quinta-feira, julho 10, 2008

Extrema solidão



Não gostamos dos homossexuais porque são homossexuais, e as suas práticas são contra naturam. Não gostamos dos pretos porque são pretos e cheiram a catinga. Não gostamos dos imigrantes porque são imigrantes e nos roubam trabalho. Não gostamos dos brasileiros porque são brasileiros e vivem às três famílias no mesmo apartamento e fazem muito barulho. Não gostamos dos gordos, porque são gordos, e não controlam o que comem. Não gostamos dos magros, porque são magros e nós também gostaríamos de ser. Não gostamos dos baixinhos porque são baixinhos e ainda por cima não há nada que os faça ficar altos. Não gostamos dos altos, porque são altos e o que daríamos por mais cinco centímetros! Não gostamos dos mal vestidos porque são mal vestidos, e isso os categoriza como pobres e de mau gosto. Não gostamos dos peludos, porque são peludos, e os pêlos são feios. Não gostamos de mulheres a ocupar cargos de responsabilidade porque são mulheres e têm aquele andicape de engravidar e ter de faltar ao trabalho. Não gostamos de reciclar, porque reciclar é chato e não conseguimos aprender a que cor corresponde cada embalagem. Não gostamos nem de cães nem de gatos, porque são animais e cheiram mal e deitam pêlo e têm doenças. Não pensamos no sofrimento dos animais que comemos porque são animais para comer e não podemos desenvolver afectos por gado. Não gostamos de nos deitar na relva porque a relva está plantada na terra e a terra tem bichos. Não gostamos de andar descalços porque o chão é porco e sujamos os pés. Não gostamos de quem passa por nós na rua, porque ocupa o nosso espaço, e é gente feia, nós somos bem melhores. Não gostamos dos ricos porque são ricos e têm mais do que nós. Não gostamos dos pobres porque são pobres e têm menos que nós. Não gostamos dos nossos vizinhos porque são nossos vizinhos e levam vidas que não percebemos. Não gostamos das nossas famílias porque são nossas famílias e tinham a obrigação se lembrarem mais de nós ou de nos convidarem para isto e aquilo. Não gostamos dos nossos pais porque são nossos pais e estão velhos e chatos e dão trabalho e já viveram a vida deles. Não gostamos dos nossos colegas porque são apenas colegas e não se pode confiar neles para nada.
Não gostamos de viver, mas enquanto vivermos vamos pôr em prática a nossa equação de ódios, que não nos interessa compreender. Não gostamos de compreender apenas porque não gostamos de compreender. De resto, somos muito abertos e não temos nada contra ninguém.

quarta-feira, julho 09, 2008

Uma peça na engrenagem



Hoje, tivemos uma reunião com o patrão, lá na fábrica. Quer melhorar a produtividade, e esteve a explicar-nos a teoria da engrenagem.
O doutor Mouzinho, eloquente, com o dom da palavra, de cabeça erguida para a assembleia de trabalhadores, e braço estendido, disse que o que se pretende é o que funcionário faça um percurso de identificação com a sua tarefa, baseie o seu desenvolvimento pessoal e profissional nos pontos fracos e fortes do seu desempenho, e realize, a todo o momento, uma constante auto-avaliação do seu trabalho diário, obrigatoriamente por escrito. Mais, o trabalhador não se pode abstrair da organização, no seu todo, para definir os seus objectivos na linha de montagem, relativamente à tarefa que lhe cabe. Cada um de nós deve considerar-se uma peça da organização, e funcionar enquanto tal. Neste momento, lembrei-me do Charlot, em Tempos Modernos, e imaginei-me no seu lugar, uma peça na engrenagem. Apenas uma peça na engrenagem.
Fiquei triste. Não quero ser uma peça. Não quero fazer parte da engrenagem.


