houve homens com capacidades ditas femininas, e vice-versa. Toda essa fronteira que ao longo dos tempos, e na nossa cultura, se estabeleceu entre feminino e masculino, cada vez menos se aplica. Eu diria que vai morrendo devagar. Mas que morre.

O que interessa, na política, e fora dela, é que quem a faz, a faça com justiça, respeito e cuidado pelo que cuida. Ouvindo, reflectindo e executando. E que essa execução não ignore que, à partida, somos todos gente de bem, porque os que não forem, tratam-se à parte.
E que se fale claramente, sem medo dos lobbies de poder. Sem medo. Sem farsas. Sem medo. Sem nada de especial para mostrar, a não ser a vontade de melhorar. Pedindo ajuda, quando for necessário. E como tem sido.
Como mulher, como ser humano, falo muito, digo muito o que penso, com sinceridade, e peço muita ajuda, porque preciso, e pergunto, e indigno-me, e ralho, e dou atenção, e ouço, ouço, e respondo, e recuso padrinhos e subornos. Sou um ser racional e emocional. Tenho dois lados e não escondo nenhum. Isto é feminino? Não, pois não?! São valores humanos. É isso que quero ver na política.
Claro que quero ver muitas mulheres na política, mas se um homem for capaz de governar desta forma, para mim serve lindamente.

quinta-feira, junho 26, 2008

História sem moral I


O passageiro que está sentado à minha frente, de costas para mim, viaja no Metropolitano de superfície em Almada, entre a estação do Pragal e a da Cova da Piedade.
Um rapaz muito negro, usando dois piercings sobre a sobrancelha esquerda, e dois anéis na mão do mesmo lado. Tudo ouro pesado, do amarelo, do bom, com um certo ar de velho, contrastando com a pele escuríssima, ligeiramente baça. A abundância de ouro, e a forma como sobressai, atraiu a minha atenção. Uns 17 anitos. 15h30. Calor. Fala ao telemóvel.
Querida, estou a ligar-te, quero só falar contigo um bocadinho. Estou aqui. Aqui no metro. E tu? Não percebo. Não estou a perceber. Diz. Nessa loja de roupa? Mas posso falar contigo, amor? Só quero falar agora contigo, amor. Só faltam três dias... Mas, olha, tens de dizer aos teus pais que não dormes em casa. Não dá, não dá. Isso não é assim. Casamento de preto não é igual ao casamento dos brancos. Toda a gente vai beber e dançar a noite toda. Não, não. Nem penses; os meus pais não vão querer vir antes das oito da manhã. Depois dormes em minha casa. Tá bem, amor, não esquece, tá? Olha, agora vou sair. Depois ligo, amor.
Saiu. Pude vê-lo melhor. Um formidável negro com traços do rosto perfeitos, simétricos. Bonito. Usava calças de ganga descaídas no rabo, mostrando totalmente os boxers cinzentos que tapavam as nádegas.

quarta-feira, junho 25, 2008

Como eles falam das mulheres


Vinham entrando no café a falar de mulheres. Dois homens. Um deles, jovem, alto, de cabelo ondulado, pele clara. O outro, de 40 e tal, 50, envelhecido, cabelo branco, crespo, pele escura, baixo. Ambos vestidos com roupa de trabalho num dia feriado. Oficina. Biscates em obras. Uma ou outra.
Conversavam e discordavam. O mais velho parecia defender uma mulher que o mais novo rejeitava. E argumentava, a Liliana não! Perante a negação, o mais novo impede-lhe o andamento, encostando a mão ao seu peito, o braço esticado, indignado, quase perdendo a estribeiras, a Liliana não?!, a Liliana não?!, só a Liliana foram duas vezes, ali no escritório, lá em cima, que ela me assediou... uma vez ia eu nas escadas, agarrou-se a mim, parecia maluca, a querer beijar-me, a querer beijar-me... Eu é que tive de a afastar e dizer-lhe, eh-la-oh, que é isso?!, tás maluca ó quê?!, senão...

Depois reparou em mim, o mais novo, ou melhor, percebeu a minha indisfarçável atenção, e continuou em voz mais baixa, mas ainda audível, e já viste as pernas da gaja, já viste a maneira como a gaja anda? Aquilo é gado batido.

A mulher com cabeça de cão

Dificilmente conseguiria arranjar imagem com que melhor me identificasse para a nova fase d' O Mundo Perfeito. A modificação feita pelo Indigente Andrajoso reflecte exactamente como me sinto: uma mulher com cabeça de cão. Até podia dar novo nome ao blogue. Esse.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...