Este vídeo corresponde ao nascimento de Matilda, filha de duas lésbicas inglesas, sem bigode, sem músculos, sem voz grossa, porém, com com péssimo gosto musical; duas mulheres absolutamente normais, quem diria?! A criança foi fecundada através de inseminação artificial caseira (1), um método como qualquer outro, e o dador de esperma aparece numa das imagens do vídeo.
Eis o que considero uma família feliz. Não sei se o dador é amigo das mães, se apenas se conheceram para o efeito. Sei que a menina está ali, nasceu, e que nascem, desta forma, muitas meninas e meninos, todos os dias. É impossível controlar esta vaga procriativa que exclui da concepção de um ser humano o romance e o sexo entre dois indivíduos. Essas crianças são aos milhões, por todo o mundo. Parece-me um extraordinário avanço civilizacional que um homem ou uma mulher não dependam de um casamento, ou de uma relação conjugal para se multiplicarem, mas apenas de uma generosa colaboração.
Uma jovem comentou, neste blogue, um dia destes, que teria muita vergonha se os colegas da escola descobrissem que era filha de duas lésbicas, caso fosse. Era o seu argumento contra a procriação em famílias homossexuais. Bem, minha querida, compreendo: na escola existe imenso bullying a propósito de tudo. Comigo, por exemplo, gozavam porque era gorda; com a Teresa Esparguete, porque era magricelas; com o miúdo do 7º F, porque parecia mariquinhas; com o do 8º H porque tinha a cabeça grande... é difícil sair-se ileso de traumas da escola, mas ainda se vive um bocado depois disso. Há pessoas que conseguem mesmo chegar a velhas. Além disso, por este caminho, a coisa está aí, impossível voltar atrás, deitar fora, fechar os olhos; dentro de pouco tempo, uma percentagem razoável de alunos começará a ter duas mães ou dois pais nas reuniões de encarregados de educação, e já não haverá razão para vergonhas. Podem é, porque a maldade é sempre infinita, gozar com os filhos das famílias tradicionais, que esses, sim, começam a rarear.
(1) Receita para inseminação artificial caseira (ingredientes e utensílios): esperma (para obter o referido fluído deve proceder-se exactamente como nas clínicas, quando se realizam testes de fertilidade para contagem de espermatozóides viáveis); um recipiente de plástico igual ao que se usa para guardar urina para análise; uma seringa de tamanho médio; uma cama; uma mulher em período ovulatório cheia de vontade de engravidar. Este método serve seja para quem for: alguns casais heterossexuais com problemas de ejaculação, independentemente do tipo de problema ou do motivo, são aconselhados a proceder desta forma.

