quinta-feira, julho 31, 2008

Desde Janeiro, 29 mulheres assassinadas pelos companheiros


O Courrier Internacional deste mês trazia, como tema de capa, a questão da divisão das tarefas domésticas dentro do casal, as quais continuam a carregar sobremaneira as mulheres, mesmo quando ambos os membros do casal trabalham fora de casa. As mulheres continuam a fazer o triplo do trabalho doméstico.
A percentagem de trabalho realizado pelas mulheres que não estão empregadas não diminui significativamente em relação às que estão. Mesmo quando é o homem a ficar em casa, grande parte do trabalho doméstico continua a recair sobre as esposas. Portanto, a conclusão do estudo assumia que a quantidade de trabalho realizado não assenta na quantidade de dinheiro que se traz para governar o núcleo, mas sim na tradicional divisão de tarefas pelos diferentes sexos. É esse o factor determinante.
Por outro lado, nos casais homossexuais, as tarefas encontram-se melhor repartidas. Quando há filhos, cada elemento reclama para si grande parte do trabalho e responsabilidades com aqueles relacionados o que, como qualquer pai ou mãe sabe, não é pêra doce.
O referido estudo, publicado no Courrier Internacional deste mês, deve considerar-se deveras importante no que respeita aos estudos de Género; embora se tenha baseado em dados recolhidos pela Sociologia e Psicologia nos Estados Unidos, aplica-se que nem uvas à nossa salada de fruta ibérica.

Ocorreu-me que os meus primos chegados, actualmente com 18 e 22 anos não foram educados para fazer coisa alguma dentro de casa. Não sabem limpar, coser, cozinhar. Creio que saberão fazer a própria cama. Não são normalmente solicitados a realizar tarefas domésticas. Ora, este tipo de educação não abona grande coisa a favor da divisão de tarefas domésticas conjugais ou outras. Esta cultura, esta educação transmitida aos rapazes é tudo menos saudável. Quero acreditar que um dia eles se esforçarão por realizar as tarefas domésticas a par com as pessoas com quem viverão, por uma questão de lógica e justiça, mas não é certo.

No jornal Público de hoje, o Observatório de Mulheres Assassinadas - até me custa escrever isto - divulga o relatório de ocorrências relativas aos primeiros sete meses do corrente ano: 29 mulheres mortas pelos companheiros num cenário de violência doméstica. Excluídas estão, obviamente, as tentativas de homicídio cujas vítimas escaparam aos ferimentos, que serão o triplo. Ou seja, desde Janeiro, foram mortas pelos companheiros ou namorados, uma média de quatro mulheres por mês. Num país tão pequeno como nosso, convém meditar sobre o assunto. Sobretudo, porque os discursos públicos oficiais, que entraram nos pensamentos e linguagens comuns, relevam uma igualdade de géneros e paridade de comportamentos e oportunidades que a vida lá fora não me mostra. Os discursos decoram a realidade, bem distinta, a qual não depende tanto, como se pensa, do estrato social a que se pertence.
Portanto, bem me podem vir com a conversa sobre o sucesso das mulheres, sobre a igualdade das mulheres, sobre as superiores capacidades das mulheres, que enquanto eu as vir a morrer que nem tordos às mãos dos homens com quem dormem, porque se não és minha não és de mais ninguém, não permitirei que se reclame, na minha cara, qualquer sucesso. Enquanto as vislumbrar, quando chegam do emprego, na cozinha a fazer o jantar, e simultaneamente dando banho aos miúdos, enquanto o marido vê o telejornal, e vai à net, não vejo igualdade alguma que mereça alardeamento.

Mas devo relevar que as mudanças a acorrer não dependem exclusivamente do sexo masculino. Em 20, 30 anos os homens poderão mudar, mas se as mulheres continuarem a permitir deixar-se conduzir como entidades destituídas de pensamento e vontade, totalmente dependentes da segurança e desejos dos seus companheiros, tudo continuará igual.
Estou absolutamente convencida que este tipo de comportamento do sexo masculino só sobrevive porque as mulheres permitem, porque o consideram a ordem natural das coisas. Ora, convém que as investidas do macho não saiam do quarto.
Recentemente, regressei de uma viagem ao estrangeiro; no mesmo voo viajava um grupo de meia de dúzia de jovens portuguesas, alegres, barulhentas, que puseram o avião inteiro a rir-se. Com elas traziam um rapaz da mesma idade. Vinha de guarda.
Andar às ordens de um homem (ou de uma mulher ou de uma máquina) e depender da sua protecção, foi coisa que nunca me passou pela ideia, por carecer de sentido na minha visão do mundo. Somos só donos de nós, e, tirando os filhos até certa idade, não mandamos em ninguém.

Sou uma mulher. Matéria de carne humana, povoada de ocasionais emoções ruins. Também me quis vingar das relações amorosas falhadas com um valente par de estalos, umas joelhadas nos tomates, mas não vinguei; evitei, como quem tem vontade de comer uma carcaça cheia de manteiga, e não come; e os sentimentos, com o tempo, esfriam, graças a Deus. Agora, assassinar um amante, porque se não for meu não será de mais ninguém, sinceramente, é lá coisa que possa ocorrer a alguém culturalmente saudável?



quarta-feira, julho 30, 2008

O ponto G



As revistas femininas, e até as masculinas, preocupam-se cada vez mais com explicações precisas sobre a localização do ponto G. Acho uma ternura, e uma missão pedagógica de elevado valor cívico, que se preocupem em fornecer ao leitor noções fundamentais de geometria. Sobretudo a pessoas como eu, que nunca foram grandes barras a matemática.

