quinta-feira, julho 17, 2008

Desobrigada


Foto de Joel D. Levinson


A escrita entra em ritmo de férias a partir de hoje e até final de Agosto. Hei-de cá vir quando puder, quando uma leitura ou uma observação me motivarem um texto, e se a internet estiver perto, mas sem a obrigação que normalmente sinto de actualizar o blogue porque os leitores "já devem estar fartos daquele texto". Virei menos, mas hei-de vir.
Boas férias.

terça-feira, julho 15, 2008

A pobreza e o luxo




Guardei o recorte. O artigo chamava-se A necessidade de empobrecer. Tratava-se da crónica de Vasco Pulido Valente, no jornal Público, há quase um mês. VPV defendia a ideia de que o slogan mudar de vida, muito repetido pelos políticos como forma para resolver parte da crise, apelando a um uso cada vez mais moderado do petróleo, e recorrendo às energias alternativas, é uma fraude. Afirmava que não é hoje possível mudar de vida sem voltar à pobreza "pela força e pelo sofrimento". Para VPV, a registar-se um empobrecimento generalizado, "num país como Portugal, com a sua miséria e o seu atraso, 80 por cento da população não a suportaria. «Mudar de vida» seria pior que uma revolução, seria o fim de uma civilização".

Isto da pobreza, comoveu-me. Por outro lado, a ideia de fim de uma civilização, considerando o desastre que é a nossa, animou-me.

Eu própria defendo a ideia de que deveríamos todos ser mais pobres. Mas pobreza, a meu ver, é qualidade de vida, e não inclui qualquer sofrimento. A pobreza a que VPV se refere, ao falar dos tempos em que não havia telefonia nem auto-estrada nem ar condicionado, é apenas uma forma de vida que exclui os luxos da sociedade de consumo. Consumir menos, mais barato, melhor, e reaproveitar. Considero óptimo que as roupas e os livros e brinquedos passem de irmão para irmão, que a comida seja reaproveitada, que não se acendam luzes sem necessidade, nem se gaste água à toa. Continuo a bater na ideia de que todos compram produtos acima do que podem e necessitam. Sobretudo maquinaria, mas também roupas, sapatos, malas, mobiliário, pechisbeque. Uma coisa é pobreza, outra é a miséria. Ora, eu defendo que é possível viver modestamente, aquilo a que VPV chama pobreza, sem viver na miséria.

Ultimamente tenho andado à procura de um carro para substituir o meu, que chegou às últimas, e reparo que os vendedores de automóveis me apresentam viaturas afirmando, bem, não é um carro como aquele ali, que vai aos 200, mas chega com facilidade aos 160, 170, uma velocidade decente para auto-estrada. 160, 170?! Mas para que quero eu um carro a atingir velocidades dessas?! Eu quero lá circular a 160?! Quero andar sossegadinha, com uma velocidade moderadazinha, com um carro seguro, com bons travões, espaço para carregar cadelas e objectos, que sou de carregar, e boa suspensão, porque gosto de estradas más. O melhor possível em termos de segurança e consumo, aliado ao melhor preço. É o meu lema para tudo.

Não penso que seja fácil viver hoje confortavelmente sem frigorífico e máquina de lavar roupa. Não são luxos. No meu caso pessoal, devo incluir nesta lista uma televisão, aparelhagem de som e computador com ligação ADSL. E isto, sim, para mim, é luxo. Poderia viver só com os meus livrinhos. Como cultura, chegaria. Mas digamos que é um luxo mínimo. Defendo-me, escolhendo bem, e não desperdiçando aquilo que já tenho. Acho os écrans plasma muito funcionais, com óptima imagem, mas os respectivos preços não, por isso, quando comprei a minha televisão, exclui essa hipótese. E não me passa pela cabeça deitar fora esta televisão para adquirir um objecto melhor. Viverá o seu tempo, e depois logo se vê. Exactamente como com o meu carro. Já prometi que vou andar mais de transportes públicos, mas por uma série de motivos pessoais não consigo cumprir as minhas obrigações sem um carro.

A minha ideia de pobreza está, portanto, relacionada com a esforçada recusa do luxo. Os portugueses acham que viver bem é viver no luxo, e sentem uma enorme apetência pelos sinais exteriores de riqueza. É exactamente aí que é preciso cortar, emendar. Melhor, educar. Só um povo muito pobre, pobre de ideias, de valores - é essa a nossa maior pobreza - pode julgar suplantar a pobreza por via da aparência, do luxo. Seria o mesmo que pintar um velho bidão ferrugento com verniz de purpurina. Não precisamos de luxo, mas de eficácia, e de conforto na eficácia. Isso já é viver bem, ou, se quiserem, pobremente.

