
Fotograma de
O Acontecimento de M. Shyamalan
A moral está muito fora de moda. As pessoas escarnecem da moralzinha, como de tudo o que não esteja profundamente enraizado na materialidade. Não existe uma moral sobre nada, o que existe é o ser humano afogado nos seus interesses pessoais, no que consegue realizar ou adquirir para os satisfazer. Se tem meios para o conseguir, tudo está certo e os deuses em calma. Se não tem, a vida é injusta. Toda a vida contemporânea se centra no individuo enquanto centro do mundo. Tudo o que existe na Terra deve subordinar-se ao individuo e servi-lo, sendo que não cabe ao individuo subordinar-se à Terra e servi-la. Não há muitas décadas, ouvia-se a Terra e esperava-se pelas suas ordens. Hoje, cala-se a Terra, elimina-se esse obstáculo ao desenvolvimento da sociedade.
Toda esta filosofia de vida parece ignorar uma verdade da qual toda a existência deve partir: somos de Terra. Lama. Mesmo que o nosso corpo se aproxime a passos largos do ciborgue, somos ainda Terra, e sê-lo-emos enquanto formos mortais. A eliminação da Terra enquanto organismo vivo do qual viemos e ao qual regressaremos, implica uma destruição mais rápida das formas de vida futura. Não apenas dos seres que estão enraizados objectivamente no chão, como as árvores, as plantas, os animais, mas da nossa própria vida. O afastamento de uma existência em equilíbrio com a natureza, e a sua consequente destruição, é um ritual suicida. Se deitarmos abaixo o pinhal de Leiria, cimentarmos o solo sobre ele, e construirmos centros comerciais desinfectados de 30 em 30 minutos, para evitar as infecções, as bactérias, as alergias, desenvolveremos mais infecções, mais bactérias e alergias. As crianças de hoje podem nascer todas indigo, ter vindo todas à terra para nos preparar para a transição em 2012, mas, caramba, como sofrem de asma e de alergias ao sol, ao frio, ao tempo, às árvores, às flores, à relva, à alface. Que fragilidade aos elementos! Vão atravessar 2012 atafulhadas em embalagens de lenços de papel e de bombas para as crises asmásticas.
O filmes de M. Night Shyamalan estão cheios de uma moral sobre o enorme poder da natureza, e o castigo em que incorremos ao desrespeitá-la. Gosto disso. Dessa moral. Desse poder. Do mistério vagamente inocente no qual envolve toda a existência. O terror de Shyamalan às vezes faz-me rir. Em O Acontecimento, aconteceu-me. Não se tratava de um terror igual ao que concebemos normalmente na sétima arte, mas de uma caricatura do terror: o que em M. Night Shyamalan existe de terror somos nós com o nosso medo à solta. O mesmo medo que sentíamos quando éramos pequenos e imaginávamos que no escuro do quarto pairavam seres mágicos, e, por debaixo da cama, cobras e crocodilos.
Quem é o tipo, este Shyamalan, para nos vir dizer que se fizermos isto, teremos aquilo? E repetir-se na mensagem, duas, três vezes.
M. Night Shyamalan insiste em escrever e filmar a essência do individuo, constituindo-o como mera parte de um todo natural do qual participam os elementos, a fauna e a flora, em igual grau de importância. Resta-nos baixar à bolinha perante um cedro, uma ninhada de coelhos ou um tufo de erva. Perante isso valemos pouco, valemos a lama de que somos feitos, nem mais nem menos. E eu gosto disso em Shyamalan: dessa insistência numa moral à qual todos querem fugir. Gosto que nos faça temer as árvores, as nuvens, o chão, que lhes restitua o poder que não pode ser-lhes tirado. Os críticos afirmam, a propósito de O Acontecimento, que as árvores se voltaram contra os humanos. Nada mais errado. Os humanos voltaram-se contra as árvores, logo, os humanos voltaram-se contra si. É só isto, e é muito simples.