terça-feira, julho 08, 2008

As oportunidades comerciais da depilação masculina


Foto Harry Lapow, Hairy Man, 1963

Estive a observar o movimento de homens que entravam para fazer depilação na cabeleireira do meu bairro. Jovens. Compridões. Embora me tenha acostumado a ver homens depilados na praia e nas revistas, não me tinha ocorrido que faziam a depilação fora da casa.
A depilação é, portanto, uma tendência masculina destes tempos, pelo que quero deixar aqui um lembrete para quem se encontre desempregado e pretenda montar um negócio lucrativo: considerando o tamanho da superfície a depilar, e o preço da depilação por metro quadrado, aconselho vivamente um pequeno salão de depilação exclusivamente masculino. Um sítio onde eles se sintam bem, porque é só para homens, e possam descascar-se todos, e andar de badalo solto, como tanto gostam.
Num local estratégico. O Porto não conheço, mas em Lisboa a zona ideal seria o Príncipe Real, São Bento ou aquela zona do Jardim da Estrela a descer para o Rato, alargando até lá acima a Campo de Ourique. Que negociozão! Olhem que estou a falar a sério! Quanto é que custará depilar umas costas, um peito, uma pernaça de homem? O tamanho daquilo, em pelunça, quanto é que dará em euros?! É que um buçozito não se faz por menos de três, quatro! No bairro!
A mim até me cresce água na boca só de antecipar o prazer que seria cobri-los todos de cera depilatória e arrancar-lha aos repelões. Vou ali dentro buscar um guardanapo!


segunda-feira, julho 07, 2008

Mamonas assassinas, 2ª parte





O que acontece, afinal, aos implantes mamários acidentados?! Ou o saco se desloca dentro da mama, quer seja um implante intra ou extramuscular, e se posiciona anormalmente, causando um inchaço e deformando a mama severamente, ou pior, o saco rompe, o que é muito frequente, e o conteúdo espalha-se pelo corpo, o que apresenta alguns riscos para a saúde.

Se o conteúdo for uma solução salina, espalha-se rapidamente, e a mama diminui de tamanho, como um balão que se esvazia. Se for de silicone, os estragos são menores, porque o silicone é uma substância com outra densidade, e não se escapa tão facilmente. Em qualquer dos casos, a mama terá que ser alvo de operação de carácter urgente, para substituição dos implantes acidentados.

A parte pior, a qual me incomoda especialmente, é a que se segue. Tirados os implantes, mediante incisão peri-aureolar, e à mão, claro - o cirurgião mete os dedos dentro do buraco aberto no mamilo, rebusca o implante velho, e extrai-o - o que resta de mama é um saco velho e amarrotado que cai sobre o peito da paciente. Uma pele. Como se nada existisse lá dentro para além do silicone. Nem gordura, nem glândulas mamárias. O Dr. Rey (ver poste de sexta-feira passada) puxa essa pele como se fosse tripa para fazer chouriço, abre-lhe a "boca" mamilar, despeja soro fisiológico, porque é preciso lavar o "saco", e prepara-se para inserir o novo implante. Nesta fase, ou insere um implante ligeiramente menor, ou do mesmo tamanho, mas nesse caso é preciso retirar pele, porque esta esticou bastante com o que já lá esteve, e a operação torna-se mais complicada, com mais cicatrizes; outra opção, a mais escolhida, consiste em inserir um implante maior, em consonância com a pele esticada que é preciso encher.

Em alguns casos o implante é introduzido já cheio, o que é mais difícil, porque o médico tem de o empurrar com os dedos muito para dentro da mama; e o implante lá entra, lá se encaixa, e lá fica apertadinho como o Rossio na rua da Betesga. Noutros, o implante é inserido ainda vazio, e enchem-no mediante um tubo que entra por cada mamilo. Quando os implantes estão cheios, saca-se o tubo e cose-se o resto do mamilo. Vê-se a mama ir enchendo, crescendo de tamanho, como as das bonecas insufláveis.

E é assim que as mamas das americanas vão aumentando de ano para ano, enquanto a pele for esticando.

Aprendi tudo isto só a ver o referido programa (conferir poste de sexta passada). Claro que no meio de todos estes procedimentos, a pergunta que mais me faço é "onde está a mama verdadeira, a que existia antes do implante?", porque tudo o que vejo é uma pele ser cortada, esvaziada, lavada por dentro e de novo esticada. E isto, desculpem lá, já não é uma mama, mas uma mera prótese cujos fins decorativos, de tão artificiais, me escapam. Onde estão as glândulas mamárias daquelas raparigas e mulheres?

Devo dizer que a maior parte destas cenas de bloco operatório são horríveis de se ver, e que de vez em quando tapo os olhos com os braços e pergunto à Morena, já passou?, já passou? Sujeito-me a visionar estes filmes de terror, apenas para informação dos leitores do blogue; atenção, meus amigos, que tanto altruísmo, sinceramente, merecia uma distinção qualquer...