Já agora, a secretária sobre a qual tenho o computador no qual escrevo este blogue, veio lá de baixo do lixo. Exactamente. Estava entre os contentores do lixo orgânico e os da reciclagem de vidro, papel e embalagens. Alguém a deitou fora. É uma óptima secretária em estado novo, a qual, com sorte, ainda chegará aos os meus netos. Pobre, muito, muito pobre foi aquele que deitou fora uma secretária destas. A minha mãe admitiu que era uma excelente secretária, mas acrescentou que devia parecer muito mal aos meus vizinhos verem-me levar para casa coisas do lixo. Já não me lembro bem, mas acho que me ri.


domingo, julho 13, 2008

A moral de M. Shyamalan


Fotograma de O Acontecimento de M. Shyamalan


A moral está muito fora de moda. As pessoas escarnecem da moralzinha, como de tudo o que não esteja profundamente enraizado na materialidade. Não existe uma moral sobre nada, o que existe é o ser humano afogado nos seus interesses pessoais, no que consegue realizar ou adquirir para os satisfazer. Se tem meios para o conseguir, tudo está certo e os deuses em calma. Se não tem, a vida é injusta. Toda a vida contemporânea se centra no individuo enquanto centro do mundo. Tudo o que existe na Terra deve subordinar-se ao individuo e servi-lo, sendo que não cabe ao individuo subordinar-se à Terra e servi-la. Não há muitas décadas, ouvia-se a Terra e esperava-se pelas suas ordens. Hoje, cala-se a Terra, elimina-se esse obstáculo ao desenvolvimento da sociedade.
Toda esta filosofia de vida parece ignorar uma verdade da qual toda a existência deve partir: somos de Terra. Lama. Mesmo que o nosso corpo se aproxime a passos largos do ciborgue, somos ainda Terra, e sê-lo-emos enquanto formos mortais. A eliminação da Terra enquanto organismo vivo do qual viemos e ao qual regressaremos, implica uma destruição mais rápida das formas de vida futura. Não apenas dos seres que estão enraizados objectivamente no chão, como as árvores, as plantas, os animais, mas da nossa própria vida. O afastamento de uma existência em equilíbrio com a natureza, e a sua consequente destruição, é um ritual suicida. Se deitarmos abaixo o pinhal de Leiria, cimentarmos o solo sobre ele, e construirmos centros comerciais desinfectados de 30 em 30 minutos, para evitar as infecções, as bactérias, as alergias, desenvolveremos mais infecções, mais bactérias e alergias. As crianças de hoje podem nascer todas indigo, ter vindo todas à terra para nos preparar para a transição em 2012, mas, caramba, como sofrem de asma e de alergias ao sol, ao frio, ao tempo, às árvores, às flores, à relva, à alface. Que fragilidade aos elementos! Vão atravessar 2012 atafulhadas em embalagens de lenços de papel e de bombas para as crises asmásticas.

O filmes de M. Night Shyamalan estão cheios de uma moral sobre o enorme poder da natureza, e o castigo em que incorremos ao desrespeitá-la. Gosto disso. Dessa moral. Desse poder. Do mistério vagamente inocente no qual envolve toda a existência. O terror de Shyamalan às vezes faz-me rir. Em O Acontecimento, aconteceu-me. Não se tratava de um terror igual ao que concebemos normalmente na sétima arte, mas de uma caricatura do terror: o que em M. Night Shyamalan existe de terror somos nós com o nosso medo à solta. O mesmo medo que sentíamos quando éramos pequenos e imaginávamos que no escuro do quarto pairavam seres mágicos, e, por debaixo da cama, cobras e crocodilos.
Quem é o tipo, este Shyamalan, para nos vir dizer que se fizermos isto, teremos aquilo? E repetir-se na mensagem, duas, três vezes.
M. Night Shyamalan insiste em escrever e filmar a essência do individuo, constituindo-o como mera parte de um todo natural do qual participam os elementos, a fauna e a flora, em igual grau de importância. Resta-nos baixar à bolinha perante um cedro, uma ninhada de coelhos ou um tufo de erva. Perante isso valemos pouco, valemos a lama de que somos feitos, nem mais nem menos. E eu gosto disso em Shyamalan: dessa insistência numa moral à qual todos querem fugir. Gosto que nos faça temer as árvores, as nuvens, o chão, que lhes restitua o poder que não pode ser-lhes tirado. Os críticos afirmam, a propósito de O Acontecimento, que as árvores se voltaram contra os humanos. Nada mais errado. Os humanos voltaram-se contra as árvores, logo, os humanos voltaram-se contra si. É só isto, e é muito simples.

sábado, julho 12, 2008

A esperança


Tive tanta esperança aqui. Tive tanta esperança naquele lugar além; naquela estrada, tive uma esperança quase total, uma fé toda absurda. Neste banco, neste jardim, nesta praia, ali naquele primeiro-andar ao Feijó, na camioneta para Setúbal, e numa casa velha a caminho de Cantanhede, e mais acolá, naquela lavra de arroz quase maduro.
Os anos passam muito depressa, e, resistindo-lhes, tenho tido muita esperança em todos os lugares, de manhã, à tarde e à noite, porque um dia me disseram que a esperança é a última a morrer. Com sorte, eu morro na segunda, e a esperança na terça, sem que nunca nos tenhamos encontrado.

