quinta-feira, agosto 07, 2008

Casos da vida - Dany e Vanessa


Sinais exteriores de riqueza


Não têm emprego e pagam a renda da casa de seis em seis meses, só quando a mãe dela vem de visita, limpa a casa e deixa o frigorífico com comida para uma semana, em taparueres da loja dos chineses. O rendimento social de insersão mal lhes dá para carregar o telemóvel com valor suficiente para o envio de mensagens, onde se lê, liga-me que não tenho saldo. Cravam cigarros à malta do café, mas não consomem, apenas se sentam na mesa alheia. Às vezes pagam-lhes uma bica. A malta. À noite, encostam-se ao muro da praça emborcando Sagres choca, que compram no supermercado às garrafas de litro. Podem não ter um Ferrari, nem uns tenis de 200 euros, nem sequer um euro e noventa para o bilhete de autocarro para a Costa, mas têm um pit-bull de orelhas cortadas, de ar feroz, coleira de picos, trela curta. E um pit-bull... um pit-bull mete respeito.

quarta-feira, agosto 06, 2008

Num dia soalheiro, lia o jornal numa casa solarenga


O P2, suplemento de ontem do jornal Público, trazia como tema de capa um artigo sobre a montanha K2, onde há poucos dias morreu mais de uma dezena de alpinistas. Leio todos os artigos sobre arriscadas aventuras de alpinismo, por considerá-lo uma actividade que não lembraria ao Marquês de Sade, se fosse masoquista.

Como actividade de Verão, há lá alguma coisa que substitua um belo livro lido à sombra, no pátio de uma casa solarenga?
Na página 4 do referido artigo, no final da quarta coluna de texto, pode ler-se o seguinte: "Algo de muito semelhante aconteceu em 1995, quando um grupo de alpinistas foi apanhado pelo mau tempo na descida. Um dia solarengo e calmo (as chamadas telefónicas do cume fizeram-se em condições perfeitas)".
Refiro-me a este erro lexical porque se tornou cada vez mais habitual, nos jornais e na blogosfera. É muito raro encontrar o vocábulo solarengo atribuído a um solar (casa), como seria correcto.
Os dias nunca são solarengos, a menos que pretendamos criar um recurso de estilo fazendo uso da palavra como adjectivo expressivo, a qual, de qualquer forma, terá de remeter para o solar (casa). Os dias são soalheiros ou ensolarados. Solarengos, só os solares.

terça-feira, agosto 05, 2008

A menstruação nos anos 70 II


Tínhamos dores lancinantes que nos cortavam a carne da barriga como facas afiadas. Deitávamo-nos em posição fetal, gemendo, e alguém nos preparava sacos de água quente a escaldar, que esborrachávamos contra ao útero para aliviar as dores. Não aliviava muito. Queríamos cauterizar as entranhas. Às vezes pensávamos, depois disto nunca conseguirei ter filhos, mas tivemos, aos dois e três. Não havia comprimidos que nos tirassem as dores. Era assim. As mulheres tinham dores, era preciso sofrê-las. Não comíamos, não bebíamos, ficávamos prostradas à espera que nos passasse aquele calvário, e quando acabava sentíamos que tínhamos parido trigémeos, a ferros. O que poderia ser pior do que aquilo?!

A menstruação nos anos 70 I


Mudávamos os lençóis uma vez por semana. Ao sábado. Se a menstruação nos vinha ao Domingo, dormíamos a semana inteira sobre o sangue seco que nos escorria por entre as pernas, durante o sono. O quarto exalava um cheiro opaco a sangue, a mulher, como uma mítica gruta de resguardada fertilidade.


Puppy, puppy











Algumas considerações totalmente aleatórias sobre Marilyn Monroe:


1. Podia chegar cinco horas atrasada a uma sessão de fotografias. Ninguém reclamava. Os meus amigos não me perdoam 20 minutos de atraso na bicha da ponte.

2. Se fosse viva, seria apenas dois anos mais nova que a minha mãe. Para seu mal, haveria de estar toda esticada e fazer confissões do tempo da Maria Cachucha, como a Beatriz Costa.

3. Foi um desperdício de vida e beleza. Quando somos jovens e belas e com tendências auto-destrutivas, a urgência total não está em procurar um homem e uma caixa de hipnóticos, mas um psicólogo, um bom psicólogo, três vezes por semana, tal como se toma um antibiótico, um analgésico, um retroviral.

4. Não foi apenas uma mulher bela. A sua imagem era doce e inocente como a de um cãozinho com poucas semanas. É tal doçura que a mantém viva, como iconografia do feminino e de um ideal de existência que não há, nunca houve entre adultos que lutam para pagar os empréstimos bancários.

5. Morreu cinco meses antes de eu nascer. Graças a Deus não sou a sua reencarnação.

sexta-feira, agosto 01, 2008

Grávida

Foto: Stefan Beutler



Está na moda na blogosfera, e eu queria muito, muito, escrever postes descrevendo a minha deliciosa barriga grávida. Usar palavras como parir, e expressöes como placenta descaída, tenho pano na cara, sinto o crianço dar pontapés, tenho contracções, o puto está atrasado, ou então, chegou adiantado, o malandro.
Escrever sobre a amamentação, reclamando o peso das mamas como odres, os mamilos gretados, a criança chuchando que nem um bezerro e mijando como um burro. E as noites sem dormir, os babetes babados de tudo, os biberons desinfectados, as idas ao centro de saúde, o teste do pezinho... Não esquecendo os hábitos alimentares da criança, eventualmente mais crescida, já comeu dois ovos kinder, e agora, vejam bem, não quer a sopa, a culpa é da avó que lhe dá tudo o que pede. Não pode comer batatas fritas. Coisinhas assim. Ah, o que eu me regalaria se tivesse um baby blogue.
Mas cada um veio ao mundo para a sua missão concreta, a mim calha-me escrever sobre os bifes de cebolada que estão ao lume, mais a lista de compras da minha mãe, e as cadelas que daqui a pouco querem ir à rua, e se não forem, mijam no tapete, e que não me lembre de fazer reclamações.