O leitor menos habituado ao meu estilo poderá pensar que sou inimiga da operação plástica, mas não é verdade. A cirurgia plástica e reconstrutiva presta-nos bons serviços, mas este uso que dela se faz, associa o hedonismo ao consumismo da pior forma. Vai longe demais no que considero ser a ética dos actos de natureza médica, promovendo a fobia à natureza do corpo humano e cedendo a uma visão estereotipada da beleza e da perfeição. Não resolve os problemas destas mulheres, os quais não se situam no seu corpo, mas na forma como julgam que os outros as vêem, e como, por consequência, se encaram. Continuam a odiar-se após a primeira operação, e a segunda e a terceira. Os seus corpos estão sempre errados. E destroem-se, literalmente, sem a dignidade do envelhecimento.

Quando olho para o rosto da Manuela Moura Guedes lembro-me de como ela era interessante quando tinha rugas e expressão. Agora não tem rosto, mas uma estranha massa inchada no lugar da face. Que aberrações fazemos ao nosso corpo?!

Eu sei o que é odiar o corpo, porque odiei o meu durante muito tempo, e ainda, cof, cof, mas como dizia a minha psicóloga, de quem me divorciei, é possível que haja quem a ache gorda, mas não serão todas as pessoas a achá-la feia, pois não? E o mais importante é o que você acha de si. Acha-se feia, Isabela? E eu respondi.


(Talvez ainda continue. Não sei. Ça dépend.)

domingo, julho 06, 2008

Ingrid e os media



Estamos todos de acordo relativamente à boa nova que constituiu a libertação de uma série de reféns em poder das FARC. Imagino o calvário que será para os que ficaram ainda aprisionados. De que medidas de retaliação terão sido alvo devido à fuga deste grupo? Onde estarão, e em que condições, neste momento?

Falo do assunto porque, no meio de todo este barulho, há algo que me incomoda. Primeiro, no meio de todos reféns chegados, fala-se e filma-se sobretudo a antiga candidata presidencial colombiana, Ingrid Betancourt. Ingrid Betancourt tranforma-se, assim, de mártir às portas da morte, em estrela mediática que descreve o seu dia-a-dia perante as câmaras.
Segundo, o presidente Sarkozi vai retirando dividendos políticos da libertação: beija-a respeitosamente, em exuberante campanha de marquetingue da sua pessoa, escuta-a reverencialmente, enquanto a doce Carla Bruni se arrepia, de mão na cara, cada vez que Ingrid fala na experiência da selva: os picos, as pulgas, as carraças, as tarântulas, e o resto da bicharada... Depois, no hotel, o filho de Betancourt apaga-lhe a luz do wc, sem querer, e ela declara ter pensado estar de novo em poder das FARC. Não sei, não sei, não quero ser injusta, mas acho que nesta altura esperaria mais contenção mediática da parte de uma pessoa que sofreu experiências tão traumatizantes.

O lugar de procriação é o indíviduo, não a família





Manuela Ferreira Leite afirmou a semana passada, na TVI, que o casamento tem como objectivo a procriação, e que, portanto, as uniões de homossexuais, não sendo dessa natureza, não deverão beneficiar das mesmas regalias fiscais e civis de um casamento.

Manuela Ferreira Leite é uma política conservadora, pelo que as suas afirmações não devem causar espanto. Pessoalmente, parece-me bem que tenha enunciado o seu pensamento a este respeito. Gosto de pessoas que dizem muito claramente aquilo que pensam. Com quem fala claramente é possível dialogar; pelo contrário, quando não sabemos que filosofia se esconde por detrás de abundantes discursos eufemísticos, não é possível comunicar.

Manuela Ferreira Leite não fez mais do que enunciar em voz alta aquilo que 70 por cento da população portuguesa pensa: as uniões homossexuais são contra naturam.
A natureza contra naturam que as civilizações baseadas numa religião institucionalizada atribuiram às relações entre pessoas do mesmo sexo, baseou-se na preocupação com a procriação, e centrou-se numa visão exclusivamente sexual destes relacionamentos. Porém, a sexualidade é apenas uma parte da vida dos homossexuais, pelo que sempre considerei tudo isto de uma injustiça e preconceito atroz.

