O Courrier Internacional deste mês trazia, como tema de capa, a questão da divisão das tarefas domésticas dentro do casal, as quais continuam a carregar sobremaneira as mulheres, mesmo quando ambos os membros do casal trabalham fora de casa. As mulheres continuam a fazer o triplo do trabalho doméstico.
A percentagem de trabalho realizado pelas mulheres que não estão empregadas não diminui significativamente em relação às que estão. Mesmo quando é o homem a ficar em casa, grande parte do trabalho doméstico continua a recair sobre as esposas. Portanto, a conclusão do estudo assumia que a quantidade de trabalho realizado não assenta na quantidade de dinheiro que se traz para governar o núcleo, mas sim na tradicional divisão de tarefas pelos diferentes sexos. É esse o factor determinante.
Por outro lado, nos casais homossexuais, as tarefas encontram-se melhor repartidas. Quando há filhos, cada elemento reclama para si grande parte do trabalho e responsabilidades com aqueles relacionados o que, como qualquer pai ou mãe sabe, não é pêra doce.
O referido estudo, publicado no Courrier Internacional deste mês, deve considerar-se deveras importante no que respeita aos estudos de Género; embora se tenha baseado em dados recolhidos pela Sociologia e Psicologia nos Estados Unidos, aplica-se que nem uvas à nossa salada de fruta ibérica.
Ocorreu-me que os meus primos chegados, actualmente com 18 e 22 anos não foram educados para fazer coisa alguma dentro de casa. Não sabem limpar, coser, cozinhar. Creio que saberão fazer a própria cama. Não são normalmente solicitados a realizar tarefas domésticas. Ora, este tipo de educação não abona grande coisa a favor da divisão de tarefas domésticas conjugais ou outras. Esta cultura, esta educação transmitida aos rapazes é tudo menos saudável. Quero acreditar que um dia eles se esforçarão por realizar as tarefas domésticas a par com as pessoas com quem viverão, por uma questão de lógica e justiça, mas não é certo.
No jornal Público de hoje, o Observatório de Mulheres Assassinadas - até me custa escrever isto - divulga o relatório de ocorrências relativas aos primeiros sete meses do corrente ano: 29 mulheres mortas pelos companheiros num cenário de violência doméstica. Excluídas estão, obviamente, as tentativas de homicídio cujas vítimas escaparam aos ferimentos, que serão o triplo. Ou seja, desde Janeiro, foram mortas pelos companheiros ou namorados, uma média de quatro mulheres por mês. Num país tão pequeno como nosso, convém meditar sobre o assunto. Sobretudo, porque os discursos públicos oficiais, que entraram nos pensamentos e linguagens comuns, relevam uma igualdade de géneros e paridade de comportamentos e oportunidades que a vida lá fora não me mostra. Os discursos decoram a realidade, bem distinta, a qual não depende tanto, como se pensa, do estrato social a que se pertence.
Portanto, bem me podem vir com a conversa sobre o sucesso das mulheres, sobre a igualdade das mulheres, sobre as superiores capacidades das mulheres, que enquanto eu as vir a morrer que nem tordos às mãos dos homens com quem dormem, porque se não és minha não és de mais ninguém, não permitirei que se reclame, na minha cara, qualquer sucesso. Enquanto as vislumbrar, quando chegam do emprego, na cozinha a fazer o jantar, e simultaneamente dando banho aos miúdos, enquanto o marido vê o telejornal, e vai à net, não vejo igualdade alguma que mereça alardeamento.
Mas devo relevar que as mudanças a acorrer não dependem exclusivamente do sexo masculino. Em 20, 30 anos os homens poderão mudar, mas se as mulheres continuarem a permitir deixar-se conduzir como entidades destituídas de pensamento e vontade, totalmente dependentes da segurança e desejos dos seus companheiros, tudo continuará igual.
Estou absolutamente convencida que este tipo de comportamento do sexo masculino só sobrevive porque as mulheres permitem, porque o consideram a ordem natural das coisas. Ora, convém que as investidas do macho não saiam do quarto.
Recentemente, regressei de uma viagem ao estrangeiro; no mesmo voo viajava um grupo de meia de dúzia de jovens portuguesas, alegres, barulhentas, que puseram o avião inteiro a rir-se. Com elas traziam um rapaz da mesma idade. Vinha de guarda.
Andar às ordens de um homem (ou de uma mulher ou de uma máquina) e depender da sua protecção, foi coisa que nunca me passou pela ideia, por carecer de sentido na minha visão do mundo. Somos só donos de nós, e, tirando os filhos até certa idade, não mandamos em ninguém.
Sou uma mulher. Matéria de carne humana, povoada de ocasionais emoções ruins. Também me quis vingar das relações amorosas falhadas com um valente par de estalos, umas joelhadas nos tomates, mas não vinguei; evitei, como quem tem vontade de comer uma carcaça cheia de manteiga, e não come; e os sentimentos, com o tempo, esfriam, graças a Deus. Agora, assassinar um amante, porque se não for meu não será de mais ninguém, sinceramente, é lá coisa que possa ocorrer a alguém culturalmente saudável?