sexta-feira, julho 11, 2008

Os campeões


No autocarro entre o Fogueteiro e o Casal do Marco.
Dois rapazes nos seus 18, sentados nos últimos bancos. Um baixote, de óculos antiquados, fora de moda: pobre. Parece um sapo a rir-se. Julga-se feio. Acho-lhe alguma piada. Outro mais alto, alourado falso, suado, calças rasgadas, um certo ar de sujo: pobre.
Julga-se bonito. Não tem piada alguma. O que se julga feio presta reverência ao que se julga bonito. Está tudo claramente esmiuçado na linguagem corporal que estabelecem.
Numa paragem entram duas meninas dos seus 15 anos.
Asseadinhas, arranjadinhas. Pobres. As duas muito bonitas, mas uma delas percebe-se que veio do Leste da Europa. Um louro branco, pele muito clara, olhos azuis, formato de rosto quadrado. Linda e diferente demais para os nossos padrões de beleza morena.
Os rapazes no último banco do autocarro começam a remexer-se; risinhos; ouço pouco; vejo mais. O que parece um sapo contente vai do lado da janela e provoca o colega. Diz-lhe algo do género, gostavas, não gostavas? O outro ri-se, quase boçal, afirmativo. O sapo não tem coragem, acha que para si não seria possível manjar tão rico, mas provoca o amigo, achas que conseguias? E o outro, oh, pá..., oh, pá..., e a sua expressão facial não engana; o que ele lhe responde é que, pá, aquilo marchava tudo. Mas ambos sabem que é demasiada areia para qualquer das camionetas.
O sapo distrai-se das miúdas, olha através da janela e começa a cantarolar um tema dos Queen: we are the champions... mas não sabe o resto da letra. O outro, o bonitão que não é bonito, sabe. Percebo que é uma música com cuja letra se identificam. O bonitão que não é bonito continua, and we will fight till the end... O outro entusiasma-se, repete, and we will fight till the end, mas calam-se, ambos, após o breve coro. Não sabem mais.
Olho-os de novo, porque o que vejo não me chega. O que significará para eles lutar até ao fim? Sentir-se-ão campeões de quê? Qual será a sua luta?

quinta-feira, julho 10, 2008

Extrema solidão



Não gostamos dos homossexuais porque são homossexuais, e as suas práticas são contra naturam. Não gostamos dos pretos porque são pretos e cheiram a catinga. Não gostamos dos imigrantes porque são imigrantes e nos roubam trabalho. Não gostamos dos brasileiros porque são brasileiros e vivem às três famílias no mesmo apartamento e fazem muito barulho. Não gostamos dos gordos, porque são gordos, e não controlam o que comem. Não gostamos dos magros, porque são magros e nós também gostaríamos de ser. Não gostamos dos baixinhos porque são baixinhos e ainda por cima não há nada que os faça ficar altos. Não gostamos dos altos, porque são altos e o que daríamos por mais cinco centímetros! Não gostamos dos mal vestidos porque são mal vestidos, e isso os categoriza como pobres e de mau gosto. Não gostamos dos peludos, porque são peludos, e os pêlos são feios. Não gostamos de mulheres a ocupar cargos de responsabilidade porque são mulheres e têm aquele andicape de engravidar e ter de faltar ao trabalho. Não gostamos de reciclar, porque reciclar é chato e não conseguimos aprender a que cor corresponde cada embalagem. Não gostamos nem de cães nem de gatos, porque são animais e cheiram mal e deitam pêlo e têm doenças. Não pensamos no sofrimento dos animais que comemos porque são animais para comer e não podemos desenvolver afectos por gado. Não gostamos de nos deitar na relva porque a relva está plantada na terra e a terra tem bichos. Não gostamos de andar descalços porque o chão é porco e sujamos os pés. Não gostamos de quem passa por nós na rua, porque ocupa o nosso espaço, e é gente feia, nós somos bem melhores. Não gostamos dos ricos porque são ricos e têm mais do que nós. Não gostamos dos pobres porque são pobres e têm menos que nós. Não gostamos dos nossos vizinhos porque são nossos vizinhos e levam vidas que não percebemos. Não gostamos das nossas famílias porque são nossas famílias e tinham a obrigação se lembrarem mais de nós ou de nos convidarem para isto e aquilo. Não gostamos dos nossos pais porque são nossos pais e estão velhos e chatos e dão trabalho e já viveram a vida deles. Não gostamos dos nossos colegas porque são apenas colegas e não se pode confiar neles para nada.
Não gostamos de viver, mas enquanto vivermos vamos pôr em prática a nossa equação de ódios, que não nos interessa compreender. Não gostamos de compreender apenas porque não gostamos de compreender. De resto, somos muito abertos e não temos nada contra ninguém.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...