Ouço com ironia afirmações como, eles agora são todos do clube, antigamente não era assim, etc., etc., ignorando que a humanidade, desde os princípios dos princípios, foi livre sexualmente, muito mais livre do que hoje. O clube sempre teve inúmeros praticantes, adeptos e simpatizantes.
O relacionamento sexual entre pessoas do mesmo sexo não pode ser considerado um pecado de natureza universal, como o vêem algumas religiões, porque outras religiões, igualmente legítimas, nomeadamente algumas orientais, não excluem a homossexualidade, não a castigam, considerando-a apenas mais um meio para atingir um fim. Portanto, em que ficamos? Trata-se de um pecado "local". No fundo, de um normativo. A noção de pecado associada ao sexo e à homossexualidade veio criar uma ordem social e sexual aparente, porque debaixo dos panos, tudo se manteve igualzinho.

O que escapa à sociedade em geral, e a Manuela Ferreira Leite, em particular, embora seja remediável, é que a família não é realmente um lugar de procriação. Como explicar, então, os inúmeros casais que não têm filhos, que se recusam a tê-los, ou não podem, e que preferem adoptar, ou não? Perdem o estatuto de família por recusar procriar ou por não poderem fazê-lo? Conheço meia dúzia de casos deste género. Vamos tirar-lhes os benefícios sociais e fiscais que o Estado concede ao que chama família? Convém sermos coerentes. Que diferença existe, ao nível de constituição de família, entre o senhor Belarmino e a dona Maria, que moram no prédio da minha mãe, e nunca tiveram filhos, e a Patrícia mais a Xana, que moram no meu, e tiveram há poucos meses uma bebé fruto de uma inseminação artificial?
A Xana inseminou a Patrícia com o esperma de um norueguês que contactaram através de um grupo de dadores existente na internet. O homem veio cá passar uns dias, pagaram-lhe a estadia, e foi-se embora todo feliz e cheio de escaldões. Não sabem a morada dele nem ele a delas. Foram três felizes encontros no hotel dele, em dias estratégicos. Chegou. Digam-me, por favor, quem é mais família? O senhor Belarmino e a dona Maria, ou a Xana e a Patrícia? É fácil, não é?

O lugar de procriação nunca foi a família, mas o indivíduo. Pensar desta forma implicaria voltarmos ao tempo de Salazar e ressuscitar o estatuto distinto do filho bastardo, com toda a ignomínia que acarretava.

A procriação não tem regras, ou melhor, recusa-as, por muito que no-las tentem impor. Quem quer ter filhos, tê-los-á, independentemente da natureza emocional ou sexual da relação mantida, ou na sua ausência; quem não quiser filhos, há-de evitá-los; e os acidentes, o foi sem querer, agora não calhava nada, o que é que eu faço, acontecerão sempre, com a mesma certeza com que vem a chuva e depois o sol.

Actualmente, com auxílio da reprodução medicamente assistida ou sem ela, porque os métodos artesanais também funcionam lindamente, nada, nada, nada impede um homem ou uma mulher, homossexuais, heterossexuais ou assim-assim, solteiros, casados ou a viver uniões de facto de se reproduzirem livremente. E aos núcleos de pessoas que escolheram viver juntas chama-se família, porque não há outra palavra para os designar. Que a porca torça o rabo como quiser torcê-lo, mas estas são famílias efectivas, funcionais, existem aos milhões por todo o lado, é impossível ignorá-las, não podem ser desfeitas, e terão de beneficiar dos mesmos direitos que os outros tipos de família, ou estaremos a estabelecer diferenças entre legítimos e bastardos, o que a própria lei não permite.

Portanto, é isto que temos de explicar à Dra. Manuela Ferreira Leite, com a formidável calma que advém da certeza e da segurança.