quinta-feira, julho 31, 2008

Desde Janeiro, 29 mulheres assassinadas pelos companheiros


O Courrier Internacional deste mês trazia, como tema de capa, a questão da divisão das tarefas domésticas dentro do casal, as quais continuam a carregar sobremaneira as mulheres, mesmo quando ambos os membros do casal trabalham fora de casa. As mulheres continuam a fazer o triplo do trabalho doméstico.
A percentagem de trabalho realizado pelas mulheres que não estão empregadas não diminui significativamente em relação às que estão. Mesmo quando é o homem a ficar em casa, grande parte do trabalho doméstico continua a recair sobre as esposas. Portanto, a conclusão do estudo assumia que a quantidade de trabalho realizado não assenta na quantidade de dinheiro que se traz para governar o núcleo, mas sim na tradicional divisão de tarefas pelos diferentes sexos. É esse o factor determinante.
Por outro lado, nos casais homossexuais, as tarefas encontram-se melhor repartidas. Quando há filhos, cada elemento reclama para si grande parte do trabalho e responsabilidades com aqueles relacionados o que, como qualquer pai ou mãe sabe, não é pêra doce.
O referido estudo, publicado no Courrier Internacional deste mês, deve considerar-se deveras importante no que respeita aos estudos de Género; embora se tenha baseado em dados recolhidos pela Sociologia e Psicologia nos Estados Unidos, aplica-se que nem uvas à nossa salada de fruta ibérica.

Ocorreu-me que os meus primos chegados, actualmente com 18 e 22 anos não foram educados para fazer coisa alguma dentro de casa. Não sabem limpar, coser, cozinhar. Creio que saberão fazer a própria cama. Não são normalmente solicitados a realizar tarefas domésticas. Ora, este tipo de educação não abona grande coisa a favor da divisão de tarefas domésticas conjugais ou outras. Esta cultura, esta educação transmitida aos rapazes é tudo menos saudável. Quero acreditar que um dia eles se esforçarão por realizar as tarefas domésticas a par com as pessoas com quem viverão, por uma questão de lógica e justiça, mas não é certo.

No jornal Público de hoje, o Observatório de Mulheres Assassinadas - até me custa escrever isto - divulga o relatório de ocorrências relativas aos primeiros sete meses do corrente ano: 29 mulheres mortas pelos companheiros num cenário de violência doméstica. Excluídas estão, obviamente, as tentativas de homicídio cujas vítimas escaparam aos ferimentos, que serão o triplo. Ou seja, desde Janeiro, foram mortas pelos companheiros ou namorados, uma média de quatro mulheres por mês. Num país tão pequeno como nosso, convém meditar sobre o assunto. Sobretudo, porque os discursos públicos oficiais, que entraram nos pensamentos e linguagens comuns, relevam uma igualdade de géneros e paridade de comportamentos e oportunidades que a vida lá fora não me mostra. Os discursos decoram a realidade, bem distinta, a qual não depende tanto, como se pensa, do estrato social a que se pertence.
Portanto, bem me podem vir com a conversa sobre o sucesso das mulheres, sobre a igualdade das mulheres, sobre as superiores capacidades das mulheres, que enquanto eu as vir a morrer que nem tordos às mãos dos homens com quem dormem, porque se não és minha não és de mais ninguém, não permitirei que se reclame, na minha cara, qualquer sucesso. Enquanto as vislumbrar, quando chegam do emprego, na cozinha a fazer o jantar, e simultaneamente dando banho aos miúdos, enquanto o marido vê o telejornal, e vai à net, não vejo igualdade alguma que mereça alardeamento.

Mas devo relevar que as mudanças a acorrer não dependem exclusivamente do sexo masculino. Em 20, 30 anos os homens poderão mudar, mas se as mulheres continuarem a permitir deixar-se conduzir como entidades destituídas de pensamento e vontade, totalmente dependentes da segurança e desejos dos seus companheiros, tudo continuará igual.
Estou absolutamente convencida que este tipo de comportamento do sexo masculino só sobrevive porque as mulheres permitem, porque o consideram a ordem natural das coisas. Ora, convém que as investidas do macho não saiam do quarto.
Recentemente, regressei de uma viagem ao estrangeiro; no mesmo voo viajava um grupo de meia de dúzia de jovens portuguesas, alegres, barulhentas, que puseram o avião inteiro a rir-se. Com elas traziam um rapaz da mesma idade. Vinha de guarda.
Andar às ordens de um homem (ou de uma mulher ou de uma máquina) e depender da sua protecção, foi coisa que nunca me passou pela ideia, por carecer de sentido na minha visão do mundo. Somos só donos de nós, e, tirando os filhos até certa idade, não mandamos em ninguém.

Sou uma mulher. Matéria de carne humana, povoada de ocasionais emoções ruins. Também me quis vingar das relações amorosas falhadas com um valente par de estalos, umas joelhadas nos tomates, mas não vinguei; evitei, como quem tem vontade de comer uma carcaça cheia de manteiga, e não come; e os sentimentos, com o tempo, esfriam, graças a Deus. Agora, assassinar um amante, porque se não for meu não será de mais ninguém, sinceramente, é lá coisa que possa ocorrer a alguém culturalmente saudável?



O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...