É manhã cedo de Verão. Estão na esplanada do meu café, em mesas diferentes. Um, sozinho com o jornal do dia. O outro sozinho com a mulher e o jornal do dia. A mulher permanece totalmente indiferente à conversa que se desenrola entre as duas mesas da esplanada.
São veteranos da Guerra Colonial. Estiveram na mesma zona da Guiné com poucos meses de diferença, já no início dos anos setenta, perto do fim. Conversam sobre as referências comuns.
Lembras-te da Aldeia Formosa? Havia um preto a quem chamávamos o Pelé.
Sim, um dos que andava connosco na milícia.
Não, este Pelé era um gajo de lá, um gajo que vendia coisas fora do acampamento, e sabia tudo.Tu estiveste em Aldeia Formosa numa altura em que eu ainda não tinha chegado. Tínhamos ali um belo acampamento de obuses. Três obuses à maneira. Quando soube que íamos mudar pensei... asneira. Havia entretimento: uma companhia de teatro e um grupo de coral que eu organizei entre os rapazes. 85% dos homens da minha companhia eram do Baixo Alentejo, como eu, conhecíamo-nos todos. Da minha aldeia só se safaram três à guerra.
A certa altura o capitão disse, a partir de agora não quero cá mais mortes; deixámos de nos aventurar e começámos a emboscar a 500 metros do acampamento. Fazíamos o trabalho logo ali, não nos metíamos no mato, e nunca mais morreu ninguém.
No acampamento havia só dois frigoríficos com cerveja fresca, os dois a funcionar a petróleo. Quando a cerveja acabava, bebíamos bagaço em copos de água. Copos cheios. Ri-se.
Um vez tive um problema bravo com um rapazito, um preto que era de lá, não dos nossos. Estava a comer pão com chouriça que a minha mãe me tinha mandado, e sem querer atirei a tripa para o chão, e aquilo foi parar em cima do pé do negro. Que problema! O preto era muçulmano e achava que eu tinha feito aquilo de propósito para o desonrar, a pele do porco, e meteu comandante e tudo.