sexta-feira, julho 04, 2008

Mamonas assassinas

Dr. Rey, cirurgião-estrela de Dr. 90210

Desde que mudei para o Meo passei a apanhar um canal televisivo intitulado E!. No essencial, e no acessório, E! consiste numa espécie de revista do coração passada para a televisão. Quem é famoso, quem é o mais famoso entre o famosos, quem é sexy, quem é o mais sexy entre os sexies, episódios de novela da vida real com pessoas que julgo serem vip nos EUA, e o meu programa de humor preferido: Dr.90210. O programa não é de humor, mas para mim é como se fosse: que pratinho.
Trata de operações plásticas inimagináveis, a meu ver, respondendo à procura dos californianos por este produto: a transformação do corpo com que nasceram. Raparigas de 16 anos, e mulheres de 60, descobrem em si defeitos que eu não descortino, como o queixo ligeiramente recolhido ou as sobrancelhas descaídas. As clientes do Dr. Rey são mulheres absolutamente normais, com características faciais e físicas que as definem, que as tornam diferentes dos outros, e não menos bonitas, talvez até mais. Saudáveis mamas portuguesas, normais em tamanho e forma, e bem mantidas, causam traumas na Califórnia. Nunca um implante de silicone com menos de 500, 600 cc. Por outras palavras, umas mamonas. Aliás, qualquer corpo português normal teria de ser reformulado de cima até abaixo na clínica privada do Dr. Roberto Rey, brasileiro de nascimento, emigrado para os States para se tornar um cirurgião plástico famoso. Conseguiu. Bonitão. Vestido como um gigolo dos caros. Bisturi fácil e ligeiro.

As californianas realizam operações que nunca passariam pelo meu horizonte de possibilidades se não visse este programa. Vamos aos exemplos: uma das pacientes anunciou que ia realizar uma labioplastia, e tendo eu reparado que possuía os lábios finos, pensei que fosse engrossá-los. Engano meu, a paciente, ia operar os lábios vulvares, porque após o parto tinham ficado muito largos "e metiam-se para dentro durante o sexo".
Uma outra encontrava-se já de quatro no bloco operatório, e com as pernas abertas, realizando algo a que chamou um branqueamento anal, e que me pareceu pertencer à família dos peelings faciais da Lili Caneças. Aquilo deve queimar um bocado. Não sei. Segundo a paciente, o ânus ia ficar com muito melhor aspecto após o branqueamento. E eu acredito, mas também com o uso que dou ao meu, não preciso de melhorar. A mesma doente revelou que tinha implantes nas bochechas, mas que um deles começara a sair-lhe pelo olho, magoando, portanto foi preciso substituí-lo; mandou então prender ao osso, com um parafuso de titânio que não apita nos aeroportos, o implante substituto. Eu vi a operação. Faz-se rasgando a cara por dentro, acima do maxilar superior. A maior parte das intervenções ao queixo, bochechas e nariz fazem-se por dentro. Tenho ganho um grande endurance cirúrgico a ver o Dr. Rey. Cortar parece-me fácil. A coser também não havia de me sair mal, agora para estancar o sangue é que me dava jeito um curso técnico-profissional. A mesma cliente, eu deveria dizer, o mesmo filão de ouro, queixou-se muito de celulite na parte de trás de uma coxa. Eu vi: eram três piquinhos causados pelo próprio encaixe muscular e que quase toda a gente tem. Eu acho um encanto, mas os piquinhos envergonhavam-na tanto que não permitia ao marido vê-la de costas em biquini. O médico, com um sorriso, sempre o mesmo sorriso, pegou numa seringa, tirou-lhe gordura de onde ela não a tinha, porque é difícil encontrar-lha em que lugar seja do corpo, e injectou-lha nos buraquinhos que pareciam sorrisos. O homem passa a vida a transferir gordura daqui para ali; uma massa amarela misturada com sangue. Tira gordura das pernas, da barriga, e injecta-a na cara, aqui e ali, em múltiplas pequenas picadas que têm como efeito preenchê-la, encher rugas, o diabo a sete. E diz, apreciador, "aqui está um bela gordura". Convém ver o programa com a digestão já feita.
Outra cliente na casa dos 40, 50, é difícil dizer, já transformada numa múmia egípcia, e juro que não exagero; apenas menos seca, e menos castanha, até porque pinta o cabelo de louro e usa baton cor-de-rosa, repete, o meu corpo está melhor que aos 18 anos, o meu corpo está melhor que aos 18 anos. Honestamente, o corpo dela já não tem idade, mas também não respeita a ideia que tenho de um corpo: transformou-se numa estrutura suportada por implantes de fibra de vidro, metal e silicone. É um ciborgue. Tem os olhos muito arregalados, porque a pele da testa foi repuxada por uns fios interiores cosidos no alto do crânio, tapados pelos cabelos. É uma visão aterradora. Quem inicia este processo de operações é obrigado a viver nele até ao fim dos seus dias. Deixem-me explicar-vos o que acontece a uma mama com um implante de 600 cc. quando começa a descair, ou o implante rebenta numa queda de bicicleta?

(Continua amanhã, ou isso.)

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...