terça-feira, julho 29, 2008

Casos da Vida - Bruno



Bruno pretende uma namorada que seja muito bela, inteligente mas submissa, frágil mas forte, com plasticidade mental para aceitar inovações contudo consciente do seu papel feminil, compreendendo que mulheres e homens não são a mesma matéria, e que essa diferença é muito importante ao nível dos comportamentos, sobretudo na cama
Infelizmente,a maior parte das mulheres que conhece tem pêlos. Bruno censura-as mentalmente por não fazerem a depilação como deve de ser. Tornam-se, assim, ásperas, e uma mulher deve adaptar-se ao que é agradável ao seu parceiro. E são, parece-lhe, ele acha, demasiado emancipadas, embora nunca faça alusões desta ordem. Permanecem nos seus pensamentos.
Respeita tão inteiramente a essência do feminino, que só por isso ainda não arranjou namorada. Não quer nada passageiro, superficial ou indigno. Sobretudo para a mulher. É muito selectivo, e o modelo da mulher desejada ainda não lhe aconteceu em qualquer dos corredores do emprego. Quem o conhece, sabe que as considera macias e mornas como a vida antes da vida; num outro plano de análise, espiritualmente superiores, sagradas. A matriz do mundo.
Por isso, enquanto a mulher ideal não surge, prefere ir frequentando uma amiga de uns amigos, aos sábados. Ultimamente, com a descida de poder de compra, apenas quinzenalmente. Depilação integral. É uma jovem que pratica sexo pago para evitar prostituir-se.

domingo, julho 27, 2008

Casos da vida - Andreia


A vida é que está difícil, por isso dorme com os amigos e eles pagam-lhe. E os amigos dos amigos. E os amigos dos amigos dos amigos. Até uns que vieram agora de férias da Alemanha, luso-descendentes.
Andreia arranjou este esquema para evitar ser prostituta.


sábado, julho 26, 2008

Deseducação à hora do lanche


Quando chega o bom tempo gosto de ir ler para a esplanada. Levo comigo as cadelas, que se deitam no chão, ao lado da cadeira, ou debaixo dela, e ali ficam contemplando o movimento, pachorrentas, lambendo as patas ou dormitando à sombra enquanto leio. Numa mesa perto, há de vez em quando uma criança lanchando, cuja mãe incentiva a beber o leite apontando para as minhas cadelas e dizendo, olha os cães, se não bebes vêm os cães maus e bebem-te tudo, olha os cães. Levantou a cabeça, vês?!, já está a olhar para ti, se não te despachas...
Tenho pena da mãe, mas tenho muito mais pena da criança.

terça-feira, julho 22, 2008

A inocência


Fotograma de Viagem em Itália, Roberto Rosselini, 1953


Moi et mon ami tivemos uma discussão a propósito do filme Viagem em Itália, de Rosselini, 1954. Não gostei. Datado. Lugares-comuns. Uma mulher e um homem que se detestam, que não comunicam, pior, que se agridem psicologicamente, percebendo-se que tudo aquilo vai acabar em reconciliação. Sem surpresas. Previsível. Um filme estúpido, afirmei.
Não suporto, na vida real nem na arte, a temática da mulher resignada a um casamento que não passa de um campo de batalha. São coisas que me transcendem. Se ao menos ela lhe espetasse um sólido ferro da cozinha no ombro, e o deixasse a esvair-se em sangue, e arranjasse um belo napolitano, e com ele tivesse uma aventura escaldante... podia ser que me conformasse.
Mon ami ficou para morrer. Que eu era taxativa, e burra. Ai, ai, quase lhe espetei eu um ferro no coração. Espèce de connard. Que não passava de um elitista presunçoso, convencidão, intelectual só das aparências, que considerava antes a marca, acima do produto. Só porque era um... Rosselini. Como se Rosselini fosse um Deus, e os filmes dos anos 50, a preto-e-branco, todos excelentes, porque são dos anos 50 e a preto e branco. Je lui ai accusé.

Mas ontem fomos ver o Panda do Kung Fu, da Walt Disney, e ambos viemos maravilhados, em total consonância opinativa.

Conclusão: devemos deixar para os adultos os filmes de adultos, e para as crianças os filmes das crianças.

segunda-feira, julho 21, 2008

O meu dente-de-leão





Quando estava a varrer a cozinha, apareceu-me, dançando com os cabelos da vassoura, uma semente de dente-de-leão. Apanhei-a sem a magoar, e soprei-a. Que lindo! Tinha mil patas de aranha branca e um coração de palha. Larguei a vassoura junto ao lava-louça, e estivemos a brincar. Caía tão lentamente, com tanta suavidade. Como um floco de neve elegante. Se movimentava o meu braço para a direita, ela elevava-se ou virava à esquerda, inesperada. Impedi-a de pairar sobre o frigorífico, porque não queria perdê-la da vista, nem suportaria que ficasse a morrer entalada num sítio onde não pudesse aceder-lhe.
Bailámos
muito tempo, até que reparei na vassoura caída no chão; tinha ainda muito que fazer, e quis guardar a semente de dente-de-leão para brincarmos mais tarde. Como tinha medo que fugisse com a deslocação do ar, ou que acabasse nas patas das cadelas, procurei uma caixa onde pudesse conservá-la certa. Acabei por metê-la numa embalagem quase vazia de chá preto da Zambézia. Continuei a trabalhar, mas quando passava o chão a esfregona, lembrei-me que o chá é muito odorífero, se calhar a semente podia sentir-se mal, ou ter falta de ar assim fechada; eu também não gostava que me fechassem, e, portanto, tinha a certeza que ela seria muito mais feliz se pudesse voar, ser livre para sempre, noutras mãos, ou não. Mas livre para voar com o vento. Abri a caixa do chá, levei-a na mão até à janela, como se fosse um passarinho muito frágil e pequeno, e soprei-a para o infinito.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...